5 O DESVELAR DO FENÔMENO
5.4 O Cuidar com Amor Supera Desafios
O processo do cuidar é um aprendizado diário. Se entendermos que estamos nele para aprender a caminhar com alegria em meio as tristezas do mundo aprenderemos sobre amor (profissionalismo); superação (força, luta, regeneração, reconstrução, esperança, remanescente e reconstrução); boa vontade (força de vontade, garra, persistência, esforço), e esses foram alguns dos sentimentos que emergiram conforme as falas abaixo:
Eu tive a oportunidade de trabalhar em hospital, mas eu amo PSF é assim, a minha vida, eu sei que erro como ser humano, vou errar sempre, mas dentro do meu limite o que eu puder fazer...A minha vida é isso, não vou mudar nunca, eu gosto de trabalhar com a família (Elizabeth).
Então assim, orientação a gente dá só que eu acho que a gente tem que olhar muito o lado do ser humano, e se colocar no lugar dele porque a partir do momento que você não se coloca nesse lugar, você não um profissional não (Elizabeth).
Mas a gente faz por amor, tanto pelas pessoas, quanto pela profissão (Hiago).
Apesar de toda essa tragédia que nós passamos esse fenômeno da natureza que foi muito distinto e diferente, me considero uma pessoa de sorte em trabalhar num serviço público, porque afinal de contas a gente sempre tem algo a fazer, entendeu? (Vitória).
Os enfermeiros atuantes em um Programa de Saúde da Família afirmam que para trabalhar na Saúde da Família devam possuir características específicas como apresentar boa comunicação, conhecer a população e relacionar-se bem com a mesma, gostar do trabalho e de desenvolver trabalhos em grupos, envolvendo-se, com amor, com esses, apresentando dedicação e disponibilidade (KAWATA, 2007).
Nesse contexto é interessante ressaltar que o amor é o fundamento do fenômeno social e não uma consequência dele. Boff (2012) descreve o amor como origem à sociedade; o mesmo afirma que a sociedade existe porque existe o amor e não ao contrário, como convencionalmente acredita-se. Quando falta o amor (o fundamento) destrói-se o social. Se não obstante, o social persistir, ganha a forma de agregação forçada, de dominação e de violência de uns contra os outros, coagidos a encaixar-se. Por isso sempre que se destrói o encaixe e a congruência entre os seres, destrói-se o amor e, com isso, a sociabilidade. O amor é sempre uma abertura ao outro e uma con-vivência e co-munhão com o outro.
Sem o cuidado essencial, o encaixe do amor não ocorre não se conserva não se expande nem permite a consorciação entre os seres (BOFF, 2012).
Ainda sob essa ótica, Silva (2005) nos lembra que devemos lutar continuar lutando sempre, mas também agradecer, porque fomos presenteados com o melhor instrumento de cuidado que pode existir, nosso corpo, nossas mãos, ouvidos, nosso olhar carinhoso, nossa capacidade de dar atenção.
Está difícil, custoso, a gente está matando um leão por dia (Daniele).
Batalhas que às vezes são vencidas às vezes perdidas, porém, o que nos estimula é justamente a esperança em vencer essa luta (Marcelo).
Então tive que buscar forças, não sei de onde? Tive que ter forças para superar e ajudar todas as famílias que recorreram ao PSF (Marcelo).
A luta é constante e as batalhas são diárias... Mas continuamos aí, acreditando, idealizando e lutando para que realmente essas ações sejam efetivas e funcionais (Marcelo).
Então eu procuro, porque eu sou cristã, evangélica, então eu procuro fazer tudo com excelência, ainda que com todas as limitações, com todas dificuldades eu procuro fazer o meu melhor e possível; eu não vou ser cobrada por pessoas ou gestores, pois há um Deus que vê todas as coisas então eu penso dessa maneira e Ele me vê 24 horas por dia então eu procuro dar o meu melhor (Vitória).
Mas ainda resta o remanescente bom aqui e eu creio que a gente pode levantar e dar a volta por cima (Vitória).
O ser humano tem um poder de regeneração muito grande, isso é uma coisa que a gente percebe, o de dar a volta por cima, o cidadão consegue força, consegue dar a volta por cima se reestruturando (Ana Beatriz).
O fato de não termos soluções para alguns problemas que enfrentamos, como o próprio espaço físico, entre outros diversos problemas, fez com que resolvêssemos lutar ainda mais, através da nossa união (Daniela).
Acredito que todo esse plantio resultará, justamente, na reconstrução não só dessas famílias, mas como de toda a população teresopolitana que não merecia passar por tudo isso...Não acredito que isso possa um dia ser esquecido, mas podemos fazer com que a catástrofe nos ensine a viver em comunhão com o meio ambiente, que é a nossa verdadeira fonte de vida, merecemos isso, o meio ambiente também (Rayssa).
Kawata (2007) menciona o Ministério da Saúde, em que o mesmo preconiza uma lista de atividades a serem realizadas por cada membro da equipe de Saúde da Família, indicando suas atribuições no desenvolvimento do trabalho. E define um conjunto de competências para o médico e o enfermeiro, sendo sujeitos a críticas, uma vez que parte de uma definição prévia sem que se considere o estabelecimento de relações entre o mundo do trabalho e a formação para o desenvolvimento de práticas profissionais. O risco que se corre nessa abordagem é o de impedir que cada trabalhador possa intervir criativamente e responsavelmente na vida da população visando à melhoria das condições de vida.
A presença da religiosidade ficou explícita em algumas falas. Bastos (2008) é enfático em afirmar que a religião é, de longe, o mais importante provedor de saúde mental no Brasil. Acolhimento, alívio, apoio e compreensão empática são elementos comuns a qualquer abordagem terapêutica eficaz. Além disso, também se inclui aí uma interpretação dos fatos, sentimentos e eventos de acordo com um arcabouço mitológico específico.
Nossa carreira nasce da pessoa que somos. Não somente a pessoa que somos nasce da nossa carreira, daí a necessidade de, mais do que um emprego, abraçarmos uma atividade na qual possamos expressar o que somos tendo a certeza de que a circunstância do ambiente nos influencia, significativamente, porém, somos responsáveis por nós mesmos, responsabilidade que refletirá em nossos atos.
Lutar por ações de promoção da saúde nas condições em que se encontram essas famílias tem significado muita boa vontade e garra (Marcelo).
É justamente por causa dessa dificuldade que nós refletimos, diariamente, sobre a necessidade do nosso esforço, da nossa persistência. O que pensamos ser pouco, às vezes é muito pra aquele que necessita (Daniela)
Ainda penso que com uma boa dose de boa vontade, uma equipe com pensamentos idealistas e muita criatividade, agente acaba conseguindo (Rayssa).
É um trabalho de formiguinha, é lento é mínimo, se formos analisar sob uma ótica macro. Mas é o que diante de toda essa dificuldade estamos conseguindo, envolvendo muito esforço, força de vontade e até mesmo recursos financeiros próprios (Rayssa).
Sendo assim observamos que a saúde da família impõe a reflexão acerca do trabalho desenvolvido pelos distintos trabalhadores, de forma que pensar no desempenho do enfermeiro em sua atuação na Saúde da Família, enquanto parte/constituinte da equipe de saúde, significa pensar em resolutividade na rede básica (KAWATA, 2007).