Na psicologia moral, o sentimento de culpa é tido como central, a fim de possibilitar pensar o agir moral, a responsabilidade moral e, por conseguinte, o querer agir moral. Experimentar o sentimento de culpa sinaliza a capacidade do indivíduo de conectar-se com o sentimento de obrigatoriedade, provindo dos adultos que se configuram as primeiras autoridades à criança que seguirá suas ordens ou leis morais, sendo que o sentimento de culpa provém destas primeiras experiências. Porquanto, ao sentir-se obrigada a partir das primeiras ordens morais, e ao fugir dos primeiros deveres, que haverá o sentimento de culpa. La Taille,
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diz, então, que “o sentimento de culpa provém do sentimento de obrigatoriedade e o reforça.” (LA TAILLE, 2006, p. 131).
O problema da moralidade, que inicialmente não interessava a Freud, no sentido de fundar uma moral psicanalítica, leva-o a este tema, sobremaneira, a partir de suas constatações clínicas de que “o neurótico age movido por uma culpa que ele desconhece e que está no fundamento de suas ações” (GOLDEMBERG, 1994, p. 11). A culpa é, pois, uma das categorias que configuram a instância do supereu, e nos meandros da culpa está o sacrifício como um elemento articulador da moral. Culpa e sacrifício configuram o mito do complexo de Édipo e o que ele representa na constituição psíquica.
Julien refere que com a morte do pai primevo a interdição (não somente da mãe, mas de todas as mulheres) não teria sido atenuada e uma lei ainda mais severa, o supereu, se imporia aos filhos, e a culpa primordial que provém dela “está na origem de todas as formações culturais [...]. Será a ética da psicanálise a instauração dessa lei no sujeito?” (JULIEN, 1996, p. 73). Para o autor, Lacan melhor esclarece sobre a internalização do supereu e a culpa que daí decorre. Se ele, (o supereu), seria efeito da castração simbólica e da saída do complexo de Édipo ou se seria, então, a evitação da castração e a manutenção do complexo e sua angústia? Daí decorre um esclarecimento lacaniano, segundo Julien.
Há pai e pai. O agente da castração simbólica é o pai real [...]. É justamente nisso que ele representa uma lei (sem, no entanto, funda-la ele mesmo!), a lei do desejo: assim, a mãe se torna, para o sujeito, ao mesmo tempo objeto de desejo e objeto interditado. Não se trata, nesse caso, de supereu. Dessa operação distingue-se uma outra, totalmente diferente: a privação real. A palavra não é freudiana, mas sua significação, sim. De fato, no momento do declínio do Édipo, a criança apaga o pai real, revestindo-o com o véu de um pai ideal que ele forja para si. Ela fomenta a cada instante a imago de um pai que seja realmente alguém, alguém de alta estatura, de belo porte e sólida posição, em suma, alguém digno de ser amado. Ora, essa figura é colocada como agente de privação (e não de castração) e é dela que se origina o supereu. De que maneira? (1996, p. 74).
Para a pergunta sobre a maneira como o agente de privação origina o supereu, há: a causa do mal, uma questão filosófica, mas que a criança já se coloca a partir da privação do pai. Na imagem que a criança constrói de si, há para ela, enquanto criatura o efeito de um pai Criador, que fica posto como causa de suas faltas ou imperfeições. Ou seja, um pai criador do que ela é, mas também responsável pelo que ela não é. “Não é o representante da lei como agente de castração, mas faz a lei, é o legislador [...]. E é nesse sentido que ele é colocado como agente de privação real, privação que vem da distância entre o que a criança gostaria de
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ser (em termos analíticos: o significante fálico sempre faltoso) e o que ela é” (JULIEN, 1996, p. 75). Depois, um pai digno de ser amado, que Freud situa em Totem e Tabu, através da necessidade de incorporação do pai, na identificação primária do pai idealizado; de um pai que tem a onipotência de poder aquilo que a criança não pode. Assim, a partir destas impossibilidades há o luto do amor do pai idealizado e o nada como causa.
Acerca da necessidade de efetuar o luto do pai ideal e privador, um dos caminhos é, justamente, de que será preciso dizer das recriminações e ressentimentos, o único caminho para a realização do luto, dirá Julien. O pai ideal contém nele o mal, ou seja, a censura que reflete no próprio sujeito, e que fará desta maldade a sua maldade e tornar-se-á mau consigo mesmo. E a isso que Freud chama de supereu – o retorno contra si do ódio pelo pai criador e a necessidade de proteger e ou assegurar o amor pelo pai idealizado, digno de amor (JULIEN, 1996, p. 76).
Tomar em conta, então, a culpa, requer considerar as artimanhas do supereu e também nelas o sacrifício. Do texto de Ambertín (2008) tem-se no prólogo de Néstor Braunstein a ideia da tirania e o poder do supereu atuantes no psiquismo do sujeito; os sacrifícios que incute a partir da culpa.
São as vozes do supereu que formam o imperativo: “Deves pagar, pacificar a esse bebedor insaciável de sangue que levas em teu interior. Se não o fazes o mal recairá sobre ti; te condenará na vida terrena e além”. O sujeito cumpre com o ritual sacrificial... e termina por compreender que é o sacrifício mesmo que materializa o castigo que pretendia impedir e que, quanto maior é a entrega maior é a dívida, maior é a demanda que deve satisfazer. Lógico seria interromper o ciclo das ofertas que o empobrecem, mas, se o fizer e se negar ao sacrifício, é torturado pelos demônios que, na falta de melhor nome, se chamam de culpa (BRAUNSTEIN, 2008, p. 12-13: tradução nossa)25.
Braunstein refere-se às classes de sacrifício do supereu como sendo duas: aqueles provenientes do inconsciente e que são dissimulados, envolvendo sintomas, entre outros, e aqueles sacrifícios ditos oficiais, porque exibidos perante os outros, de modalidades visíveis, mas de mecanismos também inconscientes. Dos sacrifícios que vão sendo vistos pelo sujeito
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Son las voces del superyó las que formulan en imperativo: “Debes pagar, pacificar a esse bebedor insaciable de sangre que llevas em tu interior. Si no lo haces, el mal recaerá em ti; te estarás condenando em la vida terrenal y aun más allá”. El sujeto cumple com el ritual sacrificial... y termina por encontrar que es el sacrifício mismo el que materializa esse castigo que pretendia impedir y que, mientras más entrega, mayor es la deuda, mayor es la demanda que debe satisfacer. Lógico sería entonces que interrumpa el ciclo de las ofrendas que lo empobrecen pero, si lo hace y se niega as sacrifício, es torturado por los demônios que, a falta de mejor nombre, se llaman de la culpa. (AMBERTÍN, 2008, pp.12-13).
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nele próprio, há os que são demandados em análise e esse olhar se dá a partir de uma conotação de auto vitimização do sujeito ao reconhecer seu desejo nunca realizado. E da outra classe, os ditos sacrifícios oficiais: as ofertas públicas e de caráter religioso, sendo seu principal depositário o pai primitivo, não obstante a doutrina antropológica do totemismo hoje obsoleta, conforme muitos autores, entre eles Braunstein.
As manifestações extremas de sacrifícios e a “miséria psicológica de massa” estão presentes nas sociedades, segundo Ambertín. Para esta autora, as muitas mazelas e sacrifícios humanos presentes e recorrentes no cotidiano, dizem da reincidência do sacrifício e da culpa e se traduzem no pertinente testemunho na clínica psicanalítica. As práticas sacrificiais no ocidente se caracterizam cada vez mais de mitos e rituais e por essa razão tornam-se dessacralizadas e envelhecidas, não obstante que tais sacrifícios intentam “consagrar” o pai ideal, este do qual, justamente, carece o sujeito (AMBERTÍN, 2008, pp. 17-18).
Ambertín menciona que as práticas de sacrifícios apresentam aspectos em comum, relacionados com o destino impiedoso e que castiga, martiriza e ou escraviza. Tais aspectos acabam por impedir aos sujeitos ou aos povos interrogar-se devidamente sobre as causas e no que estão implicadas as práticas de sacrifícios. Já em O mal-estar na civilização e O futuro de uma ilusão, Freud referira-se que o temor do implacável destino, do desconhecido e da finitude humana impedem ao sujeito destituir-se das ilusões convenientes e provenientes dos sacrifícios e culpas, impedindo a maioria dos homens de buscar sua verdade ou o que lhe seja essencial. E Freud, igualmente, sinalizara que estes aspectos tornam-se obstáculos na clínica e na vida, não obstante que a lógica de sacrifício no ocidente ou mesmo na contemporaneidade, difere da lógica de sacrifício das culturas ancestrais, como assinala Ambertín, e que instituíam as comunidades. Para ela, os sacrifícios ditos atuais contêm somente resíduos e fragmentos dos mitos e ritos do passado; os povos e sujeitos de hoje não os possuem mais naquele formato.
É por isso que atualmente o sacrifício, dessacralizado e envelhecido, nem sempre é instituinte de comunidade; pelo contrário, suas expressões, esvaziadas de sacralidade, ameaçam a sustentação do laço social e as formações do inconsciente e aumentam sempre a quantidade de violência e de gozo (AMBERTÍN, 2008, p. 18: tradução nossa)26.
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“Es por eso que actualmente el sacrifício, desacralizado y envilecido, no siempre es instituyente de comunidade; por el contrario, sus expresiones, vaciadas de sacralidade, amenazan el sostenimiento del lazo social y las formaciones del inconsciente y arrojan siempre um plus de violência y de goce.” (AMBERTÍN, 2008 p. 18).
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Assim, a culpa e sacrifícios dos indivíduos, entendidos, à luz dos paradoxos intrínsecos na Lei do Nome do Pai, terminologia da psicanálise lacaniana, são o empenho do sujeito em restituir esta lei, dando-lhe uma consistência de que carece, ou buscando restaurar a inconsistência do Outro, causa de mal-estar e sofrimento. E para Ambertín, Freud dedica-se a demonstrar que em sendo a culpa não própria do sujeito há, então, a pergunta de onde ela provém? E diz, ela é proveniente das faltas do pai e, em não sendo culpado o sujeito deverá olhar para os pecados do pai. Ou seja, a culpa inconsciente que implica uma falta ignorada pelo sujeito lhe é ao mesmo tempo própria e alheia; familiar e desconhecida (AMBERTÍN, 2008, pp. 18-19).
A ética proposta na psicanálise diz da responsabilidade que cabe ao sujeito, e implica aquilo que Ambertín assinala das palavras de Lacan, de que o sujeito tome partido desta culpa. Ou seja, os sujeitos (filhos) padecem dos “estragos” causados por seus pais ou antepassados e não cessam de absorver e padecer das amarguras resultantes, cabendo ao sujeito saber como processar tais agruras.