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A CULTURA DE PROJETOS NA EEEFM PROF.ª FILOMENA QUITIBA

No documento ELIZABETH DETONE FAUSTINI BRASIL (páginas 109-117)

Foi realizado um grupo focal com oito professores, um coordenador e uma pedagoga da EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba, como também uma entrevista semiestruturada com a diretora e com uma das primeiras professoras da escola, D. Carcilia, que, segundo as falas dos professores, foi quem deu início às FCCT na

escola. Nas falas dos entrevistados, observou-se que a cultura de projetos na escola veio passando por mudanças na forma como os projetos foram sendo estruturados e organizados no decurso dos anos. Alguns projetos são tradicionais, como a Feira de Ciências, que ocorre já há 27 anos na escola, tendo iniciado na década de 80 nas aulas de Biologia da ex-professora D. Carcilia. Esses projetos, no início, nasceram da iniciativa individual de um professor, no interior de uma determinada disciplina, passando posteriormente para as áreas de conhecimento. Alguns projetos ocorrem durante todo o ano letivo, e outros, durante os trimestres: o primeiro trimestre ficou destinado à área de Linguagens e Códigos (Projeto Leitura do Mundo), o segundo, à área de Ciências Humanas (Projeto Profissões) e o terceiro, à área de Ciências da Natureza e Matemática (Projeto Feira de Ciências). Dessa forma, no final de cada trimestre, ocorrem as culminâncias dos projetos das áreas, abrangendo todos os espaços da escola, com a participação de toda a comunidade escolar. Os temas dos projetos são discutidos durante a Jornada de Planejamento Pedagógico (JPP), que faz parte do calendário escolar e ocorre no início e no meio do ano letivo, em todas as escolas da rede pública estadual (figura 17).

Figura 17 – Origem e organização dos projetos na EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba

Fonte: Elab. pela autora (2013).

Dessa forma, os projetos de trabalho se apresentam como uma concepção de educação e não como um método ou uma pedagogia,

[...] que dá importância não só à aquisição de estratégias cognitivas de ordem superior, mas também ao papel do estudante como responsável por sua própria aprendizagem. Significa enfrentar o planejamento e a solução de problemas reais e oferece a possibilidade de investigar um tema partindo de um enfoque relacional, que vincula ideias-chave e metodologias de diferentes disciplinas. Em consequência, costuma ser um planejamento motivador para o aluno, pois este se sente envolvido no processo de aprendizagem. Geralmente, permite ao estudante escolher o tema ou envolver-se em sua escolha. Isso faz com que ele adiante a busca, na qual há de escolher, selecionar, ordenar, analisar e interpretar informação. Essa tarefa pode ser realizada de maneira individual ou grupal, e seus resultados deverão ser públicos, para favorecer um conhecimento compartilhado (HERNÁNDEZ, 1998, p. 88-89).

Nos fragmentos das falas dos professores e da diretora (quadro 18 e quadro 19, respectivamente), constata-se que a EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba, durante muitos anos, desenvolveu vários projetos, alguns já tradicionais na escola, como o Projeto Feira de Ciências e o Projeto Professora Jaira, que ainda continuam sendo

Projetos da Área de

Humanas

(1º trimestre)

Projetos da Área de

Linguagem

(2º trimestre)

Projetos da Área de

Ciências da

Natureza e

Matemática

(3º trimestre )

desenvolvidos. Esses projetos foram e continuam sendo, em sua maioria, instituídos pela escola e atualmente são relacionados às áreas de conhecimento. Outros projetos são estaduais e federais, vinculados ao MEC, como o Projeto ComVida, de Educação Ambiental. O fato de os temas dos projetos serem discutidos durante a Jornada de Planejamento Pedagógico (JPP) com a comunidade escolar evidencia um processo participativo, democrático e coletivo de construção, que envolve toda a escola.

Vale ressaltar que o Momento Cultural é um momento esperado e de grande importância para a escola, uma vez que oportuniza a participação ativa dos alunos, despertando talentos e vocações, fato que é registrado nas falas do “Professor A” (quadro 18) e da Diretora (quadro 19). Por outro lado, o tema, citado pelo “Professor E” (quadro 18), Ciência, Saúde e Esporte, lançado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para a 10ª Semana Nacional e Semana Estadual de Ciência e Tecnologia, que ocorrerá na segunda quinzena de outubro de 2013, é um subtema do tema CTSA “Saúde”, que, em 2013, aponta a perspectiva de a escola desenvolver projetos que problematizem a realidade local, com temas voltados para a qualidade de vida.

Quadro 18 – Trechos das falas dos integrantes da entrevista de grupo focal envolvendo professores e pedagogos sobre a realização de projetos na escola EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba

Professor A: [...] O “Projeto Professora Jaira” é um Recital. Acontece há anos na escola. A professora Jaira começou com o Recital, os pais vem assistir a apresentação dos filhos. A professora Jaira que começou há anos e continua até hoje. Começou com os modernistas. Cada grupo fica responsável por decidir como vai ser apresentação. Ocorrem recitais, dramatizações e os alunos cantam, dançam. Valoriza o talento dos alunos, que cantam, tocam, recitam, declamam. O aluno passou a ser apresentador do espetáculo. Os alunos passam a ser apresentadores do trabalho. O aluno desenvolve o seu próprio talento. Quando você vê como eles ficam emocionados e a autoestima cresce.A cultura da EEEFM Filomena é trabalhar com projetos o ano inteiro.

Professor B: [...] O “Projeto Estatística” – murais com dados avaliando o desempenho da gestão e do corpo docente. Vai avaliando o desempenho dos profissionais. Tem a parte da avaliação dos professores, da escola. Qual o supermercado que apresenta o melhor atendimento, o melhor preço. Qual a situação da escola, desempenho dos professores, da diretora, dos pedagogos. Hoje é muito mais interessante, o envolvimento do aluno. Os alunos adoram a pesquisa de campo. A autoestima cresce.

Professor C: [...] Código e linguagens tem o “Projeto Leitura de Mundo” que acontece o ano inteiro. Um projeto específico que está dentro do projeto da escola, do planejamento da Jornada de Planejamento Pedagógico (JPP), na qual discute-se e define-se os temas que serão trabalhados durante o ano letivo.

Professor D: [...] No final acontece o Projeto Feira de Ciências, com culminância da Área de Ciências da Natureza. Engloba todos os projetos, um dia inteiro de apresentação. A gente percebe o resultado da avaliação de Física, Química e Biologia é muito ruim no estado, mas a Filomena se sobressai.

Professor E: [...] a gente tá buscando a ideia da sustentabilidade, esse ano é Ciência, Saúde e Esporte e a qualidade de vida com projetos relacionados ao meio ambiente. Eu abri para a qualidade Mais ligado às questões locais de Piúma. Como seria a escola sustentável? Eu converso com os alunos no sentido de problematizar a realidade local. Fizemos o Projeto Piúma Sustentável, problematizando questões da cidade de Piúma, voltadas para a sustentabilidade e qualidade de vida. Esse é o primeiro ano que eu estou trabalhando de fato. Eu junto com a SEDU estou inserindo no município todo Projeto ComVida de Educação Ambiental.

Pedagoga: [...] Ciências humanas tem um projeto que pega todos os países, uma mega produção, usa toda a escola, o laboratório de informática, a biblioteca, o salão, envolve toda a escola, recital, teatro etc. A culminância é em novembro.

Quadro 19 – Trechos das falas da entrevista com a Diretora da EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba sobre a realização de projetos na escola

Diretora: [...] Nós temos um momento cultural, que a escola para, e os alunos participam como protagonistas. Eu já participei como aluna e a Feira de Ciências começou há 27 anos atrás. Hoje eu tenho uma filha aqui na escola e o envolvimento é o mesmo. Eles brigam para ter a Feira de Ciências. Num determinado momento, quando todos participaram, fizemos um desfile para toda a comunidade com banda local. De uns anos para cá fizemos invenções. “O Projeto Garrafa PET” para arrecadar dinheiro para as tendas. Eles chamavam para assistir as apresentações. O projeto “A Química da Bruxaria” foram diferentes grupos com envolvimento de todos os alunos e as famílias. “Projeto Roda de Leitura” - toda semana os professores trabalham textos de literatura na 2ª aula. Eu coloquei o trecho de Macabéa. É o mesmo texto do 6º ano ao Ensino médio. Quando o texto está difícil tem que pegar a ideia central. Tem professor muito criativo, que cria em cima dos textos. Os alunos adoram. Tem sala que fica esperando pela Roda de Leitura. A química trabalhou sobre fotografia.

Fonte: Elab. pela autora (2013).

Dessa forma, fica evidente a influência dos temas das Semanas Estaduais no direcionamento dos projetos desenvolvidos na escola, fato evidenciado também pelo Projeto Piúma Sustentável, desenvolvido pela escola em 2012, que, apoiado no tema da I FECEES, Economia Verde, Sustentabilidade e Erradicação da Pobreza, deu origem aos subtemas dos projetos selecionados da EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba e apresentados na I FECEES (quadro 20).

Quadro 20 – Projetos do Ensino Fundamental (EF) e do Ensino Médio (EM) da EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba expostos na I FECEES da 9.ª Semana Estadual de Ciência e Tecnologia

PROJETOS TEMA CTSA

1 A Riqueza das Nações: usufruindo da Energia de forma Sustentável

Recursos Energéticos 2 A utilização da castanha da praia na alimentação: uma proposta de

alimento nutritivo e de baixo custo.

Alimentação e Agricultura

3 Asfalto Ecológico Ambiente

4 Reaproveitamento das águas pluviais reciclando garrafa PET Terra, Água e Recursos Minerais

5 Reciclagem de material alternativo Terra, Água e

Recursos Minerais 6 Minicisterna para reutilização e aproveitamento da água da chuva Terra, Água e

Recursos Minerais

Fonte: Elab. pela autora (2013).

Vale ressaltar que a importância do Projeto Professora Jaira permanece ainda viva na lembrança de ex-alunos e professores, fato esse materializado nas falas dos professores e da diretora (quadro 18 e quadro 19, respectivamente) e na crônica da atual diretora da escola sobre a despedida da professora Jaira (quadro 21), por ocasião de sua aposentadoria, após anos de dedicação ao Recital, famoso Momento Cultural da Cidade de Piúma.

Quadro 21 – Crônica dedicada à professora Jaira Marinho, ex-professora da EEEFM Prof.ª Filomena Quitiba que deu início ao Recital, importante momento cultural da cidade de Piúma–ES

A DESPEDIDA

À professora Jaira Marinho Abrir os olhos no despertar daquela manhã, era sentir algo diferente. Aquele calafrio pelo corpo não era à toa, eram quase trinta e três anos dedicados à escola: diários, conselhos de classe, correção de cadernos, Gramática, Literatura, Redação. Mas, tanta dedicação, um dia haveria um ponto final com eterna reticências para o ensinar no caminho da vida.

Durante anos organizara o Recital, famoso Momento Cultural da cidade. Era o momento esperado por todos. Esse, em especial, era o momento esperado pela professora: seria o último de tantos já feitos pela estrada trilhada na Educação. Seria o tema “Um passeio pelo Brasil?” Ou seria um passeio dentro de si mesma? Entre uma apresentação e outra, surgiram as senhoras com “lata d’água na cabeça” e, no meio da plateia, um aluno levantara a voz para encantar com “quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo.”

Foi como um filme na memória, no entrelaçar das emoções, o choro grudado na garganta, afinal de contas, era preciso pressa, correria para chamar os alunos da próxima apresentação.

Mas, algo de estranho ocorrera. Ao invés do Sarau da Moreninha, estavam, no palco da vida, os funcionários, amigos e alunos de outrora.

Foi uma grande homenagem. Todos estavam com blusa verde-canarinho, periquitos a cantarolar no momento auge da despedida. Porém, foi no silêncio da casa vazia, horas depois, que a explosão de sentimentos explodiria em derradeiras lágrimas de emoção. Quando se é professor, as marcas vão em cada aluno que se ensina, mas eles também registram uma parte da vida do educador.

Fonte: Página “Nossa Escola, Nossas Vidas” do blog literário. Disponível em: http://literatuandopiuma.blogspot.com.br. Acesso em: 10 maio 2013.

Nesse contexto da despedida da professora Jaira, descrita na crônica, identificou-se uma motivação à participação comunitária que, nas palavras de Demo (1988), ocorre à medida que há uma identificação cultural:

A comunidade somente reconhecerá como seu aquele projeto que, mesmo vindo de fora, é capaz de revestir-se de traços culturais do grupo. É preciso encontrar o eco reconhecido de algo que é seu, de algo que se encaixa na história vivida, de algo que aparece nas determinações do dia-a-dia. Não levar em conta a cultura comunitária é produzir iniciativas imperialistas, que não supõem jamais que possam existir potencialidade e criatividade (DEMO, 1988, p. 57-58).

Tal fato caracteriza a escola cidadã na medida em que as práticas pedagógicas da escola valorizem as iniciativas pessoais e os projetos das escolas, favorecendo o protagonismo e substituindo uma aprendizagem mecânica por uma aprendizagem

criativa. Tal protagonismo, caracterizado nas falas dos professores, pedagoga e diretora (quadro 18 e quadro 19, respectivamente), se materializa nos projetos, consequência de uma escola aberta ao mundo exterior, que propõe a espontaneidade e o inconformismo, na qual o estudante sente prazer em ir, estudar e construir a cultura elaborada (GADOTTI, 2010).

No documento ELIZABETH DETONE FAUSTINI BRASIL (páginas 109-117)