4. O VIDEOGAME E O JOGO
5.2 UMA ANÁLISE DE UM JOGO DE OPEN-WORLD / SANDBOX – GRAND THEFT
5.2.3 CULTURA, IDENTIDADE E HIP HOP
Em Musicology (2005), David Beard e Kenneth Gloag estudam uma série de aspectos importantes para a produção de uma análise musicológica menos formalista e mais social e cultural. O livro é organizado numa série de tópicos conceituais sobre aspectos variados que podem ser avaliados no estudo da música. Os autores afirmam que a “cultura é pensada como contexto e um conjunto de práticas que definem o contexto. A sugestão de contexto indica
que a cultura existe como uma prática coletiva” (BEARD e GLOAG, 2005, p. 35) 66
. Isso faz parte também dos estudos da história cultural feitos pelo historiador Roger Chartier, já abordados no Capítulo 3; trata-se do fato de que as práticas produzem representações sobre o que os grupos sociais esperam, a que se assemelham e se vinculam. Tais representações advêm de práticas que são apropriadas pela sociedade para serem novamente representadas, é como uma roda viva.
Segundo Beard e Gloag (2005), a cultura e a produção cultural estão vinculadas à formação e à manutenção de identidades. As pessoas se aglutinam em grupos em torno de certos gostos musicais, mas essas relações não são nem simples e nem apenas feitas por juízo de gosto.
Claramente, qualquer indivíduo afirma sua identidade através de suas outras associações culturais, e agrupamentos economicamente e/ou socialmente definidos podem também formar identidades através de interesses e causas compartilhadas, mas como tudo isso pode ser resumido dentro de uma totalidade cultural que é o ‘todo da sociedade’ permanece problemático (BEARD, GLOAG, 2005, p. 35) 67. Da década de 1960 em diante, a consciência sobre a amplitude do estabelecimento de estruturas sociais aumentou, levando a construção, e tentativas de desmantelar, negociar e defender identidades associadas com classe, cultura, nacionalidade [...], etnia, gênero, [...], religião, idade e deficiência (BEARD, GLOAG, 2005, p. 66) 68.
66 Culture is often thought of as both a context and a set of practices that define that context. The suggestion of context indicates that culture exists as a collective practice.
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Clearly, any individual asserts identity through his other cultural associations, and, social and/or economically defined groupings may also form identities through shared interests and issues, but how all this can be subsumed within a cultural totality that is the ‘whole of society’ remains problematic.
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From the 1960s onwards, awareness of the range of established identity structures increased, leading to the construction of, and attempts to dismantle, negotiate and defend, identities associated with class, culture, nationality […], ethnicity, gender, […] religion, age and disability.
Um dos estudos sobre identidades que se agrega a essa revisão bibliográfica é o que foi produzido por Stuart Hall. O pesquisador diz que a identidade é um discurso construído nas identificações que estabelecemos entre iguais e na forma como nos imaginamos. As pessoas e o universo identitário que é transmitido através de objetos culturais são imaginados porque “as pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da idéia da nação tal como representada em sua cultura nacional” (HALL, 2005, p. 49). Na leitura de Stuart Hall (2005, p. 50), a cultura nacional é uma “comunidade imaginada” que existe num complexo das memórias do passado, do desejo por viver em conjunto e da perpetuação da herança cultural. Da mesma maneira, a identidade do sujeito pós-moderno é cambiante e multifacetada, porque se situa dentro de vários núcleos identitários. Essa identidade, investigada no jogo GTA San Andreas, é múltipla; sendo o sujeito, ao mesmo tempo, parte de um grupo étnico (negro), de gênero (masculino), de classe (marginal) e nacional (norte- americano). Dessa maneira,
Identidade, assim sendo, é expressa através de uma série de atitudes que se relacionam com, ou que são compartilhadas por um grupo; a identidade é inerente ao relacionamento entre experiências pessoais e significado público. ‘Textos’ culturais, como a música, fazem com que essas identidades sejam expressas, formadas e sustentadas, por exemplo, através do que psicólogos chamam de ‘priming, onde uma rede de associações que são conectadas por humores compartilhados é ativada pela música’ (Crozier, 1998, p. 79), um fato que levará às narrativas de subjetividade, relatos sobre como essas experiências ou leituras vêm de indivíduos em certos lugares em um tempo particular (ver também psicologia). Está implícito na questão ‘como a música é usada para regular e constituir o eu?’ o reconhecimento de que música pode representar um outro para o self e, assim, estabelecer a relação reflexiva descrita anteriormente por filósofos e psicólogos (Kramer, 2001). As teorias da identidade também examinam o modo com o qual atividades subjetivas de escutar e performar música são influenciadas por condições objetivamente sociais, econômicas e políticas (BEARD, GLOAG, 2005, p. 66) 69.
O gênero musical hip hop tem participação importante na caracterização da identidade desse personagem, CJ, no jogo. Esse estilo, assim como outros, tem vínculos com um modo de viver, um gênero, uma nacionalidade e uma classe social. De acordo com Beard e Gloag, questões étnicas fazem parte de mudanças globais.
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Identity, therefore, is expressed through a set of attitudes that relate to, or are shared with, a group; identity inheres in the relationship between personal experience and public meaning. Cultural ‘texts’, such as music, enable identities to be expressed, formed and sustained, for example through what psychologists call priming, where ‘a network of associations that are linked by shared mood connections is activated by music’ (Crozier 1998, 79), a fact that will lead to narratives of subjectivity, accounts of how these experiences, or readings, came about for individuals in a certain place at a particular time (see also psychology). Implicit in the question ‘how is music used to regulate and constitute the self?’ is a recognition that music may represent an Other to the self and thereby set up the reflexive relationship described in earlier accounts by philosophers and psychologists (see Kramer 2001). Identity theories also examine the way in which the subjective activities of listening and performing are influenced by objective social, economic and political conditions.
O alcance global do hip hop, por exemplo, pode colocar um discurso racial – ideias de opressão e luta originalmente codificadas por americanos descendentes de africanos em Nova York – nas mãos de minorias étnicas que vivem em partes da Europa, como França e Países Baixos. Desse modo, estilos musicais são compartilhados e adaptados por diferentes grupos étnicos de forma a transmitir ideias similares (BEARD, GLOAG, 2005, p. 47) 70.
De acordo com os autores, funk e hip hop estão associados ao nacionalismo negro norte- americano, militados por James Brown no álbum Revolution of the Mind (1971) e Public Enemy em It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back (1988) (ibidem, p. 91). Se levarmos em conta o discurso de Hall (2005) em relação às identidades pós-modernas, sabemo-las como constituídas em discurso e em relação ao outro, além de estarem em constante construção. Em Da Diáspora, identidades e mediações culturais, Stuart Hall (2003) relata o processo cultural dialógico através do qual o Caribe manifestou sua multiplicidade de tradições colonizadas. Para o autor, o que ocorre com a cultura caribenha é um processo de crioulização dos costumes, da fala e da cultura do colonizado. Esse processo também parece acontecer com o hip hop globalizado:
Hip-hop também tem recebido muita atenção em termos de análise de seu
relacionamento com tempo e espaço. Como estudos de Murray Forman (Forman 2002) e Adam Krims (Krims 2000) ilustram, o eixo do hip-hop são os temas narrativos, expressados pelas texturas e letras das músicas, concernindo ideias reais ou imaginadas sobre o espaço contestado. Como um resultado da globalização, esses temas ‘podem ser ouvidos em outras línguas ao redor do mundo, expressadas com uma ênfase compartilhada de locação espacial e formação de identidade, mas informadas por contextos e ambientes radicalmente variados’ (FORMAN, 2002, p. 18; BEARD, GLOAG, 2005, p. 100) 71.
A cultura não é o resultado de um processo de busca pelo passado, não é um retorno e nem mesmo uma “arqueologia” (HALL, 2003, p. 44), mas é um processo de criação contínuo. Essa produção cultural está vinculada à reprodução, por parte dos criadores, de matérias que são escolhidas de acordo com suas subjetividades e em conformidade com sua cultura contemporânea. Esse processo pode ser compreendido a partir da ideia de que “Na ‘experiência’, todas as práticas se entrecruzam; dentro da ‘cultura’, todas as práticas
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The global spread of hip-hop, for example, can be seen to bring racial discourse—ideas of oppression and struggle originally codified by African-Americans in New York—into the hands of ethnic minorities living in parts of Europe, such as France and the Netherlands. In this way musical styles are shared and adapted by different ethnic groups to convey similar ideas.
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Hip-hop has also received much attention in terms of analyses of its relationship with space and place. As studies such as those by Murray Forman (Forman 2002) and Adam Krims (Krims 2000) illustrate, central to hip- hop are narrative themes, expressed in the music’s textures and lyrics, concerning real and imagined ideas about contested space. As a result of globalization, these themes ‘can be heard in other languages around the world, expressed with a shared emphasis on spatial location and identity formation but informed by radically varied contexts and environments’ (Forman 2002, 18).
interagem — ainda que de forma desigual e mutuamente determinante” (HALL, 2003, p. 143, grifos do autor).