Compassos a adoptar
V) CULTURAS A DESENYOLYER E A INTRODUZIR
Vémo-nos embaraçados e bastante para, com relativa segurança, recomendar as culturas que convirá desenvolver ou introduzir na ilha de S. Tomé, sem procedermos a experiências prévias, indispensáveis ao fim em vista. Contudo, examinando, cautelosamente, os resultados de alguns ensaios, já feitos, e utilizando expositores, de reconhecido mérito, atrevemo-nos a prescrever aquilo que o bom senso dos outros e a nossa observação directa ditar. Ocupar-nos hemos sucessivamente do algadão, café, cana sacarina, chá, coqueiro,- mancarra, milho, pal meira Andim, plantas de barracha e têxteis, purgueira, quinas, rícino e tabaco.
1) Algodão
Posto que a cultura algodoeira, outrora, deixasse muito a desejar, pela inoportunidade das chuvas, durante a maturescência, danificando
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sensivelmente o produto, é possível que, hoje, com as condições clima téricas profundamente modificadas, possa dar resultado satisfatório, o que todavia nâo acreditamos. Apesar do presente ano agrícola se dever considerar mui chuvoso, em relação ao anterior, contudo, em Água Izó, caiu pouca água, pelos menos emquanto estivemos na roça. Desta arte, talvez, o algodão consiga sazonar, sem sofrer quaisquer alterações, provenientes do excesso de humidade, no estado líquido; poder-se há ensaiar, novamente, a referida cultura, mas só a título de experiência.
2) Café
Incontestàvelmente, tanto o café da Arábia, como o da Libéria, ve getam, aqui, muitíssimo bem e, emquanto o respectivo preço permanecer elevado, nos mercados europeus, julgamos útil o alargamento do sobre dito cultivo. Caso, porém, aquele baixe consideràvelmente, então, talvez se torne incompatível com o valor actual da mão de obra. E bom, todavia, recordar que a exportação máxima, dêste género, se deu em 1910, atingindo a cifra de 36.174.932 quilogramas, a qual desceu para a média anual de 600.000, o que representa um decréscimo apreciável. A dependência de Cantagalo, pela altitude em que está, oferece as con dições mais favoráveis à cultura do cafeeiro.
3) Cana sacarina
Entre as plantas qUe primeiro ocorrem, para fazer face aos prejuízos, derivados da morte dos cacaueiros, figura, à cabeça do rol, a cana saca rina, tanto mais que constituiu, em tempos idos, o cultivo de maior importância, desde 1493 a 1552, e de resto vegeta excelentemente no litoral. Na costa, voltada ao ocidente, começa, semelhante espécie botânica, a notar-se no Rio do Ouro e segue até à Ponta Furada, apro- ximadamente. Áparte, as regiões mencionadas, deparamos com o Sac- charum officinarum L. nas grandes altitudes, tais como, em Nova Ceylâo,
Trás-os-Montes, etc.
Do exposto, inferimos que a planta encontra, na ilha, os factores mesológicos mais adequados e que, portanto, a área da sua cultura deveria expandir-se. Porém, na propriedade de Agua Izê escasseia a água, imprescindível às regas; será, pois, necessário derivar a do rio Abade, ao sabor das nossas exigências, procedendo à respectiva capta- gem, se bem que a reputamos dispendiosa. Não se pode fabricar água- -ardente, em virtude das convenções internacionais, é facto, mas, ainda assim, convirá tentar a extracção do assucar.
4) Oliá
Existe, mais ou menos, disperso por diversas roças, vive perfeita mente e é de boa qualidade; no entretanto, sofre demasiado com o rubrocincto, conforme observámos em multíplices exemplares da depen dência Castelo. Possivelmente, quando a ilha voltar às antigas condi ções de clima, sobretudo no que respeita à humidade, por efeito da rearborização, será útil dilatar a sobredita cultura; porém, agora, seme lhante procedimento, representaria um acto de loucura. Tudo se per deria, porque as folhas, a parte aproveitável, ficam com aspecto detes tável, após o acometimento do insecto.
5) Coqueiro
A espécie Coccos nucifera L. constitui, por si só, verdadeira riqueza, valorizando tractos enormes de terreno; aquela vegeta, excelentemente, nas partes baixas da ilha, sobretudo junto ao litoral. Recomendamos, muito particularmente, o alargamento desta cultura, numa ampla faixa, junto ao mar, adoptando os compassos adequados e os processos ra cionais da cultura. Convencemo-nos, antecipadamente, dos lucros ex- cepcionais que os plantadores auferirão, cultivando metodicamente o coqueiro, conquanto saibamos estar exposto aos ataques de um grande Coleoptero, do grupo dos Lamelicorneos — o Oryctes laiecavatus Fairm. — conforme tivemos ensejo de examinar; o qual corta o gomo terminal, pro vocando-lhe a gangrena e produzindo, inclusivamente, a morte da planta.
6) Mancarra
Vimos, aqui e ali, dispersos alguns exemplares, explorados por mera curiosidade; todavia, a cultura do amendoim, na roça Amparo II oferece já caracter especulativo, dada a área, até certo ponto importante, de
difusão.
Como a planta vegeta, belamente, em S. Tomé e o produto aufere bons rendimentos nos mercados, propomos a sua exploração.
7) Mimo
Encontra, na verdade, tôdas as circunstâncias favoráveis, ao com pleto desenvolvimento; contudo, dado o preço e a escassez da mão de obra, não nos atrevemos a aconselhar, semelhante cultura, tendo como objectivo, a questão económica.
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8) Palmeira Andim
0 que escrevemos, a seu respeito, no capítulo III, é suficiente para comprovar o benefício de a difundir, visto o óleo de palma constituir verdadeira riqueza. De mais, acomoda-se a quási todos os terrenos de Água Izé} àqueles de altitude inferior a 550 metros.
9) Plantas produtoras da borracha
Em S. Tomé, encontramos as seguintes espécies, geradoras de cau chu: Castilloa elastica Cerv., Ficus elastica L., Funtumia elastica Stapf., Hevea brasiliensis Muel. Arg. (seringueira do Brasil), Landolphia Dawei Stapf. e Manihot Glaziovii Muel. Arg. (maniçoba); mas, realmente, nada aproveitável se obteve, até agora, para a indústria. Lemos na bela obra — Le Cacaoyer dans VOuest Africain — de Chevalier (1) que, em 1898, se gundo a estatística de Almada Negreiros, se exportaram da illia 5.541 quilos de borracha; porém, exactamente como aquele autor estrangeiro, não acreditamos nesses números, reputamo-los exageradíssimos, sendo certo que nenhuma cultura metódica, os agricultores, fazem, destas plan tas, nem tão pouco existem em quantidade bastante que permitam supôr verdadeiros, semelhantes dados. Áparte o exposto, o producto deixa muito a desejar, tal como o previra o coronel J. A. Wyllie, ao afirmar que as condições mesológicas se não prestavam para a exploração, em vista.
De todos os indivíduos botânicos, citados, aquele que origina melhor rendimento é, sem contestação, a Castilloa, conforme verificámos em exemplares, cultivados na dependência Alto Douro; as feridas, abertas, exsudavam abundante latex, consistente. Contudo a substância elás tica, emitida, está longe e bem longe de figurar na primeira classe comercial.
Os Ficus, largamente espalhados por Água lzé, Uba-Budo, Santa Ce cília, Caridade e Colónia Açoreana, utilidade alguma apresentam sob o aspecto, de produtores de borracha; o líquido seivoso aflui, em pequena porção, aos rebordos dos golpes, e manifesta-se demasiadamente aquí fero.
(1) « Les statistiques publiées par Almada do Negreiros en 1901 font mention de 5.541 kilogs. de caoutchouc évalués 3.175 franca, exportés de San-Thomé en 1898. II doit y avoir là une confusion, car aucune plantation de l’ile n’est encore cn état de produire cette quantité et d’autre part les espèces indigènes Ficus Lamba A. Chev. et Funtumia africana Stapf. donnant, du reste, des produits de très peu de valeur, n’ont pas encore fait 1’object d’une exploitation suivie » (l. c., p. 32).
A propósito da Funtumia, existente na roça Amparo I, apenas dire mos, que para nada serve, debaixo do ponto de vista considerado.
Com respeito à seringueira do Brazil, vegeta em circunstâncias anor mais, nas propriedades Boa Entrada e Colónia Acoreana, visto que os troncos jámais adquirem a grossura própria. Todavia o cauchu, extra vasado, reputam-no de boa qualidade, mas, origina pouquíssimo, não va lendo a pena, por êste facto, explorar, aqui, a Hevea brasiliensis Muel. Arg. Quanto à Landolphia, cultivada em Monte Café, tende a desaparecer, como já se extinguiu no Quimpo, em virtude de não encontrar meio adequado à sua vegetação.
Finalmente, àcerca da maniçoba, porventura, a mais difundida, de todas as espécies geradoras de substância elástica, na ilha, o seu cul tivo vai restringindo-se, a par e passo, porque quási não exsuda latex; além disso, perde a fôlha, durante a gravana, e as pernadas esgarçam fácil e naturalmente, ocasionando, com o peso da queda, a fractura dos ramos grossos das plantações de cacaueiros. Pelos motivos apontados, a Manihot Glaziovii Muel. Arg. tem sido posta, completamente, de lado.
Do que fica dito, deriva a inutilidade da exploração racional e eco nómica das plantas produtoras de borracha, em S. Tomé.
10) Plantas texteis
A Agave rigida Mill., var. Sizalana e a Sanseviera cultivam-se, já, com algum proveito, sobretudo a planta, referida logo no princípio, conforme afiança Júlio Henriques (1). Das piteiras vimos magníficos exemplares em Santo António. Conviria, pois, alargar esta cultura, seguindo a orientação do erudito professor de botânica, aludido: « de muitos pou cos se consegue muito » (2).
11) í^urguotra
Na ilha, a exploração económica está, ainda, por fazer, contudo, já, um ou outro pó, se tem cultivado, mostrando sempre grande vigor de vegetação. Prevemos bons resultados financeiros da purgueira, aten dendo ao preço actual por que se vendem os óleos e pode compensar, até certo ponto, os prejuízos, causados pelo rubrocincto nos cacaueirais.
(1) a Do Jardim de Coimbra foram enviadas algumas espécies de Sanseviera e na Boa Entrada cultiva-se com certa intensidade a Agave rigida, var. Sizalana, tendo já eido obtidos bons filamentos, óptimos para cordas, tecidos e papel» (l. c., p. 141).
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12) Quinas
Devemos, ao menos, aproveitar o existente, explorando as cascas das quinas, as quais vegetam, regularmente, nas elevações, se bem que o produto não seja de boa qualidade, emquanto possa concorrer aos mercados, pela escassez, devida à crise, proveniente da grande guerra europeia. Mas, sendo uma cultura própria das grandes altitudes, só na dependência de Cantagalo se expandiria com certa eficácia, porém, o melhor, entendemos, será pôr de parte semelhante desenvolvimento, visto que, de maneira alguma, competirá com as espécies comerciais congéneres, de outros pontos do globo.
13) Rícino
Apesar, de patentear manifestações características da invasão do Thrips e, as fôLhas, mostrarem, mesmo, alguns dêsses parasitas, nas diferentes fases, a verdade é que, a planta, vai vivendo normalmente e resistindo aos sucessivos acometimentos. Portanto, verificada que seja a sua relativa imunidade, torna-se recomendável a expansão do cultivo, atendendo ao subido rendimento que os óleos produzem, nas actuais circunstâncias, consoante, já, o asseverámos.
14) Tabaco
Perfeitamente indemne ao, aludido Thysanoptero e, mais do que isso, até o mata, quando se atreve a invadir as folhas, da estimada planta; vegeta, aqui, excelentemente, e recomenda-se, por tais motivos, a sua máxima difusão, desde que a escolha recaia nas melhores qualidades de Nicociana. De resto, além de servir para fumo, após a respectiva fer mentação, também utilizam, o tabaco, como insecticida, representando papel importantíssimo na fórmula, cuja composição, adeante, descreve remos, a propósito dos tratamentos contra o rubrocincto.
RESUMO
Terminando, o presente capítulo, diremos que convém ensaiar, na propriedade de Água Izé, o algodão e as plantas texteis, e importa di fundir as culturas do café, cana sacarina, coqueiro, mancarra, palmeira Andim, purgueira, rícino e tabaco.