4. VIOLÊNCIA URBANA E AS NOVAS PRÁTICAS DE GESTÃO
4.6 A Violência na Cidade de Curitiba e o Mito da Cidade Modelo
4.6.1 Curitiba. Uma Cidade em busca de uma Imagem
No caso mais específico de Curitiba, vislumbrou-se uma situação bastante parecida a verifica em relação ao próprio estado do Paraná, porquanto esta, com exceção do pinheiro-do-Paraná (araucaria angustifolia)84, não possui um traço distintivo natural frente às demais grandes cidades brasileiras, sendo que a própria identidade sócio-cultural da cidade,
“até algumas poucas décadas atrás praticamente não existia” (SOUZA, 2005, p. 130).
Cristóvão Tezza, seguindo trilha semelhante salienta, em entrevista concedida ao repórter Irinêo Netto (2005, p. 3), do jornal Gazeta do Povo, que
não há nada visivelmente notável em Curitiba – uma praia, um porto, uma montanha de três mil metros de altura, uma grande mina de carvão, um abismo, terremotos, enchentes devastadoras, engarrafamentos de 50 quilômetros. Não há nem mesmo um único rio que mereça este nome. Nem carnaval. Nada. Sobra todo o resto, que somos nós.
Não sendo à toa que, diante da inexistência de algum elemento marcante, a cidade de Curitiba foi obrigada, a partir de uma estratégia de valorização estética, a construir um cenário artificial calcado em estratégias de beutification, objetivando-se a criação de um ícone, da suposta existência de uma cidade modelo, no imaginário das pessoas.
Tanto que, nos dias de hoje, “quando se fala em Curitiba em qualquer parte do Brasil, e em algumas partes do mundo urbano, logo se pensa numa cidade de Primeiro Mundo, sem contradições ou conflitos, um modelo a ser seguido” (SÁNCHEZ GARCIA,
84 Dalton Trevisan (2000, p. 7), tido como um dos principais contistas curitibanos, chega a afirmar de maneira bastante irônica que nem mais os antigos pinheiros, símbolos da cidade de Curitiba, hoje em dia ainda se fazem presentes. Tanto que inicia um de seus principais contos, denominado Em busca de Curitiba perdida, mencionando que: “Curitiba, que não tem pinheiros (....)”.
1999a, p. 10), sendo que tal leitura da realidade faz com que a capital do estado do Paraná seja automaticamente associada à idéia de qualidade de vida urbana, fruto de um conjunto de estratégias urbanas, as quais visaram a criar uma identidade sócio-espacial positiva frente ao país, como também no exterior.
Em termos político-participativos, Curitiba seria o mais perfeito exemplo de como é perfeitamente cabível se transformar o morador-cidadão num mero espectador, tanto que se demonstrou, na prática, a possibilidade de se criar um mito midiático que se tornou mais forte de que a própria realidade, sendo que para tanto se divulgou exaustivamente a possibilidade de
se realizar um planejamento urbano capaz de moldar a ação dos sujeitos sociais, implementar formas de controle do espaço urbano, garantir a eficácia e a eficiência dos serviços urbanos e constituir uma cidade sem favelas e sem pobreza (EGLER, 1997, p. 3 – grifo nosso).
Enfocando-se mais precisamente o exemplo de Curitiba, Sanchéz Garcia (2001) defende a existência de uma complexa rede voltada à construção e propagação de imagens urbanas curitibana nas escalas local, nacional e internacional. E, muito embora seja inegável que este tipo de política pública redundou em certos benefícios para a cidade, há de se ressaltar que cidade de Curitiba foi projetada, nacional e internacionalmente na última década, como sendo a “Capital Brasileira de Primeiro Mundo e Cidade Modelo – manifestação de sua condição de cidade resultante da eficácia do planejamento urbano. No mesmo período, e também resultante deste processo, ainda atribuíram-lhe o título de Capital Ecológica” (MENDONÇA, 2005, p. 1).
Verifica-se, portanto, que se, no passado, diante da necessidade em se cunhar a imagem de um Paraná progressista e moderno, baseada fortemente nos ideais positivistas85, chegou ser criada, inclusive, uma Oração Paranista, demonstrando claramente todo o sentimento ufanista que reinava na época, e que procurava demonstrar a imagem do Estado do Paraná tal como um paraíso terrestre, tanto que Alcides Munhoz chegou a descrever o Paraná como sendo a Nova Canaã (PEREIRA, 1998, p. 54-63). Tal exemplo fora seguido á risca por Curitiba, sendo que “precisamente neste processo adquire grande importância a venda da cidade, o uso de técnicas publicitárias eficazes e a construção criativa
85 O sociólogo e historiador Caio Prado Júnior chega a afirmar que o sucesso da doutrina positivista foi mais expressivo no Brasil do que na própria França, sendo o Estado do Paraná um dos principais expoentes desta corrente ideológica (PEREIRA, 1998, p. 37 e ss).
de imagens” (SÁNCHEZ GARCIA, 1999b, p. 3). E, no caso da capital do Estado do Paraná, tal estratégia pode ser vislumbrada na publicidade veiculada com a finalidade de, mais recentemente, atrair fábricas automotoras, como a Renault, a Audi e a Chrysler, e empresas de software e de tecnologia de ponta (para se instalarem no Pólo de Software de Curitiba).
Sánchez Garcia (1999a) salienta que mesmo sendo inegável que, na atualidade, Curitiba tenha uma imagem muita bem consolidada, o início da construção do mito da cidade modelo deu-se nos anos 70, quando foram implantadas as diretrizes de seu Plano Diretor. Até mesmo porque, quando ocorreu a Proclamação da República, o cenário curitibano era dominado por uma série de famílias tradicionais, a economia era arcaica, baseada principalmente no extrativismo, ou seja: a capital paranaense se mostrava muito atrasada em comparação com os demais grandes centros urbanos da época (PEREIRA, 1998, p. 37 e ss), situação esta que somente começa a sofrer alterações a partir dos anos 60 e 70.
Na década de 70, foi implantado o Plano Diretor da cidade, o qual, em conjunto com o projeto da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), produziu sensíveis alterações no tecido urbano da cidade, permitindo a aceleração do seu crescimento.
Podemos dizer que a atual imagem incorpora as mudanças urbanas estruturais daquele período – sobretudo na área de transportes e uso do solo -, mas se nutre, sobretudo, das obras urbanas pontuais que caracterizam os anos 90 (SÁNCHEZ GARCIA, 1999a, p. 10).
Já na década de 90, o processo se acentuou através da construção de grandes obras - ícones urbanos - como: o Memorial da Cidade, a Ópera de Arame, as Ruas da Cidadania, os Faróis do Saber, a Universidade Livre do Meio Ambiente, o Jardim Botânico, a Rua 24 Horas, os quais se tornaram, em pouco tempo, responsáveis diretos pela imagem de Curitiba no cenário nacional e internacional.
A edificação destas atrações objetivava a fortalecer o processo de construção da imagem da cidade de Curitiba, pois “melhorar a imagem não é suficiente para garantir a prosperidade de um local, precisa de características especiais para satisfazer seus moradores e atrair pessoas de fora” (KOTLER et al, 1994, p. 41-42). Pois para que o imaginário social possa se concretizar este necessita do simbólico, “tanto para exprimir-se, quanto para existir, para passar do virtual a qualquer coisa a mais” (ROCHA, 2000, p. 13), sendo que enquanto algumas localidades já possuem atrações naturais ou ainda se beneficiam de uma grandiosa herança histórica de construções antigas, existem cidades que investiram pesado na construção de monumentos famosos, como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo em
Paris, na França, o Empire State Building localizado em Nova York, nos Estados Unidos ou ainda o Taj Mahal, em Nova Déli, na Índia.
Estas grandes obras, no caso mais específico de Curitiba, foram acompanhadas por slogans tais como: a cidade que não pára de inovar, sendo que esta vertente urbanística quando levada às últimas conseqüências transformou muitos desses novos espaços públicos em meros pastiches, “clichês superficiais de uma idéia de cidade”
(SÁNCHEZ GARCIA, 1999b, p. 11). Pois, nesta nova maneira de se enxergar a cidade, ocorre uma mescla entre os conceitos de cidadania e consumo, indiferenciado a cidade do mercado, não sendo á toa que com o objetivo de não permitir que a falsa imagem construída em algum momento esmorecesse, ocorreu uma reciclagem constante dos slogans, sendo que se nos anos 70, Curitiba era a Cidade Modelo, nos anos 80, torna-se a Capital Humana, para finalmente se tornar a Capital da qualidade de vida nos anos 90 e a Capital Ecológica no final dos anos 90. No final dos anos 90, com a vinda das empresas automotoras e com a requalificação tecnológica da cidade, em torno de novas tecnologias, já era possível se verificar a relativização do discurso ambiental em torno da idéia de Capital Tecnológica e, mais recentemente, num curto espaço de tempo, “a cidade de Curitiba foi transformada em marca nacional da qualidade de vida urbana” (SÁNCHEZ GARCIA, 1999b, p. 6).
Se, no passado, mais precisamente na Primeira República, o movimento paranista86 procurou através de artifícios simbólicos criar toda uma identidade regional própria, identidade a qual o Paraná carecia e muito (PEREIRA, 1998), conjuntura idêntica se desvelou na cidade de Curitiba, na qual se observa que cada nova obra urbana não é mais vista somente como um melhoramento urbano, tornando-se, na verdade, um produto novo a ser lançado no mercado. Não sendo por acaso que “o lançamento de cada novo produto urbanístico costuma ser minuciosamente planejado” (SÁNCHEZ GARCIA, 1999b, p. 7)87 e exaustivamente transmitido nos meios de comunicação de massa, pois “a grande veiculação,
86 O termo paranismo apareceu pela primeira vez em 1906, tendo uma conotação referente ao que nasce no Paraná, aquele que possui amor à terra. Romário Martins afeiçoou-se pelo termo, sendo que o mesmo foi utilizado em larga escala principalmente após 1927, quando Romário Martins cria o Centro Paranista. Nesta mesma idéia, Romário Martins tentou forjar a imagem do herói paranista para o futuro, pois se defendia que o Paraná teria um futuro promissor em decorrência da sua população.
Deve-se ter em mente que a identidade paranaense foi ao longo dos anos criada, com a finalidade mor de mascarar a verdadeira realidade existente. Até mesmo a criação da imagem do imigrante ideal (aquele que seguisse os padrões europeus) foi uma construção paranista, que tinha como intuito criar um ponto diferenciador para o Estado em relação ao restante do Brasil (PEREIRA, 1998, p. 11 e ss).
87 Sánchez Garcia (1999b, p. 7) aprofundando-se na construção de símbolos curitibanos acredita que
“levado ao extremo, o consumo circunstancial e transitório destes espaços, associado a incessante chegada de novidades, transforma alguns destes espaços em pastiches, clichês superficiais de uma idéia de cidade”.
pela mídia, das imagens sintéticas da cidade intensifica a idéia de pleno usufruto social dos novos espaços modernizados e, implicitamente, sugere uma vida de classe média para todos os cidadãos” (SÁNCHEZ GARCIA, 1999a, p. 11). Tanto que se percebe que “entre os cidadãos e a cidade estão os meios tecnológicos de informação e comunicação. Eles não informam sobre a cidade, eles a refazem à sua maneira, hiper-realizam a cidade, transformando-a num espetáculo” (SÁNCHEZ GARCIA, 1999b, p. 12). Tal espetáculo vem por apresentar uma cidade sem contradições, que mina qualquer ação efetivamente construtora de cidadania.