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4 O COLÉGIO POLIVALENTE DE UBERABA

4.1 A IMPLANTAÇÃO DO COLÉGIO POLIVALENTE

4.1.1 Custo do programa em Minas Gerais

De acordo com os dados recolhidos em agosto de 1969, são os seguintes custos do programa do PREMEM em Cruzeiro Brasileiro (BRC):

Custo global em Minas Gerais Cr$ 80.600.000,00 Projeto de recursos humanos Cr$ 13.200.000,00 Projeto de construção Cr$ 49.400.000,00 Projeto de equipamento Cr$ 18.000.000,00

Os recursos para a execução do Programa são oriundos das seguintes fontes:

50% de empréstimo externo 31,5% do Governo Federal

18,5% como contrapartida do Estado

Diante de cifras tão expressivas era necessário também criar todo um arcabouço ideológico que justificasse a implantação dessas escolas, dentre elas a

de Uberaba. Afinal de contas os recursos alocados para a construção das mesmas, treinamento e contratação de professores, mobília e aquisição de todo um conjunto de equipamentos e material didático, era de muita monta.

O governo militar juntamente com o PREMEM o órgão que vai conduzir a construção e a organização dessas escolas, utilizou assim um vasto repertório de ideias no sentido de justificar e legitimar a construção das mesmas. O discurso básico era que a escola daquela época estava ultrapassada, arcaica e não atendia às necessidades de modernização do país.

No texto, Justificativa da Implantação da Escola Polivalente Experimental (JUSTIFICATIVA..., 1970, p. 2), argumenta que a reforma da escola seria um elemento muito importante para promover o crescimento econômico do país como se pode ver a seguir:

A educação brasileira acha-se, portanto, numa situação de encruzilhada. Todo o país sente a necessidade de determinar uma política educacional que permita a formação dos recursos humanos necessários ao desenvolvimento. Esse passo é o ponto de partida para qualquer plano estratégico de desenvolvimento, visto que todo desenvolvimento só é possível quando parte do homem e se volta para o próprio homem.

De acordo com documento encontrado na Escola Estadual Corina de Oliveira intitulado Justificativa da Implantação da Escola Polivalente Experimental (JUSTIFICATIVA..., 1971, p. 4) (ANEXO C) o sistema educacional brasileiro daquela época apresentava as seguintes falhas:

a) falta de determinação dos fins específicos para cada grau de ensino, tornando-se cada um deles um simples preparatório para o próximo. b) baixa produtividade, que se evidencia pela enorme taxa de evasão e

repetência, e pelo pequeno número de alunos que conseguem concluir os cursos primário, médio e superior.

c) Metodologia inadequada, baseada no verbalismo, na memorização. d) Ausência de educação científica.

e) Preparação deficiente de professores.

f) Precárias condições de instalação e equipamentos.

g) Falta de orientação do aluno, no sentido de torná-lo capaz de escolher uma profissão de acordo com as suas reais aptidões.

h) Atraso cultural da escola.

i) Remuneração baixa do professor.

j) Falta de recursos financeiros para a escola.

Alguns desses itens devem ser mais bem analisados para que se tenha uma noção mais clara do empenho do governo através dos seus órgãos oficiais (MEC; PREMEM) em justificar e legitimar a implantação das escolas polivalentes. O item

“b” evidencia a elevada taxa de evasão e de repetência da escola. No entendimento do governo, um dos fatores que explicam esse problema seria exatamente o hiato que existia entre o tipo de ensino que existia naquela época e a realidade social e econômica do país. A escola, baseada em um ensino bastante livresco, humanista estaria cada vez mais distanciada das necessidades da sociedade. Boa parte dos conteúdos que eram passados e também a maneira como eram transmitidos constituía um todo distante da vida dos alunos e, por isso mesmo, desinteressante.

O item “C” ressalta um aspecto central da vida escolar; a metodologia de ensino. Segundo a documentação do PREMEM, a maneira como os professores transmitiam os conhecimentos e ensinavam os alunos estaria baseada no puro verbalismo e na memorização. Seria assim uma metodologia arcaica, superada, pouco atraente, que deixava o aluno numa posição meramente passiva no processo de ensino aprendizagem, sem nenhuma participação ativa. Essa metodologia, que já vinha sendo duramente criticada desde a época da publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932, soava para os defensores das polivalentes como um elemento a mais para tornar as aulas cansativas e monótonas para os alunos comprometendo assim o aprendizado dos mesmos e a qualidade da educação. Veremos mais adiante que a proposta de didática dos colégios polivalentes vai insistir na ideia de que as aulas deveriam assumir um caráter mais prático, com uma participação mais direta e efetiva do aluno na aprendizagem.

Os itens “D” e “G” de certa forma se complementam. O primeiro realça um problema que já era debatido pelo Manifesto dos Pioneiros da Educação. A excessiva formação humanista, livresca da escola em oposição a uma melhor formação científica. Mais uma vez os documentos do PREMEM reforçam que em uma sociedade cada vez mais marcada pela ciência e tecnologia que estavam presentes em todos os ramos da produção e inclusive na vida cotidiana das pessoas, seria inaceitável que a escola não reformulasse sua grade curricular procurando assim se adequar a uma realidade econômica e social cada vez mais dinâmica e em constante transformação. Essa própria adequação seria, também, uma ferramenta importante para aproximar a escola do mundo do aluno.

Já o item “G” destaca uma questão muito debatida desde o final dos anos 60; a relação escola-profissão-desenvolvimento econômico. Embora já tenha sido citado, vale destacar o momento histórico que o Brasil vivia na época, o milagre econômico tão alardeado pela ditadura militar, as elevadas taxas de crescimento

econômico com destaque para os setores secundário e terciário e o crescimento vertiginoso de várias cidades brasileiras. Essa nova realidade exigia um contingente maior de força de trabalho, tanto de nível médio quanto de nível superior, com certa qualificação. E caberia a escola formar e preparar essa força de trabalho. Não constitui mera coincidência que nessa mesma época, década de 60, as ideias sobre a teoria do capital humano de Theodore Schultz e a escola tecnicista tiveram grande aceitação entre alguns intelectuais e educadores brasileiros.

Feitas as considerações e as críticas à escola que predominava no Brasil de então, a documentação do PREMEM partia assim para análise do que seria o colégio polivalente, do que ele traria de novo para o desenvolvimento da escola. Mais uma vez recorrendo à Justificativa da Implantação da Escola Polivalente (JUSTIFICATIVA..., 1971, p. 07) documento do PREMEM, a escola polivalente teria os seguintes objetivos específicos:

a) Integrar à educação geral a educação técnica.

b) Promover uma educação centrada em aspectos humanísticos que caracterizem as exigências e aspirações da nossa época.

c) Diferenciar as atividades curriculares possibilitando sondagem de preferências e aptidões.

d) Aplicar os princípios de terminalidade geral e real, preconizados pela reforma, ao ensino de 1º grau.

e) Capacitar o aluno com um instrumental básico para realizar tarefas exigidas por uma sociedade em desenvolvimento.

f) Capacitar o aluno para uma posterior opção profissional. g) Valorizar o trabalho como forma de realização humana.

Não é difícil perceber que esses objetivos específicos teriam o papel de corrigir as falhas e distorções que a escola brasileira apresentava e, ao mesmo tempo de modernizar, de adequar essa escola a uma nova realidade social caracterizada por um dinamismo cada vez maior.

O item “A” reforça uma questão cara aos defensores da teoria do capital humano. A necessidade de se desenvolver uma formação técnica condizente com um mundo marcado pela ciência e pela tecnologia. Transmitir para os alunos uma base de conhecimentos técnicos seria uma maneira de melhor integrar o aluno à realidade e de prepará-lo para uma profissão, como é ressaltado também pelo item “F”. Observa-se nesses itens uma articulação entre escola e economia, escola e produção. E, para promover essa articulação seria necessário introduzir as disciplinas técnicas por meio de uma reformulação curricular que veremos posteriormente.

A adequação e adaptação da escola a uma realidade econômica e social dinâmica que incorporava mais e mais conhecimentos técnicos e científicos ao mundo da produção, é enfatizada no item “E”. Desenvolvendo uma educação técnica integrada à educação geral e utilizando uma metodologia mais dinâmica, mais prática, que colocasse o aluno em uma posição ativa no processo de ensino- aprendizagem, a escola teria melhores condições de capacitar o aluno para atuar em uma sociedade moderna (leia-se, mercado de trabalho).

A preocupação com a iniciação para o trabalho e a articulação cidade-escola pode ser percebida na seguinte imagem encontrada na documentação do Colégio Polivalente de Uberaba. Nesse documento percebe-se que essas escolas teoricamente foram concebidas no sentido de manter uma íntima relação com instituições sociais e econômicas das respectivas cidades (FIGURA 1).

Figura 1 - Desenho representando os vínculos que o Colégio Polivalnte deveria manter com instituições econômicas sociais da cidade.

Fonte: Acervo da Escola Estadual Corina de Oliveira.

Essa preocupação em promover uma integração cada vez maior entre a escola e a comunidade até mesmo no sentido de a escola adquirir visibilidade e prestígio na cidade pode ser comprovada em documento extraído do

Cada ginásio desenvolverá meios adequados de tornar a escola uma parte vital da comunidade onde está situada. O ginásio deverá esforçar-se para desenvolver estreitas relações com a comunidade, promover comunicações entre professores e pais, oferecer cursos apropriados de educação de adultos, destinados aos pais, organizar projetos de aperfeiçoamento da comunidade e promover o apoio comunitário à escola.

Interessante destacar também o item d que ressalta: “aplicar os princípios de terminalidade geral e real preconizados pela reforma, ao ensino de 1º grau”. A reforma à que o documento se refere é a Lei 5692-71 que institui o ensino profissionalizante dando um caráter de terminalidade ao ensino de 2º grau para gerar mão de obra e também para refrear a demanda pelo ensino superior, aspecto que já foi salientado anteriormente. Percebemos, portanto que, apesar da documentação das escolas polivalentes preconizar que o objetivo principal das disciplinas de artes práticas ser o de desenvolver sondagens e aptidões para, posteriormente, escolher uma profissão, essa mesma documentação sugere uma possível terminalidade com a conclusão do 1º grau.

Isto pode ser comprovado no seguinte trecho dos Dados e Informes

referentes ao PREMEM (DADOS..., [19--], p. 03).

Considerando, por outro lado, o fato da terminalidade geral, em oito anos, do ensino de 1º grau dentro do quadro brasileiro, em que a maioria encerra nesse estágio a sua educação regular, a Escola Polivalente procura obter um produto treinável, a curto prazo, para imediato ingresso na força de trabalho.

Ao mesmo tempo, o seguinte gráfico, encontrado na série de textos dos cursos oferecidos pelo PREMEM em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para preparar e treinar os professores das escolas Polivalentes, indica de maneira clara que o projeto não se furtava, caso fosse necessário, preparar força de trabalho para ingresso imediato no mercado de trabalho.

Figura 2 - Original. Figura representando o perfil profissionalizante do Colégio Polivalente.

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Fonte: Acervo da Escola Estadual Corina de Oliveira.

Figura 3 - Reprodução - Figura representando o perfil profissionalizante do Colégio Polivalente.

Na leitura do gráfico, percebe-se a expressão terminalidade real antecipada na linha divisória entre o ensino de 1º grau e o ensino de 2º grau sugerindo a ideia de que alguns alunos encerrariam seus estudos regulares ao término da 8ª série (FIGURAS 2 e 3).