• Nenhum resultado encontrado

4 O COLÉGIO POLIVALENTE DE UBERABA

4.3 PRÉDIO E INFRAESTRUTURA

Em 15 de setembro de 1971, o Lei de nº 5760 (ANEXO D) criou oito Ginásios Estaduais Polivalentes no Estado de Minas Gerais dentre elas a de Uberaba, que seria construída na Avenida da Saudade, s/nº no Bairro das Mercês. A princípio, segundo matéria publicada no jornal Lavoura e Comércio em 28 de abril de 1971, a previsão de inauguração da escola era o dia 01 de agosto do mesmo ano. No entanto, a inauguração oficial desse estabelecimento foi em 04 de maio de 1972, em um dia repleto de atividades para o então governador de Minas Gerais, Rondon Pacheco. Neste dia, o governador prestigiou a inauguração do Fórum Mello Vianna, o Ginásio de Esportes do Uberaba Tênis Clube e o Ginásio do Colégio Nossa Senhora da Abadia, além de participar da famosa exposição do gado zebu, uma das datas mais importantes do calendário de Uberaba.

Vale salientar que, de acordo com o termo de instalação da escola (ANEXO E), esta já vinha funcionando em caráter preparatório desde 15 de julho de 1971 e, a instalação oficial do Ginásio Estadual Polivalente ocorreu em 08 de setembro de 1971 (ANEXO F), com a presença do então secretário municipal de educação, Dom Sebastião de Araújo Falcão, e outras autoridades (FIGURA 7).

Figura 7 - Inauguração oficial do Colégio Polivalente de Uberaba em 04 de maio de 1972 com a presença do prefeito da cidade Arnaldo Rosa Prata e do governador de Minas Gerais Rondon Pacheco.

Fonte: Acervo da Escola Estadual Corina de Oliveira

A primeira diretora do estabelecimento foi Abigail Emilia Bracarense Coimbra que dirigiu a escola até o ano de 1982. Em 19 de outubro de 1977, de acordo com o Decreto nº 18.766 a escola passou a se chamar Escola Estadual Corina de Oliveira (A),35 professora que trabalhou no Grupo Escolar Brasil (ANEXO G), embora muitos ainda continuassem chamando o estabelecimento de Colégio Polivalente.

De acordo com Gatti Junior e Pessanha (2005, p. 80), destacam-se as seguintes categorias no estudo da História das instituições escolares:

35

De acordo com material pesquisado no Arquivo Público de Uberaba, Corina de Oliveira era filha de Ernesto Emigdio de Oliveira e Maria Lucas de Oliveira. Nasceu em 09-09-1892 e faleceu em 29-10- 1978. Foi professora e depois diretora do Grupo Escolar Brasil. Era muito enérgica, exigente, séria no trato com os alunos que muito a respeitavam. Tinha uma visão moderna de escola. Nos anos 30, já diretora, estimulava os alunos a ler e havia em cada classe um clube de leitura... Morreu solteira, dedicando toda a sua vida à educação. Seus ex-alunos se lembram dela com carinho e muito respeito e gratidão. Outra fonte do arquivo público de Uberaba destaca que [...] ela era muito dinâmica. Na sua época os alunos carentes passaram a receber uniformes, assistência médica e alimentação. Não havia diferenciação entre alunos pobres e ricos. Fez promoções em benefício do caixa escolar. Organizou cartões de sócios contribuintes para que os pais de alunos mais abastados contribuíssem com taxas. Foi também fundadora do jornal „Sorriso Infantil‟. De acordo com Pontes (1978, p. 224), Corina de Oliveira exerceu outra atividade importante a partir de 1930. Ele afirma que “A professora senhorinha (sic), Corina de Oliveira, diretora do Grupo Escolar Brasil foi, pela Portaria nº 34, do dia 08, nomeada para dirigir o corpo de enfermeiras sob a direção do Dr. Mozart Furtado Nunes, a quem a Portaria nº 33 do mesmo dia, confiara a organização daquele hospital de sangue”.

 Espaço (local – lugar, edifício, topografia)

 Tempo (calendário, horário, agenda antropológica).

 Currículo (conjunto de matérias lecionadas, métodos, tempos, etc. ou racionalidade da prática).

 Modelo pedagógico (construção de uma racionalidade complexa que articula a lógica estruturante interna com as categorias externas que as constituem – tempo, lugar e ação.

 Professores (recrutamento, profissionalização, formação, organização, mobilização, história de vida, itinerários, expectativas, decisões, compensações).

 Manuais escolares.

 Públicos (cultura, formas de estimulação e resistências).

 Dimensões (níveis de apropriação, transferências da cultura escolar, escolarização, alfabetização, destinos de vida).

A partir das leituras que foram feitas sobre a história das escolas polivalentes, da documentação que foi encontrada na 39ª Superintendência Regional de Ensino de Uberaba, na Escola Estadual Corina de Oliveira e dos objetivos dessa pesquisa elencamos quatro categorias para um estudo mais aprofundado: a infraestrutura da escola, a organização curricular e o corpo docente e discente. É a partir da análise dessas categorias que podemos responder com mais clareza se o Colégio Polivalente de Uberaba se adequava ou não aos interesses políticos e ideológicos do regime militar implantado em 1964.

A previsão era a construção de 58 escolas somente no Estado de Minas Gerais distribuídas em quatro etapas conforme se pode verificar na listagem obtida em documentação do PREMEM no Colégio Corina de Oliveira (ANEXO H).

Essas escolas eram construídas em quatro modelos básicos com pequenas diferenças com relação à organização e distribuição dos espaços. Esses modelos eram o GP 1 (ginásio polivalente 1), GP 2 (ginásio polivalente 2), EP 2-RMG e EP – 13. O Polivalente de Uberaba foi construído segundo as normas do GP 2 cuja planta é representada a seguir (FIGURA 8).

Figura 8 - Planta da Escola.

Fonte: Acervo da Escola Estadual Corina de Oliveira

De acordo com a planta e com documentos consultados na Escola Corina de Oliveira, no prédio encontravam-se as seguintes dependências: Diretoria, vice- diretoria, secretaria, cozinha, enfermaria, almoxarifado, arquivo, biblioteca, sala de professores, sala de reuniões, orientação educacional, orientação pedagógica, laboratório de ciências, oficina de artes industriais, oficina de artes comerciais, oficina de técnicas agrícolas, educação para o lar, vestiário masculino, vestiário feminino, sala de educação física, sala de espera, sala de português, sala de estudos sociais, sala de matemática, sala de educação artística, sala de inglês, sala de francês.

O colégio foi construído na Avenida da Saudade no Bairro Mercês. O terreno para a sua construção foi cedido pela prefeitura. De acordo com dados obtidos em documentação do PREMEM, o terreno teria uma área de 20.726,23 m² e o custo da obra em valores da época seria de Cr$ 785.964,27. O início da construção foi em 04 de dezembro de 1970 e a data do recebimento provisório foi 17 de setembro de 1971. A empresa responsável pela construção da obra foi a SEULAR (FIGURAS 9 e 10).

Figura 9 - Foto da construção do Colégio Polivalente de Uberaba 1

Fonte: Acervo do Arquivo Público de Uberaba.

Figura 10 - Foto da construção do Colégio Polivalente de Uberaba 2

Fonte: Acervo do Arquivo Público de Uberaba.

Com relação à organização do espaço físico e sua relação com a proposta pedagógica, Silva (1970, p. 50) faz a seguinte observação com relação ao prédio da Escola Polivalente:

O prédio escolar a ser projetado deverá responder com fidelidade aos objetivos de Lei nº 5692 -71 do Programa de Expansão e Melhoria do Ensino. Modernamente o prédio escolar é concebido para satisfazer funções bem distintas daquelas da escola tradicional. As tendências pedagógicas atuais, voltadas para um ensino mais ativo com o uso intensivo de recursos de objetivação. De laboratórios, de salas ambiente e, especialmente da biblioteca, solicitam uma participação cada vez maior do educando, além de implicarem uma relação mais estreita entre professor e aluno, o que exige que o projeto arquitetônico atenda a uma composição de espaços diferente da convencional, em que a sala de aula era o elemento dominante.

Conforme os Dados e Informes referentes ao PREMEM (DADOS..., [19--], p. 03), as Escolas Polivalentes teriam as seguintes características modulares.

 Terreno: 25.000 m² doado pela municipalidade.  Oito salas de aula.

 Salas para serviços técnicos e administrativos.  Oficina de artes industriais.

 Oficina de técnicas agrícolas.  Oficina de técnicas comerciais.

 Sala ambiente de educação para o lar.  Laboratórios para ciências.

 Cantina.

 Área para educação física e desportos.  Sala para biblioteca (5.000 volumes).

Observa-se, então, que o prédio e os demais espaços que compõem a escola polivalente assumem um contorno diferenciado e se tornam também um elemento pedagógico da escola. O prédio, ao dispor de laboratórios, oficinas, biblioteca ampla, tem, de certa forma, a sua organização curricular explicitada, corporificada na distribuição espacial do prédio e de suas instalações. Interessante frisar também que em vários documentos pesquisados relativos ao PREMEM ou à Resolução 925 ou aos subsídios sempre encontramos a escola polivalente associada às expressões do tipo moderno, avançado, enquanto que a escola que existia antes das polivalentes era sempre rotulada de tradicional, inadequada aos novos tempos, como se fosse antiquada e arcaica. Percebe-se então que mais uma vez constrói-se um discurso para legitimar e alavancar as Escolas Polivalentes a partir de uma visão pejorativa da escola que existia anteriormente.

Se na escola tradicional a sala de aula era o espaço dominante, local por excelência em que ocorriam as relações de ensino-aprendizagem, no qual o professor exercia o seu poder e autoridade diante dos alunos. No entanto, na escola polivalente, esta mesma sala de aula, passa a sofrer a concorrência de outro espaço

pedagógico, visualmente mais atraente, lócus de práticas educacionais mais dinâmicas e versáteis, a oficina e o laboratório mais identificados com a modernidade, mais identificados com a ciência que estavam do lado de fora dos muros da escola. Dessa maneira, as disciplinas de artes práticas, os laboratórios, as oficinas seriam a ponte através do qual o mundo moderno, real, que estava lá fora, iria, enfim, entrar na escola, tornando-a, por sua vez, moderna, articulada com o mundo real e atraente para os alunos.

Pela fotografia da planta e pela relação de compartimentos, verifica-se que o projeto filosófico da escola e o currículo interferiram diretamente no projeto arquitetônico da escola.

Como as salas de aula eram específicas para determinadas disciplinas, nas trocas de horários não eram os professores que trocavam de sala ou de ambiente. Eram os próprios alunos que se deslocavam para as respectivas salas em que teriam aulas.

Todavia, a inovação pedagógica e curricular não estava presente apenas nos laboratórios e nas oficinas cuja materialidade dava visibilidade ao caráter inovador dessas escolas. A biblioteca teria um papel importante para o desenvolvimento de uma escola que se proclamava de moderna e mais atualizada com a realidade econômica e social e com as necessidades e interesses dos alunos. Em documento consultado na Escola Estadual Corina de Oliveira e intitulado Fundamentação

Teórica do Ginásio Polivalente (FUNDAMENTAÇÃO..., 1970, p. 12) lê-se:

A modernização e o aperfeiçoamento dos métodos de ensino deverão ser contínuos. Considerando-se que a biblioteca é condição básica para um ensino moderno e eficiente, ela deve ser acessível a alunos e professores, durante todo o dia escolar e adequadamente provida de livros e outros materiais de ensino para os quais se deve prever um efetivo sistema de circulação.

Ao mesmo tempo a Resolução nº 925 (1970), na diretriz de número 2, das Diretrizes Gerais para o Ginásio Polivalente, entre outras, destaca:

As instalações para Ciências e para a Biblioteca, a serem colocadas em cada escola são a base para a modernização do currículo e do ensino, tanto no que toca às humanidades, como às Ciências, e servirão de fonte de recursos educacionais necessários a um programa bem equipado.

Colocamos a seguir algumas imagens do Colégio Polivalente de Uberaba para que o leitor tenha uma ideia mais clara sobre o projeto arquitetônico da mesma (FIGURAS 11, 12, 13, 14 e 15).

Figura 11 - Visão frontal do Colégio Polivalente de Uberaba. De 1971 aos dias atuais, a escola sofreu poucas alterações e sua formatação arquitetônica permanece praticamente a mesma.

Fonte: Acervo do autor (2015).

Figura 12 - Sala de aula do Colégio Polivalente de Uberaba. Projetadas para comportarem até 40 alunos e com janelas grandes o que possibilitava ampla visão externa e circulação do ar.

Fonte: Acervo do autor (2015).

Figura 13 - Cantina do colégio Polivalente de Uberaba, localizada na parte central da escola.

Figura 14 - Antiga oficina para as aulas prático-vocacionais transformada em sala de aula.

Fonte: Acervo do autor (2015).

Figura 15 - Pavilhão onde ficam as salas de aula do colégio. Do outro lado, atravessando a área central ficavam as oficinas de artes práticas.