AUTORES CONCEITOS PARA AGÊNCIA E AGENTE Emirbayer e
2. Prestação de contas ao Tribunal de Contas da União
4.4.1 Década de 90: aprofundamento do debate em torno do SUS
Conforme fora indicado, uma prática recorrente no HC consiste na busca por recursos financeiros em fontes diversificadas e pontuais, isso principalmente a partir do momento em que o MEC repassa as atribuições e competências a outros ministérios e a convênios públicos.
Agentes do HC passam a aquiescer em torno dos convênios com o SUS utilizando-se do argumento de assistência para a mobilização e capatação de recursos financeiros de fontes diversas. O Conselho de Administração do HC, em 1990 encaminha ofício ao governador do Paraná:
“Exc. Gov. do Paraná, o Sistema Único de Saúde, em fase final de aprovação no Congresso Nacional configura um modelo descentralizado, regionalizado, hierarquizado, que preste atendimento integral a população de forma universalizada. A estrutura do sistema de saúde que está procurando construir no Paraná estabelece uma rede hierarquizada de serviços de saúde, e define o HC como instituição de máxima referência hierárquica para onde convergem isso em última instância os casos de maior complexidade. (...) quanto ao seu custeio não recebe nenhum tipo de recursos (...)
141 dirigimo-nos a vossa Exa. a fim de solicitar recursos financeiros no valor de 36 milhões de cruzados novos para conclusão de novos serviços”.
Na mesma época, conforme indicado no ofício, as questões acerca do SUS são discutidas sob ambiente de pressão e conflitos na tentativa de manutenção de controle sobre recursos alocativos e autoritários do HC, alocativos em termos de verbas e financiamento e autoritários em termos de autonomia do HC. Sobre a Lei Orgânica, em que o Ministério da Saúde passa a ser gestor da saúde, alguns professores, chefes de departamento se manifestam:
“O tesouro que paga a massa crítica da universidade e os residentes, e é do SUS que vem a nossa manutenção. Se nós admitirmos a absorção do INAMPS pelo Ministério da Saúde, isso traria como consequência política indireta da nossa absorção pelo Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde, em resumo a ficar sem a nossa autonomia. (...) Até quando vamos viver esta situação que estamos vivendo do HC ser centro de excelência na realidade, mas de fato, isso não ter conseqüências práticas pelas seguintes razões: nós estamos assumindo praticamente todos os problemas sérios de todos os hospitais, de 80 a 90% dos hospitais particulares que nos mandam os doentes como referência, mas onde o motivo maior não é nossa excelência no que estamos prestando mas é uma situação política-econômico-financeira, do doente indigente ou indigentizado. Por outro lado também surge o problema na medicina onde a ética-moral que deveria existir está desaparecendo (...) Hoje existe um marketing para transformar a imagem do hospital como Santa Casa, dando aquela imagem das antigas santas casas. (...) Não teremos de maneira nenhuma personalidade política enquanto atendermos só o que os outros hospitais não querem atender por problemas econômicos (...) Temos falta de pesquisa e investigação, mas não estamos „vestindo a camisa do hospital‟ . (...) Estão explorando médicos e professores com objetivo de alienar o nosso hospital.”
Nota-se a partir desse discurso alguns episódios importantes às definições das práticas de ensino, pesquisa e assistência: a assistência de referência e os atendimentos de alta complexidade não são derivados do fato do HC concentrar excelência em pesquisa e ensino;
são decorrência de deliberações acerca de processos de viabilidade econômico financeira de outros hospitais particulares. A urgência das condições instaladas influenciou o desenvolvimento da assistência, da pesquisa e do ensino. Mais tarde... O Hospital atende alta complexidade porque é centro de excelência ou é centro de excelência porque atende casos de alta complexidade?
142 Além da tentativa do HC de negociar com o SUS para não ser “um hospital de fim de linha” do que dá prejuízo para os serviços privados uma das principais alternativas consiste em “receber clientes privados no 4 andar”:
“(...) nossa elite de professores pode mudar essa situação. Se nós tentássemos um plano tal onde o professor possa trazer seu doente particular todos ganhariam com isso, inclusive os funcionários e o próprio hospital. O problema é que o HC não „está preparado para pacientes diferenciados”.
Para se ter uma idéia das caracterizações acerca de atendimentos diferenciados a paciente diferenciado ilustra-se com a afirmação de um professor do conselho sobre a dificuldade para estacionar o carro, o que dificulta o interesse dos professores.
O discurso de professor paraninfo de turma de formatura ilustra as condições a que se sentem expostos professores médicos que atendem via convênio, bem como as iniciativas à construção de significados negativos com relação à assistência operacionalizada pelo SUS:
“(...) Ireis sentir as dificuldades de exercer uma profissão socializada em uma sociedade capitalista, sendo a vossa consulta remunerada pela previdência social em valores inferiores aos de um corte de cabelo, atualmente em NCZ$ 31,37 com a ressalva de que esse valor vos será pago dois ou três meses após, sem qualquer correção. Mas cuidado se tentardes protestar, não faltarão pessoas acusando-vos de querer mercantilizar nossa nobre arte.” (01/90)
Para se ter uma idéia das condições do contexto - no Paraná 11 hospitais fecharam por conta das precárias relações INAMPS e Previdência Social. Vários reduziram o atendimento via tais convênios, dado a impossibilidade de custear a saúde com os valores pagos. O Conselho de Administração do HC encaminha carta ao Ministério da Educação alertando a situação crítica do sistema MEC/MP, pouco antes de serem feitas transições das responsabilidades do Ministério da Previdência para o Ministério da Saúde.
Os reajustes dos valores dos procedimentos não acontecem. No HC se faz as contas e se percebe que as internações do bloco central dão prejuízo e os atendimentos ambulatoriais dão lucro que compensam os prejuízos das internações hospitalares. A Farmácia, por exemplo, apresenta aumento de despesas decorrentes desses atendimentos hospitalares.
143 Em tempo de transição do INAMPS para o SUS, é recorrente os pacientes serem encaminhados a porta do HC, sem sequer se avisar o hospital por telefone. O Conselho de Administração propõe para isso: conscientizar o Secretário de Saúde de que Curitiba precisa de uma central de internação; de que o HC não tem obrigação de atender todo mundo; revisão de dimensionamento para Maternidade. Reiteram que “o HC é sistema de referência do Estado mas não tem condições para isso.” Mais tarde, os esforços da secretaria com a primeira reivindicação “central de internação” que constituirá na sequência Central de Leitos é amplamente criticada pelo próprios proponentes.
A Lei Orgânica da Saúde é aprovada em 20/09/90 definindo que Hospitais Universitários são ligados ao MEC e Ministério da Saúde.
Na contramão discute-se a privatização do Hospital via atendimento de pacientes particulares. Ex: SUS paga 4 transplantes mês, mas a capacidade é de 8, logo transplante de pacientes particulares a partir do 5 procedimento. Várias denúncias, reportagens, auditorias dificultam o êxito desses propósitos na sequência.
O Ministro Alceni Guerra apóia a continuidade do ao Projeto do Instituto de Pediatria.
São destinados 160 leitos terciários e quaternários para Pediatria, no bairro Capanema. No Campus II Jardim da Américas. 10 mil metros cedidos pela reitoria e pelo prefeito da Cidade Universitária via prof. Tadeu Javorski.
Para assessorar os Programas Interinstitucionais é indicada uma enfermeira. A área de enfermagem tem sido empregada no HC como intermediadora em especial de convênios.
As críticas aos professores que não cumprem com obrigações são recorrentes e o Setor de Ciências da Saúde e reitoria são chamados ao envolvimento com o problema. Nota-se que o discurso com relação ao professores é coercitivo na medida em que deixa claro que estes devem „funcionar‟ tornando o HC um hospital de receita e verba, entenda-se de Assistência:
“Há necessidade de traçar um plano real, unindo forças, e fazer com que os 60% da massa crítica (professores) que não funciona, funcionar ou tomar outra atitude.
Tornando o HC um hospital de receita e verba”. (Ata 14/01/91)
Em 1992 são desenvolvidos os primeiros contatos com a Prefeitura de Curitiba para definir previsões de atendimento. Tais movimentações são decorrentes da hierarquização do atendimento tendo na Municipalização a definição da linha básica de assistência. Ou seja,
144 são as Secretarias Municipais de Saúde (SMS) que fazem a gestão direta do Sistema Unificado de Saúde, seguidas das Secretarias Estaduais de Saúde (SES). Como exemplo de intervenção da SES no HC, este recebe uma placa com a frase: “Este Hospital tem CCIH – Comissão de Controle de Infecção Hospitalar”.
Um dos professores do conselho se posiciona com relação aos convênios MEC:
“O HC é um hospital público beneficente, não deve gerar lucros, embora deva ter um superávit para ser sustento e crescimento. A assistência é o fator que sustenta esse considerando o dispositivo constitucional que estabelece o Princípio da Indissociabilidade entre o Ensino, a Pesquisa e a Extensão; considerando que a efetiva implantação do Sistema Único de Saúde requer das universidades uma estratégia global para capacitação, formação e especialização de recursos humanos, em todos os níveis, notadamente na graduação, ajustando o ensino às reais necessidades de saúde da população, e garantindo sua qualidade;
considerando que as universidades foram criadas e existem para produzir conhecimento em benefício das comunidades nas quais estão inseridas e que, a amplitude e a abrangência desta integração caracterizam as relações existentes entre o projeto de educação proposto e o correspondente projeto de sociedade; considerando a responsabilidade das Universidades por Programas de Educação Continuada; considerando a importância estratégica dos Hospitais Universitários e de Ensino como formadores de recursos humanos, geradores e introdutores das inovações científicas e tecnológicas; considerando o papel social desempenhado pelos Hospitais Universitários e de Ensino em relação a rede de serviço de saúde; considerando que as diferentes unidades da área de saúde das universidades devem utilizar além dos hospitais universitários e de ensino e também a rede assitencial do SUS para ampliar o ambiente à de prestação de serviços e de efetiva integração com a comunidade onde estão inseridos;
Considerando a necessidade de viabilização financeira a intensificação do ensino, da pesquisa e da educação continuada junto aos serviços de saúde resolvem:
Art.1 Autorizar o Programa de Integração Ensino-Serviço com o objetivo de propiciar aos docentes, discentes e equipe da rede de saúde a ampliação dos conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades de forma harmônica, articulada e direcionada às realidades locais e regionais, de conformidade com o SUS.
Art.2 Delegar à Secretaria Nacional de Educação Superior SENESU/MEC e à Secretaria Nacional de Assistência à Saúde – SNAS/MS elaboração dos atos e o desenvolvimento das ações de operacionalização que garantam a efetiva implantação do referido programa.
145 Art. 3 Criar o Comitê Executivo do Programa de Integração Ensino-Serviços, com a correspondente Secretaria Executiva, o qual será nomeado e definido em conjunto pela Secretaria Nacional da Educação Superior – SENESU/MEC e a Secretaria Nacional de Assistência à Saúde – SNAS/MS
Art.4 Revogar a Portaria 452, de maio de 1990.
Art 5 Esta portaria entrará em vigor na data de sua publicação.
(José Goldemberg e Adib Jatene, 19/06/92)
Diante do exposto o conselho discute sobre o referido Comitê e afirma que este trabalho é importante porque vem dar contuidade aos Programas Extra-Muros-UNISIS. Fala-se sobre reuniões entre Direção, Departamentos e Setor. É aprovada pela Secretaria de Assistência a Tabela Descritiva dos Procedimentos do Sistema Ambulatorial. Enquanto isso o alto movimento de ambulâncias nas adjascências do HC:
“Pacientes são descarregados no Pronto-Atendimento da HC. Pacientes em alta permanecem às vezes, ainda por dois, três, uma semana ou até dez dias, apesar de ser comunicado ao Serviço Social inviabilizando a entrada de outro doente”.
Com o volume de atendimentos já chegam aos 2000 funcionários da FUNPAR. As exigências do SUS determinam que alunos, residentes não poderão mais assinar solicitação de prontuários médicos; apenas Chefes de Serviços ou Departamentos, que são na maioria professores.
Outra demanda importante do SUS está relacionada à informatização. Porém desde 1979 o hospital tenta se informatizar. Mesmo depois de dois anos de contrato com a IBM o HC continua com atraso conforme alguns professores afirmam:
“temos tido problemas com o desenvolvimento de nosso sistema e buscando um diagnóstico mais preciso das causas, surgiu como principal causa a equipe de pessoal que trabalha, sendo contratada pela FUNPAR e uma equipe de funcionários da IBM. A demora se deve a dificuldade de linguagem da máquina. O Hospital quer selecionar os funcionários no lugar da IBM.”
4.4.2 As intervenções diretas do SUS: iniciando pela redistribuição de