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5.1 DISCUSSÃO E ANÁLISE DO PROCESSO DE

5.1.10 Décimo encontro

A aula deste dia iniciou com os participantes formando duplas e explorando movimentos da Dança de Rua. A professora deixou bem à vontade a escolha das duplas, pois a turma já estava bem socializada. Elas deveriam caminhar conforme solicitado, lado a lado, frente a frente, uma de frente à outra, de costas, sem perder o contato corporal, no ritmo proposto, de forma forte e energética que, de acordo com Guarato (2008), corresponde a uma das características desse estilo no ritmo da música (George Benson-CD-F-4 e 6 / Absulete Benson/ “DeeperThan You Think”/ “Hipping Hop”). Quando a música parou, as duplas deveriam ficar em posição de equilíbrio, um sustentando-se no outro. A turma realizou as mais variadas posições de equilíbrio, os plano alto, médio e baixo foram bem explorados. Fortemente percebeu-se nessa atividade a riqueza do trabalho mútuo, pois o equilíbrio de um dependia do equilíbrio do outro e, ao mesmo tempo, a singularidade dos movimentos de cada um promoveu o encontro de possibilidades corpóreas. Esta atividade valorizou e estimulou a confiança mútua. Para Sabbag (2007, p. 175) o ato de confiar no outro, além de construir vínculos sólidos, funciona como um dos fatores que facilita o compartilhamento em grupos, eliminando problemas como vaidade, ciúmes, orgulho, inveja, citados pelo autor como obstáculos ao processo grupal no ambiente de trabalho.

Quando duvidamos ou desconfiamos das reais intenções do outro, o vínculo que se estabelece é condicional e desenvolverá cautelas e prevenções.

Havendo confiança, é possível construir relações transparentes, quando nada é propositalmente ocultado. A relação acolherá a espontaneidade, se não houver indícios de má intenção. A assertividade representa uma atitude deliberada de expressar sentimentos e opiniões, como que para facilitar a relação e a solução dos problemas expostos. Além da confiança, a ética, a lealdade e a honestidade também são fundamentais na construção de vínculos sólidos. Elas significam a exclusão da maledicência, da manipulação e de outras formas de uso da má-fé e a inclusão da cooperação no lugar da competição, da tolerância no lugar da rejeição e também da eliminação dos problemas de ego, como vaidade, ciúmes, orgulho, inveja, etc.

O depoimento mostra a necessidade dessa cooperação: “[...] eu tinha que pensar no meu movimento e ao mesmo tempo, tentar equilibrar meu colega, se eu tivesse pensado somente no meu movimento, meu colega iria cair. Acho que é mais ou menos assim que as coisas devem transcorrer num ambiente de trabalho, principalmente quando se trabalha em grupo, mas sabemos que às vezes não é bem assim, ainda mais no nosso trabalho que busca atingir metas, clientes, tomada de decisões eficazes. O ambiente influencia, e muito!”. Nesse depoimento, evidenciaram-se questões estruturais nas quais o relacionamento é afetado pelo clima que paira sobre o grupo, pela presença ou ausência de pressões externas. As regras de convivência e o ambiente podem tanto favorecer quanto dificultar situações relacionadas às decisões. Simon (1963) cita em seus estudos a influência do ambiente como um dos elementos da tomada de decisões. Esta atividade teve a duração de 15 minutos.

Em seguida a professora solicitou que todos formassem um círculo em pé. Enquanto explicava a atividade, pegou um rolo de elástico de 10 cm de largura começou a desenrolar e solicitou que cada um fosse segurando uma parte do elástico até chegar ao final da fita. Por fim, deu-se um nó nas duas pontas sem permitir que os colaboradores, largassem o elástico. A atividade foi então explicada: “o nome da atividade é ‘redes vivas’ eu irei colocar uma música (Simply Red-CD-F- 4 e 6 / “For you love me”/ “Something got me started”) e vocês no ritmo da música, irão trocar de lugar aleatoriamente sem soltar a mão do elástico, entrelaçando-se; assim que estiverem todos entrelaçados (a

professora, deu o comando no momento de parar), deverão permanecer no lugar, se movimentando de várias formas, ou seja, passando pelos vários planos (alto , médio e baixo), sem deixar o elástico se soltar do corpo, e sem se desconectar! entendido?”, todos confirmaram que tinham entendido. Quando a atividade começou, em alguns momentos a professora precisou conduzir os deslocamentos das pessoas que não a tinham entendido, contudo, logo em seguida, percebeu-se a satisfação e o encantamento nas descobertas das possibilidades de deslocamentos e expressão. Percebeu-se que a proximidade dos corpos permitiu um pouco menos de liberdade de movimentação, mas ao mesmo tempo gerou uma aproximação e respeito pelo espaço do outro. O depoimento a seguir, reforça isso: “quando vi, que estava bem próxima da F....comecei a fazer meu movimento interligado ao dela, porque percebi que seria melhor para mim acompanhar seus movimentos e foi recíproco, porque se a gente se debatesse nos movimentos não conseguiríamos dividir quase o mesmo espaço.” Isso gerou uma satisfação nos participantes, devido também à sensação de estarem conectados uns aos outros. É o que mostra este relato: “adorei, essa sensação de estar conectada a alguém, mas ao mesmo tempo realizando meus movimentos de forma autônoma”; outro também: “ é como eu estivesse ligada à alguma coisa ,o que faço aqui reflete em alguém e vice-versa”.

Depois de explorar por 40 minutos essa fase da atividade, a professora solicitou que todos retornassem à posição inicial, instruindo: “façam o caminho inverso, ou seja, retornem pelo mesmo local que passaram para ficarem entrelaçados”. Alguns já não sabiam mais por onde tinham feito seu caminho, outros começaram a auxiliá-los até que todos ficaram na posição de início, em forma de corrente com o elástico na mão. Realmente, foi um trabalho de equipe e quando a atividade finalizou todos vibraram juntos, o objetivo foi alcançado com sucesso. Considerou-se, de acordo com o planejamento, a relação espaço-tempo pois, de acordo com Venâncio e Costa (2005, p.168) “cada corpo ao dançar, precisa saber do seu espaço e do seu tempo, como também do espaço e tempo do outro”, assim como perceber a importância das conexões, a relevância do elemento humano na comunicação para se atingir um objetivo em comum. Os depoimentos vão ao encontro dessa afirmação: “acho que essa atividade mostrou que se tivermos um objetivo em comum independente da distância conseguimos realizá-lo”; outro: “por mais que as tecnologias estejam avançadas, se não tiver o ser humano por trás, a comunicação não acontece”. Em consonância com essas afirmações, destaca-se o argumento de Pereira (2002, p.159)

corroborando o exposto: “O ser humano é um fator essencial à transmissão, comunicação, e essa peculiaridade deve ser relevada quando das decisões [...], devendo considerá-lo [...] como responsável para lidar com o conhecimento”.

Cabe ressaltar que a comunicação se deu por meio de um conhecimento tácito, pois à medida que os participantes iam se conectando, apenas seu corpo falava. Quanto a isso Sabbag (2007, p.177) destaca que:

Se o processo de comunicação for incongruente com as demandas geradas por este vinculo não haverá comunicação. Os conceitos tornam-se apenas abstrações deixam de ser úteis. Igualmente trato da comunicação de idéias convertidas em conceitos e esquemas mentais, onde predominam conhecimentos tácitos. Significa que o conteúdo da comunicação muito provavelmente carrega imagens, simbolismos ou representações difíceis de explicar. A conotação atribuída, as emoções exprimidas e a vivacidade transpiram juntamente com o conteúdo abordado.

Sendo assim, optar pelo corpo vivido não significa abandonar ou negar o ato de pensar, mesmo porque lembra Heidegger (1989, p.13):

Pensador é todo homem. Todos têm gosto pela revelação do mistério no desvelamento do não saber. A arte de pensar é dada por um modo extraordinário de sentir e escutar o silêncio do sentido, nos discursos das realizações. No pensamento não somos apenas enviados a remissões ou referências. Não está na semântica ou na sintaxe a originalidade do pensamento. Uma paixão do sentido toma posse de nosso ser e nos faz viajar por dentro do próprio movimento de referir, de remeter, de enviar.

Assim a comunicação corporal foi essencial para esse processo, em que conhecimentos implícitos foram construídos. Esses comentários foram realizados enquanto se relaxava com uma música de fundo (Simply Red-CD-F-9 / “If you don’t know me by now”).