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2.2 CONDICIONANTES DA CORRUPÇÃO 36 

2.2.6 DÉFICIT DE ACCOUNTABILITY E AGENCY LOSS 45 

No que se refere à corrupção, como em qualquer crime que envolva recursos, fazem-se cálculos para verificar-se a relação custo/benefício. O agente corrupto analisa os ganhos obtidos com tal ação, bem como os riscos implícitos na empreitada. Isso, na suposição de que os indivíduos são racionais e maximizadores. Nos referidos cálculos podem operar diversas variáveis que funcionam como sistemas de incentivo. Becker (1968) sugere que um efetivo sistema de punição funciona como instrumento de restrição ao comportamento corrupto, constituindo, portanto, uma variável impactante no cálculo do indivíduo. Quanto maior for a probabilidade de ser punido, ao tentar capturar recursos, menores serão as chances de ele adotar tal comportamento. Sob esse aspecto, o controle é fundamental.

Pode-se analisar esse comportamento a partir da teoria principal-agente. Essa teoria adota como pressuposto que algumas atividades, para serem desempenhadas devem ser delegadas. Para Przeworski (2001), a delegação é uma característica intrínseca da ação estatal. Um agente delega a outro a atividade que, inicialmente, era sua. Quem delega é denominado principal, enquanto o delegado é o agente.

Ocorre que, nessa relação, os interesses dos agentes podem conflitar com os dos principais, sendo estes últimos prejudicados pelas ações maximizadoras dos

agentes, caracterizando-se assim o problema principal-agente. Nessa relação, há o que a literatura denomina de agency loss, que seria o não atendimento adequado do principal pelo agente. Em outros termos, agency loss é a diferença entre o melhor, esperado pelo principal, e o que o agente, de fato, desempenhou. Não há, pois agency loss, quando os agentes desempenham ações que atendem plenamente à expectativa do principal (LUPIA, 2001).

A relação principal-agente é marcada por jogos sequenciais, influenciados pelo nível de informação, que ambos os jogadores detêm. Em geral, os agentes possuem mais informações sobre suas realizações do que os principais. A assimetria de informação pode fazer com que o principal tenha pouco poder de controle, em relação as ações do agente, que, por sua vez, sabedor da situação, tende a preferir beneficiar-se em detrimento do principal.

Quando um agente público aceita um suborno, para beneficiar um terceiro, quer evitando custos, quer gerando benefícios, em detrimento do erário, ocorre uma agency loss. Tal agente não responde, de modo satisfatório, às prerrogativas que lhe foram delegadas. Pelo contrário, causa prejuízo. Neste trabalho, considera-se corrupção a ação de um agente, público ou privado, que, em parceria com outros, quebra normas e captura recursos, para si ou para seu grupo da instituição de que recebeu delegação, para desempenhar atividades. Manifesta-se, no caso, um problema principal-agente. Corrupção, portanto, é um fenômeno em que, intrinsecamente, há agency loss, isto é, uma expressiva diferença entre a expectativa de satisfação de uma demanda e seu efetivo atendimento.

A agency loss está correlacionada com o nível de controle do principal sobre o agente, e esse nível é alterado, a depender da eficácia dos instrumentos de accountability, os quais podem exercer, no cálculo do agente, uma influência negativa, tornando mais custosa a ação. Para Myint (2000), accountability é um instrumento que induz os indivíduos a observarem as regras que devem seguir.

Kaufmann, Kraay e Mastruzzi (2008) apresentam um conjunto de indicadores que buscam medir o nível de governança, em mais de 200 países, mediante o Worldwide Governance Indicators (WGI). Dentre os indicadores que compõem o WGI, podem-se destacar, para testar a correlação entre Accountability e corrupção, os indicadores de Voice e Accountability, que se referem à liberdade de expressão,

associação e imprensa. Em tese, países que possuem instrumentos de contestação registram menor incidência de corrupção, visto que há neles maior controle social das ações. Confrontando-se os dados desta variável, para o ano de 2007, com os do Índice de Percepção da Corrupção (IPC), para o mesmo ano, verifica-se que, realmente, há uma forte correlação e bastante significante. Destaque-se, no WGI, o indicador de controle da corrupção, que se refere a instrumentos estatais de combate a tal prática.

Adsera et al. (2004) apresentam evidência de que o controle político dos funcionários públicos passa por dois fatores: eleição e nível de informação. Uma população bem informada teria condições de avaliar melhor seus políticos, premiando-os ou punindo-os, nas eleições.

Para Lederman, Loayza e Soares (2001), as instituições políticas possuem grande influência nos níveis de corrupção, operando, sobretudo, a partir de dois canais: mecanismos de accountability e estrutura de provisão de bens públicos. Instituições eficazes de controle, capazes de produzir punições a envolvidos com corrupção, são imprescindíveis para a diminuição dela. Sob esse aspecto, o agente opera a partir de um cálculo racional, no qual observa o valor utilidade de sua ação. Se o ato de pagar ou receber uma propina dificilmente é descoberto ou, quando é, não resulta em punição, muito provavelmente o ator, não havendo outras restrições, enveredará pelo ilícito. Se o contexto for outro, em que a possibilidade de ser descoberto e punido realmente estiver presente, o agente tenderá a ir no sentido oposto ao anterior. Mais confiáveis os mecanismos de accountability, menos numerosas as oportunidades de um indivíduo ser corrupto. Em relação à estrutura de provisões, os autores sugerem que o estado tem um papel preponderante, ao incentivar a competição no mercado, o que, segundo eles, reduziria as chances de um comportamento predador.

Para Van Rijckeghem e Weder (1997), o nível de corrupção está diretamente ligado aos sistemas de controle. Tem-se alta corrupção quando o controle interno é ineficaz e o controle externo insuficiente para reprimi-la. Em suma, a capacidade de punição influencia os níveis de corrupção (TANZI, 1998; VAN RIJCKEGHEM e WEDER, 1997; JAIN, 2001).