Sabendo que é do êxito das interações sociais que depende a fiabilidade dos dados (Cefaï, 2013) necessitava, pois, de me aproximar subtilmente das travestis na intenção de estabelecer relações pessoais de confiança. Os primeiros dias foram aqueles, cuja aproximação me pareceu uma tarefa árdua, se não mesmo, quase impossível. Se, com algumas travestis essa aproximação era facilitada com a distribuição de preservativos, onde depois aproveitava para dialogar sobre aspetos genéricos na intenção de surgirem temas de discussão; com outras sentia uma total impossibilidade em penetrar nas suas vidas, na medida em que elas expressavam, com atitudes, que não desejavam qualquer aproximação. Situações em que, por exemplo, agarravam nos preservativos e diziam «Obrigado. Agora tenho de ir trabalhar!», pondo- se em marcha, de imediato, para o outro lado da rua, faziam-me sentir que, de alguma forma, as estava a importunar e lembravam-me, recorrentemente, sobre as dificuldades que teria de enfrentar. Só mais tarde compreendi o significado de saber-esperar que Oliveira (2011a) apresenta na sua etnografia com prostitutas de rua. Estar na rua implica possuir disponibilidade total para aguardar, a seu tempo, pelos “outros”, o que nem sempre pode ir ao encontro das ansiedades de quem se encontra a investigar. Por isso, optei por realizar uma primeira aproximação às travestis que já apresentavam uma relação de confiança com a equipa de rua, esperando, das restantes, uma aceitação gradual.
Para esta aproximação, Cefaï (2013) recorda que o etnógrafo não deve estar demasiado próximo, nem demasiado longe, mas antes encontrar uma “distância adequada” do seu objeto de estudo. Por esta razão, tentei, ao longo de vários meses, num processo negocial demorado (nem sempre com garantia de sucesso), a aplicação de diferentes estratégias para que isso acontecesse. Desde logo tentei gerir a minha distância pessoal para não parecer demasiado frio (se me mantivesse em silêncio, somente a observar) ou demasiado invasivo (se apresentasse uma postura interrogativa). Decerto que ambas as situações seriam vistas pelas travestis com estranheza pela desadequação que, em si, revelariam. Procurei, assim, dotar-me de uma atitude empática, respeitar os seus sentimentos e mostrar-lhes ser sensível às suas experiências pessoais durante as entrevistas informais (Burgess, 2001 [1984], p. 112) que ia desenvolvendo com elas, no espaço de rua.122 Ao longo destas interações tentei, também, que a minha postura fosse de verdadeiro acolhimento e escuta ativa, mostrando-lhes interesse pelas suas vidas, sem nunca me centrar na valoração dos seus comportamentos sexuais, na atividade desempenhada ou na identidade/expressão de género demonstrada. Embora carregasse no meu pensamento uma lista de questões, para as quais pretendia obter resposta, tentei nunca realizar perguntas inconvenientes que
122 Este tipo de entrevistas são caraterizadas como sendo conversas agradáveis, de estrutura aberta, estabelecidas entre o investigador e as pessoas entrevistadas, com o objetivo de articular as experiências de vida que paulatinamente são reveladas, com o tema da investigação. Este tipo de entrevista tende a fornecer dados bastante ricos e pormenorizados.
pudessem, de alguma forma, melindrar a minha aproximação ao fazê-las sentir-se desconfortáveis com a sua resposta. Além disso, mostrei estar atento à possibilidade de, em determinados momentos, poder estar a perturbar a dinâmica do trabalho sexual.123
Estabelecer relações de confiança com as travestis implicou, necessariamente, o meu envolvimento no seu contexto através de uma presença nos espaços prostitucionais, como também nos bares, cafés, pensões e saunas do Conde, na tentativa de me misturar nesse mundo e, deste modo, não ser visto como um “estranho”. Todavia, nas observações que realizava a estes diferentes espaços, pretendia causar a menor perturbação possível (Burgess, 2001 [1984], p. 100). Para que isto acontecesse, a gestão da minha diferença de status revelou-se fundamental. Uma importante dimensão de controlo dessa diferença implicou uma alteração à forma de me apresentar junto delas e da sua realidade social (Peretz, 2000 [1998]). Durante o meu trabalho de campo tive a preocupação de me vestir num estilo simples e descontraído. O objetivo não se centrava unicamente na redução das diferenças entre mim e as travestis. Pretendia, também, a discrição por parte dos vizinhos, agentes comerciais, policiais ou simples transeuntes. Porém, mesmo com este esforço para não ser motivo de olhares externos, o simples facto de se estar junto delas, sentado nos bancos das paragens de autocarros ou nos parapeitos das lojas a conversar era, por si só, um fator de extrema curiosidade por todos aqueles que por ali passavam.
Enquanto ali estamos há carros que passam por nós e nos olham, uns de forma indiscreta, outros de soslaio, mas todos de forma profundamente curiosa e intrigante para tentar observar não só as travestis como, também, para descodificar a nossa presença junto delas. «Serão clientes? Vizinhos? Amigos? Quem, na
realidade, são e o que fazem junto delas?». Os olhares externos interrogativos de quem passa por aqui à
noite, faz recair sobre nós o estigma de ter, possivelmente, uma orientação sexual fora dos padrões socialmente aceites ou até uma qualquer “perversão sexual”. Nós, também somos alvo de constantes olhares e questionamentos, muitos deles, preconceituosos. [Diário de Campo, 26 de Outubro de 2012]
Uma outra dimensão implicou aprender a sua linguagem. Sabe-se que a utilização de gíria ou calão é um elemento caracterizador do mundo da prostituição (Costa & Alves, 2001; Luís, 2018; Santos, 2004). Este tipo de linguagem surge, muitas vezes, da necessidade de demarcação dos seus limites face ao mundo exterior. José Barra da Costa e Lurdes Barata Alves (2001, p. 107) acreditam que este código linguístico é usado para desempenhar duas funções: comunicativa e indicativa. Ou seja, por um lado serve para comunicar uma informação ao resto do grupo sem que indivíduos externos compreendam o seu significado, por outro lado, é um sinal de pertença a um determinado grupo. Uma vez que os portadores da gíria tendem a ser reconhecidos pelos outros utilizadores como “um dos nossos”, tentei dar especial atenção não só às frases e expressões idiomáticas utilizadas pelas travestis, como também às circunstâncias em que estas eram usadas na intenção de melhor compreender os seus significados e poder utilizar esse vocabulário nas conversas informais estabelecidas com elas (ver glossário no anexo
123 Em situações em que observava indivíduos a circular sistematicamente as ruas, a pé ou de carro, e que não poupavam olhares às travestis, compreendia que se tratavam de potenciais clientes interessados em efetuar o processo negocial, porém, viam-se impedidos devido à minha presença junto delas. Quando isso ocorria havia, da minha parte, um distanciamento imediato. «Bem,
vou desimpedir a loja!», dizia eu, em tom de brincadeira, antes de me despedir delas, indicando-lhes ser sensível a estes aspetos.
Mas muitas das vezes eram as próprias travestis que me solicitavam para não me afastar, «não há problema, eles gostam só de
ficar rodando. Não vá embora, não!», diziam, reclamando a minha presença junto delas na intenção de darem continuidade à
D).124 Caso contrário, eu poderia ficar excluído dos seus espaços de interação. Neste jogo de adequação pessoal, o meu objetivo sempre foi de estabelecer afinidades, pelo que nos diálogos com as travestis tive, também, de ajustar o meu próprio estilo de linguagem ao contexto onde me encontrava.125
Determinadas características físicas, sociais, culturais e técnicas do investigador também têm influência na condução do processo de recolha de informação (Burgess, 2001 [1984]; Cefaï, 2013; Firmino da Costa, 2014; Padgett, 1998a; Peretz, 2000 [1998]), podendo constituir-se tanto como uma via de acesso, como um obstáculo, impedindo ou possibilitando a realização do trabalho de campo. Neste caso, e considerando a temática do género em estudo, podia levantar-se dúvidas acerca da forma como o meu género poderia influenciar a aproximação e relação estabelecida com as travestis, bem como a fiabilidade dos dados que pretendia obter. Anteriores estudos etnográficos com pessoas trans (Saleiro, 2013, p. 119; Valentine, 2007, p. 5) confirmam ser difícil e, até mesmo, problemática a aproximação de investigadores homens cisgénero (tal como eu), junto de certas categorias de pessoas transgénero, nomeadamente, aquelas que expressam a feminilidade (nas quais se inclui a população travesti). Atendendo à ordem de dominação (Bourdieu, 1999) que estrutura as relações sociais entre géneros, o facto de ser homem e desejar estudar o fenómeno da prostituição travesti poderia implicar limitações ao tipo de relacionamento que pretendia desenvolver. Se, por um lado, poderia haver resistências por parte das travestis, por outro, sendo aceite, o quadro relacional poderia estar envolto numa “erotização da relação de pesquisa” (Coelho, 2009, p. 66). De todo o modo, as dificuldades de aproximação relacionadas com o meu género não se verificaram, porque a esta característica se juntou uma outra: a minha orientação sexual. À semelhança da investigação realizada por Kulick (2008 [1998]), assumir-me com um homem gay perante as travestis veio a revelar-se um elemento facilitador de todo o processo de investigação. Pouco tempo depois de estar integrado no terreno, as travestis interpelavam- me recorrentemente sobre a minha orientação sexual. Desejavam, a todo o custo, saber se seria ou não «bicha» como elas (tal como verbalizavam). Este questionamento a mim dirigido (outras vezes aos elementos da equipa) fazia-me sentir indubitavelmente desconfortável, sem saber o que dizer: contar, ou não, parte da minha vida privada? Mas compreendi que, ao procurar conceder visibilidade às travestis, eu próprio teria de me expor porque, de outra maneira, seria sempre olhado, por elas, como um “estranho”, um “desconhecido”; percebi que, em etnografia, os papéis de “observador” e “observado” facilmente se misturam. Como refere Neves (2004, p. 99), “para estabelecer relações de confiança, é importante que o etnógrafo seja capaz de se expor, de selecionar situações em que possa revelar a sua vulnerabilidade; caso contrário, estabelecerá uma relação de superioridade relativamente aos sujeitos em análise, reduzindo-os ao estatuto de meros objetos de pesquisa”. Curiosamente, o assumir abertamente a minha orientação sexual foi um fator de transformação e consolidação da relação
124 Dá-se conta que muitos dos termos utilizados pelas travestis eram de origem brasileira, onde, aliás, não estavam apenas restritos aos contextos prostitucionais, mas sim a contextos mais gerais, nomeadamente LGBT.
125 Tentei fazer uso de terminologias simples, mas percetíveis, para ter a certeza que era compreendido. A adoção de um outro tipo de postura poderia ser rapidamente interpretada como pretensiosa ou, até mesmo, arrogante, o que ameaçaria a tentativa de diminuir as diferenças entre mim e elas.
pessoal de confiança que, até então, vinha a desenvolver com elas. Lembro-me que, ao revelar esta dimensão da minha vida a uma travesti, ela abraçou-me com toda a força, visivelmente contente e emocionada, e segredou-me ao ouvido «afinal somos manas, né?». Pertencer à minoria LGBT era o ponto em comum que tinha com elas, o que possibilitou o acesso a narrativas que não seriam tão facilmente reveladas a outro tipo de investigadores.126 Esta ligação então estabelecida foi sendo reforçada através do desenvolvimento de pequenos gestos e comportamentos que me auxiliaram a estar mais próximo delas.127
À hora de iniciarmos as brigadas era habitual encontrá-las no «Café do Carlos», assim denominado por elas o estabelecimento comercial que servia de ponto de encontro entre as travestis. Sentado junto delas aproveitava, também, para me inteirar sobre todas as novidades. Durante estes momentos, havia sempre uma ou outra que acabava, em confidência, por me partilhar as suas angústias e preocupações. Em troca, por as escutar atentamente, faziam questão de me pagar qualquer coisa. «Um café, não? Uma bebida, vá lá! Eu pago-te uma bebida! Senhor Carlos, é um whisky para ele!», referiam, mostrando a sua simpatia. Na maior parte das vezes rejeitava a oferta, desculpando-me por não estar habituado a beber cafés à noite ou a ingerir bebidas alcoólicas. Mas, como é evidente, houve situações em que acabei por abrir algumas exceções. Nos diálogos estabelecidos, embora nunca tivesse havido um explícito compromisso verbal de confidencialidade, elas sabiam-no, por observação do meu comportamento, que a informação que ia sendo partilhada no Café do Carlos ou durante as brigadas não era transmitida posteriormente a outras travestis ou pessoas externas ao Conde. Por isso, fui sendo reconhecido como “alguém de confiança” a quem poderiam contar o que quer que fosse, sem receios do que poderia pensar ou fazer com essa informação. O facto de algumas saberem que era assistente social contribuiu, também, para a minha transformação numa espécie de confidente. Verbalizavam-me não só os seus problemas pessoais, como ainda solicitavam ajuda na sua resolução. As travestis impunham-me evidentemente escolhas quanto ao meu comportamento: poderia desempenhar somente o papel de observador sem participar na sua realidade social? Como refere Françoise Laplantine (2004 [1996], p. 24) “não existe etnografia sem confiança mútua e sem intercâmbio”. Também António Firmino da Costa (2014, p. 145) afirma que “no decurso do relacionamento social inerente ao processo de pesquisa de terreno, se estabelecem um regime de trocas, as quais podem incidir sobre variadíssimos e por vezes muito subtis aspetos da vida social”. Por isso, acabei por participar, em diferentes graus, na vida das travestis. Nas situações de maior vulnerabilidade ajudei-as a procurar alternativas habitacionais, respostas emergentes de âmbito alimentar ou a aceder a prestações sociais por razões de fragilidade
126 Também, na experiência de Kulick (2008 [1998], p. 33-34) esta característica possibilitou-lhe o acesso a dimensões da vida travesti que não se encontravam descritas em outros estudos desenvolvidos, até então. Mas, obviamente, tal não significa que somente um homem gay consegue realizar, com sucesso, um trabalho de campo com as travestis.
127 Em exemplo, aproveitei para lhes enviar sms ou telefonar em datas festivas, como o Natal, a passagem de ano ou no dia do seu aniversário. Cheguei, também, à semelhança do que aconteceu no estudo de Oliveira (2011a), a oferecer-lhes pequenas lembranças, como doces ou chocolates, distribuídos por todas elas durante as brigadas. Estas e outras ações, mais do que estratégias, eram sinal de verdadeiro apreço e carinho que ia manifestando por elas à medida que gradualmente as ia conhecendo.
económica. Apoiei-as, também, em termos de saúde, com o esclarecimento de informação relativa a horários, localização e contacto de espaços para testagem do VIH/Sida; procedimentos para acompanhamento nas consultas de sexologia clínica ou relativos à mudança de nome próprio e sexo na Conservatória do Registo Civil. Acompanhei-as, ainda, às urgências hospitalares e visitei-as quando, por motivos de doença, ficaram internadas. Dispus-me, também, a esclarecer-lhes informação de conteúdo jurídico-legal sobre o enquadramento da concessão de autorização de residência permanente, da nacionalidade portuguesa, da união civil/divórcio ou do regime de execução de penas e medidas privativas da liberdade. Muitas destas atividades resultaram em marcação de consultas e encaminhamentos para estruturas de apoio social, médico ou jurídico de âmbito nacional ou internacional. Neste sentido tive de desenvolver processos de mediação recorrendo a contactos pertencentes às minhas relações profissionais, na maior parte das vezes, realizados com o meu telefone pessoal e, nalguns casos, as deslocações a essas estruturas foram efetuadas no meu próprio carro.
Eloise Dunlap e Bruce Johnson (1999) acreditam que esta dimensão de “troca” é inerente à vida de qualquer etnógrafo, na medida em que cada uma das partes apresenta recursos diferentes para oferecer. E estes recursos fornecem a base para uma reciprocidade interpessoal. Coelho (2009, p. 56) também afirma que “a prática etnográfica é devedora da cooperação que se estabelece entre pesquisador e informantes, em certa medida esta cooperação implica uma relação relativamente instrumentalizada. Aqueles que tomamos como sujeitos das nossas pesquisas sabem usar e interpretar os meios, as competências, os recursos que cada investigador pode ter à sua disposição”. Por isso, nesta investigação eu acabei por partilhar as minhas competências técnicas, os meus bens (telemóvel e carro), o meu tempo pessoal e, inclusive, algumas despesas associadas à construção e manutenção do relacionamento (p. ex. comida e refeições conjuntas). Todos estes atos de cooperação permitiram-me reforçar as relações e encurtar as distâncias entre mim e as travestis. Só depois de longos meses no terreno, quando pela primeira vez fui convidado a jantar na casa de uma delas, comecei a ter maior consciência que o meu papel se tinha distanciado do inicialmente centrado na distribuição de preservativos. Observei que as relações cordiais que antigamente estabelecia, eram agora intensas de afinidades. Sentia que as travestis nutriam por mim verdadeiros sentimentos de afeição, razão pela qual não só faziam questão de me mostrar que estavam chateadas quando me detinha a conversar por mais tempo com uma outra travesti na rua, como também, faziam questão de me incluir nas suas vidas.128 Eu sentia-me tremendamente acarinhado por estes convites. E com a sua aceitação, tive a possibilidade de conhecer os seus amigos, namorados, familiares, as redes de suporte e de sociabilidade. Eu tinha, por fim, conseguido entrar nos seus circuitos privados e pertencer ao seu “mundo”, pelo que já não era visto como “um de fora”. Constantemente elas faziam-me sentir “lá de dentro", como se eu tivesse sempre aqui pertencido. Embora tivesse tentado realizar um esforço para cumprir algumas recomendações dos manuais de metodologia para me tornar nativo, aprendi que as travestis não esperavam que eu fosse semelhante a
128 Convidando-me, por exemplo, a ir aos seus espaços domésticos, a estar presente nas suas comemorações de aniversário, casamento ou ir assistir aos seus shows de transformismo realizados em diferentes bares e discotecas de Lisboa.
elas. Elas mostravam-se interessadas em mim precisamente porque eu era, de certo modo, “diferente” ao apresentar particularidades únicas no meu modo de agir, bastando o meu interesse genuíno por elas.129
Através do desenvolvimento de relações de confiança pude, numa fase posterior, recolher informações complementares, acedendo às vozes das travestis pela sua disponibilização à realização de entrevistas individuais. Importa referir, no entanto, que para chegar a esta fase foi necessário passar não só por inúmeras dúvidas e hesitações, como também por dificuldades e riscos. Sabe-se que o trabalho sexual é uma área emocionalmente sensível para se investigar (Sanders, 2006). E “estar na rua, à noite, num local de prostituição é completamente diferente de estar num gabinete, num laboratório, numa sala de aula ou em qualquer outro contexto (mais protegido) onde se possam aplicar instrumentos de avaliação” (Oliveira, 2011a, p. 37). Especialmente, pesquisas que envolvem metodologias etnográficas implicam uma relação intensa com o terreno. A relação estabelecida revelou, em alguns momentos, ser bastante difícil e hostil, tendo vivido momentos desconfortáveis que, de alguma forma, ameaçaram: (i) o meu bem-estar, nomeadamente quando era interpelado por curiosos transeuntes que se encontravam alcoolizados, tendo eu que os ouvir e suportá-los, sem que às vezes tivesse a mínima vontade para fazê- lo; ou quando me confrontava com condições climatéricas adversas, como chuva intensa ou frio gélido das madrugadas de inverno; (ii) a minha saúde, pelo contacto direto com pessoas utilizadoras de drogas, portadoras de VIH e hepatites, e (iii) a minha segurança pessoal, pela ocorrência de diversos incidentes que envolveram violência física e verbal, intimidações, ameaças e injúrias. Desde logo, alguns destes riscos são esperados quando se decide realizar uma etnografia com populações que se encontram socialmente marginalizadas (Neves, 2004; Sanders, 2006).130 No entanto, os custos emocionais (Melrose, 2002; Padgett, 1998a) inerentes ao trabalho de terreno são, muitas vezes, desconhecidos quando a investigação é iniciada. E, por isso, a intensidade de algumas das experiências tornaram a pesquisa emocionalmente desgastante.