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O S C ONTEXTOS S OCIAIS DE O RIGEM DAS T RAVESTIS

O género e a sexualidade constroem-se, como vimos, através de diferentes relações de poder, pelo que estas dimensões necessitam de ser enquadradas juntamente com as condições e os modos de vida que formam, moldam e constroem os sujeitos para os compreendermos. Para uma análise da construção da experiência e identidade de género das travestis tornou-se, pois, necessário conhecer e articular diferentes aspetos presentes na sua trajetória de vida. Na minha perspetiva, não seria possível produzir um conhecimento sobre elas se, porventura, desconsiderasse o seu contexto social, cultural, económico e familiar, na medida em que estes contextos se revelam elementos importantes para a construção e desenvolvimento do sentimento de si. Se este sentimento é um produto social, significa que as identidades – de género e sexuais – são, também elas, resultado de diversas ações sociais desenvolvidas em diferentes contextos. Esta leitura sugere que a construção da identidade travesti é fruto, entre vários aspetos, da sua integração em determinada realidade, nomeadamente, em termos de classe social e das condições materiais e afetivas nela existentes.

Embora reconhecendo que tentar traçar uma história de vida comum às travestis poderá promover indevidamente generalizações, na medida em que existem diferenças nas suas experiências de vida, constatei, à semelhança do que foi observado em outros estudos,163 que identidade travesti começou a ser forjada no âmbito de uma classe social popular e, por tal, o «virar travesti» encontrava-se em estreita relação com a sua condição de classe. Utilizando de empréstimo as palavras de Guilherme Ferreira (2015, p. 48), não digo “que a identidade travesti é generalizadamente um produto da pobreza, ou que a pobreza define uma identidade de género como essa. Mas é possível sim dizer que entre todas as determinações que se refletem na construção das identidades culturais dos sujeitos, a classe social – e, portanto, o contexto socioeconómico – possui também centralidade”. A pobreza não é somente relativa às privações das necessidades básicas. Como refere Alfredo Bruto da Costa (2007), está também relacionada com a fragilidade de aceder a serviços, a direitos, a oportunidades e possibilidades de participação na vida social e política, acesso esse que se encontra inscrito num sistema de relações sociais desiguais. Por isso, afirmo que o conjunto das experiências de pobreza vividas pelas travestis foram centrais para a construção não só da sua identidade como também de toda a sua trajetória pessoal.

Durante a infância e adolescência, as travestis viveram, geograficamente, em comunidades afastadas das grandes cidades, ou quando dentro destas, residiam em territórios periféricos,

163 Por exemplo, em Becerra (2009), Diehl (2009), Fernández (2004), Garcia (2007), Kulick (1997, 2008 [1998]), Kulick e Klein (2010), Luís (2018), Pelúcio (2007a), Santos (2012) e Saleiro (2013).

estigmatizados e socialmente vulneráveis. As condições de habitabilidade eram, na maior parte das vezes, precárias, constituídas por habitações sociais, habitações de construção clandestina e, também, habitações não convencionais.164 Confirma Ivone «a nossa casa era muito velha, tínhamos umas tábuas na parte de cima da casa-de-banho, em cima tínhamos uma almofada para dois irmãos se deitarem». Na origem desta conjuntura encontrava-se a família que não dispunha de meios para aceder a um alojamento dentro dos padrões clássicos, em virtude da pouca (ou nenhuma) escolarização, com consequências ao nível do desempenho de atividades laborais não qualificadas (de segmentos do trabalho doméstico ou manual), geralmente, precárias e mal remuneradas. As mães, quando não se encontravam inseridas no espaço do lar, trabalhavam fora dele como empregadas de limpeza, operárias fabris, floristas ou comerciantes. Algumas delas chegaram, inclusive, a trabalhar na indústria do sexo como prostitutas ou alternadeiras. Já os pais, ao assumirem o papel de garantir a subsistência familiar, desempenhavam uma maior diversidade de atividades, trabalhando como motoristas, serventes de construção civil, agricultores, vinicultores, ajudantes de carga de transportes fluviais ou outras atividades tidas como “masculinas”. Na grande parte dos casos, o sistema familiar era constituído por um grande número de elementos, variável entre cinco a 12, formando «uma família grande», tal como me expressou Carole. Deste modo, as famílias, mesmo que desejassem, eram incapazes de providenciar as condições económicas favoráveis para o bem-estar de todos eles. Com efeito, a infância e a juventude das travestis foi vivida com muitas dificuldades económicas e materiais. Algumas foram sujeitas a situações de privação alimentar, incluindo Alessandra. Disse-me ela «eu já comi muito resto, eu já comi abóbora pura porque a minha mãe não tinha nada para comer». Rebeca é outra travesti que afirmou o mesmo. «[Foi] uma infância muito complicada, mesmo. Nove filhos, a passarem fome, andar ao lixo, catar lixo para vender». De facto, os seus contextos sociais de origem foram severamente marcados pela miséria, a pobreza extrema e a vulnerabilidade. Confrontadas com estas adversidades, as travestis sentiam necessidade de fazer uso de estratégias pessoais que visavam a sua sobrevivência. Algumas, ainda crianças, viram-se obrigadas a integrar o mercado laboral na intenção de obterem recursos financeiros extrafamiliar para suprimirem carências diversas. Outras, que não trabalhavam, dependiam largamente da ajuda das redes de suporte social que apresentavam. Eram, por norma, os vizinhos ou as entidades patronais das suas figuras parentais que, movidos por caridade, as auxiliavam com bens alimentares, roupa e material escolar ou, nos dias festivos, com brinquedos. «Cresci a depender dos vizinhos, a bater, quase todos os dias, à porta de alguém, a pedir qualquer coisa [...]. Sabia que tinha de pedir porque tinha necessidade de pedir», disse-me Rebeca.

Mas se a privação económica constituiu a espinha dorsal da trajetória de vida de muitas travestis, outras experienciaram tão fortemente o abandono, a negligência e a desvinculação afetiva por parte dos pais biológicos que as mesmas tiveram de ser afastadas desses elementos e serem integradas junto de

164 Alessandra, uma das travestis entrevistadas, confidenciou-me que, até aos seus 10 anos de idade viveu, conjuntamente com a mãe, num balneário de um campo de futebol que se encontrava desativado, não apresentando infraestruturas básicas (esgotos, água e eletricidade).

outros familiares (geralmente avós e tias), vizinhas ou em instituições sociais, onde aí viveram a infância e adolescência.

A minha mãe abandonou-me dentro do carro do namorado da minha tia paterna com dois meses de idade. Fui criado com a minha avó até aos 18. [Dalila]

Fui abandonada com dois meses, fui para um orfanato, mas não era um orfanato do Estado, era tipo uma casa com três senhoras, que pronto, aceitavam as crianças lá do bairro que não tinham ninguém [...] eu fui abandonada num caixote do lixo. É a história que me contaram. E elas encontraram-me e eu fiquei lá [em casa]. Mas como não tinham condições, era uma casa de madeira, eu dormia em cima de papelão e uns cobertores sem almofadas, porque elas eram muito humildes, eram muito pobrezinhas [Fabiana]

Eu, até ao aos nove anos, tive com a minha mãe. Depois fui para uma instituição [...]. Quando estava com a minha mãe eu não andava à escola, a minha mãe tinha problemas com o álcool, depois trabalhava naquela vida [prostituição]. Sei lá... andava até muito tarde na rua, sempre na vadiagem. E depois olha... há sempre alguém que diz alguma coisa, os vizinhos fazem queixas, vêm que não estamos nas melhores condições. [Liliana]

Embora, na sequência do afastamento da família nuclear, estes “novos” contextos tentassem prover as necessidades básicas e assegurar um ambiente minimamente protetor (nem sempre conseguido), foi o sentimento de terem sido rejeitadas, abandonadas, não desejadas que marcou grandemente a sua trajetória de vida.