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3. Abordagem metodológica

3.1. Survey: fundamentos teóricos e aplicação

3.1.3. Da aplicação dos inquéritos por questionário

Como referido anteriormente, os inquéritos por questionário foram distribuídos, primeiramente, na Consulta Externa de Obstetrícia do CHSJ, no dia 13 de Março. A 18 de Abril de 2013, apenas tinham sido preenchidos trinta e quatro. Por esta amostra, conseguimos extrapolar que o nosso cronograma de operações não poderia ser, de todo,

cumprido (cf. Tabela 8), já que esperávamos a receção de trezentos inquéritos por questionário. Tal não aconteceu, tendo rececionado, apenas, 178 inquéritos por questionário válidos.

Quanto à USF de S. João, onde havia sido previamente acordado que o preenchimento dos inquéritos por questionário ocorreria no período compreendido entre 8 e 19 de Abril, também se deu um atraso, pelo que, à data de 7 de Maio, ainda não havíamos recebido qualquer retorno. Foi-nos comunicado que, para além de a disponibilidade demonstrada pelas gestantes para o preenchimento não ter sido muito elevada, a afluência àquele estabelecimento tinha sido diminuta, ao ponto de não existir, sequer, qualquer consulta de puerpério agendada. Mais uma vez, estávamos em situação de incumprimento, face ao calendário proposto (cf. Tabela 8).

A situação tornou-se de tal modo irremediável, que, a 9 de Outubro de 2013, com apenas 11 inquéritos preenchidos, optámos por desistir de estudar o caso da USF vertente, tendo sido esta decisão comunicada à direção, na mesma data.

Tabela 8: Vista parcial do cronograma de operações realizado para o Projeto de Tese (elaboração própria)

Cremos que estes atrasos e dificuldades estarão diretamente ligados ao decréscimo da natalidade. De acordo com o Relatório da Direcção-Geral da Saúde (DGS) “Natalidade, Mortalidade Infantil, Fetal e Perinatal - 2007/2011” (DGS, 2012), em Portugal observou-se um decréscimo da taxa de natalidade para 9,2/1000 habitantes, correspondendo a mesma a uma diminuição de cerca de 4534 nados vivos em 2011, face aos valores do ano anterior (cf. Gráfico 3).

Gráfico 3: Taxas de natalidade, mortalidade infantil, fetal e perinatal, 2000-2011(DGS, 2012) Também num relatório da OCDE (OCDE, 2011) podemos constatar que Portugal é o segundo país com a taxa de natalidade mais baixa, logo atrás da Coreia do Sul, com uma média de 1,32 filhos por mulher, em 2009, em contraste com a média de 1,74 filhos por mulher, nos 31 países da OCDE. De facto, os nascimentos têm diminuído nos últimos quarenta anos, de uma média de 2,2 filhos por mulher em idade fértil, em 1970, contra uma média atual de 1,7 filhos. Todavia, Portugal não foi capaz de travar a quebra da natalidade, ao contrário de metade dos países da OCDE. Em terreno luso, mais de 30% das mulheres têm apenas um filho. Já em França, Suécia, Polónia, ou até nos Estados Unidos, o mesmo número de mulheres possui 3 ou mais filhos (OCDE, 2011). Assim, a queda da taxa de natalidade casada com o aumento do número de casais sem filhos levou a uma realidade de 20% das mulheres com idades entre os 25 e os 49 anos a viverem em lares sem crianças (OCDE, 2011).

Cremos, pois, que estes dados se tornam muito relevantes para a interpretação do facto de os nossos inquéritos por questionário terem demorado bastante mais tempo a serem preenchidos do que o expectável. A verdade é que a afluência de grávidas aos hospitais e centros de saúde é cada vez menor, face à diminuição do número de nascimentos em Portugal.

Ainda mais recentemente, o Instituto de Registos e Notariado (IRN) publicou o número de registos contabilizados até 8 de Maio de 2013, dando conta de uma diminuição de 3961

registos de recém-nascidos no primeiro quadrimestre desse ano24, classificando-o assim do pior ano demográfico de sempre. Foram, então, contabilizados 27412 registos de bebés, em Portugal, o que se traduz numa redução de 3961, relativamente ao ano anterior. “A este ritmo brutal de descida de nascimentos, em menos de oito anos não nasceriam bebés em Portugal” (Vaz, 2013). Comparativamente a 1980, verifica-se um decréscimo dos nascimentos na ordem dos 50% (IRN, 2013).

Segundo Laura Vilarinho, responsável pela Unidade de Rastreio Neonatal do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, “a diminuição de nascimentos começou a acelerar a partir do segundo semestre de 2011” (Vaz, 2013). Já em 2009, o Instituto Nacional de Estatística (INE), no seu estudo “Projeção da população residente em Portugal 2008-2060” (INE, 2009), avançava como cenário mais pessimista, para 2013, um índice de fecundidade de 1,3, ou seja uma média de 1,3 filhos por mulher, em idade fértil (cf. Gráfico 4 e Tabela 9). Contudo, este cenário pode até já ter sido ultrapassado, encontrando-se agora nos 1.2 (Vaz, 2013).

Gráfico 4: Índice sintético de fecundidade, Portugal, 1980-2060 (valores estimados e projetados) (INE, 2009)

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Tabela 9: Indicadores demográficos por hipóteses de evolução, 2008-2060 (INE, 2009)

Em termos regionais, o Norte surge como uma das principais zonas de diminuição dos nascimentos. Todavia, segundo o último relatório da Organização Save The Children25, Portugal é um dos melhores países para se ser mãe, ocupando o 13.º lugar, de entre 176 países (cf. Tabela 10). Os critérios da classificação passam pelas taxas de mortalidade infantil, pelos riscos corridos pela mãe, em termos da sua saúde, pelo nível de educação, pelo salário médio auferido e pela participação feminina em órgãos governamentais (SavetheChildren, 2013).

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Tabela 10: Ranking State of the World’s Mothers 2013 (SavetheChildren, 2013, p. 69)

Ora, apesar do supramencionado, no que toca à falta de dados de que ainda dispúnhamos neste etapa do trabalho, deu-se a feliz coincidência de, no âmbito da Unidade Curricular de Projeto, da Licenciatura em Novas Tecnologias da Comunicação da Universidade de Aveiro, existir, no ano letivo de 12/13, um perfil aberto na área da

"Comunicação e Saúde". Trata-se de uma Unidade Curricular de fim de curso, na qual os alunos desenvolvem, especificam, prototipam, validam e produzem projetos de cariz tecnológico (portais web, aplicações para mobile, jogos digitais, instalações, vídeos, etc..). Neste perfil específico explora-se o potencial das tecnologias na área da saúde, podendo ser acolhidos projetos que visem o desenvolvimento de aplicações em áreas como o apoio e/ou prestação de cuidados de saúde; a gestão de processos clínicos; a gestão da doença (crónica, aguda, raras); e ainda o apoio a cidadãos com necessidades especiais.

Neste contexto, um grupo de alunos desta unidade selecionou um projeto por nós proposto que permitiu avançar numa nova frente do trabalho, de forma paralela com a inevitável espera pela receção dos inquéritos preenchidos. O projeto proposto visava o desenvolvimento de uma aplicação web que permitisse, por um lado, a agregação de informação credível e contextualizada com o perfil de cada grávida e, por outro, o estabelecimento de interações com diferentes agentes, assegurando que a informação agregada e as interações estabelecidas possam apoiar as tomadas de decisão das grávidas (ex.: interrupção de gravidez, realização de exames invasivos, criopreservação, regime alimentar, prática de exercício físico, etc.). A aplicação deveria ainda apresentar uma representação visual que permitisse ilustrar as fontes (sites, fóruns, etc.) visitadas por cada grávida e as interações aí estabelecidas.

O projeto supra descrito passou a designar-se “All aboard”

(http://allaboard.web.ua.pt/), sendo o principal objetivo da plataforma o de apoiar o utilizador nos processos de tomada de decisão envolvidos na gravidez, fornecendo-lhe uma ferramenta facilitadora do acesso à informação. Para além da grávida, a qual será distinguida como “Grávida de primeira viagem” e “Grávida viajada” (no caso de já ter tido gestações anteriores), existem outros perfis disponíveis, como “Em treinos”, “Acompanhante” e “Curioso”. Há ainda a possibilidade de se criarem laços entre os utilizadores, com a figura da “Madrinha” e do “Padrinhos”, que terão o papel de conselheiros experientes.

As funcionalidades são diversas e distintas, passando, por exemplo, por um diário pessoal, no qual o utilizador poderá fazer os seus próprios apontamentos, desde o momento do planeamento da gravidez até à fase puerperal. Estas notas poderão ser partilhadas com outros utilizadores, o que aponta para a natureza de interatividade desta plataforma.

O fator inovação desta plataforma prende-se com a possibilidade que oferece de pesquisa de outras fontes, contendo múltiplos temas relacionados com a gravidez. A organização destas fontes refletirá o número de visitas dos utilizadores já registados na plataforma. Este projeto configura, pois, um repositório de informação sobre a temática da gravidez, disponibilizando uma elencagem dos websites mais visitados pelos utilizadores, organizada por assuntos (alimentação; exercício físico; etapas de gestação; nomes do bebé; problemas e patologias; local do parto; criopreservação; rastreio; plano de parto; tipo de parto; escolha do profissional de saúde; medicação passível de ser tomada durante a gravidez; cuidados com o corpo; alterações emocionais; sexo durante a gravidez e

infertilidade). Ora, esta funcionalidade permitirá ao utilizador pesquisar num único website toda a informação que deseje sobre o assunto em apreço, permitindo-lhe, desta forma, tomar as suas decisões, baseadas em informação disponibilizada na Internet e em conhecimentos partilhados.

Este projeto serviu, sobretudo, para nos dotar de uma maior sensibilidade para a análise de conteúdo da comunidade online “Rede Mãe”. Estando munidos do conhecimento de uma plataforma deste tipo, do lado dos concetores, tornou-se mais fácil a perceção das necessidades e formas de atuação dos utilizadores.