De acordo com o que foi relatado anteriormente, há um déficit enorme com relação aos defensores públicos no Brasil, e ainda, podemos verificar que não são todas as Comarcas brasileiras que são atendidas por este órgão, o tema deste trabalho tem como foco o Estado de Santa Catarina, mas, é importante comentarmos a respeito dessa ausência em todo o território nacional.
Rodrigues (2014, p. 1) destaca que, em que pese ser a defensoria pública
[...] um órgão criado para extirpar as barreiras que impedem aquelas pessoas que não possuem recursos financeiros de acionar o Judiciário em busca de seu direito, verifica-se, no entanto que, em grande parte das comarcas brasileiras este órgão ainda não foi implementado.
O mesmo autor expõe que a ausência deste órgão que é essencial à justiça, resulta em obstrução ao acesso à justiça das pessoas necessitadas que não têm condições financeira para contratar um advogado particular (RODRIGUES, 2014, p. 1).
Cabe ressaltar ainda que, em 2014 através da Emenda Constitucional n. 80, acrescentou-se o art. 98 ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, conforme transcrito abaixo:
Art. 98. O número de defensores públicos na unidade jurisdicional será proporcional à efetiva demanda pelo serviço da Defensoria Pública e à respectiva população. § 1º No prazo de 8 (oito) anos, a União, os Estados e o Distrito Federal deverão contar com defensores públicos em todas as unidades jurisdicionais, observado o disposto no caput deste artigo.
§ 2º Durante o decurso do prazo previsto no § 1º deste artigo, a lotação dos defensores públicos ocorrerá, prioritariamente, atendendo as regiões com maiores índices de exclusão social e adensamento populacional (BRASIL, ADCT, 2019). A ausência de defensoria obstrui o acesso à justiça de muitos cidadãos, mais grave que a ausência do órgão, foi uma situação que ocorreu na Comarca de São Joaquim no estado de Santa Catarina, no ano de 2016, conforme trecho do julgado transcrito abaixo:
[...] não é possível, neste momento, nomear defensor dativo para atuar no feito, considerando que, através da "carta de posicionamento" emitida pela OAB/SC Subseção de São Joaquim, datada de 22 de agosto de 2016, este Juízo tomou conhecimento que os seus integrantes não mais prestarão serviços de Assistência Judiciária Gratuita e Defensoria Dativa, estando sujeitos, inclusive, a responder administrativamente, em caso de desobediência ao que foi deliberado.
A situação, que já era difícil pelo ínfimo número de advogados que atendiam às nomeações deste Juízo, tornou-se, agora, insustentável, pois se tem notícia que apenas um dos advogados desta cidade as aceita. Não se sabe, porém, até quando! A nomeação de advogados de outras cidades, que, em alguns casos, aceitaram aquelas feitas por este Juízo, é um risco, porque se, a qualquer tempo, justificando a distância para atender aos feitos, postularem seus afastamentos dos processos, trarão enorme prejuízo às atividades da Comarca, já flagelada pelo número extraordinariamente insuficiente de funcionários e Oficiais de Justiça. [...] (SANTA CATARINA, TJSC, 2018).
No caso do referido julgado, a Comarca de São Joaquim não possuía Defensoria Pública, e o acesso à justiça era possibilitado através de advogados particulares que se disponibilizam a prestar a assistência judiciária gratuita e a defensoria dativa aos mais necessitados, porém, em agosto de 2016 a OAB/SC emitiu uma nota de posicionamento determinando que a partir desta data, os advogados não estavam mais autorizados a prestar esse serviço. Com isso, a Comarca ficou impossibilitada de prestar o efetivo acesso à justiça.
A solução encontrada pelos Desembargadores neste caso, foi determinar a suspensão do processo até que a Defensoria Pública atuasse na Comarca, e óbvio que, determinaram a implantação da mesma com urgência (SANTA CATARINA, TJSC, 2018).
Abrantes (2017, p. 1) descreve em sua reportagem que no nosso país, há “um defensor púbico para cada 967,6 mil habitantes”, segundo um levantamento feito pelo Colégio Nacional de Defensores Públicos-Gerais, havia na época 5.873 defensores públicos em todo o território brasileiro.
Dal Piva (2017, p. 1) destaca que,
apesar de garantida pelo artigo 134 da Constituição federal de 1988, o direito à assistência jurídica gratuita no Brasil ainda é, em certa medida, cerceado à população carente. Essa deficiência ocorre porque, embora a garantia esteja determinada no papel, a falta de defensores públicos, especialmente no interior, não permite efetivo acesso da população ao poder Judiciário ou mesmo à defesa.
Em decorrência desta situação de ausência da Defensoria Pública em muitas comarcas brasileiras, por anos a jurisprudência vem enfrentando este problema habitualmente
e para solucioná-lo, tem determinado que o referido órgão seja criado o mais rápido possível, conforme exemplo dos julgados abaixo:
AÇÃO CIVIL PÚBLICA. PRETENSÃO: INSTALAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO EM IMPERATRIZ (MA). DEFESA DOS NECESSITADOS EM SENTIDO AMPLO NÃO REALIZADA. GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO À JURISDIÇÃO E À ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA NÃO IMPLEMENTADAS. NECESSIDADE DE EFETIVAÇÃO. DETERMINAÇÃO DE IMPLANTAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO. VIABILIDADE. 1. A defensoria pública é órgão essencial à atividade jurisdicional do Estado, nos termos do art. 134 da Constituição. 2. O direito à jurisdição e o direito à assistência judiciária integral e gratuita são direitos fundamentais. Os pobres não podem ser privados de acionar a justiça e de ser defendidos pelo órgão constitucionalmente encarregado para tal, em razão da falta de instalação da defensoria pública da União em determinado município, sede de vara federal. 3. Apelação parcialmente provida. Demanda julgada parcialmente procedente para que seja reservado um cargo no futuro concurso da defensoria pública da União para lotação no município de Imperatriz-MA, instalando lá sua unidade administrativa. Precedente: AC 200637020018383/MA, rel. orig. desembargador Fagundes de Deus, rel. para acórdão juiz convocado Gláucio Maciel Gonçalves, 5ª T., maioria, DJ-2/12/2011, p. 213 (BRASIL, TRF-1, 2013).
Além das comarcas nas quais inexiste defensoria, há ainda, aquelas que apesar de a possuírem, não conseguem atingir a efetividade do acesso à justiça devido ao baixo número de defensores e aos poucos recursos que o órgão possui.
Portanto, é incontestável a carência do órgão em diversos cantos do país, e verificamos que a determinação de implantação já ocorreu, e até o presente não foi cumprida totalmente. Esperamos que muito em breve, todas as comarcas do Brasil possuam a Defensoria Pública para que assim, todos a população, em especial, os mais necessitados, possam usufruir dos benefícios deste órgão, para que o acesso à justiça seja efetivo.
4.3 DO OFERECIMENTO DO ACESSO À JUSTIÇA QUANDO INEXISTE