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O acesso à justiça nas comarcas que não possuem Defensoria Pública no estado de Santa Catarina

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA AMANDA LAZIELE DA SILVA DIAS DOS SANTOS

O ACESSO À JUSTIÇA NAS COMARCAS QUE NÃO POSSUEM DEFENSORIA PÚBLICA NO ESTADO DE SANTA CATARINA

Araranguá 2019

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O ACESSO À JUSTIÇA NAS COMARCAS QUE NÃO POSSUEM DEFENSORIA PÚBLICA NO ESTADO DE SANTA CATARINA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Nádila da Silva Hassan, Esp.

Araranguá 2019

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Dedico este trabalho ao meu marido Élton, por toda paciência e compreensão durante esses anos, e ao meu filho amado Gabriel, amo vocês! Todo o meu esforço e dedicação é pensando no nosso futuro.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, pois sem a fé Nele, nada seria possível.

Ao meu amado marido Élton, pela compreensão e apoio durante a graduação e principalmente, nesta etapa de conclusão do curso.

Ao meu pequeno “batatinha”, meu filho Gabriel, que apesar de tão novo, compreendia bem quando a mamãe não conseguia lhe dar toda atenção merecida.

À minha família pela compreensão quando da minha ausência nesta etapa e em muitas outras durante o curso de Direito, pois muitas vezes me ausentei para focar nos estudos. Em especial, meus agradecimentos aos meus sogros Beatriz e Antônio por todo o apoio que me forneceram, e por toda a ajuda com o pequeno Gabriel.

Aos meus pais Anito e Angelita e meus segundos pais Tio Cláudio e Tia Anita, que mesmo distantes, morando no Rio Grande do Sul, nunca deixaram de me apoiar e me dar força nas horas mais complicadas.

Agradeço também àquela que sempre me inspirou a continuar estudando, minha prima, minha irmã, Cláudia.

Às amizades realizadas nestes cinco anos de curso, que tanto contribuíram para o meu aprendizado e crescimento pessoal, em especial, às amigas Jéssica, Thaís e Edenise, que muito escutaram minhas reclamações e angústias no percurso de casa até a faculdade.

Às amizades conquistadas durante os estágios da graduação, ao pessoal do Fórum da Comarca de Sombrio, em especial, aos servidores e estagiários da 2ª Vara da Comarca, que muito me ensinaram e colaboraram com o meu crescimento profissional, os levarei comigo sempre. À Dra. Camila Oliveira por me proporcionar o primeiro contato com a advocacia, e à Tainá pelo auxílio durante o período em que fomos colegas de escritório. À Dra. Cíntia Reis dos Santos, à Dra. Liriani Morgerot da Silva e à Simone, colegas queridas, pela motivação e pelo apoio fornecido neste último mês, sempre positivas, me acalmando nesta loucura de fim de curso, agradeço também pelo aprendizado que estão me fornecendo.

À minha orientadora Nádila da Silva Hassan, que teve muita paciência comigo e me auxiliou na elaboração deste trabalho.

À bibliotecária Rosi, pelo exímio trabalho em auxiliar os alunos durante a graduação, e claro, por todas as conversas e risadas nestes anos.

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E por fim, mas não menos importantes, aos meus colegas de turma que apesar das divergências e diferenças pessoais, contribuíram para o meu crescimento pessoal e profissional.

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“Procure descobrir o seu caminho na vida. Ninguém é responsável por nosso destino, a não ser nós mesmos” (Chico Xavier).

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RESUMO

Tendo em vista que o princípio do efetivo acesso à justiça não vem sendo aplicado em algumas localidades do Brasil em decorrência da não implementação da Defensoria Pública, pesquisa-se sobre o acesso à justiça nas comarcas que não possuem Defensoria Pública no estado de Santa Catarina, a fim de demonstrar como essas comarcas oferecem o acesso à justiça aos necessitados. Para tanto, é necessário descrever os conceitos de acesso à justiça e defensoria pública, explicar a evolução da assistência jurídica no Brasil e no Estado de Santa Catarina, e demonstrar como vem sendo oferecido o acesso à justiça nas comarcas que não há o órgão. A metodologia utilizada foi pesquisa bibliográfica e jurisprudencial sobre o assunto. Diante disso, verifica-se que no estado de Santa Catarina apenas 24 (vinte e quatro) comarcas são atendidas pelo órgão, deixando mais de 80 (oitenta) comarcas desatendidas e em muitas não há outra opção de acesso à justiça, ou seja, não há solução para o problema, o que impõe a constatação de que nas comarcas que não possuem Defensorias Pública e nem outro tipo de atendimento para a população carente há a inaplicabilidade do princípio do acesso à justiça.

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ABSTRACT

Considering that the principle of effective access to justice has not been applied in some localities in Brazil due to the non-implementation of the Public Defense, research is being conducted on access to justice in counties that do not have a Public Defense in the state of Santa Catarina, to demonstrate how these counties provide access to justice for those in need. Therefore, it is necessary to describe the concepts of access to justice and public defense, explain the evolution of legal assistance in Brazil and the state of Santa Catarina, and demonstrate how access to justice has been offered in counties that do not have the entity. The methodology used was be bibliographic and jurisprudential research on the subject. Given that, it is found that in the state of Santa Catarina only 24 (twenty-four) counties are served by the entity, leaving more than 80 (eighty) counties unattended and many of these, there is no other option of access to justice, in other words, there is no solution to the problem, which bounds to the finding that in counties that do not have Public Defense and no other type of care for the needy population, there is the inapplicability of the principle of access to justice.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 11

2 O ACESSO À JUSTIÇA ... 13

2.1 HISTÓRICO DO ACESSO À JUSTIÇA ... 13

2.2 CONCEITO E DEFINIÇÃO DE ACESSO À JUSTIÇA ... 15

2.3 O ACESSO À JUSTIÇA COMO DIREITO E GARANTIA FUNDAMENTAL E COMO PRERROGATIVA DE DIREITOS HUMANOS ... 16

2.4 OS MODELOS DE ACESSO À JUSTIÇA OU ASSISTÊNCIA JURÍDICA ... 18

2.5 OS OBSTÁCULOS PARA EFETIVAÇÃO DO ACESSO À JUSTIÇA ... 21

3 A DEFENSORIA PÚBLICA ... 23

3.1 HISTÓRICO DE EVOLUÇÃO DA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA PARA A DEFENSORIA PÚBLICA ... 23

3.2 CONCEITO DE DEFENSORIA PÚBLICA ... 27

3.3 FUNÇÕES INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA ... 28

3.4 OBJETIVOS DA DEFENSORIA PÚBLICA ... 31

3.5 ESTRUTURA FUNCIONAL DEFENSORIA PÚBLICA ... 33

3.5.1 Defensoria Pública da União ... 34

3.5.2 Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios ... 34

3.5.3 Defensoria Pública dos Estados ... 34

3.6 PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA ... 35

4 A AUSÊNCIA DE DEFENSORIA PÚBLICA NAS COMARCAS DE SANTA CATARINA E A INAPLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DO ACESSO À JUSTIÇA . 37 4.1 A DEFENSORIA PÚBLICA NO ESTADO DE SANTA CATARINA ... 37

4.1.1 Histórico da Defensoria Pública no estado de Santa Catarina ... 37

4.1.2 Comarcas atendidas ... 38

4.1.3 Áreas de atuação... 39

4.1.4 Número de defensores públicos no estado ... 40

4.1.5 Projeto de Lei Complementar n. 30.2/2017... 41

4.1.6 Das pessoas necessitadas ... 41

4.1.7 Requisitos para receber auxílio do órgão ... 42

4.2 DA AUSÊNCIA E DO DÉFICIT DE DEFENSORIAS PÚBLICAS ... 43

4.3 DO OFERECIMENTO DO ACESSO À JUSTIÇA QUANDO INEXISTE DEFENSORIA PÚBLICA NA COMARCA NO ESTADO DE SANTA CATARINA ... 45

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5 CONCLUSÃO ... 51 REFERÊNCIAS ... 52

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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho de conclusão de curso, tem como tema o acesso à justiça e a defensoria pública e como delimitação deste, o acesso à justiça nas comarcas do Estado de Santa Catarina em que não há Defensoria Pública.

O acesso à justiça vem sendo citado desde muito antes da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Porém, da sua simples menção até a sua efetiva aplicabilidade há um imenso decurso de tempo.

Sendo assim, a justificativa para a elaboração deste é que devemos buscar a efetivação do princípio do acesso à justiça, tendo em vista que, atualmente não há Defensoria Pública em todas as comarcas brasileiras, o que já deveria existir, pois são essenciais à função jurisdicional e ao atendimento dos mais necessitados.

Apesar de a CRFB/88 prever que todos tem assegurado o seu direito do acesso à justiça, veremos que nem sempre esse direito é efetivo. A Emenda Constitucional n. 80/2014, determina que até o ano de 2022 todas as comarcas possuam suas respectivas defensorias públicas.

No Estado de Santa Catarina apenas 24 (vinte e quatro) comarcas são atendidas pelo órgão, por isso, é de extrema importância tratar sobre o assunto.

O objetivo geral trata-se de demonstrar como essas comarcas oferecem o acesso à justiça para a população necessitada, quando não há defensoria implantada.

Quanto aos objetivos específicos, iremos descrever os conceitos de acesso à justiça e defensoria pública, explicar a evolução da assistência jurídica no Brasil e no Estado de Santa Catarina, e demonstrar como vem sendo oferecido o acesso à justiça nas comarcas que não contam com o órgão.

Para isso, o presente trabalho divide-se em 3 (três) capítulos, quais sejam: O acesso à justiça; A Defensoria Pública; A ausência de Defensoria Pública nas comarcas de Santa Catarina e a inaplicabilidade do princípio do acesso à justiça.

No primeiro capítulo abordaremos o acesso à justiça, seu histórico, seus conceitos e definições, o acesso à justiça como direito e garantia fundamental e como prerrogativa de direitos humanos, os modelos de acesso à justiça ou assistência jurídica e também, os obstáculos para a efetivação do acesso à justiça.

No segundo capítulo trataremos a respeito da Defensoria Pública, desde seu histórico e evolução de assistência judiciária para Defensoria Pública, seu conceito, suas funções institucionais, seus objetivos, sua estrutura funcional e seus princípios institucionais.

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No terceiro capítulo adentraremos em nosso tema específico e analisaremos a Defensoria Pública no estado de Santa Catarina, através do seu histórico, também demonstraremos as comarcas atendidas atualmente, suas áreas de atuação, o número de defensores no estado, o Projeto de Lei n. 30.2/2017, quem são as pessoas necessitadas e quais os requisitos para receber auxílio do órgão. Trataremos ainda neste capítulo, a respeito da ausência e do déficit de Defensorias Públicas e do oferecimento do acesso à justiça quando inexiste o órgão em alguma comarca do estado.

Por fim, demonstraremos as conclusões alcançadas através da elaboração deste trabalho e referências que foram utilizadas para embasamento e construção deste.

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2 O ACESSO À JUSTIÇA

Primeiramente é importante expormos a respeito da história do termo acesso à justiça, para que assim, consigamos entender o que essa expressão significa para a nossa sociedade e para o direito em si, nos dias atuais.

2.1 HISTÓRICO DO ACESSO À JUSTIÇA

Sabemos que nem sempre o Estado teve o poder de dizer o direito, as próprias partes resolviam os seus conflitos, por meio da autotutela. Era comum que a solução desses conflitos se realizasse através da força física e não pelo bom senso jurídico (HASSE, 2013, p. 1).

Passado algum tempo, criou-se a arbitragem, com o intuito de solucionar os conflitos, inicialmente, de forma facultativa. A arbitragem resume-se em ter uma terceira pessoa, a qual deve ser alheia e imparcial sobre o litígio em questão, para solucioná-lo. Esta pessoa era escolhida pelas partes conflitantes (WAMBIER, 2007 apud HASSE, 2013, p. 1).

O Estado passou a ter o poder de dizer e aplicar o direito a partir da teoria da repartição dos poderes (executivo, legislativo e judiciário). E com isso, começou a regular as relações sociais e solucionar seus conflitos/litígios (MARINONI, 2008 apud HASSE, 2013, p. 1).

Segundo Fux (2005, p. 41), quando o Estado invocou para si a responsabilidade de solucionar os conflitos da sociedade, limitou o âmbito da autotutela e assim, o Poder Judiciário passou a ter a atribuição para solução dos litígios, aplicando a cada caso concreto, o direito objetivo.

Ao invocar para si a atribuição de solução de conflitos, o Estado tornou-se também responsável por oportunizar o acesso à justiça. A partir daí começaram a ser criados alguns mecanismos para a efetivação do acesso à justiça (WAMBIER, 2007 apud HASSE, 2013, p. 1).

Conforme ensinamentos de Cappelletti e Garth (1988, p. 9), nos estados liberais entre os séculos XVIII e XIX, o acesso à justiça era considerado um direito natural e formal do cidadão de promover ou defender-se de uma ação. O Estado não agia para sua proteção.

Segundo Garcia, (2004, p. 204) foi Nabuco de Araújo quem liderou as primeiras iniciativas sobre assistência judiciária em nosso país, quando este foi presidente do Instituto da Ordem dos Advogados do Brasil, na década de 70. As preocupações relacionadas a este

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assunto vinham dos setores abolicionistas. O mesmo autor afirma que “a assistência judiciária aos carentes estava intimamente ligada aos ideais abolicionistas e deles se alimentava” (GARCIA, 2004, p. 204).

Diferentemente do que podemos verificar atualmente, inexistia preocupação com relação aos indivíduos que não podiam custear as despesas. As pessoas que não possuíam recursos para arcar com as despesas do acesso à justiça, e por isso não tinham sua justiça obtida, eram as únicas responsáveis por isso.

No entendimento de Cappelletti e Garth (1988, p. 12), “o acesso à justiça pode, portanto, ser encarado como requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretende garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos”.

Pessanha (2018, p. 29) afirma que “o acesso à justiça deve ser pensado com uma perspectiva de cunho social, paritário, cidadão, trazendo a ideia de uma justiça social”, ou seja, nas sociedades modernas, o efetivo acesso à justiça é classificado como um direito social básico.

Para Marinho (2017, p. 1), “[...] o Acesso Justiça [sic] constitui numa exigência ética de uma sociedade que possui consciência de que todo ser humano tem o direito de ser respeitado em sua dignidade, ou seja, o acesso à Justiça é um direito de todos, sem distinções [...]”.

O acesso à justiça está relacionado dentre os direitos e garantias constitucionais, tendo previsão no âmbito internacional em diversos tratados, na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948 em seu art. 18, na Declaração Universal de Direitos Humanos em seu art. 8º, no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos de 1966 em seu art. 2º, na Convenção Interamericana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica) em seu artigo 8º e, no âmbito nacional, a previsão está na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (doravante CRFB/88) em seu artigo 5º, incisos XXXV e LXXIV.

Verificamos então, que o acesso à justiça é uma preocupação latente em nossa sociedade, e a cada dia que passa, essa preocupação aumenta, pois como veremos a seguir, nem todas as pessoas possuem o efetivo acesso à justiça.

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2.2 CONCEITO E DEFINIÇÃO DE ACESSO À JUSTIÇA

A doutrina é confusa a respeito do conceito de acesso à justiça, atribuindo sentidos distintos, sendo os principais: sentido amplo e sentido estrito. Vasconcelos (2008, p. 343) expõe que no sentido estrito, o acesso à justiça está interligado com o acesso ao judiciário, portanto, o acesso à justiça torna-se efetivo com a simples oportunidade de participação de um processo judicial. O mesmo autor expõe que, no sentido amplo, o acesso à justiça está interligado ao termo justiça social, e “se refere às condições de participação no processo político, econômico e social, compreendendo o acesso a certa ordem de valores e direitos fundamentais do ser humano” (VASCONCELOS, 2008, p. 343).

Em decorrência da confusão doutrinária sobre o tema, se atribui ao termo mais três definições ou conceitos, os quais não devem ser confundidos entre si, pois não são considerados sinônimos, assim ensina Barros (2012 apud STURMER, 2015, p. 16)

Justiça gratuita x assistência judiciária x assistência jurídica: esses três conceitos não são sinônimos. A justiça gratuita se refere à isenção do pagamento de custas, taxas, emolumentos e despesas processuais. Por sua vez, a assistência judiciária engloba o patrocínio da causa por advogado e pode ser prestada por um órgão estatal ou por entidades não estatais, como os escritórios modelos das faculdades de Direito e ONGs. Esse conceito se limita à defesa dos direitos dos necessitados na esfera judicial. Por fim, o conceito mais amplo é o de assistência jurídica, que envolve não somente patrocínio de demandas perante o judiciário, mas também toda a assessoria fora do processo judicial – o que engloba desde procedimentos administrativos, até consultas pessoais do necessitado sobre contratos (locação, financiamento, consumo).

Nesse mesmo sentido, ensinam Reis, Zveibil e Junqueira (2013 apud STURMER, 2015, p. 16)

A expressão “acesso à justiça” não possui um significado unívoco na doutrina. Quando utilizada, ora se apresenta significando algo como a duração razoável do processo, ora como devido processo. Outro significado corriqueiramente atribuído diz com a assistência jurídica. Na verdade, a expressão “acesso à justiça” corresponde a todas aquelas noções, podendo afirmar-se com segurança que seu melhor conceito é aquele que não o confunde com acesso ao Judiciário.

Para Carvalho (2005 apud HASSE, 2013, p. 1) o acesso à justiça “é a inafastabilidade ao acesso ao Judiciário, traduzida no monopólio da jurisdição, ou seja, havendo ameaça ou lesão de direito, não pode a lei impedir o acesso ao Poder Judiciário”.

Sadek (2009, p. 175), entende que

Acesso à justiça significa a possibilidade de lançar mão de canais encarregados de reconhecer direitos, de procurar instituições voltadas para a solução pacífica de ameaças ou de impedimentos a direitos. O conjunto das instituições estatais concebidas com a finalidade de afiançar os direitos designa se sistema de justiça.

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O acesso à justiça é confirmado pelos doutrinadores como conteúdo ligado à justiça social, Cappelletti e Garth (1988, p. 31), entendem que, o termo acesso à justiça é de difícil definição, mas suas finalidades são extremamente relevantes e facilmente reconhecidas. Os autores em questão, dividem o acesso à justiça em três “ondas” distintas, quais sejam: assistência judiciária, representação jurídica para os interesses difusos e o enfoque mais amplo de acesso à justiça.

Segundo Xavier (2002, p. 1),

compreender Acesso à Justiça como o equivalente ao Acesso ao Judiciário, nos dias de hoje, é incorrer em equívoco de natureza metodológica. É restringir um gênero conceitual a apenas uma de suas espécies. De fato, Acesso à Justiça é a garantia de acesso ao Poder Judiciário, mas não apenas. O ideal de Acesso à Justiça representa conceito mais ampliado, que envolve solução de disputas, estatal ou não, e assessoria jurídica, expressa por educação jurídica e consultoria.

A ideia de acesso à justiça, segundo Garcia (2004, p. 225) “[...] é a mais abrangente e generosa possível. Porfia-se para que todos aqueles que padecem de algum tipo de hipossuficiência, seja qual for a modalidade, possam ver concretizados os seus direitos, rejeitando-se as exclusões”.

Marinoni (1993, p. 25) acrescenta que devemos adicionar ao conceito de acesso à justiça, o acesso à informação e orientações jurídicas e ainda, o acesso ao meios alternativos para solucionar conflitos, e não somente as questões processuais. Expõe ainda que “o acesso à ordem jurídica justa é, antes de tudo, uma questão de cidadania” (MARINONI, 1993, p. 25).

O acesso à justiça dispõe de duas finalidades primordiais ao mundo jurídico, sendo que, tem o dever de proporcionar acessibilidade a todas as pessoas e ainda, os resultados que são produzidos, devem ser coerentes com a justiça social (VASCONCELOS, 2008, p. 343).

Podemos então sustentar que, o acesso à justiça não se restringe apenas ao processo judicial, pois para que o acesso seja eficiente, é indispensável garantir as regras do devido processo legal e dos meios necessários para a eficiência desse acesso à justiça, e não o mero ingresso ao judiciário.

2.3 O ACESSO À JUSTIÇA COMO DIREITO E GARANTIA FUNDAMENTAL E COMO PRERROGATIVA DE DIREITOS HUMANOS

Cabe escrever a respeito e salientar o conceito dos direitos fundamentais, antes de adentrar no princípio específico do acesso à justiça.

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Para Pessanha (2018, p. 20) “os direitos fundamentais [...] ganharam forte incidência quando tinham como único objetivo limitar o poder estatal de forma a impedir que o Estado exercesse abusivamente o seu poderio”.

Ainda, o mesmo autor expõe que atualmente, podemos reanalisar os objetivos dos direitos fundamentais, e verificar que possuem como principal objetivo, a proteção do ser humano. Pois, “são direitos inerentes à pessoa humana e, portanto, designados a todos. Buscam tutelar a vida, a liberdade, a igualdade e a existência digna e justa” (PESSANHA, 2018, p. 20).

A CRFB/88 trouxe como direito e garantia fundamental o Acesso à Justiça, disposto em seu artigo 5º, inciso LXXIV, que diz que, “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”, a mesma constituição consagrou também o princípio da inafastabilidade da tutela jurisdicional, com previsão no inciso XXXV, do mesmo artigo, que diz que, “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” (BRASIL, CRFB, 2019).

O acesso à justiça é mais que uma garantia fundamental constitucional, é também considerado uma prerrogativa dos direitos humanos, estando previsto na Convenção Americana de Direitos Humanos, que em seu artigo 8º diz:

Art. 8º. Toda pessoa tem direito de ser ouvida, com as garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer natureza (BRASIL, Decreto nº 678, 2019).

Os direitos fundamentais são inspirados e baseados nos direitos naturais, doutrinas filosóficas, pensamento cristão e no iluminismo, e ainda, na ideologia socialista, doutrina social da igreja e no intervencionismo estatal (MOTTA, 2018, p. 1).

Pessanha (2018, p. 36) afirma que

O acesso à justiça é indispensável para que os indivíduos tenham a oportunidade de defender suas prerrogativas e lutar para que elas sejam efetivadas da forma mais justa e adequada. O Brasil [...] é caracterizado como um Estado Democrático de Direito. Por conta disso, é inegável a magnitude que este princípio apresenta, tendo em vista que, é a partir dele que surge a possibilidade dos cidadãos usufruírem dos demais direitos fundamentais, de maneira que eles não sejam apenas positivados e não garantidos.

No ensinamento de Bulos (2007 apud HASSE, 2013, p. 1), o acesso à justiça tem como objetivo “difundir a mensagem de que todo homem, independente de raça, credo, condição econômica, posição política ou social, tem o direito de ser ouvido por um tribunal independente e imparcial, na defesa de seu patrimônio ou liberdade”.

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Sendo assim, o acesso à justiça como uma garantia constitucional, está conectado a outros princípios fundamentais, como o da igualdade. Estando também atado ao princípio da dignidade da pessoa humana. Nesse ponto, percebemos que a garantia constitucional está acima da obrigação estatal de prestar a tutela jurisdicional, pois deve ainda, aplicar os meios para viabilizá-la.

Com relação a essa garantia constitucional do acesso à justiça, existem alguns exemplos no ordenamento jurídico brasileiro, de meios criados para viabilizar o acesso à justiça, como por exemplo, o artigo 98 do Código de Processo Civil, o qual prevê que, “pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei” (BRASIL, CPC, 2019). Ou seja, a pessoa que não possui condições financeiras de suportar as custas processuais, sem comprometer o sustento próprio e familiar, poderá solicitar os benefícios da Justiça Gratuita e Assistência Jurídica Gratuita, e ainda, mais recentemente ocorreu a implementação das Defensorias Públicas em nosso país, mas este segundo exemplo será objeto de análise em um capítulo próprio.

2.4 OS MODELOS DE ACESSO À JUSTIÇA OU ASSISTÊNCIA JURÍDICA

Os modelos de assistência jurídica (sistemas que possibilitam o acesso à justiça) encontrados na doutrina, são quatro: o sistema judicare; o sistema com advogado remunerado pelos cofres públicos; o sistema público e o sistema misto.

Vejamos a definição de cada modelo e algumas informações a respeito:

Sistema Judicare: consiste em o Estado pagar aos advogados particulares para que estes atendam e representem pessoas de baixa renda, as quais não podem suportar as custas de um processo. Cappelletti e Garth (1988, p. 35), definem o sistema e sua finalidade da seguinte maneira

Trata-se de um sistema através do qual a assistência judiciária é estabelecida como

um direito para todas as pessoas que se enquadrem nos termos da lei, Os advogados particulares, então, são pagos pelo Estado. A finalidade do sistema judicare é

proporcionar aos litigantes de baixa renda a mesma representação que teriam se pudessem pagar um advogado (grifo dos autores).

Alves (2006 apud MORAES, 2009, p. 44) destaca os pontos positivos do sistema, quais sejam, os advogados particulares asseguram um serviço de qualidade superior; pode ser utilizada a advocacia privada; como o sistema tem boa remuneração, inclusive os profissionais mais experientes se interessam em participar; nos países que estão em

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desenvolvimento e também nos subdesenvolvidos, é possível que os escritórios estejam instalados em diversos locais, até mesmo, afastados dos centros.

Em contrapartida, Moraes (2009, p. 44) expõe sua discordância com relação aos pontos destacados por Alves, pois o primeiro ponto não condiz com a verdade, nem sempre os advogados particulares exercem um serviço de melhor qualidade, já que os defensores públicos que prestam assistência jurídica através do Estado, precisam ser aprovados em um concurso público para ingressar no cargo, o que eleva o nível da qualidade dos seus serviços. Relacionado ao segundo ponto, quando o advogado particular divide seu tempo entre seus processos particulares e a assistência jurídica gratuita, acaba dando preferência as causas particulares, pois estas lhe rendem uma melhor remuneração. No terceiro ponto destaca que, frequentemente o Estado não dispõe de condições para remunerar seus defensores de acordo com o preço de mercado, o que afasta o interesse dos advogados com experiência. E, relativo ao quarto ponto, não possui lógica, pois, o Estado tem o dever de prestar assistência em todos os locais.

Contudo, a principal crítica a respeito desse sistema, pode ser verificada na obra de Cappelleti e Garth (1988, p. 38)

O judicare desfaz a barreira de custo, mas faz pouco para atacar barreiras causadas por outros problemas encontrados pelos pobres. [...] É, sem dúvida, altamente sugestivo que os pobres tendam a utilizar o sistema judicare principalmente para problemas que lhes são familiares – matéria criminal ou de família – em vez de reivindicar seus novos direitos como consumidores, inquilinos, etc.

Outra crítica trazida por Moraes (2009, p. 45) é a não possibilidade desse sistema propor ações coletivas, demonstrando que este não transcende os remédios judiciais individuais.

Sistema com advogado remunerado por cofre público: assim como no sistema judicare, os advogados eram remunerados pelo Estado, neste, os advogados buscavam que as pessoas de baixa renda tivessem ciência de seus direitos, os escritórios ficavam localizados nas áreas mais carentes das cidades, para facilitar o contato.

Para Cappelletti e Garth (1988, p. 40),

as vantagens dessa sistemática sobre a do judicare são óbvias. Ela ataca outras barreiras ao acesso individual, além de custos, particularmente os problemas derivados da desinformação jurídica pessoal dos pobres. Ademais, ela pode apoiar os interesses difusos ou de classe das pessoas pobres.

Os mesmos autores destacam que nesse sistema, “além de apenas encaminhar as demandas individuais dos pobres [...] esse modelo norte-americano: 1) vai em direção aos

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pobres para auxiliá-los a reivindicar seus direitos e 2) cria uma categoria de advogados eficientes para atuar pelos pobres, enquanto classe” (CAPPELLETTI; GARTH, 1988, p. 41).

Outra crítica apontada também por esses autores, relaciona-se aos advogados não se atentarem aos cuidados e movimentações das ações individuais, em razão do melhor resultado e maior visibilidade dos casos coletivos, e também, está relacionada a esse sistema necessitar de apoio do governo (CAPPELLETTI; GARTH, 1988, p. 41/42).

Sistema Público: consiste em uma estrutura própria, um local exclusivo onde profissionais da área do direito são servidores públicos e prestam o serviço de assistência judiciária.

Giraldez (2018, p. 19), descreve o sistema como

[...] serviço público prestado pelo Estado, por meio de agentes públicos com dedicação exclusiva e integralmente remunerados pelos cofres públicos. São profissionais do direito contratados pelo Estado para prestação da assistência jurídica gratuita para a população, que recebem remuneração fixa, independentemente do volume de trabalho.

O Brasil adota esse modelo, pois o número de pessoas sem condições financeiras para ingresso no judiciário ou até mesmo, para ter uma assessoria jurídica por outros motivos, é bastante elevado. Em nosso país, como já visto anteriormente, o órgão responsável por esse sistema é a Defensoria Pública.

Sistema Misto ou Híbrido: é também denominado por Cappelletti e Garth, em sua obra, como sistema de modelos combinados (1988, p. 43), e consiste em misturar dois sistemas, o público e o judicare, ou seja, há os profissionais que são servidores públicos e auxiliam nestas demandas e ainda, há o auxílio de advogados particulares, que estão dispostos a ingressar com as ações e serem remunerados pelo Estado, quando as pessoas não dispõem de renda suficiente para contratá-los.

Alves (2006 apud MORAES, 2009, p. 46) destaca qual o objetivo desse sistema, que seria a opção de escolher entre o defensor público e o advogado particular. E ainda, destaca que a crítica ao sistema, seria a baixa remuneração dos advogados.

Apesar de o Brasil ter instituído o modelo de sistema público, percebemos que, na verdade, nosso país está atualmente utilizando o sistema misto/híbrido. Conforme destaca Giraldez (2018, p. 20), “em decorrência das limitações materiais da Defensoria Pública e da altíssima demanda que o órgão recebe, alguns estados-membros se submetem ao sistema híbrido [...]”.

O referido tema será abordado novamente nos próximos capítulos, quando expormos a respeito da Defensoria Pública.

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2.5 OS OBSTÁCULOS PARA EFETIVAÇÃO DO ACESSO À JUSTIÇA

Antes de adentrarmos ao segundo capítulo, que trata da Defensoria Pública, vale ressaltar os principais obstáculos enfrentados para o alcance do efetivo acesso à justiça.

Sobre o assunto, Torres (2005, p. 19) descreve quais são as reclamações mais frequentes quando se trata das dificuldades que encontramos para ter o efetivo acesso à justiça, quais sejam: os procedimentos demorados, caros e complexos. Em decorrência dessas dificuldades, a população está inconformada, pois a Justiça não é célere e também, não é acessível a todo cidadão.

Nesse mesmo sentido, Passos (1985 apud CESAR, 2002, p. 91) descreve essas dificuldades como sendo “deficiência de instrução, baixo índice de politização, estado de miséria absoluta ou hipossuficiência econômica grave, mínimo poder de mobilização e nenhuma organização”.

Cesar (2002, p. 92/100) elabora uma classificação das dificuldades e restrições do acesso à justiça, classificando-as em: restrições econômicas, restrições socioculturais, restrições psicológicas e restrições jurídicas e judiciárias.

O mesmo autor esclarece cada uma das restrições mencionadas acima, da seguinte maneira:

Restrições econômicas: limitam o efetivo acesso à justiça na esfera econômica, são relativas as altas custas processuais, honorários advocatícios, e ainda, a prolongada duração dos processos (CESAR, 2002, p. 92).

Restrições socioculturais: as restrições socioculturais decorrem, logicamente, das restrições econômicas, pois essas limitações portam “aspectos sociais, educacionais e culturais”. Pois, quando o poder aquisitivo é baixo, menores são as possibilidades das pessoas para adquirir conhecimento e ainda, sua capacidade de constatar quando o seu direito é violado (CESAR, 2002, p. 97).

Restrições psicológicas: muitas pessoas têm receio do judiciário, tanto com relação as decisões finais de uma ação, quanto por pensarem que este não oferece a justiça esperada (CESAR, 2002, p. 99).

Restrições jurídicas e judiciárias: instrumentos judiciais inacessíveis, a demora das demandas, a burocracia do judiciário e o “hermetismo do discurso jurídico e a profusão de normas que atulham a sociedade”, fazem com que, mesmo as pessoas que possuem um alto conhecimento e algum recurso, não entendem as normas jurídicas (CESAR, 2002, p. 104).

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Os obstáculos enfrentados para a efetivação do acesso à justiça são basicamente, em concordância com os demais autores mencionados, “condição de pobreza e ausência de orientação jurídica às comunidades, alto valor das custas processuais, dificuldade de acesso ao advogado e desconhecimento das formas extrajudiciais de solução de disputas" (XAVIER, 2002, p. 5).

Seguindo a mesma ideia, Nogueira e Veloso descrevem os obstáculos como: de condições econômicas, funcionais, psicológicas e éticas (2018, p. 1).

O obstáculo que mais é mencionado, desde muito tempo, obviamente é o relativo as condições econômica, o qual é exposto por Cappelletti e Garth (1988, p. 17) quando tratam sobre o ônus da sucumbência em sua obra, dizendo que “nesse caso, a menos que o litigante em potencial esteja certo de vencer – o que é de fato extremamente raro, dadas as incertezas do processo – ele deve enfrentar um risco [...]”.

Em decorrência desses inúmeros obstáculos demonstrados verificou-se que os modelos anteriores de assistência judiciária, não os superavam, eis aqui o motivo pelo qual a CRFB/88 instituiu a Defensoria Pública em nosso país.

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3 A DEFENSORIA PÚBLICA

A defensoria pública foi instituída para auxiliar no acesso à justiça, sendo nos dias atuais um dos principais mecanismos de acesso à justiça. A CRFB/88 trouxe em seu artigo 134 a sua previsão e foi a primeira Constituição dos Estados Federais contemporâneos a trazer esse órgão como integrante do Poder Público.

3.1 HISTÓRICO DE EVOLUÇÃO DA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA PARA A DEFENSORIA PÚBLICA

Ao longo do histórico de evolução podemos verificar quando e como foi incentivado o surgimento do órgão Defensoria Pública em nosso país.

O modelo mais próximo de Defensoria Pública, que possuía a ideia mais parecida com a que conhecemos, aconteceu nos Estados Unidos, por volta de 1965, quando o governo resolveu implementar uma assistência jurídica, em que, advogados recebiam dos cofres públicos para auxiliar os mais necessitados, os que não dispunham de recursos econômicos para contratá-los (RODRIGUES, 2014, p. 1).

No Brasil, a assistência judiciária originou-se nas Ordenações Filipinas, de 1595, em Portugal (PESSANHA, 2018, p. 39).

Alves (2006 apud PESSANHA, 2018, p. 39) expõe que “desde a colonização portuguesa a defesa das pessoas pobres perante os tribunais era considerada uma obra de caridade, com fortes traços religiosos”.

O costume de o advogado exercer suas funções de maneira gratuita aos mais pobres e aos indefesos que comparecessem ao judiciário, foi introduzido pelo direito português (ROCHA, 2004 apud PESSANHA, 2018, p. 39).

Pessanha (2018, p. 39) expõe que o Brasil enfrentou períodos distintos e também passou por diversas legislações que modificaram “a prestação da assistência judiciária até tornar-se uma assistência jurídica, abarcando e tutelando outros direitos, que não apenas o direito de postular no poder judiciário”.

Pereira (2012, p. 1) destaca que em nosso país, “esse sistema fora implantado em 1930, com a fundação da OAB, cujo regulamento normatizou como dever de cada advogado, aceitar exercer encargos da Ordem de Assistência Judiciária Gratuita”.

O mesmo autor expõe que, foi a partir da Constituição Brasileira de 1934 que o direito à assistência judiciária gratuita foi reconhecido como princípio constitucional. E diz

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ainda, que esse pensamento, foi convalidado nas Constituições de 1946, 1967 e 1988 (PEREIRA, 2012, p. 1).

A CRFB/88 foi essencial para a evolução da assistência judiciária, quando instituiu a Defensoria Pública, determinando que esta exerça nas esferas judicial e extrajudicial, a defesa da população que não possui condições para isso (PESSANHA, 2018, p. 39).

Como já mencionado anteriormente, foi a Constituição de 1988 que dispôs que a Defensoria Pública seria responsável pela assistência jurídica aos indivíduos que não retêm recursos para assumir os custos de um advogado particular.

Anteriormente à atual Constituição, como já mencionado no capítulo retro, o dever estatal de prestar assistência judiciária acontecia da maneira que o Estado entendesse melhor, através de um defensor estatal ou advogados particulares remunerados pelo Poder Público.

Pereira salienta que, não devemos confundir a os benefícios da Justiça Gratuita e da Assistência Judiciária Gratuita (PEREIRA, 2012, p. 1).

Neste sentido Miranda (2003 apud PEREIRA, 2012, p. 1) ensina que o benefício da Justiça Gratuita “é um direito à dispensa provisória de despesas, exercível em relação jurídica processual perante o juiz que promete a prestação jurisdicional”. E sobre o benefícios da Assistência Judiciária, o autor diz que, nada mais é, do que um órgão do Estado com a finalidade de indicar advogados de forma gratuita, sem despesas, para atuarem em defesas de causas.

Ao instituir a Defensoria Pública, a CRFB/88 fixou qual o órgão responsável pela prestação de assistência judiciária. Nesse sentido, Ribeiro (1989 apud MORAES, 2009, p. 46) destaca que

a atual Lei Maior não se limitou a consignar o dever de prestação de assistência judiciária. Ela deixa claro a quem compete fornecê-la. Isto é feito pelo art. 134 e seu parágrafo único, que deixa certa a existência de uma defensoria pública no nível da União e do Distrito Federal, que será organizada pela primeira, assim como patenteia a existência de defensorias nos Estados submetida a normas gerais de nível federal.

Pessanha (2018, p. 9) expressa a importância da inclusão da Defensoria Pública na CRFB/88:

[...] o texto constitucional tratou de prever uma Instituição, com um viés totalmente democrático, capaz de fornecer amparo e defesa para as pessoas mais vulneráveis da sociedade, a Defensoria Pública. Isso porque, sem uma assistência jurídica integral e gratuita, seria impossível para os cidadãos mais carentes buscar e alcançar seus direitos. Dessa forma, é notável perceber que a Defensoria surge com o escopo de promover dignidade e humanidade às pessoas, lutando para consolidar e fornecer

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uma real exequibilidade do “direito dos direitos”. Pois sem o acesso à justiça não haveria como atingir e obter as prerrogativas constitucionais e legalmente previstas. O atributo assistencialista dado aos serviços de assistência judiciária anteriores à Constituição vigente, não se confirma no órgão instituído por esta, conforme destaca Weis (2002 apud MORAES, 2009, p. 47)

ao criar uma nova instituição jurídica, a Constituição atribuiu-lhe a função de concorrer para o acesso à justiça social, especialmente no que diz respeito à orientação jurídica da população, algo inalcançável pela advocacia privada, seja em razão de sua estrutura pulverizada, seja pela natural finalidade lucrativa que envolve a atividade do profissional liberal.

A Defensoria Pública encontra-se em constante evolução, o principal marco foi a Emenda Constitucional n. 45 de 2004, que conferiu autonomia funcional e administrativa para o órgão nos estados.

Segundo Santos (2018, p. 1), o órgão não existia em todos os estados da federação e nos estados em que existia a defensoria pública, estava condicionada ao controle do Poder Executivo estadual e com a referida emenda constitucional, ganhou um processo de autonomia. Naqueles estados em que o órgão ainda não existia, esta emenda possibilitou a criação do mesmo.

Santos diz ainda que “a autonomia das Defensorias ampliou drasticamente as possibilidades de atuação em casos de maior relevância social, em especial contra o Poder Público” (2018, p. 1).

Com relação ainda a referida emenda, posteriormente a esta, o órgão sofreu alterações institucionais em 2009, com a Lei Complementar 132. Antes desta lei, a defensoria desempenhava o seu papel de uma forma mais tradicional, resumindo seus atendimentos à pessoas com baixos recursos econômicos e apenas em litígios interindividuais. Com a criação da referida lei, atribuiu-se novas funções ao órgão, passando a ter a possibilidade de atuação em movimentos sociais. Das alterações, podemos destacar três delas: primeiro, a defensoria pública passou a ter a possibilidade de atuar em prol de movimentos sociais, o que possibilitou o ajuizamento de Ação Civil Pública; Segundo, passou a poder elaborar ações com intuito de fortalecer os referidos movimentos sociais, por meio de cursos de educação em direito; E terceiro, passou a poder elaborar formas extrajudiciais de atuação sobre os litigios dos movimentos sociais (SANTOS, 2018, p. 1).

O crescimento e a consolidação da defensoria pública no decorrer dos anos, vem contribuindo para a afirmação social do Poder Judiciário, considerando os históricos problemas do acesso à justiça neste órgão. Porém, a dúvida que resta, é se a defensoria

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pública contribuiu também para o judiciário executar o seu papel de maneira mais democrática, possibilitando o acesso e a efetivação de direitos de todos os grupos sociais, com baixa renda e os mais vulneráveis, e não apenas de empresas e pessoas com maiores recursos financeiros (SANTOS, 2018, p. 1).

Para Azevedo, quando a CRFB/88 criou a Defensoria Pública, impôs que a função de defesa, integral e gratuita, da população hipossuficiente, fosse exclusiva deste órgão, portanto, adotou-se o modelo público de assistência jurídica (2018 apud ZOUEIN, 2019, p. 1).

O mesmo autor afirma que devemos enxergar a implantação deste órgão sob um ponto de vista democrático, tendo em vista que atribuiu uma responsabilidade e uma dívida histórica com os mais necessitados ao possibilitar a estes o direito ao acesso à justiça, o qual não mais se confunde com o acesso ao Poder Judiciário (AZEVEDO, 2018 apud ZOUEIN, 2019, p. 1).

Costa (2014 apud ZOUEIN, 2019, p. 1) destaca que, como o órgão foi instituído para concretização do acesso à justiça, os dois temas, acesso à justiça e defensoria pública se relacionam.

O autor ainda afirma que, o acesso à justiça busca integrar o cidadão que está à margem do sistema e, sob o prisma da autocomposição, objetiva encorajar, propagar e educar o assistido para que consiga resolver seus conflitos através de ações comunicativas, ciente de que a garantia constitucional abrange não apenas “a prevenção e a reparação de direitos, mas a realização de soluções negociadas e o fomento da mobilização da sociedade para que possa participar ativamente tanto dos procedimentos de resolução de disputas” como de seus resultados (COSTA, 2014 apud ZOUEIN, 2019, p. 1).

A importância do órgão é destacada por Pessanha, quando o autor expõe que “o fornecimento de condições aos menos favorecidos para que eles possam lutar e alcançar os seus direitos é uma das obrigações primordiais do Estado. E isso seria impossível sem o devido acesso à justiça realizado de forma gratuita, adequada e satisfatória” (2018, p. 39).

Ao analisar o histórico da Defensoria Pública, palpável é a sua função na defesa dos direitos fundamentais, em especial a defesa daqueles relativos à assistência jurídica integral e gratuita, que possibilita aos cidadãos necessitados o acesso à justiça.

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3.2 CONCEITO DE DEFENSORIA PÚBLICA

Para melhor entendermos o funcionamento do órgão Defensoria Pública, imprescindível conceituá-lo.

O conceito de defensoria pública trazido por Moraes (1997, p. 41) diz que o órgão é

[...] essencial à função jurisdicional do Estado, correspondendo a uma manifestação e instrumento do regime democrático, cabendo-lhe a orientação jurídica integral e gratuita, a postulação e a defesa judicial (em todos os graus de jurisdição) e extrajudicial, de direitos, individuais e coletivos, titularizados por hipossuficientes econômicos.

Para Menezes (2013, p. 1), a Defensoria Pública se sobressai “[...] como órgão público que por excelência concretiza a dignidade da pessoa humana e efetiva o acesso à justiça, pois, invariavelmente, dá voz aos oprimidos e os mais desfavorecidos”.

O mesmo autor ainda afirma que “[...] a Defensoria Pública desponta como Instituição de relevante valor, na medida em que é essencial à função jurisdicional [...]” (MENEZES, 2013, p. 1).

Junkes (2006 apud MARINHO, 2017, p. 1) conceitua a defensoria pública como sendo um órgão que possui suas funções próprias e que desempenha algumas atribuições do Estado, por meio dos defensores públicos.

O autor ainda afirma que “é um órgão obrigatório em decorrência de sua imposição constitucional e não da discricionariedade da Administração Pública” (JUNKES, 2006 apud MARINHO, 2017, p.1).

Segundo Marinho (2017, p. 1) a defensoria “é um órgão composto, já que é formada por vários centros de atribuições”.

A Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (doravante ANADEP) e a Associação Paulista dos Defensores Públicos (doravante APADEP) também conceituam o órgão expondo que

A Defensoria é a instituição que garante o acesso à Justiça para quem não pode pagar pelos serviços de um advogado particular. A Defensoria Pública é uma das carreiras jurídicas previstas na Constituição Federal e, juntamente com a Magistratura, o Ministério Público e as Advocacias Privada e Pública, compõe o Sistema de Justiça (ANADEP; APADEP, 2018, p. 7).

Percebemos que os doutrinadores citados acima, concordam que o órgão é extremamente relevante e essencial para a função jurisdicional e também para a segurança e guarida dos direitos fundamentais e humanos.

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3.3 FUNÇÕES INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA

As funções institucionais da defensoria pública estão descritas na CRFB/88 e em outras legislações que tratam sobre este órgão.

A principal função está descrita no art. 134, da CRFB/88, que dispõe sobre a prestação de assistência jurídica integral e gratuita, como já foi mencionada anteriormente (BRASIL, CRFB, 2019).

Ainda, a Lei Complementar nº 80/94, dispõe em seu art. 4º, diversas funções, as quais passaremos a expor.

Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras:

I – prestar orientação jurídica e exercer a defesa dos necessitados, em todos os graus; II – promover, prioritariamente, a solução extrajudicial dos litígios, visando à composição entre as pessoas em conflito de interesses, por meio de mediação, conciliação, arbitragem e demais técnicas de composição e administração de conflitos;

III – promover a difusão e a conscientização dos direitos humanos, da cidadania e do ordenamento jurídico;

IV – prestar atendimento interdisciplinar, por meio de órgãos ou de servidores de suas Carreiras de apoio para o exercício de suas atribuições;

V – exercer, mediante o recebimento dos autos com vista, a ampla defesa e o contraditório em favor de pessoas naturais e jurídicas, em processos administrativos e judiciais, perante todos os órgãos e em todas as instâncias, ordinárias ou extraordinárias, utilizando todas as medidas capazes de propiciar a adequada e efetiva defesa de seus interesses; [...] (BRASIL, LEI COMPLEMENTAR N. 80, 2019).

Com relação as funções transcritas acima, Valle (2015, p. 48) ressalta que o órgão busca resolver conflitos através de diversos meios extrajudiciais, como por exemplo, a conciliação. Destaca também que, em decorrência da grande quantidade de cidadão que buscam atendimento, nem sempre é possível o atendimento de todos, o que acaba por levar os conflitos diretamente para a via judicial.

O artigo continua descrevendo as funções institucionais do órgão em seus demais incisos, conforme exposto a seguir:

[...] VI – representar aos sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos, postulando perante seus órgãos;

VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes;

VIII – exercer a defesa dos direitos e interesses individuais, difusos, coletivos e individuais homogêneos e dos direitos do consumidor, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição Federal;

IX – impetrar habeas corpus, mandado de injunção, habeas data e mandado de segurança ou qualquer outra ação em defesa das funções institucionais e prerrogativas de seus órgãos de execução;

X – promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos, sociais, econômicos, culturais e

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ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela; [...] (BRASIL, LEI COMPLEMENTAR N. 80, 2019). Segundo Valle (2015, p. 48), as funções descritas acima, entre os incisos VI e XI do referido artigo, relacionam-se com os movimentos sociais, os quais, buscam “pelo exercício do direito de grupos socialmente excluídos e precisam do apoio do órgão institucional para que seus direitos sejam atendidos”.

Em continuação ao referido artigo, dentre seus incisos XI e XVIII, este expõe as funções relativas, principalmente, ao direito criminal e seus seguimentos, conforme transcritas a seguir:

[...] XI – exercer a defesa dos interesses individuais e coletivos da criança e do adolescente, do idoso, da pessoa portadora de necessidades especiais, da mulher vítima de violência doméstica e familiar e de outros grupos sociais vulneráveis que mereçam proteção especial do Estado; [...]

XIV – acompanhar inquérito policial, inclusive com a comunicação imediata da prisão em flagrante pela autoridade policial, quando o preso não constituir advogado;

XV – patrocinar ação penal privada e a subsidiária da pública; XVI – exercer a curadoria especial nos casos previstos em lei;

XVII – atuar nos estabelecimentos policiais, penitenciários e de internação de adolescentes, visando a assegurar às pessoas, sob quaisquer circunstâncias, o exercício pleno de seus direitos e garantias fundamentais;

XVIII – atuar na preservação e reparação dos direitos de pessoas vítimas de tortura, abusos sexuais, discriminação ou qualquer outra forma de opressão ou violência, propiciando o acompanhamento e o atendimento interdisciplinar das vítimas; [...] (BRASIL, LEI COMPLEMENTAR N. 80, 2019).

Podemos descrever as funções expostas acima, como funções institucionais de proteção e de defesa. Nesse sentido, Rocha (2013, p. 144) define as funções de proteção dizendo que se referem “[...] à atuação contínua de fazer valer a voz das pessoas subíntegradas na execução das politicas públicas que lhe dizem respeito”. Sobre as funções de defesa, a autora ressalta que, não necessitam explicação, pois são entendidas apenas da sua leitura, destaca que essas funções estão espalhadas entre os incisos do referido artigo.

As demais funções que estão descritas no artigo 4º da Lei Complementar n. 80/94 são:

[...] XIX – atuar nos Juizados Especiais;

XX – participar, quando tiver assento, dos conselhos federais, estaduais e municipais afetos às funções institucionais da Defensoria Pública, respeitadas as atribuições de seus ramos;

XXI – executar e receber as verbas sucumbenciais decorrentes de sua atuação, inclusive quando devidas por quaisquer entes públicos, destinando-as a fundos geridos pela Defensoria Pública e destinados, exclusivamente, ao aparelhamento da Defensoria Pública e à capacitação profissional de seus membros e servidores; XXII – convocar audiências públicas para discutir matérias relacionadas às suas funções institucionais. (BRASIL, LEI COMPLEMENTAR N. 80, 2019).

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Ao verificarmos apenas as funções que estão elencadas neste artigo da LC n. 80/94, já podemos afirmar que, a Defensoria Pública possui legitimidade para ingressar e atuar em diversos feitos, mas como veremos a seguir, não é apenas esse rol que traz as funções deste órgão.

O rol de funções descrito no art. 4º da Lei Complementar n. 80/94, não é taxativo, pois outras funções podem ser confeccionadas por meio das Constituições Estaduais e Leis Complementares Estaduais, desde que mantenham a compatibilidade com a finalidade de sua atuação (MORAES, 1997, p. 47).

Morais (1995 apud Marinho, 2017, p. 1) diz que as funções executadas por este órgão podem ser típicas ou atípicas. As típicas, são executadas pelo órgão quando utilizadas para defender direitos da população necessitada. Já as atípicas independem da condição financeira dos seus “usuários”.

Para Santos,

existe uma tensão na função desempenhada pela Defensoria no âmbito do sistema de Justiça, que pode oscilar entre a mera legitimação do Judiciário e a efetiva promoção de mudanças sociais. Nessa tensão, são as práticas de um modelo inovador de atuação com movimentos sociais que aumentam as possibilidades de efetivar direitos constitucionais. Ou seja, entre as diferentes formas de acesso à Justiça promovidas pela Defensoria, é a atuação com movimentos sociais que tem maior potencial para obter resultados transformadores e contribuir para um papel mais democrático do Judiciário. Embora no Brasil as possibilidades de transformação social por meio do Judiciário sejam limitadas, a Defensoria pode contribuir para que tenha um papel relevante em alguns casos (2018, p. 1).

A defensoria pública é a modalidade de acesso à justiça mais popular e mais eficaz propiciando a assistência jurídica. Sendo a instituição essencial à função jurisdicional, tem como principal finalidade e incumbência, orientar e defender juridicamente de maneira gratuita e integral, aquelas pessoas que são hipossuficientes, ou seja, os mais necessitados, em qualquer grau de jurisdição (XAVIER, 2002, p. 1).

Marinho (2017, p. 1) afirma que essas funções não são únicas, pois cada estado pode atribuir funções diversas das previstas na CRFB/88 e demais legislações que tratam a respeito do tema, por meio de suas Constituições Estaduais e Leis Estaduais.

A mesma autora destaca que

a atuação da Defensoria Pública, com relação ao princípio da justiça social inicia-se desde a propositura da ação, exercendo, inclusive a assistência jurídica extrajudicial, disponibilizando informações jurídicas para o exercício da ação e promovendo a dignidade ao garantir um direito fundamental aos necessitados (MARINHO, 2017, p. 1).

Ao tratar das funções deste órgão, Pereira (2012, p. 1), destaca que a defensoria opera em algumas oportunidades para os economicamente suficientes, buscando o efetivo

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exercício dos princípios do contraditório e da ampla defesa, em causas que tratem a respeito dos “direitos indisponíveis, como é o caso dos réus, sem advogado, nas Ações Criminais, ou em casos de relevante interesse público nas Ações Civis Públicas” (PEREIRA, 2012, p. 1).

Para melhor demonstrar a função do órgão, podemos utilizar as palavras de um defensor público, que expõe o que abrange as funções deste,

de brigas entre vizinhos e dissoluções de casamentos a pedidos de aposentadorias, de reparação de danos morais e materiais a extradição de estrangeiros, todos os casos podem ser levados à Defensoria Pública, a depender apenas da esfera do Poder Judiciário competente para julgá-los: se a Justiça Federal, é a Defensoria Pública da União que deve ser procurada; se a Justiça Estadual, é a Defensoria Pública do Estado que irá analisá-los, sendo ambas, todavia, ramos da mesma Instituição Defensoria Pública, una e indivisível. [...] A Defensoria Pública exerce a defesa da criança e do adolescente, atua junto aos estabelecimentos policiais e nas penitenciárias (órgão da execução penal), assegurando às pessoas pobres as garantias individuais, em processos judiciais ou administrativos, além de atuar junto aos Juizados Especiais, Cíveis e Criminais, patrocinando os direitos e interesses do cidadão quando lesado (SOUZA JÚNIOR, 2011 apud SANTOS, 2011, p. 55). As funções descritas neste tópico, como já supramencionado, não são exaustivas, podendo ser criadas novas funções, por meio de Constituições Estaduais e Lei Complementar Estadual.

3.4 OBJETIVOS DA DEFENSORIA PÚBLICA

Ao tratarmos dos objetivos da instituição defensoria pública, é necessário demonstrar o art. 3º-A, da Lei Complementar 80/94 (BRASIL, LEI COMPLEMENTAR Nº 80, 2019):

Art. 3º-A. São objetivos da Defensoria Pública:

I – a primazia da dignidade da pessoa humana e a redução das desigualdades sociais; II – a afirmação do Estado Democrático de Direito;

III – a prevalência e efetividade dos direitos humanos;

IV – a garantia dos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Percebemos então, que o primeiro objetivo e princípio que conduz o órgão é a dignidade da pessoa humana, princípio este constitucional, previsto no art. 1º, inciso III, da CRFB/88.

Nunes (2018, p. 67), descreve a dignidade da pessoa humana como “[...] o primeiro fundamento de todo o sistema constitucional posto e o último arcabouço da guarida dos direitos individuais”.

O mesmo autor nos explica ainda mais sobre o termo dignidade “[...] o termo dignidade aponta para, pelo menos, dois aspectos análogos, mas distintos: aquele que é inerente à pessoa, pelo simples fato de ser, nascer pessoa humana; e outro dirigido à vida das

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pessoas, à possibilidade e ao direito que têm as pessoas de viver uma vida digna” (NUNES, 2018, p. 72).

Ainda, sobre o assunto, Sarlet (2005 apud PESSANHA, 2018, p. 56) define dignidade da pessoa humana

é a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres que integram a rede da vida. O segundo objetivo consiste na redução das desigualdades sociais, este objetivo também está disposto dentre os fundamentais da CRFB/88, em seu art. 3º, inciso III.

Sendo a defensoria pública um dos mecanismos aplicados para reduzir essas desigualdades sociais, Pessanha entende que,

por meio da atuação da Defensoria Pública, as pessoas desprovidas de recursos financeiros, por exemplo, podem ter acesso à justiça, assim como aquelas que conseguem contratar um advogado particular. Com isso, a instituição viabiliza a igualdade entre os desiguais economicamente, socialmente e culturalmente, possibilitando uma assistência jurídica para os menos favorecidos na sociedade brasileira e igualando-os com a minoria beneficiada (2018, p. 57/58).

Como terceiro objetivo temos a afirmação do Estado Democrático de Direito. Com relação ao terceiro objetivo, Pessanha (2018, p. 58) afirma que

a Defensoria Pública é uma das responsáveis pela consagração deste Estado que visa salvaguardar a cidadania, o acesso à justiça e a efetivação dos direitos fundamentais, sem privilegiar um grupo específico da população, ou seja, amparando também os mais desfavorecidos.

Ainda, Alves (2006 apud PESSANHA, 2018, p. 59) ensina sobre o assunto

um verdadeiro Estado de Direito não pode existir se não houver mecanismos capazes de assegurar que a lei prevalecerá sempre sobre o arbítrio e sobre a força, independentemente das condições de fortuna ou de origem sócia, racial, religiosa, enfim, de quaisquer outros fatores de diferenciação entre os cidadãos.

O quarto objetivo é a prevalência e a efetividade dos direitos humanos, que recebe respaldo no art. 4º, inciso II, da CRFB/88 e ainda na esfera internacional, como na Convenção Americana de Direitos Humanos, famoso Pacto de São José da Costa Rica.

Temos como quinto objetivo, a garantia dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa, previstos no art. 5º, inciso LV, da CRFB/88.

Mendes (2009 apud PESSANHA, 2018, p. 61) expõe que o contraditório e a ampla defesa não devem ser respeitados apenas pelas partes nas ações judiciais e

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administrativas, mas sim, ser cumpridos com a sua importante finalidade, a pretensão esmiuçada.

A Defensoria Pública é de extrema importância e ferramenta fundamental de afirmação judicial dos direitos humanos, pois desempenha a sua função para beneficiar os mais necessitados e carentes da nossa sociedade, e por isso, é também um recurso para o fortalecimento do Estado Democrático de Direito (CUNHA JÚNIOR, 2008 apud PESSANHA, 2018, p. 61).

Sendo assim, podemos verificar que os objetivos da instituição são trazidos por uma das leis que orientam sua estrutura e meio de funcionamento. E através da explicação destes objetivos da Defensoria Pública, percebemos que o funcionamento do órgão atinge a sociedade da melhor maneira possível, privilegiando o acesso à justiça.

3.5 ESTRUTURA FUNCIONAL DEFENSORIA PÚBLICA

A Lei Complementar nº 80/94 traz a estrutura da defensoria em seu art. 2º, conforme disposto abaixo:

Art. 2º. A Defensoria Pública abrange: I – a Defensoria Pública da União;

II – a Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios;

III – as Defensorias Públicas dos Estados (BRASIL, LEI COMPLEMENTAR Nº 80, 2019).

Segundo Junkes (2006 apud MARINHO, 2017, p. 1) além da organização estrutural disposta no artigo transcrito acima, a defensoria pública é ainda composta pelos municípios, e organizada pela já referida lei complementar nº 80/94.

Ao analisarmos os artigos 5º, 53 e 98 deste dispositivo legal, percebemos que sua estrutura se divide em órgãos da administração superior, órgãos de atuação e órgãos de execução (JUNKES 2006 apud MARINHO, 2017, p. 1).

Esse mesmo autor descreve os órgãos da administração superior como sendo “os que representam respectivamente, o poder de direção, controle e decisão acerca do funcionamento das Defensorias Públicas organizadas em um determinado território. [...] realizam sua função com base nos objetivos da instituição” (JUNKES 2006 apud MARINHO, 2017, p. 1).

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3.5.1 Defensoria Pública da União

O art. 14 da Lei Complementar n. 80/94, dispõe sobre a área de atuação da Defensoria Pública da União (doravante DPU), conforme disposto “a Defensoria Pública da União atuará nos Estados, no Distrito Federal e nos Territórios, junto às Justiças Federal, do Trabalho, Eleitoral, Militar, Tribunais Superiores e instâncias administrativas da União” (BRASIL, 2019, p. 1).

No ano de 2009, realizou-se uma alteração na referida lei, através da Lei Complementar n. 132/2009.

Segundo Giannakos (2008 apud SANTOS, 2011, p. 53), o referido órgão tem como objeto, a assistência jurídica, perante os órgãos federais. O que compeli o Estado a estruturar de maneira efetiva a Defensoria Pública da União em todos os estados do país.

Verificando o site da Defensoria Pública da União, contatamos que a mesma realizou o primeiro concurso público no ano de 2001 (DPU, 2019, p. 1).

3.5.2 Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios

Cabe ressaltar que a Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios não integra a Defensoria Pública da União (MORAES, 1997, p. 45), são dois órgãos distintos.

A Defensoria Pública do Distrito Federal (doravante DPDF) foi instituída apenas no ano de 2012, mas antes disso, a assistência judiciária gratuita no Distrito Federal era prestada através do Centro de Assistência Judiciária (doravante Ceajur), que foi criado no ano de 1987. Na verdade, após 25 anos, o Ceajur foi transformado em DPDF (DPDF, 2019, p. 1).

3.5.3 Defensoria Pública dos Estados

A instauração das Defensorias Públicas dos estados não foi feita em conjunto, ou seja, não foram instauradas em todos os estados da Federação ao mesmo tempo, houve uma mudança com relação a forma de prestação da assistência judiciária antes deste órgão. Sua criação foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal, pois a sociedade necessitava dessa instituição (ROCHA, 2013, p. 65).

Segundo Moreira (2016, p. 1),

A Constituição estabeleceu que todos os Estados-federados [...] deveriam criar a Defensoria, uma instituição que passou, então, a integrar o sistema de justiça brasileiro para desempenhar uma política pública específica: prestar assistência

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