• Nenhum resultado encontrado

Da competência legislativa e administrativa

2.1 Proteção constitucional do meio ambiente

2.1.6 Da competência legislativa e administrativa

Competência é a faculdade que a lei confere a alguém, para decidir determinadas questões. Ao que diz respeito ao meio ambiente, há controvérsias quanto ao sistema de competências estabelecido na constituição.

Os tipos de competência são, competência exclusiva; privativa; concorrente; comum e suplementar.

No que tange a competência legislativa concorrente:

A regra em relação à competência legislativa, no que diz respeito às matérias ambientais, é a competência concorrente, conforme dispõe o artigo 24 da CF/88, que determina que compete a União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre as matérias que arrolam em seus vinte e quatro incisos, mencionando, entre outros, alguns incisos que tratam da tutela ambiental, especificando a proteção ao meio ambiente; floresta; caça; pesca; conservação da natureza; defesa do solo e dos recursos naturais; controle da poluição; proteção ao patrimônio histórico; cultural, artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico (incisos VI, VII e VIII, do artigo 24, da CF/88) (SETTE, 2010, p. 106-107).

É importante estabelecer que para que este sistema de competência concorrente funcionar, a União deve estabelecer normas gerais para serem aplicadas em todo o território nacional, cabendo a cada unidade da federação detalhar, conforme características e necessidades locais, mas sempre se limitando às regras impostas pela União.

O conceito de normas gerais, no sentido constitucional, já havia sido definido pelo Min. Moreira Alves, no voto do julgamento da Representação 1.150-RS, como aquelas “preordenadas para disciplinar matéria que o interesse público exige unanimemente tratada em todo País”. Aos Estados e ao Distrito Federal cabe o detalhamento das normas, de acordo com as características e peculiaridades locais [...] (GRANZIERA, 2014, p. 93).

Igualmente, e este respeito, José Afonso da Silva citado por Maria Luiza Machado Granziera (2014, p. 93), enfatiza que “a competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui (na verdade até pressupõe) a competência suplementar dos Estados (e também do Distrito Federal, embora não se diga aí), e isso abrange não apenas normas gerais referidas no § 1º desse mesmo artigo no tocante à matéria neste relacionada, mas também as

normas gerais indicadas em outros dispositivos constitucionais, porque justamente a característica da legislação principiológica- normas gerais, diretrizes, bases-, na repartição de competências federativas, consiste em sua correlação com competência suplementar- complementar e supletiva- dos Estados”.

Quando o autor fala- “§ 1º desse mesmo artigo”- está se referindo ao artigo 24 da Constituição Federal de 1988, o qual dispõe que a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais.

Não existindo norma geral sobre determinada matéria, cabe aos Estados exercer competência legislativa plena, e quanto aos Municípios, a constituição lhes outorgou competência suplementar a legislação federal e estadual, no que couber.

É importante frisar que a busca da integração das normas ambientais dentro do Estado Federado tem como principal função a de garantir o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, respeitando as peculiaridades de cada região brasileira:

O Brasil possui dimensões continentais, uma das maiores biodiversidades do planeta, ecossistemas únicos, como é o caso do Pantanal e dos Lençóis Maranhenses; uma atividade industrial muito intensa em certas regiões, como no Sudeste e biomas importantes como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, somente para mencionar algumas de suas características. Com toda essa diversidade, é de se esperar que a tutela dos bens ambientais seja feita de acordo com as características vigentes em cada região. (GRANZIERA, 2014, p. 95).

Aos entes federados, compete concorrentemente e/ou suplementarmente, legislar na seara da proteção ambiental, porém, a União possuí ainda, competência privativa, referente a determinados bens, como, as águas, os recursos ambientais, a energia, atividades nucleares, as jazidas, minas e outros recursos minerais.

Findada a matéria acerca da competência legislativa, devemos discorrer sobre a competência administrativa, que pode ser também chamada de competência material, as quais referem-se às ações da Administração para cuidar dos assuntos de interesse público. Aqui se faz presente a competência comum, conforme os ensinamentos de Marli T. Deon Sette (2010, p. 112):

Em relação à competência material atinente à esfera ambiental, a regra é a da competência comum entre os entes federados, em que a tônica é a cooperação entre as várias unidades políticas para, em conjunto, executarem diversas medidas visando, entre outros aspectos, a proteção de bens de uso comum do povo. [...] Assim, são competentes para praticar atos materiais, como lavrar autos de infração e instaurar processo administrativo, todos os funcionários dos órgãos ambientais integrantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA), que tenham sido designados para as atividades de fiscalização, bem como os agentes das Capitanias dos Portos e do Ministério da Marinha (§ 1º, do artigo 70, da Lei 9.605/98).

A partir dai, conclui-se que o legislador preocupou-se primeiramente em proteger o meio ambiente, fazendo com que os poderes públicos cooperassem nesta tarefa. “Como se vê, de acordo com a vontade do legislador, não há correlação entre o detentor da competência para legislar na esfera ambiental e a competência material, em que todos devem atuar conjuntamente, não importando quem seja o detentor do domínio do bem, nem tampouco, o detentor da competência legislativa”. (SETTE, 2010, p. 113).

Porém, em virtude dessa forma de atuação, ocorrem alguns conflitos, como por exemplo, dois órgãos emitirem autos de infração pelo mesmo fato gerador. Para ajustar essa situação, conforme Maria Luiza Machado Granziera (2014, p. 99), foi criada uma Lei Complementar:

A Lei Complementar nº 140/11 estabeleceu uma divisão de atribuições entre a União, Estados e Municípios, com vistas a evitar a sobreposição de

atuação entre os entes federativos, de forma a evitar conflitos de atribuição e garantir uma atuação administrativa eficiente. [...]

Assim, fica claro na lei que o licenciamento ambiental somente pode ser realizado por um único ente federativo, nos termos da divisão de atribuições fixadas. No que se refere ao licenciamento ambiental, percebe-se um avanço, na medida em que se esclarece a divisão de atribuições.

Finalmente, outra categoria que também possui competência comum são as ações disciplinadas no artigo 225 da CF/88 que tratam das obrigações voltadas a assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Documentos relacionados