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DA CORTE À VILA DO PRÍNCIPE: SUCESSO NA PROVÍNCIA,

No documento PR GERSON PIETTA (páginas 57-61)

Quando de sua volta do Rio de Janeiro para a Lapa, seu nome passa a vincular à identidade de médico e era recebido com entusiasmo. Uma ampla pesquisa documental possibilitou mapear alguns trechos de periódicos que comentavam a respeito do retorno de João Candido à província do Paraná. Abaixo segue um trecho da recepção de sua tese na capital paranaense, no dia 4 de fevereiro de 1889, na Gazeta Paranaense, jornal vinculado ao “orgam do partido conservador”, que tinha como proprietário-diretor Benedicto Carrão. Era uma identidade que se concretizava, seu nome próprio agora vinculava o capital simbólico de doutor.

These inaugural – Pelo nosso ilustrado e distincto comprovinciano Dr. João Candido Ferreira fomos obsequiados com um exemplar da these inaugural por ele sustentada perante a Faculdade do Rio de Janeiro, afim de obter o gráu de Doutor em medicina.

Escolhendo para assumpto do seu trabalho o estudo das nevrites periphericas o joven medico escreveu uma longa e methodica dissertação, que tivemos a satisfação de ler por extenso, sentindo não poder, por falta de espaço, descrever minuciosamente aqui a impressão que nos deixou a sua these tão brilhantemente desenvolvida. Apenas diremos que o estudo das nevrites periphericas, cuidadosamente feito pelo autor, encerra observações importantes efetuadas nos hospitaes, quer pelos professores de clínica, quer pelo joven facultativo. Os capítulos dedicados às nevrites toxicas,

infectuosas e a frigore formam a parte mais importante do magnifico

trabalho scientifico, ao qual a descripção da anatomia patholofica do diagnostico e do tratamento dessa modalidade clinica, devida toda os trabalhos modernos, e oferecer ainda um explendido remate.

Felicitando ao distincto medico, que tanto enobreceu a Faculdade da Côrte o nome da nossa província, agradecem as sua delicada atenção, e fazemos votos para que no exercício da profissão que abraçou encontre as recompensas a que fez direito pelo seu talento e aplicação ao estudo durante o tirocínio acadêmico.

Mil felicidades. (Gazeta Paranaense, 04/02/1889).

Percebemos que o agente em questão, agora médico, foi tratado naquele momento inicial de carreira como ilustre e distinto, pois falava em nome da ciência que desenvolveria a sociedade paranaense. De fato, as pessoas que tinham acesso às faculdades nesse momento histórico eram os filhos das elites, e, para tanto, já possuíam diferenciação por sua posição econômica e social. A distinção social estava vinculada ao capital simbólico adquirido no campo médico.

E o que credenciava João Candido Ferreira a essa condecoração era a habilidade em atuar de acordo com protocolos científicos em vigor. Flavio Coelho Edler (2011, p. 18) evocou o conceito de Shapin (1994), que discorria acerca de certas “regras de etiqueta científica”, em que seguir tais regras diante da sociedade seria essencial para

obter tal reconhecimento. Edler afirma que nos Oitocentos emerge uma forma sutil de distinção entre os pares, sob a forma de currículo científico. E este poderia auferir credibilidade sob diversas formas, dentre elas, enumera:

por meio de um treinamento obtido em uma instituição acadêmica de prestígio; pelo domínio de uma linguagem científica especializada; pela participação nos fóruns acadêmicos legitimadores; pela publicação de manuais ou artigos médicos; ou, ainda, pela simples menção aprobatória em um manual respeitado ou em um artigo científico publicado em periódico médico conceituado. (EDLER, 2011, p. 18).

É certo que João Candido Ferreira, nesse momento de sua trajetória, não possuía todo arsenal científico que possibilitaria seu reconhecimento diante dos pares. No Rio de Janeiro, por exemplo, o médico não gozava do mesmo reconhecimento alcançado em Curitiba. No ano de 1889, o periódico Annuario Medico Brazileiro, fundado e dirigido pelo Dr. Carlos Costa, que se dedicava a comentar as teses inaugurais produzidas na Faculdade de Medicina, trouxe à tona explanações acerca da tese inaugural de João Candido Ferreira. O tom não era de crítica, mas demonstrava certas ressalvas em relação a algumas considerações do trabalho. O comentário, de autoria de Dr. Antonio de Carvalho, inicia demonstrando a estruturação do trabalho, que fora dividido em duas partes. Na sequência, afirma o autor:

É um trabalho de súbito valor e que revela da parte do autor muito estudo e conhecimentos bastantes da pathologia nervosa. Dar-lhe-hia maior valor porém se tivesse feito preceder á primeira parte uma syntese geral das nevrites periphericas.

Sendo um trabalho de clinica devia ter colhido mais observações. Ao menos apresentasse uma de beri-beri, entidade mórbida que ultimamente tem preoccupado a attenção dos mestres e sobre a qual o autor foi muito resumido.

E’ incontestável todavia que o Sr. Ferreira Filho produzio um bom trabalho que muito lucrarão todos os que o lerem. (Annuario Medico Brazileiro, 1889, p. 35-36)

Se a recepção de seu texto em Curitiba, no ano de 1889, foi coberta de louros, no Rio de Janeiro o ocorrido foi outro. Houve uma certa mudança de tratamento, a começar por sua representatividade. O jornal curitibano Gazeta Paranaense, mesmo pertencendo ao Partido Conservador Paranaense, partido oposto ao de sua família, utilizou os termos Dr. (doutor) e distinto médico. Já o periódico Annuario Medico Brazileiro preferiu utilizar o tratamento Sr. (senhor). Obviamente levamos em conta que o primeiro periódico fazia investidas de assuntos gerais, já o segundo da especialidade médica.

Porém, o pronome de tratamento é revelador do conhecimento e reconhecimento do autor, interna e externamente ao campo médico. Enfim, é um dispositivo simbólico de distinção social e criador de identidades sociais.

O capítulo que segue trará à baila alguns pontos de ligação do campo científico e do campo político de suma importância para o entendimento do agente João Candido Ferreira. Acrescentamos que seria impossível entender as identidades sociais de João Candido somente a partir de sua inclusão no campo médico, assim o capítulo seguinte buscará compreender os sentidos políticos relacionados a João Candido Ferreira.

CAPÍTULO 2

AS FRONTEIRAS ENTRE CIÊNCIA E POLÍTICA

É necessário afirmar que o universo das faculdades de Medicina, no contexto do final do século XIX, como afirma Schwarcz (2009), tinha na figura do médico e do cientista social papéis que se por vezes se confudiam, transformando-se em intelectuais de intervenção política e social. É um momento marcado pela ascensão de um novo personagem na História do Brasil, o médico político. Buscamos neste capítulo trabalhar essa questão em João Candido, e entender sua atuação entre esses campos.

No documento PR GERSON PIETTA (páginas 57-61)