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Da crise de pertencimento a autoidentidade

O campo de batalha é o lar natural da identidade. Ela só vem à luz no tumulto da batalha, e dorme e silencia no momento em que desaparecem os ruídos da refrega.

(BAUMAN, 2005, p. 84)

A ideia de identidade surge da crise de pertencimento. O Pertencimento já não tem a solidez de uma rocha, não é algo que está garantido para a vida toda, dependendo das decisões que o indivíduo toma, da maneira como age, sendo por isso negociável e revogável. Este movimento provocado pela busca constante pertencer gera uma crise e como toda crise está prenhe de desequilíbrio, desajuste, incerteza. É como que se num dado momento se abrisse uma brecha entre aquilo que devo ser e aquilo que sou. Seria como a necessidade de preencher um espaço que se abriu entre a realidade e a ideia. Talvez devêssemos perguntar por que esse vazio é insuportável, insustentável. E quem sabe chegaríamos a ideia de que a ―... estrutura básica da ideia que fazemos de nós e das outras pessoas é uma precondição fundamental de nossa capacidade de lidar eficazmente com elas e, pelo menos dentro dos limites de nossa sociedade, para nos comunicarmos com elas‖ (ELIAS, 1994, p. 81). Quando esta estrutura dá sinais de desmoronamento, quando esta totalidade sente-se ameaçada e o que era certo se torna incerto, o indivíduo percebe-se lançado ao mar e a terra firme é apenas um alvo distante. Ele entra em crise, quando ―... a identidade perde as âncoras sociais que a faziam parecer ‗natural‘, predeterminada e inegociável, a ‗identificação‘ se torna cada vez mais importante para os indivíduos que buscam desesperadamente um ‗nós‘ a que possam pedir acesso‖ (BAUMAN, 2005, p. 30). Para ilustrar esta necessidade do indivíduo hodierno em reconstruir sua identidade Bauman (2005) utiliza a imagem do quebra-cabeça. Imagem que serve até certo ponto, pois tem os seus limites. Teríamos que pensar um quebra cabeça incompleto. Que jamais saberíamos que peças e quantas faltariam para completar a imagem que orienta a colocação das peças. O quebra cabeça convencional trabalha com a ideia de que a imagem já está pronta e a tarefa consiste em encontrar o lugar das peças que já foram pré-

determinadas pela totalidade da imagem. Montar um quebra cabeças assim, é ter uma angústia passageira, que tem um tempo pré-determinado para existir. É uma história que se inicia com ―era uma vez...‖ e termina com ―... e viveram felizes para sempre‖. Mas se não temos a imagem da totalidade, como saberíamos qual peça é a correta, quais as que faltam. Aquela insustentável angústia a que me referia no início deste escrito, deixa de ser uma sensação passageira e instaura-se como parte constitutiva da identidade que necessita ser construída. Como não existe uma totalidade pré-concebida é através da análise de cada peça, de suas possíveis conexões, suas factíveis relações num processo de reconstrução permeado por vazios e indescritíveis inquietudes que se forjam as identidades. Esta tarefa por mais penosa que seja é imprescindível na construção de um todo, mesmo que incompleto, mas que faça algum sentido. ―A construção da identidade, [...], é guiada pela lógica da racionalidade do objetivo (descobrir o quão atraentes são os objetivos que podem ser atingidos com os meios que se possui)‖ (BAUMAN, 2005, p. 55). A partir dessa perspectiva podemos inferir que a ideia de construção é do que podemos dispor quando nos referimos ao tema da identidade. Colocando como um consenso, Castells (2008, p. 23) nos destaca que não é ―... difícil concordar com o fato de que, do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a partir de quê, por quem, e para quê isso acontece‖. Se não temos mais uma identidade a ser executada e sim a ser criada, há neste fenômeno uma mudança de perspectiva. Os indivíduos que antes não passavam de coadjuvantes de algo já pronto, passam agora a serem autores e atores de uma novela cujos capítulos são recriados constantemente. Assim, as perguntas ―como‖, ―a partir de quê‖, ―por quem‖ e ―para quê‖ são agora questões centrais quando nos referimos à questão das identidades numa sociedade dilacerada pela má distribuição de riqueza, onde se produz vítimas de uma estrutura social perversa, classes pobres e desfavorecidas de capital econômico e cultural. Neste contexto, a margem de iniciativa pessoal é mínima. Nesta situação o indivíduo desconhece o sentimento de autonomia, pois não consegue se abstrair das experiências cotidianas estando mergulhado nas percepções imediatas do mundo sensorial. Assim sendo, em maior ou menor grau, como pensar a questão da identidade, da autoidentidade?

A autoidentidade não é um traço distintivo, ou mesmo uma pluralidade de traços, possuído pelo indivíduo. É o eu compreendido reflexivamente pela pessoa em termos de sua biografia. A identidade ainda supõe a continuidade no tempo e no espaço: mas a auto-identidade é essa continuidade reflexivamente interpretada pelo agente (GIDDENS, 2002, p. 54).

Sendo assim, como satisfazer estes pré-requisitos da autoidentidade estando à margem do processo de consumo dos bens materiais e dos bens simbólicos? Estas carências impedem que grandes parcelas da população pobre saibam quem são e desta forma não tendo noção de como se transformam e para onde irão. Este fato, porém, não impede que estes indivíduos tenham uma identidade social. Estar à margem é também estar em algum lugar. Na maioria das vezes são identificados por uma identidade atribuída pela própria sociedade e/ou por aqueles que estudam o contexto social onde estes indivíduos circulam, assim como aqueles que têm voz ativa através dos meios de comunicação de massa. É por isso que o fato de pertencer a uma sociedade globalizada não proporciona um isolamento social total. Todos os indivíduos estão sujeitos as mesmas influências em intensidades maiores ou menores conforme seu nível de inserção social. A constatação é de que ―... não existe nenhum lugar para onde se possa escapar‖ (BAUMAN, 2007, p. 12). É nesta perspectiva que na relação do indivíduo com o conhecimento de si mesmo não passa apenas por uma relação estritamente intelectual como pretendia a dúvida cartesiana.

[...] a ilusão de um indivíduo capaz de pensar por si mesmo e de prover sozinho o sentido e o suporte de sua existência, sem nada dever à coletividade e à história; repousa, igualmente, sobre um certo ―esquecimento de si‖, que faz com que o sujeito já não se encontre com sua dimensão afetiva (VALLE, 2004, p. 176).

Por esta crítica à concepção racionalista podemos compreender que o ―conhecer-se a si mesmo‖ não é somente um ato solitário e introspectivo. Para voltar-se sobre si mesmo, para refletir sobre sua identidade é necessário uma percepção que ultrapasse o isolamento, onde o indivíduo possa fornecer uma biografia de si mesmo. Como bem nos alerta Giddens:

A identidade de uma pessoa não se encontra no comportamento nem – por mais importante que seja – nas reações dos outros, mas na capacidade de manter em andamento uma narrativa particular. A biografia do indivíduo, para que ele mantenha uma interação regular com os outros no cotidiano,

não pode ser inteiramente fictícia. Deve integrar continuamente eventos que ocorrem no mundo exterior, e classificá-los na ‗estória‘ em andamento sobre o eu (GIDDENS, 2002, p. 56).

Manter este contato com os eventos que ocorrem no exterior do indivíduo e as narrativas particulares dos indivíduos sobre si mesmos é pré-requisito necessário para a existência da identidade, e principalmente da autoidentidade. A experiência da autoidentidade tem como pano de fundo a questão da contraposição entre local e global.