A formação do sujeito está ligada diretamente a um processo de produção de identidades num tempo e espaço determinado, e esse mesmo sujeito produz/reproduz realidades e afetos com o mundo, na originalidade de sua existência. A produção das realidades e suas representações tornam-se o objeto de análise e a compreensão do historiador. Assim como o sujeito se encontra reinventado constantemente em suas múltiplas identidades, o conhecimento histórico, ou a sua narrativa, é também fragmentado, temporal e relativo. Fragmentado por considerar as representações por meio de fontes ou resquícios com cortes e limitações que jamais trarão de volta o passado em sua totalidade. (CERTEAU, 1998). Temporal, porque está de acordo com as perguntas realizadas efetivamente por meio do tempo de hoje (NÓVOA, 2015), de acordo com a formatação e as contingências pensadas, a partir de um sujeito fragmentado e de múltiplas características temporais e transitórias. Relativa, porque o historiador trabalha com escolhas metodológicas e teóricas que mudam com o passar do tempo e, consequentemente, os resultados podem ser afetados com a descoberta de novas fontes ou de novos processos de problematização do objeto.
Porém, este processo possui sistematização interna capaz de absorver interconexões dos objetos pesquisados a uma comunidade de significados que faz sentido, a partir de representações coletivas ampliadas e estabelecidas no contato dos sujeitos com o mundo.
Em sua obra a Identidade cultural na pós-modernidade, Hall (2004) defende que as velhas identidades da modernidade estão em declínio, num momento em que o indivíduo, considerado social, passa a formar novos modos de identidade. A crise de identidade é um processo amplo de mudanças das estruturas, que abala os quadros de referências24 que ancoravam o indivíduo no mundo social. Não há como
analisar as conjunturas sociais sem ter em consideração que o indivíduo é constituído de múltiplas nuanças na formação de sua identidade. Segundo Hall
24 A ancoragem social é reversa em si mesma, de acordo com o sentido cultural. Enquanto a cultura contribui para a construção dos sujeitos, estes a modificam e a transformam conforme os tempos e espaços. Tempo e espaço entendidos como quadros de referência relativos, nos quais o indivíduo mensura seu mundo e sua realidade.
(2004), no entendimento do Iluminismo, o indivíduo estaria centrado e dotado de capacidade de razão, consciência e ação. A realidade consistiria num núcleo interior, sendo sua identidade o centro da pessoa. Com a sociologia, o sujeito passa a ser fruto da relação existente com as pessoas que são importantes para si. O sujeito estaria ligado às estruturas da sociedade. Contudo, o sujeito com identificação social está se tornando fragmentado e composto não de uma, mas de várias identidades. Não há uma identidade fixa e permanente. A identidade passa a ser considerada como uma celebração móvel e relacional.
Para o sujeito pós-moderno, a identidade passa a ser definida historicamente e não biologicamente. “Temos diferentes identidades em diferentes momentos da vida” (HALL, 2005, p. 26), muitas vezes contraditórias. Uma identidade plena ou unificada é uma fantasia. Segundo Vecchi, na introdução à obra Identidade, de Bauman (2003),
muitos dos envolvidos nos estudos pós-coloniais enfatizam que o recurso à identidade deveria ser considerado um processo contínuo de redefinir-se e de inventar e reinventar a sua própria história. É quando descobrimos a ambivalência da identidade: a nostalgia do passado conjugada à total concordância com a “modernidade líquida. (VECCHI, 2003, p. 13).
Foucault (1997) já comentou a diversificação de temas e histórias que estão, muitas vezes, na base de temas considerados dominantes em outros tempos, enquanto outros não foram pesquisados ou sequer mencionados. Essa luta entre o macro e o micro são contingências pertencentes à constituição do conhecimento científico enquanto tal, em um espaço e tempo relativos.
Por traz da História desordenada dos governos, das guerras e da fome, desenham-se histórias, quase imóveis ao olhar – histórias com um suave declive: História dos caminhos marítimos, História do frio ou das minas de ouro, histórias da seca e da irrigação, História da rotação das culturas, histórias do equilíbrio obtido pela espécie humana entre a fome e a proliferação (FOUCAULT, 1997, p. 3).
O papel do narrar e a subjetividade do historiador fazem a reconstituição do processo de relações desprovidas do conhecimento por meio dos questionamentos, e a relativização do tempo e espaço e suas categorias de sentidos ou de apropriação de suas representações. A pretensa relativização do tempo, em suas categorias, é importante para a organização do conhecimento histórico. Nos
aprofundamentos e olhares para um objeto, o mundo se apresenta em interrupções e desagregações de fatos ou mesmo realidades, que não importam na sua constituição em si, mas na valoração dada pelo pesquisador.
Por muito tempo o pesquisador se mostrou alguém que se apropriava do fato e o transmitia em seus detalhes na narrativa, num processo de deliberar sobre o que está de acordo com os modelos de um continuum ou simplesmente atravessar ou envolver uma massa homogênea, de acordo com uma sucessão cronológica, conforme Foucault (1997, p. 12), “totalmente referida à atividade sintética do sujeito”. A pretensão de que “uma descrição global cinge todos os fenômenos em torno de um centro único – princípio, significação, espírito, visão de mundo, forma de conjunto, uma História geral desdobraria, ao contrário, o espaço de uma dispersão”.
Essa dispersão considera as provocações nas quais se submete a temática ou o objeto que o pesquisador toma para si, por meio do pensamento intuitivo/reflexivo; e que o autor, ao pensar sobre si, submete também o mundo a essa reflexão, a partir de si próprio, com os agravantes móveis de sua identidade. A ciência se torna uma possibilidade da vida em relação à consciência e reflexibilidade. Nesse sentido, compreende-se que o conhecimento histórico- científico está em conexão com a vida, e a vida se formula e se inventa (MORIN, 2005), em relação ao próprio pensamento científico, ligados principalmente ao seu campo de atuação. Porém, compreende-se esse processo destituído de uma universalização do sujeito enquanto produtor do conhecimento, mas como parte do processo aferido, de suas escolhas teórico-metodológicas e de seu lugar enquanto produtor desse conhecimento.
Nesse lugar de relação entre o historiador, o passado e o mundo, reside a possibilidade do conhecimento histórico. O que é uma narrativa, senão uma contação do que foi inventado, desenvolvido e significado no passado, por meio dos sentidos proporcionados pelas fontes e da armação teórico-metodológica do historiador? No entanto, isso não escapa dessa relação do formar-se e, formando- se, atuar por meio das indagações salutares do que se pretende pesquisar.
Os caminhos em que são construídos os conhecimentos que regem a micro ou a macro-História, enquanto disciplina ou área do conhecimento, é tanto ou mais importante que os conhecimentos construídos. Não está em jogo apenas, a relação econômica que produz modos vivendis, ou uma simples dialética de contraposição de vida, sociedade e crítica, como defendia Marx. A complexificação desses
processos subentende que o conhecimento produzido confere ação no mundo, nas suas relações de afeto. Porém, como alerta Benjamin (1985, p. 228), “o estudo do passado não é um procedimento meramente aditivo, pois não utilizamos a massa dos fatos para preencher um tempo homogêneo e vazio, sem qualquer armação teórica”. Essa armação teórica envolve a construção de estruturas de possibilidade do conhecimento. As estruturas, o lugar em que se encontra o pesquisador, dá forma aos seus questionamentos e ao conhecimento produzido. Como revela Certeau (1998), uma operação historiográfica é baseada em um lugar social: lugar social, consciência formativa e reflexiva do pesquisador e objeto e tematização das pesquisas. Essas estruturas organizam e classificam o mundo em relação aos seus sujeitos e objetos. O lugar da construção do objeto da História não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras” ou mesmo de tempos e processos de constituição do próprio conhecimento histórico. Esse “carregado de agoras" é a consciência de se fazer explodir o continuum da História.
Nesse sentido, o historiador não aponta para uma imagem eterna do passado, mas constitui uma experiência com o passado. Na problemática da história, da realidade, enquanto experiência com o passado deve ser apreendida na totalidade da inter-relação entre os níveis econômico, político e ideológico, incluindo-se neste último os aspectos culturais, ideológicos e religiosos que nos interessam mais de perto. (BENJAMIN 1985, p. 229).
Pesquisar a História é explicar como lidamos com o objeto ou como fundamos o seu processo de análise; tipificar a relação de como acontece o processo de produção de determinadas representações sobre o passado. Na visão de Ricoeur (2007), o passado não nos seria acessível enquanto objeto de conhecimento e nada mais se configuraria do que o próprio presente do historiador, numa relação de pesquisa e narrativa.
Porém, nesta relação com o passado não deve haver uma leitura factual direcionada por sequencialismos centrados em um progresso da humanidade, proposital a um fim. Conforme Bauman (2014), em referência à sua modernidade líquida, a ilusão moderna de um fim no caminho,
um telos alcançável das mudanças históricas, um Estado de perfeição a ser atingido amanhã, algum tipo de sociedade boa e sem conflitos que poriam fim a toda contingência, disputa, ambivalência e consequências imprevistas das iniciativas humanas. (BAUMAN, 2014, p. 41).
Esta concepção emerge em relação ao conhecimento histórico, e sua historiografia não leva em conta a produção de uma massa homogênea e sequencial que possa ser determinada e utilizada. Disto decorre que o conhecimento histórico delimita uma relação direta com vários processos e modos de apropriação do mundo. A celebração móvel das identidades (HALL 2004) e seus modos de consciência produzem a possibilidade de interação no mundo, do qual o historiador se apropria para realizar sua narrativa, dando ordem e sentido ao universo de representações por meio de fontes escolhidas, as que melhor significam o objeto e suas perguntas de pesquisa. (NÓVOA 2015).
O conhecimento histórico é construído na importância da agregação de sentidos, portanto, composto de muitas realidades que representam as ações e práticas dos indivíduos do mundo. A História é a grafia das representações culturais numa relação organizativa do conhecimento em modos e possibilidade de produção, dispostas e organizadas pelas teorias e metodologias de pesquisa.