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1.5 CAMINHOS E PROCESSOS DE PESQUISA

1.5.1 Os documentos históricos

O processo de busca de fontes, necessariamente, passa também pela avaliação criteriosa das produções de documentos relacionados com o objeto de pesquisa. Entende-se que os documentos registram uma realidade histórica, sendo as chaves de acesso de produção de conhecimentos sobre o passado, sejam eles escritos ou não. Porém, como bem recorda Foucault, deve-se refletir e questionar sobre quais perspectivas fazem do documento uma produção importante para deles se retirarem algumas representações.

O documento, pois, não é mais, para a história, essa matéria inerte (abreves) da qual ela tenta reconstituir o que os homens fizeram ou disseram, o que é passado e o que deixa apenas rastros: ela procura definir, no próprio tecido documental, unidades, conjuntos, séries, relações. É preciso desligar a História da imagem com que ela se deleitou durante muito tempo e pela qual encontrava sua justificativa antropológica: a de uma memória milenar e coletiva que se servia de documentos materiais para reencontrar o frescor de suas lembranças, ela é o trabalho e a utilização de uma materialidade documental que apresenta sempre e em toda parte, em qualquer sociedade, formas de permanências, quer espontâneas, quer organizadas. (FOUCAULT, 1997, p. 7 – 8).

Dentro do processo epistemológico da História Cultural, os documentos ou as fontes produzidas, em relação às escolas étnicas polonesas e nacionalização, são importantes subsídios de interpretação e problematização das realidades históricas. Dentro desse ponto de vista, citam-se os registros de matrícula, imagens, atas, boletins, livros-caixa, livros didáticos, documentos escolares, correspondências oficiais, dentre outras possibilidades de referências de práticas e vivências no passado.

Porém, os documentos são escolhas do historiador, resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente. Para Le Goff (1996), as fontes são as

produções materiais das memórias coletivas do passado. Deste modo, a reconstrução do passado, em sua gênese, ilumina e instrui o presente, sendo monumento de preservação desse passado. Essa comparação tem a função do fazer recordar e possibilitar, inclusive, a compreensão da construção da ordem estabelecida nas sociedades atuais. Neste sentido, consideram-se todos os documentos como monumentos para a construção desta pesquisa.

Qualquer documento, enquanto produção cultural, passa a ser fonte histórica. O dever principal do historiador é a crítica da fonte enquanto possibilidade de interpretação. Esta não pode ser entendida como algo que transmite ou impõe o conhecimento, de onde emanam representações verdadeiras do passado. Expõe-se ser necessária a análise crítica e criteriosa, para permitir ao historiador possuir o conhecimento das circunstâncias em que foram produzidas e as implicações semânticas para a interpretação do pensamento histórico. As fontes possuem uma relação direta com esta perspectiva de investigação, enquanto representações de uma realidade do passado, que envolveram as escolas étnicas polonesas e o processo de nacionalização.

Entretanto, documentos em si não respondem à problemática de pesquisa. Neste sentido, concorda-se com Pimentel (2001, p. 184), de que devemos organizar, sistematizar o corpus empírico, para “processar a leitura segundo critérios de análise” ou categorias elegidas, de acordo com os objetivos e as problemáticas. A organização e sistematização dos documentos são fundamentais para a pesquisa, porém, envolvem tempo e cuidado na leitura e análise.

Nesta pesquisa, arquivos e acervos são locais privilegiados no processo de busca de fontes sobre a imigração polonesa. Porém, exigem um trabalho de deslocamento por diferentes estados e municípios, agendamentos de visitas e autorizações especiais para acessar alguns acervos pessoais e institucionais. Como itinerário de busca de fontes em arquivos, foram visitadas cidades nos estados de: Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, dentre as cidades que mais se pesquisou, estão: Erechim , Áurea, Carlos Gomes, Porto Alegre, Centenário, Dom Feliciano, Bento Gonçalves, Nova Prata, Veranópolis, Vista Alegre do Prata, Rio Grande e Caxias do Sul. No Estado do Paraná pesquisaram-se arquivos em Curitiba, onde se concentra a maior quantidade e qualidade de fontes sobre a imigração polonesa no Brasil e, no Rio de Janeiro, capital, a pesquisa foi no Arquivo Nacional do Itamaraty, onde existem importantes fontes do Ministério das

Relações Exteriores, relativas ao período pesquisado. Também foram acessadas diferentes fontes do Arquivo de Atas Novas em Varsóvia na Polônia, por intermédio de interlocutores e colaboradores de pesquisas sobre imigrantes poloneses no Brasil, proporcionadas pelos contatos e grupos de pesquisa dos quais se participa no CNPq. Estas fontes foram classificadas, categorizadas e dispostas numa perspectiva de análise, para a composição da narrativa sobre o objeto proposto.

As fontes em arquivos das cidades visitadas constituíram um conjunto de possibilidade de construção desta pesquisa, referente à cultura escolar dos imigrantes poloneses no Rio Grande do Sul. Uma pluralidade de fontes e objetos que evidenciam a vida cotidiana e a História do individual e dos coletivos étnicos. Como sugere Vidal (2009), é permitir a construção historiográfica de lugares diferentes com outras fontes, contrapondo-se à História oficial. Desta forma, entende-se que nenhuma produção é resolvida ou definitiva na explicação dos tempos históricos. A busca por fontes e, consequentemente, por documentos/monumentos, passa necessariamente pela prática de recorrer a acervos e arquivos. Contudo, como ressalta Faria Filho (1998), em muitos casos a prática de arquivos pode interferir positiva ou negativamente na pesquisa. A forma como estão organizados, a ausência de inventários e guias das fontes tornam as pesquisas uma tarefa com alguns percalços.

Entretanto, esta é a (minha) tarefa enquanto pesquisador: mobilizar documentos, organizá-los e sistematizá-los para o processo de análise. De acordo com Bacellar (2005), o historiador deve “desvendar” onde estão os documentos importantes para sua pesquisa; ultrapassar obstáculos burocráticos, a falta de organização dos acervos públicos e particulares e mesmo a inércia que, às vezes, recai sobre o pesquisador. Qualquer arquivo pode possuir materiais interessantes, desde que o pesquisador tenha uma sensibilidade criteriosa de buscar o que julgar importante e adequado. Desde o início desta pesquisa para o mestrado e também após a conclusão, tem-se encontrado muitos manuscritos, principalmente cartas e documentos oficiais, que exigem cuidado especial de categorização e interpretação. A maioria destes manuscritos e documentos está em língua polonesa, o que implicou um trabalho minucioso de tradução e análise.25 Assim, além do processo de

25 Na análise da bibliografia em língua polonesa, bem como em diferentes documentações foi utilizada a tradução livre do autor.

busca das fontes documentais, organização e análise, houve cuidado na tradução e leitura atenta dos sinais e indícios que as fontes, por vezes, não evidenciam. De acordo com Ginzburg (2007), temos que ser verdadeiros detetives em busca de pistas que levam às descobertas importantes.

A iconografia, por sua vez, foi utilizada conforme a necessidade de complementação das fontes escritas, embora estas não correspondessem a um conjunto amplo de fontes utilizadas. Porém, compreende-se estas como importantes representações sobre as escolas étnicas polonesas, deixadas como marcas de um tempo. As fotografias são construídas para gerar representações significativas de um tempo passado, podendo ser redescoberto no presente. Os registros através das fotografias têm consigo a preservação e a evocação de memórias oportunizadas pelo imaginário do interlocutor. Com certeza a intenção de quem fez o registro fotográfico foi a de representar um instante e um momento eternizado na experiência de um tempo. Segundo Vidal e Abdala (2005), a utilidade da fotografia não está simplesmente na sua contemplação estética, mas também na possibilidade de reconhecer/conhecer o real. Acessamos o passado e voltamos no tempo nos contornos de verdade que a imagem permite conhecer. Segundo Kossoy (1989), a fotografia traz o fragmento da realidade como um testemunho visual, forma resíduos do passado, assim como acontece com os documentos escritos. Porém, a fotografia não conserva a materialidade de um momento. Ela constrói uma série de dados não explícitos, na linguagem escrita ou em outras fontes. Entretanto, existem intenções, omissões que retomam questões discursivas nas imagens. Porém, esses questionamentos estão baseados na problemática desta pesquisa e na sensibilidade crítica e investigativa de pesquisador. As imagens trazem elementos que escapam da ação meramente desatenta e estética.

Para Lima e Carvalho (2002, p. 42), “as respostas que uma imagem pode ter depende de cada um, cada cultura e cada segmento social”. É reconhecer os elementos de significação que contribuirão para o desenvolvimento de pesquisa. A fotografia como produção humana e cultural revela realidades que nenhum documento histórico descreveu ou registrou. Assim, manifesta-se que uma imagem contém significados diferentes, dependendo da interrogação formulada. Como dito anteriormente, a fotografia constitui um discurso e sua interpretação será sempre cultural; necessita apenas de contextualização espaçotemporal. As imagens são elaboradas para serem vistas como marcas de representação do real. Desta forma,

a análise das imagens se volta para os impactos na recepção e no tempo de sua produção. São montagens ou teatralizações. Porém, participam de uma significação da realidade, através das representações no tempo. Ao interpretar as imagens é necessário o cuidado para analisar aspectos semânticos de discursos presentes em uma fotografia.

A interpretação das imagens e de suas representações foi importante na construção desta versão da realidade histórica das escolas étnicas dos imigrantes poloneses, em relação à nacionalização do ensino, no Estado do Rio Grande do Sul. Entende-se que o conjunto das imagens, dentro do recorte temporal proposto, nas suas recorrências de significados e representações, reproduziu sentidos e significados social ou comunitariamente adotados por este grupo étnico.

Na escritura desta tese, foram utilizadas algumas fotografias que remontam ao tempo histórico dessas escolas, relacionado ao processo de pesquisa e com os questionamentos e desdobramentos do objeto pesquisado. Alguns atributos formais das fotografias, em referência aos sistemas de representação de práticas da cultura escolar dos imigrantes poloneses, foram importantes na intepretação da temática de pesquisa e na sua conjugação com os referentes históricos. Tais atributos podem ser desde as motivações do fotógrafo, as condições materiais, os equipamentos, motivos velados, as destinações, situações propositais e de caráter organizacional.