CAPÍTULO 3 - A INTERSUBJETIVIDADE CONSTITUTIVA DA PESSOA E
3.3 Da empatia aos vínculos comunitários
A intersubjetividade como abertura ao outro torna-se significativa quando pensamos nos processos que constituem a pessoa. Ninguém de nós vive e se desenvolve sozinho. É no encontro e na convivência com o outro que nos constituímos. Mas, o que significa viver juntos? Quais as características que este viver necessita ter para que as relações interpessoais tenham a força de constituição da pessoa?
Para Stein (2005b), dentre as diferentes modalidades pelas quais os seres humanos podem se agrupar para conviver está a comunidade. Segundo a autora, pessoa e comunidade configuram uma relação de interdependência constitutiva, estando impossibilitada a existência de uma na ausência da outra: não há pessoa que se estruture fora da comunidade e não há comunidade que se estruture na ausência de vivências e
posicionamentos pessoais47.
Objetivamente uma comunidade pode ser considerada como um agrupamento de pessoas, assim como o são os povos, as famílias, as comunidades científicas e religiosas. Em seus aspectos subjetivos, a vida de uma comunidade está diretamente ligada à vida das pessoas que a constituem, que a integram com a totalidade de seu ser e lhe conferem características e uma dinâmica própria (STEIN, 2005b; ALES BELLO, 2015).
Stein (2005b) apreende na comunidade as mesmas dimensões constitutivas da pessoa. À dimensão corpórea, correspondem os aspectos físicos da comunidade, identificados pelo número de seus membros e pelas características biológicas dos mesmos. A dimensão psíquica pode ser apreendida mediante as vivências comunitárias, que incluem as reações de um membro para com o outro, os sentimentos compartilhados e o viver em comum. A dimensão espiritual compreende a abertura ao mundo, a elaboração dos significados, os posicionamentos de uma pessoa em relação a outra e as produções culturais (COELHO JUNIOR; MAHFOUD, 2006). Assim como na pessoa, essas dimensões estão interligadas e atuam de forma unida, influem e são influenciadas pela força vital que provém dos indivíduos que formam a comunidade.
47 Reflexões apresentadas pelo professor Miguel Mahfoud na IV Sessão Científica O Eu e o Outro na fenomenologia de Edith Stein e na perspectiva de Experiência Elementar de Luigi Giussani: implicações para a pesquisa, promovida pelo Programa de Pós-Graduação Família na Sociedade Contemporânea da UCSAL – Universidade Católica do Salvador, na disciplina do doutorado Estudos Avançados em Família II, sob coordenação da profa. Dra. Ana Cecília Bastos, em 27 de novembro de 2015.
É importante identificar as características físicas de uma comunidade, mas se desejamos compreender o que acontece em nível objetivo e comunitário, precisamos considerar as manifestações subjetivas advindas das dimensões psíquica e espiritual de cada pessoa, identificar suas influências e contribuições (ALES BELLO, 2000). Stein (2005b) concebe a comunidade como uma estrutura vinculativa aberta e dinâmica onde seus membros vivem numa interdependência e são afetados pela força dos posicionamentos que cada um adota através dos atos sociais, que estão na base das relações interpessoais. Esses posicionamentos podem ser positivos (amor, confiança, reconhecimento, gratidão, etc.) ou negativos (ódio, desconfiança, indiferença, ingratidão, etc.), conforme os efeitos que produzem na construção ou deterioração dos relacionamentos interpessoais (COELHO JUNIOR; MAHFOUD, 2006).
Stein (2005b) reconhece no ato de solidariedade, um posicionamento de responsabilidade para com a condição do outro. Este ato possui uma força profundamente constitutiva em sentido comunitário e se efetua
onde os indivíduos estão ‘abertos’ uns em relação aos outros, onde as tomadas de posição de um não ficam sem efeito sobre o outro, mas o estimulam e desenvolvem sua própria eficácia: nisso consiste a vida comunitária; ambos os membros são uma totalidade; e a comunidade não é possível sem este relacionamento recíproco (Ibidem, p. 423, tradução nossa).
O simples viver juntos não é suficiente para constituir comunidade. É necessária uma abertura, um voltar-se ao outro e uma tomada de consciência de que o agir pessoal interfere na vida do outro, da mesma forma que por ele é afetado. Essa consciência gera uma responsabilidade por si e pelo outro. É esse viver em comum, caracterizado pela consciência e responsabilidade pelo destino pessoal e alheio, que tem a força de gerar
comunidade e o que faz uma relação interpessoal ter a força de constituição da pessoa.
Quando alguém se move dessa forma tem condições de suscitar tal consciência naqueles
que com ele convivem (STEIN 2005b; ALES BELLO, 2000; MAHFOUD, 2007).
Assim como há na pessoa um núcleo que lhe confere pessoalidade e unidade às ações, há na comunidade um núcleo. Este não se constitui de alguma abstração ou ideologia que as pessoas que a compõem decidiram ter, o núcleo da comunidade são as pessoas que sustentam o fato de que são comunidade e não simplesmente vivem juntas. O núcleo da comunidade se constitui daqueles que sustentam a vivência comunitária,
daqueles que se voltam ao outro com a pessoalidade do seu ser e se ocupam do outro com sintonia pessoal, de modo que esta vivência gera um vínculo pessoal, ressoa nos pares e neles também desperta esse movimento, conferindo unidade ao viver em comum e mantendo um modo próprio desta comunidade viver cada coisa (STEIN 2005b; ALES BELLO, 2000; MAHFOUD, 2007).
Essa unidade gerada a partir do viver em comum, fundado na pessoalidade como cada qual se volta ao outro e se responsabiliza pelo próprio destino e de outrem, não se
refere a cada membro em particular, mas constitui um nós, cuja experiência, ao mesmo
tempo que se estrutura a partir daquilo que cada um tem de mais pessoal, estrutura-se num corpo social que transcende cada um de seus membros e possibilita que a comunidade tenha uma personalidade própria, capaz de gerar vida para além das fragilidades e permanência de cada pessoa que a compõe. Assim como uma personalidade humana, essa personalidade da comunidade possui força psíquica capaz de sustentar as buscas de cada membro e sustentar o viver em comum (STEIN, 2005b; ALES BELO, 2000, 2015; MAHFOUD, 2007, 2010).
Além dos posicionamentos dos membros, a força vital comunitária também pode ser fortalecida mediante as relações estabelecidas com outras pessoas e comunidades, na medida em que os posicionamentos destas influem sobre as vivências dos indivíduos, e uma vez que tal ocorre, o todo é afetado. A força vital pode ser enfraquecida pela perda de membros e pela diminuição do empenho nas ações a ela destinadas, por parte daqueles que a compõem. É possível a participação em mais de uma comunidade, das quais se pode dar e receber energia (STEIN, 2005b; ALES BELLO, 2000).
Além das manifestações subjetivas dos indivíduos que compõem a comunidade e daqueles com quem ela se relaciona, também são necessárias, para sua constituição, condições objetivas, ligadas às características territoriais nas quais a comunidade está inserida. Essas influem sobre a energia vital dos membros, na medida em que forjam modalidades de convivência e trabalho, imprimindo tonalidades específicas no ritmo vital, diferenciando uma comunidade da outra. Acrescem-se o universo dos valores éticos, religiosos, estéticos do ambiente que, além de conferir direção à atividade humana, despertam posicionamentos dos membros que, ao serem por eles afetados, a eles respondem com base na apreensão que deles realizam (STEIN, 2005b; ALES BELLO, 2000; COELHO JUNIOR; MAHFOUD, 2006).
Uma outra modalidade de agrupamento humano é a sociedade. As relações interpessoais nela vividas caracterizam-se pelo fato dos indivíduos estarem ligados e unidos por uma finalidade. Na realização de objetivos comuns, a ênfase se dá no desempenho de papéis e não na pessoalidade como cada qual se coloca frente ao outro, ou seja, mais importante que o estabelecimento e a manutenção de vínculos interpessoais são a execução das finalidades propostas que, uma vez alcançadas, podem não mais ligar as pessoas entre si. Embora, na vivência em sociedade, a ênfase não seja dada à pessoalidade e sim, ao desempenho de papéis e atividades, uma sociedade que prescinda de relações comunitárias, é inconcebível, pois são estas que solicitam a responsabilidade pessoal e social diante do destino de cada pessoa (STEIN, 2005b; ALES BELLO, 2000, 2015).
A característica essencial da comunidade é o viver em comum, que perdura mesmo quando finda a realização de tarefas. A vivência em comunidade é fundamental para a formação da pessoa. Neste itinerário, a família se configura em importante comunidade, na qual se colocam em ato diferentes posicionamentos que influem sobre o processo do vir a ser do sujeito.