CAPÍTULO 2 - POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NOS DIAS
2.6 Modos de trabalhar nas ruas
Na vivência na e da rua, forjam-se alternativas de trabalho, dentre essas, guardar carros, limpar para-brisas, carregar e descarregar mercadorias, catar materiais recicláveis. A coleta de materiais recicláveis é uma das atividades mais desenvolvidas em prol da sobrevivência, pelas pessoas em situação de rua nas diferentes cidades do Brasil (BEZERRA; ROSA; VIEIRA, 1994; BURSZTYN; ARÁUJO, 1997; ESCOREL, 1999; MAGNI, 2006). Homens e mulheres, acompanhados ou não de crianças e/ou adolescentes, desenvolvem este trabalho precário, pesado, sujo e mal remunerado.
A população em situação de rua embora, mediante a coleta e venda de materiais recicláveis participa dos circuitos da economia capitalista, configura-se mão-de-obra explorada a baixa custo, contribuindo para a acumulação de capital de empresas, sem o compromisso que lhe sejam auferidas as condições básicas de proteção à saúde e as relacionadas aos direitos trabalhistas. Para Bursztyn (2003, p. 07), o que há de mais imoral na realidade do início do século XXI, “é o lixo que une os incluídos e os excluídos da modernidade”. O sistema global, conforme esse autor, produz um paradoxo perverso: pessoas descartáveis que tem no descarte do consumo, sua fonte de sobrevivência, “A vida
no e do lixo é o corolário, nesse sentido, de um processo econômico que valoriza a
reciclagem de materiais para um florescente negócio industrial, ao mesmo tempo em que desvaloriza o trabalho das populações que são jogadas no meio da rua” (Ibidem, p. 21).
As alternativas de trabalho forjadas na vivência em situação de rua, manifestam, por um lado, a capacidade de reverter os materiais encontrados nas ruas citadinas em recursos de sobrevivência, por outro, o caráter informal dessas atividades, que auferem baixos rendimentos. Zaluar (1995) e Neves (1995) chamam a atenção para a vulnerabilidade dos vínculos ocupacionais que acompanham essas pessoas já em suas vivências nas famílias de origem. Por serem oriundas preponderantemente das classes trabalhadoras pobres, são acompanhadas pela realização de ocupações intermitentes e
desvalorizadas, cujos ínfimos rendimentos não asseguram a sobrevivência da unidade familiar e requerem ser complementadas pela ajuda da rede de parentesco e de amigos. Essas famílias convivem com o medo cotidiano de que aconteçam rupturas com o mercado de trabalho, pois este exige cada vez mais profissionais qualificados e as empresas podem substituir constantemente a mão-de-obra que empregam. Afirmam elas que, quando o desemprego se instala de forma mais prolongada na vida de uma família, pode fazê-la ultrapassar o limiar da pobreza à miséria. O medo do desemprego, conforme Neves (1995, p. 64), quase sempre está associado ao medo de se tornar mendigo, situação na qual pode incorrer “o trabalhador em situação prolongada de desemprego, que tenha dilapidado seu fundo de consumo – casa, roupa, alimentos, possibilidades de obtenção de empréstimos de amigos, etc. – ou que não conte com a ajuda de familiares ou colegas para colaborar nessa reposição. ”.
Para Zaluar (1995) e Neves (1999), um quadro amplo de exclusão social acompanha a população de rua já antes da ida às ruas, dentre esse quadro, estão a pouca escolaridade, problemas de saúde, a precária ou nenhuma qualificação profissional. Esses fatores se influenciam e se retroalimentam mutuamente: o baixo nível educacional limita o acesso a postos de trabalho de baixa qualificação e remuneração, dificultando que as famílias de baixa renda ascendam a melhores ocupações e venham a melhorar sua qualidade de vida. As autoras concordam, assim como Bezerra, Rosa e Vieira (1994) e Escorel (1999), que o desemprego não é fator determinante de ida às ruas, porém, sua presença ou ausência influi na dinâmica das relações familiares e pensar em possibilidades de emprego torna-se fundamental quando se pensa em alternativas para a saída das ruas das pessoas adultas aptas ao trabalho, já que o acesso ao emprego proporciona renda e esta viabiliza os meios de acesso à moradia.
O amplo quadro de vulnerabilidades que acompanham as trajetórias daqueles que empreenderam a ida às ruas, tal como pontuado, pelas autoras acima citadas, na década de 90, também pode ser observado anos depois, nos resultados da Pesquisa Nacional sobre População em Situação de Rua, realizada em 2008: 58,6% afirmaram ter alguma profissão, embora não a estivessem exercendo, dentre essas, as mais destacadas estavam vinculadas à construção civil (27,2%), comércio (4,4%), trabalho doméstico ( 4,4%) e mecânica (4,1%). 47,7% nunca trabalharam com carteira assinada e dentre os que já tiveram carteira assinada em algum momento da vida, isso ocorreu há muito tempo (50% há mais de 5 anos, 22,9%
de 2 a 5 anos). O referido censo identificou que o grau de escolaridade da população em situação de rua é baixo: 15,1% nunca estudaram, 48,4% têm ensino fundamental incompleto e 10,3% completo, 3,8% têm ensino médio incompleto e 3,2% completo, 0,7% possui tanto ensino superior completo como incompleto (BRASIL, 2008).
Com base na Pesquisa Nacional também são observadas vulnerabilidades quanto ao possuir documentos: 24,8% não possuíam quaisquer documentos de identificação, o que dificulta a obtenção de emprego formal, o acesso aos serviços e programas governamentais e o exercício da cidadania. 49,5% tinham certidão de nascimento, 58,9% carteira de identidade, 42,2% CPF, 39,7% carteira de trabalho, 37,9% título de eleitor e apenas 21,9% possuíam todos esses documentos. Um percentual significativo não era atingido pela cobertura de programas governamentais: 88,5% não recebiam qualquer benefício e dentre os que recebiam, estavam: aposentadoria (3,2%), Bolsa Família (2,3%) e Benefício de Prestação Continuada (BPC – 1,3%) (BRASIL, 2008).
Quanto às alternativas forjadas na vivência em situação de rua para angariar a sobrevivência, a Pesquisa Nacional revelou que 70,9% desempenhava alguma atividade remunerada, particularmente na economia informal, dentre elas: catador de materiais recicláveis (27,5%), flanelinha (14,1%), construção civil (6,3%), limpeza (4,2%). Somente 15,7% pediam dinheiro para a sobrevivência, o que contribui para desmistificar o imaginário social de que este grupo é composto basicamente por pedintes, revelando a configuração de um novo perfil da população de rua que, embora não exclusivo, angariam recursos financeiros para sua subsistência com base no próprio trabalho. No entanto, apenas 1,9% trabalhava com carteira assinada. Os níveis de rendimentos dos que realizavam atividades informais eram baixíssimos: 52,6% recebiam entre R$ 20,00 e R$ 80,00 semanais (BRASIL, 2008).
É possível identificar ainda, com base no Censo Nacional, uma vulnerabilidade dos vínculos familiares da população de rua: 51,9% possuem algum parente residente na cidade em que se encontram, todavia 38,9% não mantém contato com esses familiares e apenas 14,5% mantém contatos em períodos espaçados (de dois em dois meses até um ano). Os contatos são mais frequentes (diários, semanais ou mensais) no caso de 34,3% dos entrevistados. Sobre a qualidade do relacionamento com os parentes que vivem na mesma cidade, 39,2% avaliam como bom ou muito bom, enquanto 29,3% consideram como ruim ou péssimo (BRASIL, 2008).