5. As etapas e procedimentos do trabalho de campo
5.5. Da entrevista
Sendo, como vimos já, semiestruturadas (ou semidiretivas), as entrevistas tiveram à partida um documento estruturante e orientador: um guião. Especificando o que a comunidade de investigadores sociais entende por guião em entrevistas semiestruturadas, trazemos à liça o que sobre ele dizem Amado e Freire (2014): guião é um documento “onde se define e regista, numa ordem lógica para o entrevistador, o essencial do que se pretende obter, embora, na interação se venha a dar uma grande liberdade de resposta ao entrevistado” (p. 208).
Porque se pretendia realizar entrevistas a dois grupos distintos de inquiridos, diretor/presidente da CAP e coordenadores de departamento, foram criados dois guiões (anexos VII e VIII).
Construídos, à semelhança do questionário, de forma a cumprir dois, dos três, objetivos da investigação: “enquadrar o uso das tecnologias no funcionamento interno da organização”; “confrontar o exercício das lideranças com o recurso às TIC no que diz respeito: (i) à presença na oferta educativa do agrupamento; (ii) ao incentivo a projetos inovadores; (iii) à orientação e ao estímulo para a formação do pessoal docente”. Neles estava, também, patente o propósito de identificar a ideia de escola dos entrevistados e o tipo liderança dos diretores.
Os guiões estruturam-se a partir de três dimensões: 1) caracterização dos participantes, subdividindo-se esta nas categorias: género; idade; habilitações académicas; situação/inserção profissional e liderança; 2) conhecimento do quadro institucional na utilização das TIC, que se subdivide nas categorias: em contexto escolar; na sala de aula para o ensino e aprendizagem; comunicação interna e externa; fatores que influenciam a utilização pelos docentes; e PTE; 3) perceção da conjuntura na presença das TIC, que se subdivide nas categorias: as TIC na oferta educativa do agrupamento; as TIC nos projetos do agrupamento; as TIC na formação contínua do pessoal docente do agrupamento. Por sua vez, as categorias subdividem-se em subcategorias (perguntas-guia). Com estrutura comum no que diz respeito quer às dimensões quer às categorias, também as perguntas-guia são, na sua maioria, idênticas, como se pode constatar nos anexos VII e VIII.
Na realização das entrevistas foram observados um conjunto de procedimentos a ter em consideração (Tuckman, 1994), nomeadamente a apresentação, aos entrevistados, dos objetivos e da natureza da entrevista. Tivemos especial cuidado em utilizar uma linguagem adequada, “evitando questões ambíguas, personalizadas e embaraçosas” (Gaspar, 1996, p. 39), evitamos ser parciais nas questões colocadas e tivemos em mente que, “necessariamente, as boas entrevistas revelam paciência” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 137). Foi tido em consideração que as boas entrevistas “caracterizam-se pelo facto de os sujeitos estarem à vontade e falarem livremente sobre os seus pontos de vista” (Id., ibid., p. 136). Houve, também, o cuidado de não definir à partida um tempo limite para cada entrevista, de modo a garantir a espontaneidade e fluidez do discurso aos entrevistados ou que estes não fossem interrompidos ou condicionados pelo tempo disponível para falarem, observando-se, porém, o preceito de “que a entrevista não deve vaguear por temas que não sejam significativos, mas, sim direccionada para o que se pretende aferir” (Santos, 2010, p. 58).
Ainda no âmbito dos procedimentos deixamos expresso que, ao longo das entrevistas, procuramos acautelar eventuais influências que pudéssemos ter nas respostas dadas pelos entrevistados e procuramos evitar aquilo “que Moreira apelida de “desejabilidade social das respostas” (2007: p. 231), isto é, os inquiridos tendem a responder de acordo com o que deles se espera e não tanto com aquilo que é a sua realidade” (Santos, 2010, p. 120). Por outras palavras, procuramos evitar o que “fica ou soa bem” (Ferreira, 1986, p. 183).
Seguindo o conselho de Bogdan e Biklen (1994, p. 172), as entrevistas foram objeto de gravação áudio, de modo a poderem ser “integralmente transcritas (incluindo hesitações, risos, silêncios, bem como estímulos do entrevistador)” (Bardin, 2011, p. 89), para posterior análise e ouvidas tantas vezes quanto as necessárias por forma a evitar perceções erradas dos conteúdos tratados, garantido, assim, a fiabilidade das respostas. A gravação áudio foi realizada após consentimento esclarecido dos entrevistados.
A seleção dos coordenadores de departamento a entrevistar foi feita por conveniência. Foram selecionados, em cada caso de estudo, o(s) coordenador(es) do departamento ao qual pertencia o coordenador da equipa PTE, porquanto nos pareceu ser esta figura peça chave na relação da escola com as TIC e na forma como estas são introduzidas e integram as atividades escolares. No agrupamento A2 foram selecionados
dois coordenadores de departamento pelos motivos já antes apontados156. Na escolha dos
coordenadores de departamento foi tido, ainda, em consideração a disponibilidade manifestada pelos selecionados e a facilidade de encontro quer em termos de local da entrevista, ou a possibilidade de realização desta através do Skype, quer de data de agendamento.
Os guiões foram elaborados durante o mês de fevereiro de 2013 e as entrevistas realizadas durante os meses de junho e julho 2013 (vd. quadro 7).
CAPÍTULO IV
Alguns autores, e.g. Queiroz (2001) e Morgado (2012), consideram “que a investigação em educação deve ser realizada com recurso às mais diversas metodologias e técnicas de recolha e de análise dos dados, numa lógica de complementaridade” (Amado, 2014b, pp. 67-68). Na mesma linha de pensamento situa-se Guga (2008). Para este autor “não se deveria aceitar nenhum item de informação que não possa ser verificado por pelo menos duas fontes”157(p. 158).
É nessa lógica de complementaridade das fontes e na verificação/validação dos resultados que assenta a triangulação (Bartelett, Burton, & Peim, 2001; Stake, 2009) cujo conceito se tenta esclarecer neste quarto, e último, capítulo – Apresentação, análise e interpretação de dados –. A este propósito, apresentam-se os quatro tipos de triangulação segundo Denzin (2009) e fala-se de validade e da sua ligação à triangulação.
No capítulo anterior versamos sobre a análise documental como técnica de recolha de dados. Neste capítulo abordamos a análise documental enquanto técnica de análise de dados, porquanto esta foi a técnica utilizada no tratamento dos dados obtidos nos documentos consultados.
Ainda neste capítulo apresentamos, analisamos e interpretamos os dados resultantes da aplicação dos questionários aos docentes de ambos os agrupamentos do estudo. Falamos de transcrição e de análise de conteúdo, técnica de análise e interpretação de dados usada com as entrevistas e, finalmente, fazemos o tratamento, a inferência e a interpretação dos resultados dessas entrevistas.
À medida que os resultados, e os instrumentos de recolha de dados utilizados no estudo, vão sendo apresentados, fazemos, sempre que tal é possível, a sua triangulação.