PARTE IV – DOS CRIMES DE LAVAGEM DE CAPITAIS
CONTA DEPOSITANTE: ARCADEX CORP.
IV.2. Da Lavagem de Ativos desenvolvida por ALBERTO YOUSSEF e outros
IV.2.1. Da lavagem de ativos em face da ODEBRECHT
Conforme apurado nos presentes autos357, MARCELO ODEBRECHT,
MÁRCIO FARIA, ROGÉRIO ARAÚJO e CÉSAR ROCHA, na condição de executivos do
Grupo ODEBRECHT358, juntamente com o operador financeiro ALBERTO YOUSSEF e o ex-
Diretor de Abastecimento da PETROBRAS PAULO ROBERTO COSTA ocultaram e dissimularam a origem e a propriedade de valores diretamente provenientes dos crimes de organização criminosa, fraude à licitação, cartel e corrupção em face da PETROBRAS,
357Ver PARTE III, relativo à corrupção engendrada pelos executivos do Grupo ODEBRECHT. 358ANEXO 29.
descritos nesta peça, convertendo-os em ativos lícitos, violando desta forma o disposto no art. 1º da Lei 9613/98, e incorrendo, assim, na prática do crime de lavagem de capitais.
De acordo com o narrado no Capítulo III da presente denúncia, as ofertas de vantagens indevidas realizadas indiretamente por MARCELO ODEBRECHT através de MÁRCIO FARIA e ROGÉRIO ARAÚJO, altos executivos do Grupo ODEBRECHT, a PAULO ROBERTO COSTA, diretamente e por intermédio de ALBERTO YOUSSEF, foram não apenas aceitas pelo então Diretor de Abastecimento da PETROBRAS, como seu pagamento foi efetivamente realizado.
O colaborador ora denunciado ALBERTO YOUSSEF confessou que os pagamentos de vantagens indevidas prometidas a PAULO ROBERTO COSTA e, consequentemente, ao Partido Progressista em decorrência das obras angariadas pelos CONSÓRCIOS RNEST-CONEST, no âmbito da RNEST, e PIPE RACK e TUC, no âmbito do COMPERJ, eram equivalentes a R$ 15.000.000,00 em cada um dos empreendimentos, tendo por ele sido operacionalizados de duas formas: entregas de valores em espécie e depósitos em contas no exterior. Para tanto, MÁRCIO FARIA, diretor do Grupo ODEBRECHT, solicitou que ALBERTO YOUSSEF tratasse dos detalhes dos pagamentos diretamente com CÉSAR ROCHA, administrador da empresa359.
Tais valores em espécie foram entregues por emissários da ODEBRECHT enviados por CÉSAR ROCHA ao escritório de ALBERTO YOUSSEF. Os depósitos no exterior foram realizados pelo Grupo ODEBRECHT através de offshores em contas titularizadas também por offshores indicadas por ALBERTO YOUSSEF e controladas por doleiros de sua confiança como LEONARDO MEIRELLES, NELMA KODAMA e CARLOS ROCHA. De acordo com ALBERTO YOUSSEF, CÉSAR ROCHA mantinha contatos com ele através do BBM, utilizando-se do usuário "NARUTO"360.
359ANEXO 29.
360“QUE tais valores correspondem a um acordo para pagamento de 7,5 milhões de Reais, a ser pagos no exterior pela ODEBRECHT; QUE o declarante conheceu MARIO FARIA, Presidente da ODEBRECHT ÓLEO E GAS, que, por sua vez lhe encaminhou para a pessoa de CÉSAR ROCHA (Diretor Financeiro da Holding) para tratar dos pagamentos da ODEBRECHT; QUE CÉSAR ROCHAR era conhecido por "NARUTO", apelido utilizado pelo mesmo no BBM; QUE os valores fazem parte de um "pacote" de pagamentos de ODEBRECHT relacionadas às obras do RNEST e do COMPERJ; QUE se recorda do Consórcio Pipe Rack no COMPERJ, integrado por Odebrecht, Mendes Júnior e UTC e do Contrato de Utilidades, também integrado
Corroboram as alegações de ALBERTO YOUSSEF a Informação 018/2015- DELEFIN/DRCOR/SR/DPF/PR elaborado pela Polícia Federal, na qual consta que dentre os interlocutores do operador financeiro no blackberry messenger fora identificado o usuário "NARUTO", cujo e-mail cadastrado era "[email protected]", endereço pertencente ao denunciado CÉSAR ROCHA.
Suas declarações são corroboradas pelos extratos bancários da conta titularizada pela emresa RFY IMP. EXP. LTD no Sandard Chartered Bank, em Hong Kong, e controlada por LEONARDO MEIRELLES. Através de sua análise, ALBERTO YOUSSEF identificou oito depósitos, no interregno entre 23/09/2011 e 18/05/2012, no montante total de USD 4.267.919,15 como parte de pagamento de R$7.500.000,00 que a ODEBRECHT comprometeu-se a depositar no exterior, parcela dos valores prometidos em decorrência dos empreendimentos do COMPERJ e da RNEST acima mencionados361.
Os depósitos identificados são os seguintes:
Data da operação Valor
23 /09/2011 US$699.998,05 29/09/2011 US$ 499.998,05 03/10/2011 US$349.978,00 28/10/2011 US$179.998,05 31/10/2011 US$299.998,05 23/12/2011 US$437.998,05 01/04/2012 US$1.499.995,10 18/05/2012 US$299.955,80
pela Odebrecht, Mitsue Toyo e UTC; Que essas duas obras do COMPERJ havia o "acerto" do pagamento de 15 milhões de Reais em cada uma delas; QUE com relação à sistemática de pagamentos da conta da RFY, era feito um cronograma onde parte era pago em Reais no Brasil, diretamente ao declarante, e parte em dólares no exterior; QUE também foram realizados pagamentos em outras contas, como por exemplo a DGX, ELITE DAY, bem como contas de outros operadores como NELMA PENASSO, CARLOS ROCHA, etc; QUE não se recorda quais foram as contas remetentes dos valores pagos na conta de LEONARDO cujo extrato é anexo ao presente termo” - ANEXO 70.
Deste modo, tem-se que no período de 23/09/2011 a 18/05/2012 foram realizadas oito operações de transferência de valores, as quais foram executadas no propósito de ocultar e dissimular a origem de valores espúrios.
Tal conclusão é confirmada pelo depoimento de LEONARDO MEIRELLES, o qual informou que efetivamente os depósitos acima referidos identificados por ALBERTO YOUSSEF em extrato de conta-corrente titularizada pela offshore RFY de sua propriedade foram realizados a mando de ALBERTO YOUSSEF, pois os depósitos de altos valores nas contas pertenciam sempre ao operador financeiro. Confirmou, ainda, que referidos depósitos foram realizados pela ODEBRECHT, portanto por determinação de seu principal gestor, MARCELO BAHIA ODEBRECHT, e de MÁRCIO FARIA e ROGÉRIO ARAÚJO, em decorrência do acordo de pagamento de R$ 7.500.000,00 a serem pagos no exterior, tendo a vinculação sido informada à época por ALBERTO YOUSSEF. LEONARDO MEIRELLES informou, ainda, que foram os valores disponibilizados em espécie no país a ALBERTO YOUSSEF. Finalmente, confirmou que o contato do operador financeiro junto à empreiteira era pessoa apelidada "NARUTO", em consonância com o alegado por ALBERTO YOUSSEF362.
MÁRCIO FARIA e ROGÉRIO ARAÚJO, por sua vez, foram identificados por ALBERTO YOUSSEF como os responsáveis pelas negociações dos valores a serem pagos diretamente com PAULO ROBERTO COSTA363, assim como da forma como ocorreriam tais pagamentos, tendo o efetivo pagamento sido realizado por CÉSAR ROCHA a ALBERTO YOUSSEF. Considerando-se o conhecimento e controle exercido pelo denunciado MARCELO ODEBRECHT, à época diretor-presidente da ODEBRECHT S.A364,
362 “QUE, acerca dos depositos mencionados por ALBERTO YOUSSEF se referirem de fato a operaçoes determinadas pela ODEBRECHT e se o mesmo teria condições vincular os depositos aos responsaveis pelos mesmos, afirma que sim, que YOUSSEF possuia um controle sobre essas operações, observando que o mesmo vinculou aos depositos ao pagamento de uma divida maior de 7,5 milhoes de reais a serem pagos no exterior pela ODEBRECHT; QUE , informa que tais recursos foram disponibilizados a YOUSSEF no Brasil, podendo ter utilizado as contas da IND E COM DE MEDICAMENTOS LABOGEN e PIROQUIMICA COMERCIAL; (…) QUE , perguntado quem seria o contato de YOUSSEF na ODEBRECHT, lembra do mesmo ter mencionado o nome "NARUTO", todavia nao sabe de quem se trata ou se seria um nome ou apelido” - Termo de Declarações de LEONARDO MEIRELLES – ANEXO 71.
363ANEXO 49.
364Neste sentido, observe-se a petição protocolada pela empresa em sede dos autos nº 5024251- 72.2015.404.7000, evento 458, PET1.
holding controladora das empresas do Grupo Odebrecht, pode-se concluir que os
denunciados MÁRCIO FARIA, ROGÉRIO ARAÚJO e CÉSAR ROCHA agiram sob suas orientações.
Diante de tal quadro, tem-se que, ao oportunizar o pagamento em contas bancárias controladas por doleiros indicados por ALBERTO YOUSSEF, a fim de que fossem os valores repassados a PAULO ROBERTO COSTA e membros do Partido Progressista – PP, no interregno entre 23/09/2011 e 18/05/2012, os denunciados MARCELO ODEBRECHT, MÁRCIO FARIA, ROGÉRIO ARAÚJO e CÉSAR ROCHA, agindo em conluio e com unidade de desígnios com ALBERTO YOUSSEF e PAULO ROBERTO COSTA, dissimularam a origem, disposição, movimentação e propriedade de USD 4.267.919,15 provenientes direta e indiretamente dos crimes de organização criminosa, cartel, fraude à licitação, e, especialmente, do produto dos crimes de corrupção praticados em face da PETROBRAS S/A, todos descritos nesta peça, corrupção contra a PETROBRAS, violando o disposto no art. 1º da Lei 9613/98, em oito oportunidades, incorrendo, assim, na prática do crime de lavagem de capitais.