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O recorte da nossa pesquisa priorizou o curso Normal. E do contato com os

profissionais do Instituto Estadual de Educação Assis Brasil, descobrimos como o

ensino de música está presente para os alunos desta modalidade, pós Lei

11.769/2008. Já houve na grade curricular do curso normal (Anexo 2) desta escola,

a disciplina de didática da música, extinta devido às reestruturações do currículo. A

partir daí, a disciplina de didática da Arte absorveu os conteúdos de música que

atualmente são ministrados pela professora Glória. A música também está presente

no curso através do componente curricular “didática de educação física”, através da

professora Simone que “adotou” atividades musicais em suas aulas.

Das conversas com Marisa e Norah, respectivamente, obtivemos algumas

pistas de como se estrutura o ensino de música no curso Normal. E foi também

através desses relatos que descobrimos o trabalho da professora Simone e Glória.

Marisa ressaltou que o ensino de música estava inserido dentro da disciplina de

Didática, como uma atividade para “fixar alguma coisa na criança” (ENTREVISTA.

EQUIPE DIRETIVA MARISA 10/10/2013). E também ponderou que na disciplina de

Arte são trabalhadas pequenas questões relativas à música, porém desconhecia o

que era realizado. No entanto, considera o trabalho com música necessário às

alunas

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do curso Normal porque “estamos formando pessoas” (ENTREVISTA.

EQUIPE DIRETIVA MARISA 10/10/2013). De acordo com Marisa, a área trabalha

com as emoções dos indivíduos, desenvolvendo habilidades, potencialidades, a

parte afetiva e cognitiva, sendo, portanto, fundamental que as futuras professoras

saibam como desenvolver atividades ligadas à música com as crianças.

Na mesma linha de pensamento, Norah avaliou que a música dentro desta

modalidade de ensino tem um caráter mais lúdico e recreativo, onde as brincadeiras

cantadas, as músicas folclóricas, hinos e canções relativas às datas comemorativas,

permeiam o cotidiano do curso Normal.

A partir da entrevista com a coordenadora Norah, que mencionou o trabalho

da professora Simone, buscamos entrevistar esta profissional a fim de conhecermos

de forma mais detalhada as suas atividades, práticas e as suas percepções sobre o

ensino de música.

Na disciplina de Didática da Educação Física, a música possui um tom

lúdico, de preparação para atividades, festas ou rotina. Como o curso Normal

prepara os alunos para atuação na Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino

Fundamental, a professora considera essa proposta importante, pois parte do

princípio de que a criança aprende brincando e por isso, dá um enfoque mais

“informal” às suas práticas. Como explica Simone, o trabalho com música resulta da

sua paixão por esta arte, principalmente pelo gosto que tem pelas cantigas infantis

e, paralelo aos conteúdos da sua disciplina, realiza tais atividades. A professora,

durante a nossa entrevista, nos mostrou os CD’S e DVD’S que utiliza em suas aulas

e objetiva, através deste material, mostrar às suas alunas as coreografias e as

formas de cantar as músicas, para que as estudantes possam, futuramente,

trabalhar com as crianças, seja nos estágios ou durante o exercício da profissão.

Além desses recursos, a professora ainda nos revelou que as estudantes devem

registrar as músicas em um caderno, porque elas também são avaliadas por isso. E

completa:

Eu trabalho com elas as músicas de entrada, porque elas saem habilitadas para a educação infantil e para os anos iniciais. Então eu busco musiquinhas de entrada, musiquinha da hora do lanche, musiquinha de higiene, musiquinha ... então elas vão montando o caderno e isso é avaliação, elas têm que ter o caderno, ir montando o caderninho delas só

33Utilizaremos o termo “alunas” porque todas as entrevistadas se referiram às estudantes do curso Normal como sendo, predominantemente, mulheres.

com as musiquinhas que a gente vai vendo (ENTREVISTA. PROFESSORA SIMONE, 29/10/2013).

Quando questionada sobre a forma de estruturação do seu trabalho com

música, a professora Simone nos relatou que o organiza da seguinte forma: são

trabalhadas as cantigas infantis, as brincadeiras cantadas e, quando se aproxima

alguma data comemorativa como dias das mães ou páscoa, por exemplo, a ênfase

recaiu sobre alguma canção que desenvolva esta temática.

Além dessas atividades, Simone pondera que ao ensinar uma música,

esclarece os objetivos para as suas alunas e o porquê de serem trabalhadas tais

canções. Segundo a docente, é feita uma análise e, a partir daí, emergem as

finalidades das cantigas como estimular a concentração, memória, percepção

auditiva e observação. Destaca que as alunas desconhecem os inúmeros aspectos

que podem ser desenvolvidos em uma música e que ampliam habilidades nas

crianças. E observa: “Eu digo para elas que muitas coisas podem ser trabalhadas

com uma musiquinha. Com uma simples musiquinha, eu estou desenvolvendo com

o meu aluno habilidades e objetivos” (ENTREVISTA. PROFESSORA SIMONE,

29/10/2013).

E conclui:

Eu acho que através da música, numa única atividade, a criança desenvolve várias habilidades como a memória, porque ela tem que aprender, conhecer a letra, ela tem que memorizá-la. A criança precisa observar se tem algum gesto, precisa perceber os sons, a percepção auditiva, a sensibilidade de ouvir, e a música também ajuda na interação entre as crianças e proporciona alegria para elas. Então eu digo: todos os ritmos musicais que eu posso trabalhar com elas eu trabalho (ENTREVISTA, PROFESSORA SIMONE 29/10/2013).

Ainda neste sentido, Simone enfatiza que procura levar músicas novas ou

regravações atuais de clássicos como “A Galinha Pintadinha” ou “Patati Patatá” e

que gostaria de conhecer a linguagem musical de maneira aprofundada. Simone

conta que possui um livro de cantigas infantis com muitas partituras, mas não o

utiliza por desconhecer a leitura musical. Por fim, observa um retorno positivo por

parte das alunas e isto a incentiva a continuar o seu trabalho com música.

As práticas de ensinar música da professora Simone precisam ser

reconhecidas porque, apesar de não ter formação na área, ela esforça-se em manter

viva esta arte na formação de suas alunas. Também é oportuno destacar a atenção

que direciona para a música no desenvolvimento infantil, foco do trabalho das alunas

do curso Normal. Passemos ao trabalho desenvolvido pela professora Glória,

responsável pela disciplina de Didática da Arte.

Em suas abordagens em torno da música, Glória reconhece as suas

limitações, já que possui formação em Educação Artística – Habilitação em Artes

Plásticas. Segundo a professora, o fato de ter estudado expressão musical durante

quatro semestres na universidade, não garante “um trabalho adequado”

(ENTREVISTA. PROFESSORA GLÓRIA, 24/10/2013). Apesar das dificuldades, sua

proposta tem como finalidade principal fazer com que as alunas do curso normal

compreendam os objetivos dos conteúdos de música para educação infantil e anos

iniciais do ensino fundamental. E esta compreensão vem das discussões em torno

das propostas inseridas nos documentos dos Referenciais Curriculares Nacionais

para Educação Infantil (RCNEIs) e Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Além

disso, como comenta, as alunas precisam apreender esses conteúdos e identificar

as múltiplas formas com que eles aparecem no cotidiano. A partir da discussão e

análise em torno de tais informações, são realizadas experimentações que buscam

fazer com que o aluno:

Passe pelo fazer artístico e apreciação artística (...) tentar proporcionar, de alguma maneira, que o aluno tenha o fazer artístico através da composição musical, não da maneira formal e que tenha a apreciação musical de forma que ele acesse o repertório amplo e também reflita sobre as diferentes produções musicais que existem (ENTREVISTA, PROFESSORA GLÓRIA, 24/10/2013).

Ainda referindo-se à sua proposta, Glória esclarece que tenta extrair dos

conteúdos referentes à educação infantil e aos anos iniciais, possibilidades de ações

e práticas. E faz uma crítica aos diminutivos que, segundo a professora, são muito

comuns nas linguagens artísticas. Nas suas aulas, relata que são trabalhadas

músicas de compositores que produziram canções para crianças como Chico

Buarque e Vinícius de Moraes além de música erudita, estrangeira e popular

brasileira.

Glória ainda observou que dentro da disciplina de Didática da Arte aborda,

nesta sequência, os conteúdos de artes visuais, teatro, música e dança. Entretanto,

os conteúdos de música são trabalhados já no final do ano letivo e muitos

estudantes, por já estarem aprovados, não comparecem às aulas. É nesta realidade

que Glória reconhece a deficiência do sistema de ensino, afirmando que as políticas

educacionais deveriam proporcionar: “um profissional específico de cada uma

dessas linguagens” (ENTREVISTA, PROFESSORA GLÓRIA, 24/10/2013). Em

virtude do tempo de que dispõe e da estrutura curricular, Glória assim organiza o

seu trabalho e reflete sobre a fragilidade na execução dos componentes música,

teatro e dança em virtude da ausência de professores habilitados.

Sobre os referenciais utilizados para conduzir as aulas, a professora ratifica

que a base está nos RCNEI e PCNs de música. Entretanto, parte da seguinte

questão: a criança deve ter acesso a quê? A partir desta pergunta, Glória então

busca na internet artigos que discutam a temática da música na escola, adquire

livros sobre o assunto e também revistas como a Nova Escola. A professora chega a

citar a obra de Murray Schafer, o “Ouvido Pensante” e “Cor, Som e Movimento” de

Susana Rangel Vieira da Cunha, como referência para as suas aulas. Além disso,

diz ser extremamente importante a interação com estudantes de outras áreas

relacionadas às artes, como os alunos do grupo do PIBID

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, que realizaram trabalho

na instituição. Neste ínterim, como ressalta, acaba conhecendo novos autores e

livros, utilizados posterirormente nas aulas de música do curso Normal.

Apesar de todo o esforço realizado e por trabalhar linguagens que não

condizem à sua habilitação, a professora Glória avalia que a sua proposta de

ensinar música para as alunas do curso Normal é necessária, mas não suficiente. E

afirma dar um enfoque maior às Artes Visuais em suas aulas devido ao tempo,

espaço, formação e estrutura de que dispõe.

A mesma posição sobre a presença da música no curso Normal é tida por

Sandra. Ela ratifica que a área se insere na disciplina de Didática da Arte. E reitera

que a construção de uma política que torne a música componente curricular, ainda

está longe de ser alcançada, pois “o que falta é justamente isso: aprofundar e

caracterizar a música enquanto componente curricular. Isso eu acho que ainda falta”

(ENTREVISTA. REPRESENTANTE 5ª CRE SANDRA, 05/11/2013).

Destacamos também uma ação promovida pelo Instituto Estadual de

Educação Assis Brasil visando aproximar as alunas do curso normal com a área da

música, fora do contexto das disciplinas de Didática da Arte e de Educação Física: a

Semana de Educação. Neste evento, conforme a professora Simone, a escola tenta

levar profissionais da música para desenvolver oficinas e outras atividades. Fora

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este encontro, promovido uma vez por ano na instituição, também são realizadas

palestras que, de acordo com Marisa, ocorrem em parceria com algumas

instituições. A integrante da equipe diretiva destaca que conseguiu junto ao SESC,

organizar um encontro entre uma profissional da área da música e as alunas do

curso Normal, professoras da educação infantil e anos iniciais do Instituto Estadual

de Educação Assis Brasil. Marisa relata que a 5ª CRE está liberando uma verba às

instituições de ensino para que estas promovam debates e encontros, mas as

demandas são muitas e como afirma, não são todas as áreas que conseguem ser

contempladas.

Relembramos que a disciplina de Didática da Música foi extinta do currículo

do curso e, por fim, observamos que as práticas da docente estão relacionadas à

concepção do professor polivalente, ainda presente nas escolas. A última Lei de

Diretrizes e Bases parece não ter provocado avanços significativos em torno do

ensino de arte e tampouco no ensino de música, repetindo a proposta da LDB

anterior que data do ano de 1971. Ou seja: apenas um profissional deveria trabalhar

as quatro linguagens artísticas, realidade que ainda observamos.

Sobre este tema, Grossi (2007), fala sobre o grande distanciamento entre os

agentes educativos e o campo de trabalho do professor de música. Além disso, a

autora observa que a polivalência ainda é prática comum, pois muitas Secretarias de

Ensino solicitam aos docentes habilitados numa área específica da arte, que

ministrem conteúdos de teatro, música e artes visuais.

Especificamente sobre as práticas de ensinar música no curso normal do

Instituo Estadual de Educação Assis Brasil, observamos duas concepções

diferentes. Concluímos que apesar do esforço e da boa vontade de cada professora,

a necessidade do profissional de música é fundamental para dialogar com esses

componentes curriculares (didática de educação física e arte) e para empreender

novas propostas pedagógicas para o ensino desta área na instituição. Discutiremos

no próximo tema, as percepções dos profissionais da escola sobre a Lei

11.769/2008, a ausência dos professores de música e as ações concretas para a

efetivação da área no Instituto Estadual de Educação Assis Brasil a partir da

legislação.