A realidade encontrada no Instituto Estadual de Educação Assis Brasil é
desafiadora. E pode representar, quem sabe, a situação das demais escolas do
estado do Rio Grande do Sul. Em nossa investigação, percebemos que o ensino de
música neste estabelecimento está presente não como componente curricular
obrigatório, mas através das iniciativas de alguns professores que tentam, mesmo
sem formação, trabalhar os conteúdos da área dentro da disciplina de Arte e até
mesmo em componentes afins. No campo extracurricular, a música ora está
presente, ora ausente. As duas situações revelam que a Lei 11.769/2008 não
significou a inclusão da música no cotidiano escolar de forma consistente e
significativa.
Nas entrevistas com a equipe diretiva, coordenação e professores da
instituição, ficou evidente a receptividade e o espaço que a escola pode oferecer à
música em seu dia a dia. Exemplo disso, foi o trabalho realizado pelo Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) da Universidade Federal de
Pelotas no ano de 2012 que, durante um breve período, desenvolveu no Instituto
Estadual de Educação Assis Brasil um projeto de ensino de música, atuando na
educação infantil.
Entretanto, fora essas iniciativas, as percepções desses profissionais em
relação às ações das mantenedoras e das políticas públicas promovidas pelo
estado, convergem para uma desanimadora constatação: há um longo caminho a
ser percorrido para se efetivar, de fato, o ensino de música na escola, da forma
considerada ideal pelos entrevistados: como disciplina curricular e com professores
habilitados. No caso do curso Normal, as professoras sem formação na área musical
dão conta de um conteúdo específico que, pela sua complexidade, só poderia ser
conduzido por um professor de música. No entanto, devemos reconhecer que essas
docentes esforçam-se com méritos para realizar esta tarefa.
Em relação às práticas de ensinar música nesta modalidade, refletimos,
primeiramente, sobre as dificuldades enfrentadas pelos professores de outras áreas
em trabalhar conteúdos distantes da sua formação. Basta tomarmos como base a
atuação da professora Glória que, solitária, ocupa-se do ensino de quatro linguagens
diferentes, com formação específica para apenas uma delas. Não há possibilidade
de qualificar a educação desta forma, sobrecarregando docentes, desviando as suas
formações e atribuições. Vejamos: se a professora em questão não incluísse a
música em suas aulas, a arte dos sons provavelmente passaria em branco durante a
formação das estudantes do curso Normal. E não estamos tratando aqui de dar
subsídios para que as futuras docentes possam trabalhar as especificidades da
música, mas sim de proporcionar aos indivíduos o contato com esta arte tão
necessária à formação. Como refletiu a professora Glória, deveríamos ter
professores habilitados para o trabalho com cada uma das quatro linguagens
artísticas na escola. Entretanto, a docente está submetida às falhas da estrutura
educacional que durante décadas repete equívocos semelhantes e não soluciona
questões fundamentais.
Está claro que sem cursos de formação, as práticas de ensinar música não
podem ir além do que observamos. Mais uma vez, voltamos a falar do papel da
administração pública e das políticas de educação elaboradas pelos sujeitos que
estão à frente deste processo. Ora, tivemos seis anos para tentar, de alguma forma,
trazer os conteúdos de música para as salas de aula, para tornar esta arte mais
palpável e presente na formação de crianças e jovens. E a escola em questão,
segundo os depoimentos da equipe diretiva, coordenação e professores, está em
busca de caminhos para a construção de uma proposta articulada junto à
mantenedora visando possibilitar a efetivação do ensino de música na instituição.
Compreendemos que o ensino de música no Instituto Estadual de Educação
Assis Brasil sobrevive através do esforço isolado de alguns professores que buscam
torná-lo mais presente no cotidiano da escola. E tais iniciativas, se não tiverem o
devido incentivo, podem, inclusive, desaparecer. O ensino de música na instituição
perpassa o componente Arte e não há, por enquanto, indícios de que ele venha a se
tornar disciplina curricular. Consideramos, portanto, que a escola atende
parcialmente o que determina a legislação, apesar de vislumbrarmos, como
pesquisadores e professores de música, que esta área de conhecimento estivesse
presente em todas as instituições de ensino como um componente curricular
independente e com docentes habilitados.
Em relação à Lei 11.769/2008, é preocupante a atuação da mantenedora no
sentido de dar à escola subsídios para refletir e tentar, de alguma forma, inseri-la na
disciplina de Arte. Como vimos, não houve absolutamente nenhuma orientação,
discussões sobre o tema e oferta de cursos de formação. De modo geral, portanto,
compreendemos que o sistema de ensino estadual não estava preparado para o
desafio proposto pela Lei 11.769/2008. Sem ações concretas e debates profundos,
fica dificultada a possibilidade de termos o retorno dos conteúdos de música às
escolas. Após seis anos, observamos ações insuficientes, segundo os documentos e
entrevistas das escolas investigadas.
A partir da nossa investigação, refletimos que a Lei 11.769/2008 não produziu
maiores transformações no Instituto Estadual de Educação Assis Brasil. No âmbito
do curso Normal, os debates pedagógicos também não ocorreram e, portanto,
verificamos que a condução do trabalho com música realiza-se de forma autônoma,
de acordo com o enfoque e concepções de cada professor. Observamos que as
discussões em torno da legislação são importantes, visando contemplar o ensino de
música na escola. Como relataram as professoras Glória e Simone, as ausências do
componente curricular e do professor de música na escola, contribuem para que a
reponsabilidade pela condução dos conteúdos da área sejam articulados por outros
profissionaise não haja reflexões sobre o ensino de música na escola.
Sobre os professores de música, as entrevistadas entendem que é
extremamente importante tê-los na escola, principalmente porque os mesmos
podem implementar uma proposta para além da que se pratica no curso Normal.
Mas como já foi destacado neste trabalho, a questão do veto à formação é um
entrave à efetivação deste profissional nas escolas e isso se reflete no Instituto
Estadual de Educação Assis Brasil. Apesar dos documentos oficiais apontarem para
a obrigatoriedade da formação em cursos de licenciatura, obtida nas universidades,
a mantenedora argumenta que o veto impulsiona e abre a possibilidade para que os
profissionais de arte possam trabalhar os conteúdos de música.
Portanto, a partir deste ponto de vista, não existe uma obrigatoriedade de se
ter ou contratar professores habilitados, persistindo a ausência deste profissional
nas escolas. Sobre esta questão podemos até reivindicar, mas devemos considerar
que, a partir do veto articulado pelo MEC, os professores de música estão sujeitos a
tal determinação.
Finalizando esta explanação, observamos que os documentos referentes às
artes presentes nas Leis de Diretrizes e Bases e Parâmetros Curriculares Nacionais
devem ser repensados e, acima de tudo, implementados de fato, nas escolas. No
caso do Instituto Estadual de Educação Assis Brasil, que representa apenas uma
mínima parte das escolas estaduais do município de Pelotas, RS, esta realidade
está evidente, posto que temos uma estrutura de políticas públicas que ainda não
encontrou caminhos para solucionar os problemas da educação em geral e da
música em especial.
Portanto, consideramos que a mudança na realidade desta instituição, assim
como dos outros estabelecimentos de ensino que enfrentam situação semelhante,
só ocorrerá quando houver, efetivamente, ações políticas concretas dos agentes
educativose da sociedade que busquem contemplar o ensino de música na escola.
No documento
A ADAPTAÇÃO CURRICULAR DO ENSINO DE MÚSICA EM ESCOLAS PÚBLICAS DE PELOTAS A PARTIR DA IMPLANTAÇÃO DA LEI 11.769/2008
(páginas 162-165)