5 A INSERÇÃO DO ARTIGO 28-A NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
5.2 O JULGAMENTO FACULTATIVO DE IMPROCEDÊNCIA LIMINAR DE
5.2.1 Da matéria controvertida unicamente de direito
O primeiro pressuposto legal que será objeto de estudo consiste na necessidade da causa
sub judice ser “controvertida” e “unicamente de direito”, para possibilitar o julgamento liminar
de improcedência das ações repetitivas.
Inicialmente, quanto a expressão “matéria controvertida” presente no texto legal, algumas observações devem ser feitas.
Conforme preceituam Djanira Maria Radamés de Sá e Haroldo Pimenta, um ponto somente se torna controvertido num processo se houver, pela parte contrária àquela que o suscitou, afirmações contrapostas. Igualmente, é a concepção de Leonardo José Carneiro da Cunha, que aponta a existência da controvérsia apenas quando o réu impugna ponto alegado pelo autor141.
De logo, portanto, pode-se afirmar o mau emprego do termo “matéria controvertida” no artigo em comento, uma vez que este disciplinava uma hipótese de sentença de mérito sem a citação do réu. Isto é, uma vez que não houve manifestação do demandado sobre a pretensão do autor, a matéria por ele alegada não era controvertida, ainda.
Neste contexto, Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery afirmaram que o artigo 285-A padeceu de falta de técnica, pois somente a citação válida tornaria a coisa litigiosa
141 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. Primeiras impressões sobre o art. 285-A do CPC: julgamento imediato de processos repetitivos: uma racionalização para as demandas de massa. Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo: Dialética editor, n. 39, p. 95, 2006.
(art. 219 do CPC/73). Ou seja, o ato citatório implica situação processual de existência de matéria controvertida142.
Dessa forma, não se poderia exigir rigorosamente a existência de matéria controvertida como pressuposto legal da improcedência liminar, uma vez que sequer o réu integrou a relação jurídica processual nesse caso.
Outros doutrinadores debateram o tema, alcançando diferentes conclusões. É o caso de Luis Guilherme Aidar Bondioli, que entendeu que a palavra “controvertida” foi um adjetivo da expressão que lhe segue: “unicamente de direito”. Segundo ele, então, este requisito deveria ser lido “quando a matéria de mérito for unicamente de direito”143.
Já Leonardo Carneiro da Cunha entendeu que tal palavra foi usada para referir-se às demandas de massa, que dispensam a instrução probatória e as contestações discutem somente questões jurídicas trazidas na petição inicial144.
Em que pese o emprego equivocado da palavra “controvertida” no dispositivo, busca- se a verdadeira intenção do legislador ao se referir à citada terminologia. Assim, utiliza-se a descrição bastante convincente de Glauco Gumerato Ramos:
É evidente que a controvérsia a que se refere o legislador é a controvérsia já estabelecida em outros ‘casos idênticos’, cujo desfecho foi a improcedência do pedido. A matéria de direito trazida na causa de pedir, por não ser nenhuma novidade perante aquele juízo, já foi satisfatoriamente demonstrada, debatida e, portanto, controvertida, em ‘casos idênticos’ que precederam ao que receberá a resolução imediata.145
Portanto, entendeu-se que matéria controvertida, em uma perspectiva anterior à citação do réu, significou uma pretensão que tenha sido controvertida em outro processo para fins de aplicação da sentença de improcedência liminar146.
No que toca à necessidade de a matéria ser “unicamente de direito”, a doutrina majoritária entendeu como a causa sobre a qual a matéria fática pudesse ser comprovada pela
142 NERY JR., Nelson. Código de processo civil comentado. 9. ed. São Paulo: Ed. RT, 2006, p. 382.
143 BONDIOLI, Luis Guilherme Aidar. O novo CPC: a terceira etapa da reforma. São Paulo: Editora Saraiva, 2006, p. 196/197.
144 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. A fazenda pública em juízo. 5. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Editora Dialética, 2007, p. 94.
145 RAMOS, Glauco Gumerato. Reforma do CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006, p. 380-381. 146 NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de processo civil comentado e legislação
prova documental. Neste caso, bastaria apenas que o magistrado procedesse ao exame da questão de direito.
Essa interpretação é totalmente admissível, pelo motivo de não existir questão exclusivamente de direito. O fato, sobre o qual incide o direito, é imprescindível. Nesse sentido, ensina Yoshikawa:
Ocorrido, no mundo real, um fato que corresponda à descrição abstrata contida a norma jurídica, a norma incide sobre ela, infalivelmente, transformando-a em fato jurídico. Destarte, é sempre um acontecimento da vida, um fato em sentido amplo (fato ou ato jurídico, conforme resulte ou não da vontade humana), que desencadeia a criação, extinção ou modificação de direitos.147
De igual modo, tem-se a posição clássica de Pontes de Miranda148. Uma vez que o fenômeno direito ocorre, de fato, no momento da incidência da norma, torna-se impossível fazer a distinção entre questões de fato e de direito no mundo real149.
Partindo dessa premissa de que a matéria de direito é a consequência jurídica esperada de determinado fato, torna-se claro a inexistência de uma causa ser unicamente de direito. O dispositivo 285-A, mais uma vez, foi falho no emprego da expressão.
Em verdade, têm-se as afirmações de fato alegadas pelo autor, que são comprovadas de plano, justamente pela ausência de controvérsia sobre elas. Isto é, na exordial, estas foram devidamente comprovadas documentalmente, dispensando a instrução probatória.150 Daí porque, Calmon de Passos afirmou que a falta de controvérsia sobre os fatos é a causa de uma questão unicamente de direito151.
Como bem salienta Cássio Scarpinella Bueno, não haverá, propriamente, uma questão unicamente de direito, mas sim, questão predominantemente de direito, haja vista que sempre existirá questão fática em qualquer processo. Todavia, sobre esse contexto fático, não há
147 YOSHIKAWA, Eduardo Henrique de Oliveira. Distinção entre fato e questão de direito: reexame e valoração da prova no Recurso Especial. Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo: Editora Dialética, n. 43, p. 32, 2006.
148 MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1969, t. I, p. 410.
149 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Controle das decisões judiciais por meio de recursos de estrito direito
e ação rescisória. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002, p. 154.
150 DIDIER JR. Fredie et al. A terceira etapa da reforma processual civil: comentários às leis n. 11.187 e 11.232, de 2005; 11.276, 11.277 e 11.280, de 2006. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 58.
151 PASSOS, José Joaquim Calmon de. Comentários ao Código de Processo Civil. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001, vol. 3, p. 421.
qualquer dúvida “quanto à sua existência, seus contornos e seus limites”, sendo apenas importante saber qual direito aplicável sobre tais fatos incontroversos152.
Dessa forma, para permitir a aplicabilidade prática do dispositivo em comento, identificou-se matéria unicamente de direito como aquela remetente às discussões de textos normativos, conceitos doutrinários e incidência de determinada consequência normativa153.
Portanto, não poderia o dispositivo 285-A ser interpretado de forma literal no que tange a esse requisito legal. Foi preciso adotar uma compreensão mais abrangente, de modo a entender que seria inaplicável o instituto da improcedência liminar se a matéria fática não pudesse ser comprovada pela prova documental trazida no bojo da petição inicial.
No Código de Processo Civil de 2015, o artigo 332 - que trata sobre o instituto da improcedência liminar - afastou de sua redação a discussão hermenêutica que existia quanto a expressão “matéria unicamente de direito”. Agora, tem-se um aperfeiçoamento logo na primeira parte do dispositivo, destacando que a aplicação do instituto ocorrerá em relação às causas que dispensem fase instrutória154.
5.2.2 Da causa que verse sobre questão jurídica objeto de processos semelhantes, e não