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DA OFICINA: DISCUTINDO OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO

Para o grupo de estudos e pesquisas em educação para a sustentabilidade, um dos caminhos assumidos para alcançar o desenvolvimento sustentável é disseminar informações que possam ser transformadas em ações práticas, ou seja, em conhecimentos. Dessa forma, além da produção de dissertações, teses e materiais didáticos, há a proposição da realização de oficinas cujo público alvo é o professor da educação básica. A finalidade dessa prática é estimular a reflexão desses profissionais, a partir dos 17 objetivos da Agenda 2030, sobre os impactos causados pela falta de uma postura voltada para ideias e estratégias que garantam a sobrevivência do e no Planeta.

A formatação para a execução de uma oficina depende da disponibilidade de tempo e do público alvo. Para a realização da oficina aqui descrita, especificamente, foi destinada uma carga horária de 4 horas com adaptações, no formato original da proposta assumida pelo grupo.

De acordo com a descrição realizada por Medeiros (2018) em formação anterior a esta, o percurso obedecia a uma sequência de atividades composta por quatro momentos subdivididos em outros secundários, que nesta versão foram incorporados entre si de tal forma que garantissem a integralidade da proposta.

A atividade contou com a colaboração da Professora orientadora e coordenadora do grupo de pesquisa no qual se desenvolve este trabalho, e por outro doutorando e também membro da equipe. A realização da oficina, portanto, contou com a colaboração efetiva da UFRN e aconteceu na própria escola. Participaram 16 professores de diferentes formações atuantes nos três turnos da instituição. Fotografia 1 e 2.

De acordo com a classificação proposta por Santos (1998), quanto à origem da formação, podemos considerar que se tratou de uma atividade de natureza institucional, com um viés tanto individual como coletivo, tendo em vista a liberdade concedida para a participação voluntária na ação e a liberação da infraestrutura da instituição colocada à disposição para a realização do evento.

Fotografia 1 – Desenvolvimento da oficina

Fonte: Registrada pelo autor (2018).

Fotografia 2 – Encerramento da oficina

Fonte: Registrada pelo autor (2018).

A presença e o envolvimento de outros profissionais que não constituíam o alvo da pesquisa se justificam por três razões que estão relacionadas entre si e que não obedecem a uma ordem necessariamente. A primeira diz respeito à utilização de um dia do bimestre, previsto no calendário escolar, destinado ao planejamento pedagógico coletivo, no qual toda a escola se envolve e que nessa ocasião específica, um sábado, foi destinado à promoção dessa atividade. A segunda, pela prioridade que a escola estabelece de, dentro do possível, e das condições

existentes, realizar ações de formação no seu espaço e que sejam advindas das necessidades específicas do seu corpo docente e a terceira, conforme informado anteriormente, do estabelecimento ter adotado como tema anual Sustentabilidade: atitude e compromisso para um mundo melhor, o que tornou o momento propício para tal iniciativa. Independente da razão convém lembrar, conforme descrito, que a atividade constava na programação para aqueles que fizeram parte da amostra da pesquisa, porém, para atender a um pedido da escola foi ampliada como espaço de formação para os demais professores.

O período de integração foi dedicado a uma breve apresentação e descrição sobre as atividades acadêmicas do grupo, em relação aos projetos e linhas de pesquisas. Logo em seguida, ainda dentro dessa fase, a Professora condutora dos trabalhos solicitou aos presentes que se dirigissem e observassem a exposição dos 17 painéis, sob a forma de banners, colocados à mostra no corredor de acesso a sala. Em cada um deles havia uma breve apresentação sob a forma de texto e de imagens relacionadas aos ODS.

No retorno a sala os presentes foram provocados a descrever, de forma oral, o que encontraram no material apresentado. Apenas três professores se pronunciaram. Dois deles associaram os ODS a desafios e metas a serem alcançadas. O terceiro apresentou uma resposta mais elaborada, conforme podemos verificar no fragmento abaixo, particularidade associada à formação inicial do participante, com presença marcante de aspectos relacionados ao meio ambiente, conforme revelou na entrevista concedida para esta pesquisa, além disso, este profissional fez parte do grupo de estudos e formação para a sustentabilidade, proposto na etapa 3 deste trabalho.

P9 - “É importante ver como vários aspectos da sociedade eles penetram na atividade, né? Por que você vai desde a erradicação da pobreza, ao uso de energia sustentável, passando pela igualdade [...] É um tema, não vou dizer... que é interdisciplinar... Que perpassa por várias discussões que às vezes a gente não percebe que essas discussões também podem ser discutidas a partir do domínio da sustentabilidade”. (PROFESSOR ENTREVISTADO).

A etapa seguinte consistiu de uma exposição dialogada sobre cada um dos 17 ODS, iniciada a partir de um breve histórico e da origem desses propósitos que

se pretende alcançar. A provocação inicial foi no sentido de perceber o quanto questões, aparentemente distantes, estabelecem uma relação com a sustentabilidade. Dentre outras, algumas delas relacionadas a gênero, a mulher e a causa indígena foram citadas como exemplos. Para isso a professora condutora do processo aplicou um teste de associação livre de palavras, de forma rápida, para ilustrar. Utilizando como estímulo indutor o termo sustentabilidade pediu aos presentes que dissessem a que associavam quando ouviam esse vocábulo. De imediato as respostas dadas remeteram ao meio ambiente, relacionando-o as questões de natureza exclusivamente ambientais. O interessante dessa etapa não são apenas as representações que os participantes têm do que é a sustentabilidade, mas a ampliação da noção que vai acontecendo no decorrer da atividade com a incorporação da concepção para além dos problemas ambientais.

Durante certo tempo, no decorrer da oficina, observou-se que prevaleceu uma postura passiva dos participantes, tendo em vista que até a apresentação do quinto objetivo não aconteceram intervenções por parte dos presentes na sala. Tal comportamento mudou, tornando o processo mais dinâmico, por ocasião da exposição dos ODS 6, 11 a 14 e 16. Conforme podemos observar no quadro 9 as intervenções oscilaram entre conteúdos relacionados à realidade mais próxima e outros de natureza mais global, sendo que estas prevaleceram no cômputo geral da discussão. Ao mesmo tempo, foi possível observar que determinados tópicos manifestados pelos presentes para um ODS, mantém afinidade com outros, ainda que na ocasião essa possibilidade não tenha sido sugerida.

Quadro 9 – Assuntos que afloraram por ocasião da apresentação dos ODS

(continua)

ODS Assuntos

6

A distribuição irregular das chuvas no Nordeste brasileiro e o desperdício de água. Desperdício de água nas atividades domésticas, na agricultura e na pecuária. Água virtual.

Sementes transgênicas.

11 A qualidade do transporte coletivo urbano.

12

A utilização de canudos plásticos em bares e restaurantes.

A lei estadual, da Deputada Márcia Maia (PSDB-RN), que proíbe o uso de canudos plásticos.

O uso de canudos em função da higiene em bares e restaurantes. O custo financeiro do canudo.

(conclusão)

A difícil decomposição das fraldas descartáveis.

13 A negação das alterações climáticas, apesar das evidências do aumento do calor e elevação do nível do mar.

14 A poluição marinha por metais pesados. A poluição marinha pelos plásticos e suas micro partículas.

15

A crise na Venezuela.

O muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

O êxodo no Nordeste em direção ao Centro-sul e a convivência com a seca no Semiárido.

Fonte: Elaborado pelo autor (2019).

Na terceira fase foi dada a orientação para a formação de grupos, os quais deveriam identificar e apresentar soluções para problemas que se caracterizassem como situações de riscos à sustentabilidade, em suas diferentes dimensões, que são enfrentados pela escola e o entorno. Além disso, as equipes foram desafiadas a buscar respostas para as situações encontradas e estabelecer um prazo para a resolução, além de indicar o ODS relacionado com o problema ou com a ação. A exemplo dos resultados encontrados por Medeiros (2018), os professores participantes também apontaram procedimentos que abrangem as diferentes dimensões da sustentabilidade para as situações adversas.

Em virtude do tempo exíguo para a realização da atividade, cada grupo apresentou apenas um problema. O primeiro ao expor sua opção, violência, fez questão de enfatizar que na discussão interna o lixo foi considerado também como um grave incômodo, sendo este último problema apresentado como objeto da manifestação do segundo grupo. Os demais optaram pelo incentivo à leitura e à matemática básica e a alimentação saudável, respectivamente. Após as apresentações se percebeu que nenhum grupo de trabalho determinou se as metas seriam atingidas em curto, médio ou em longo prazo.

Para apresentar os dados obtidos no terceiro momento da oficina se optou pelo modelo adotado por Medeiros (2018), o qual dá visibilidade, sob a forma de quadro - 10, a cada um dos pontos colocados pelos grupos das adversidades enfrentadas pela escola e entorno, quais são os ODS envolvidos além das sugestões de intervenções.

Quadro 10 – Problemas enfrentados pela escola e o entorno relacionados aos ODS e sugestões de intervenções, segundo os participantes da oficina

(continua)

Grupo Problema apresentado ODS Envolvidos Sugestões de intervenções

1 Violência 1, 4, 11,16

Priorizar o diálogo como

instrumento na sala de aula e na comunidade escolar.

Rever metodologias de ensino, conteúdos e currículo de tal forma que priorize a promoção da paz.

Dar voz aos estudantes,

estimulando a oralidade e a escuta a partir de rodas de conversas.

2 Lixo 3, 4, 6, 11, 12,

15, 16, 17

Mobilizar a sociedade por intermédio das entidades existentes no bairro, escolas, igrejas, comerciantes, comunitário.

Promover atos públicos para chamar a atenção dos órgãos públicos responsáveis pelas ocorrências dessa natureza.

Conscientizar a comunidade sobre os danos causados, pelo lixo, ao ambiente e a saúde coletiva.

Trabalhar, na sala de aula, conteúdos relacionados à temática.

Buscar parcerias, especialmente, com o sistema de equipamentos sociais básicos existentes no bairro.

3 Qualidade da educação 1, 4

Proporcionar competências em relação ao domínio da leitura, da escrita e da matemática básica como instrumentos necessários a leitura-releitura da realidade como formas de empoderamento e superação da pobreza.

(conclusão)

4 Alimentação saudável 1, 2, 3, 4, 11, 12

Incentivar a adoção do consumo de alimentos saudáveis no âmbito da instituição por intermédio de atividades curriculares.

Promover, junto às famílias, espaços de orientação e incentivo a alimentação saudável como forma de prevenir doenças e de controlar carências nutricionais. Desenvolver uma campanha no ambiente escolar, de combate à alimentação não saudável, tais como balas, pirulitos, gomas de mascar, biscoitos recheados, sucos artificiais, frituras, salgados com recheio de

presuntos/salsichas, salgados empacotados e pipocas industrializadas.

Desenvolver uma campanha, no âmbito escolar, alertando para o aumento da geração de resíduos e o destino destes, a partir do

consumo de alimentos não saudáveis.

Fonte: Elaborado pelo autor (2019).

A oficina representou um momento único no cotidiano da escola ao proporcionar discussão, debate, reflexão coletiva e compartilhamento de experiências sobre questões relevantes, vivenciadas no seu contexto ou no da comunidade e do entorno, proporcionando a busca de estratégias para a resolução de tais dificuldades. Convém reforçar que, apesar da oferta da atividade ter feito parte de uma pesquisa acadêmica, a sua realização se assentou na perspectiva preconizada a partir do tema anual de trabalho proposto na instituição: “Sustentabilidade: atitude e compromisso para um mundo melhor”.

Um desafio que se apresentou, no percurso dessa formação, diz respeito aos muitos papéis assumidos durante sua realização. Além da condição de pesquisador, foram incorporadas por ele, ainda, as funções de formador, apoiador, facilitador e mobilizador (ALARCÃO, 1998), acumuladas com o exercício diário da docência.

A oficina como um instrumento de formação continuada permitiu refletir sobre a realidade do espaço escolar e social, apontando para possíveis ações relacionadas à resolução dos problemas, sejam eles da escola ou da comunidade. A valorização do diálogo entre os participantes ajudou no compartilhamento de experiências entre profissionais de diferentes percursos de vida, de variadas formações acadêmicas e de distintos tempos de exercício na profissão. Por fim, a busca por parcerias foi a principal necessidade apontada, pelos professores integrantes do grupo, para que a formação no interior da escola aconteça na perspectiva de se alcançar os ODS. Cabe citar a posição de Imbernón (2011), quando ressalta a imprescindibilidade na atividade docente, de compartilhar com outros operadores de causas sociais a incumbência de encontrar soluções para as situações adversas.

De acordo com a avaliação realizada pelos participantes, apesar de tratar-se de uma ação de curta duração, alcançou as expectativas, em virtude da visibilidade dada a aspectos teóricos e metodológicos para quem pretende usar a sustentabilidade como uma meta de sua prática. Uma parte considerável dos presentes registrou a necessidade de dar continuidade a esse de tipo encontro formativo.