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2. METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO

2.1. Da pergunta de partida ao Modelo de análise

Tal como todas as coisas, também uma investigação científica, como aquela que apresentamos neste trabalho, tem o seu génesis. Neste caso, tal como referido na introdução deste trabalho, o momento primeiro desta investigação foi o anúncio da privatização dos ENVC e o consequente despedimento dos mais de 600 trabalhadores.

Os ENVC desde sempre foram considerados o ‘coração’ de Viana, pela dinâmica social e económica que conferiam à cidade, pelo número de postos de trabalho directos e indirectos que criava e pelo envolvimento comunitário construído ao longo de mais de meio século. Tal como foi assumido pelo Presidente da União das Freguesias de Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela (Ramos, 2016, p. 6), os ENVC, aquando da sua edificação em 1944, fizeram acreditar a cidade que esta poderia contar com uma unidade industrial que iria contribuir para o desenvolvimento que Viana do Castelo precisava. E de facto, não só não pararam de crescer nos anos seguintes como se tornaram num pólo dinamizador do progresso da região. Aliás, na década de 50 esta empresa era já responsável por “mais de 25% do emprego e dos salários pagos no distrito de Viana do Castelo”. E assim continuou ao longo dos anos seguintes, apesar das várias dificuldades com que se deparou. A par deste contributo para a criação de riqueza, os ENVC foram-se tornando ao longo dos anos como uma unidade industrial de relevo no sector da construção naval – não só a nível local ou nacional, mas também internacional. Não é, portanto, inesperado que a história dos ENVC se construa e se cruze com a história das gentes vianenses.

Foi neste enquadramento que a notícia foi divulgada em 2014 – ano em que se iniciava a frequência do doutoramento – e desde logo despertou interesse. Sabendo que esta era, para muitos, a única experiência profissional e que uma parte significativa dos

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trabalhadores se encontrava na meia-idade, rapidamente se percebeu que este acontecimento conduziria não só a situações de desemprego involuntário, mas também a situações de pré-reforma de trabalhadores em plena idade activa.

Não antecipando ainda todos os prejuízos de que os ex-trabalhadores dos ENVC seriam alvo ao longo do processo de privatização pela West Sea - Estaleiros Navais, Lda., assumimos que a experiência do desemprego nesta fase da vida e neste contexto particular se revestiria certamente de características próprias que importava analisar e discutir. Impunha-se ‘dar voz’ aos ex-trabalhadores dos ENVC, ver para além dos números e compreender a experiência do desemprego involuntário neste grupo particular de pessoas, num momento específico das suas trajectórias de vida.

Assim, tendo como contexto de análise a privatização dos ENVC e o despedimento dos seus trabalhadores, as questões de investigação então definidas prenderam-se com (1) a identificação de alguns dos mecanismos (individuais e contextuais) que intervieram no modo como estes indivíduos experienciaram a situação de desemprego, (2) com a situação face ao mercado de trabalho, uma vez que a perda de emprego ocorreu entre 2013 e 2015 e a recolha de dados foi efectuada entre 2016 e 2017 e (3) com a satisfação e qualidade de vida dos indivíduos após a perda de emprego na medida em que se assume que a experiência de desemprego involuntário tem repercussões em outras dimensões da vida e que o despedimento colectivo se associa a um sentimento de choque, preocupação e ansiedade face ao futuro (Gallo et al., 2006).

Nesta linha, sendo o objetivo geral do presente trabalho compreender a experiência do desemprego involuntário dos ex-trabalhadores dos ENVC, definiram-se como objectivos específicos os seguintes:

Objectivo específico 1: Caracterizar os ex-trabalhadores dos ENVC do ponto de vista sociodemográfico e em termos do percurso profissional, estratégias de coping utilizadas para lidar com o desemprego involuntário, mecanismos de apoio usados para o reingresso no mercado de trabalho, satisfação com a vida e qualidade de vida.

Objectivo específico 2: Determinar que características, acções e recursos individuais, características do percurso profissional e características do contexto estão associadas à situação profissional actual dos ex-trabalhadores dos ENVC.

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Objectivo específico 3: Analisar a relação entre a situação profissional actual dos ex- trabalhadores dos ENVC e indicadores de bem-estar subjectivo (BES).

Com base na pergunta de partida – quais as principais variáveis que influenciam a forma como se vive a experiência de desemprego involuntário? – e na linha de Quivy e Campenhoudt (2005), definiram-se as seguintes hipóteses de investigação que foram decompostas em sub-hipóteses:

H1. A experiência de desemprego involuntário está associada a factores individuais e contextuais.

H1a. Os ex-trabalhadores mais jovens dos ENVC tendem a estar actualmente empregados.

H1b. Os ex-trabalhadores dos ENVC com maiores habilitações literárias tendem a estar actualmente empregados.

H1c. Os ex-trabalhadores dos ENVC com redes sociais mais alargadas tendem a estar actualmente empregados.

H1d. Os ex-trabalhadores dos ENVC que recorreram à activação da sua rede de contactos para procurar emprego tendem a estar actualmente empregados.

H1e. Os ex-trabalhadores dos ENVC cujos agregados familiares têm maiores rendimentos tendem a estar actualmente empregados.

H1f. Os ex-trabalhadores dos ENVC que utilizaram predominantemente estratégias de coping positivas tendem a estar actualmente empregados.

H1g. Os ex-trabalhadores dos ENVC com experiências prévias (aos ENVC) de emprego tendem a estar actualmente empregados.

H1h. Os ex-trabalhadores dos ENVC que experienciaram a primeira perda de emprego (associada aos ENVC) tendem a estar actualmente desempregados.

H1i. Os ex-trabalhadores dos ENVC que beneficiaram de menos mecanismos de apoio ao emprego tendem a estar actualmente empregados.

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H2a. Os ex-trabalhadores dos ENVC que se encontram actualmente empregados apresentam melhores indicadores de qualidade de vida do que os que se encontram desempregados.

H2b. Os ex-trabalhadores dos ENVC que se encontram actualmente empregados apresentam melhores indicadores de satisfação com a vida do que os que se encontram desempregados.

Seguidamente apresenta-se o Modelo de análise da presente investigação que permite visualizar, de uma forma mais simples, como as variáveis em análise se relacionam (Figura 1).

Figura 1. Modelo de análise

Fonte: Elaboração própria

Assim, para determinar de que modo as características, acções e recursos individuais, as características do percurso profissional e as características do contexto se associam à experiência de desemprego involuntário optou-se por considerar este último conceito em termos da situação profissional actual (à data da recolha de dados). Atendendo à diversidade de definições do conceito de desemprego de que demos conta no enquadramento teórico, optou-se por dividir a variável situação profissional actual em duas categorias major, empregado e desempregado, para desta forma verificar as relações de associação com os diversos elementos de análise.

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No sentido de analisar a relação entre a situação dos ex-trabalhadores dos ENVC face ao mercado de trabalho e o seu BES, delimitou-se este último conceito a dois instrumentos de medida, o World Health Organization Quality of Life - Bref (WHOQOL-Bref; WHOQOL Group, 1994; Vaz Serra, Canavarro, Simões, Pereira, Gameiro, Quartilho, Rijo, Carona & Paredes, 2006) e a Escala de Satisfação com a Vida (Diener, Emmons, Laisen & Griffin, 1985; Neto, Barros & Barros, 1990).

Todos os conceitos identificados no Modelo de análise encontram-se operacionalizados no Anexo 2.