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3. APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS: O CASO DOS ESTALEIROS DE CONSTRUÇÃO NAVAL DE

3.1. Contexto do Estudo

3.1.1. Viana do Castelo e os ENVC

Os ENVC localizavam-se no centro de Viana do Castelo, a cidade atlântica mais ao Norte de Portugal. Foram fundados em Junho de 1944 no âmbito do programa do X Governo português (1936-1968) liderado por António de Oliveira Salazar para a modernização da frota de pesca do largo, na forma de uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada com o capital social de 750 contos. Composto à época por um grupo de técnicos e operários especializados oriundos dos Estaleiros Navais do Porto de Lisboa, associaram-se aos ENVC como sócios capitalistas Vasco D'Orey e o vianense João Alves Cerqueira da empresa de pesca proprietária de veleiros para a pesca do bacalhau (Abreu, Escaleira & Gomes, 2003).

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animaram sobremaneira os poderes e as forças vivas locais; mobilizaram as gentes de Viana, com uma relação de afecto sem paralelo; encorajaram o comércio local como jamais tinha acontecido; instituíram a cultura do trabalho com direitos, caso raro nesta região subdesenvolvida, que só tinha como escapatória a emigração; socializaram a comunidade de trabalho que constituíam, construindo, ainda na década de 1950, um refeitório moderno para substituir com vantagens a magra refeição da marmita; instituíram, na década de 1960, as festas e os cabazes de natal e criaram um grupo desportivo e cultural para valorizar social e intelectualmente cada trabalhador; ligaram-se a toda a vida social da cidade (Meira, 2018, on-line).

De acordo com o colunista, os ENVC foram pioneiros no trabalho desenvolvido e na conquista dos mercados internacionais, ainda na década de 1950. Refere ainda que, ao transformar trabalhadores rurais em artífices qualificados através da formação profissional e ao investir parte dos lucros na evolução tecnológica e na criação de meios para proteger os trabalhadores do trabalho árduo da construção naval, os ENVC e Viana do Castelo estiveram “durante décadas (…) nas bocas do mundo pelas melhores razões” (Meira, 2018, on-line).

Abreu e colaboradores (2003) acrescentam que em 1949 foram constituídos como Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada e em 1950 a Empresa H. Parry & Son, Lda se tornou a principal accionista dos ENVC. Posteriormente, em 1971, o Grupo CUF (dono da LISNAVE) assumiu uma posição maioritária no capital da Empresa e foi elaborado um Plano Director de Desenvolvimento que, devido à crise internacional e às mudanças políticas decorridas em Portugal na sequência do 25 de abril de 1974, não foi completado. Em 1975 a empresa foi nacionalizada, passando a Empresa Pública, e em 1991 os ENVC foram transformados em Sociedade Anónima de Capitais Maioritariamente Públicos.

Estas alterações formais do ponto de vista organizacional foram sendo, de acordo com Abreu e colaboradores (2003), acompanhadas por vários ajustamentos em termos da política de produção e exportação. Mais concretamente, entre 1944 a 1974 cerca de 90% do total de unidades construídas destinaram-se a armadores nacionais (incluindo as ex- colónias), a partir da segunda metade da década de 70 e nos anos 80, o principal mercado da Empresa foi a ex-URSS, para a qual foram produzidas grandes séries de navios e, nos anos

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90, os ENVC passaram a construir fundamentalmente para o mercado Alemão. A partir da década de 2000 o mercado foi-se tornando cada vez mais diversificado, ainda que a renovação da frota da Marinha Portuguesa tenha potenciado um reinvestimento na construção naval que não acontecia desde a década de 60 do século passado.

Ainda relativamente à história dos ENVC, Abreu e colaboradores (2003) salientam ainda que em 1995 existiu uma tentativa de privatização protagonizada pelo XII Governo (1991–1995, liderado por Aníbal Cavaco Silva), ainda que não tenha sido concretizada. Neste seguimento, referem ter-se concretizado em 2009 uma parceria estratégica com o grupo holandês Damen (especializado em construções militares e com uma rede de trinta estaleiros a nível mundial), tendo sido esta medida anunciada pelo XVII Governo (2005– 2009, liderado por José Sócrates) como o primeiro passo para a reestruturação da empresa. Em 2010 os ENVC foram integrados, a par de outras empresas associadas a sectores públicos estratégicos e fundamentais, no pacote de privatizações do Programa de Estabilidade e Crescimento que tinha como finalidade fazer face à crise económica, combater o défice e cumprir as orientações da União Europeia.

No entanto, em 2011, devido às dívidas acumuladas e à crescente inactividade na maior parte dos sectores dos ENVC, os trabalhadores foram convidados pela administração da empresa a ficar em casa durante 4 meses recebendo 70% do salário (Abreu et al., 2003). Os autores referem que, por fim, em 2012, na sequência da investigação da Comissão Europeia às ajudas públicas atribuídas à empresa entre 2006 e 2011 (não declaradas à Comissão Europeia, no valor de 181 milhões de euros), teve início o processo de reprivatização do capital social da empresa e em 2013 a mesma foi adjudicada à Martifer Energy Systems e à Navalria. Na sequência destas decisões, a subconcessão dos terrenos e infraestruturas dos ENVC foi adjudicada em 18 de outubro de 2013 pela administração da empresa à Martifer e a 10 de janeiro de 2014 foi iniciado o processo de extinção da empresa com a assinatura do contrato de subconcessão entre o XIX Governo (2011–2015, liderado por Pedro Passos Coelho) e o grupo Martifer.

Sendo assim, tal como referido por Leitão (2014), a subconcessão foi a solução definida pelo Governo português depois de encerrado o processo de reprivatização dos ENVC, devido à investigação de Bruxelas às ajudas públicas atribuídas à empresa entre 2006 e 2011, não declaradas à Comissão Europeia, no valor de 181 milhões de euros. No caso dos

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ENVC, a autora refere que Bruxelas considerou ilegais os apoios financeiros atribuídos pelo acionista público. A obrigação de devolver a ajuda recebida foi o principal argumento do Estado para fechar a empresa pública e avançar com a subconcessão das instalações.

Deste modo, entre 2013 e 2014, os ENVC contavam com cerca de 600 trabalhadores directos ao serviço, sendo que para além destes, muitos outros seriam afectados pelo encerramento dos ENVC uma vez que esta entidade tem uma longa história de colaboração com outras empresas. Para além disso, os dados dão conta de que desde 2007, a empresa tinha já perdido cerca de 300 trabalhadores (Meira, 2018).

Leitão (2014) refere ainda que em consequência da decisão tomada, os mais de 600 trabalhadores foram sendo convidados a aderir ao plano social com vista à rescisão amigável dos contratos de trabalho durante os meses seguintes. Este não foi, no entanto, um período pacífico nem isento de manifestações de desagrado. Com efeito, entre o final do ano de 2013 e o ano de 2018 têm vindo a ser realizadas diversas manifestações organizadas pelo ex- trabalhadores dos ENVC, quer na cidade de Viana do Castelo, quer em Lisboa. Foi criada em 2016 uma comissão de trabalhadores no sentido de reforçar os contactos com forças políticas e agentes do poder disponíveis para os receber. Esta mesma comissão reuniu ainda nesse ano com a Comissão do Trabalho e Segurança Social com a finalidade de fazer chegar ao Ministro da Tutela (com quem aguardavam o agendamento de uma audiência) as suas preocupações quanto à situação dos ex-trabalhadores, nomeadamente no que se refere a promessas feitas aquando do despedimento e que não foram cumpridas (Geice, 2016).

No mesmo ano, um deputado do Grupo Parlamentar Os Verdes, entregou na Assembleia da República uma pergunta em que questiona o Governo, através do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, sobre as medidas a desenvolver face às dificuldades vividas pelos ex-trabalhadores dos ENVC, atendendo ao facto de que no ano seguinte terminaria o período de usufruto do subsídio de desemprego. A mesma questão foi levantada também por elementos do Partido Comunista Português e a delegação da União de Sindicatos de Viana do Castelo apresentou também ao então Ministro da Defesa Nacional várias propostas para minimizar os problemas sociais dos trabalhadores. Foram ainda apresentados dois Projectos de Resolução ao Governo, ambos rejeitados. O Projeto de Resolução 820/XII, da autoria do Partido os Verdes, visava a cessação da vigência do Decreto-Lei n.º 98/2013, de 24 de julho, que «procede à afectação à sociedade

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Administração do Porto de Viana do Castelo, S.A. de determinadas parcelas de terreno que integram o património do Estado, assim como dos edifícios, infraestruturas e equipamentos nelas implantados, redefine a área referente à concessão dominial atribuída à sociedade Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A. e autoriza a alteração ao contrato de concessão, incluindo a autorização para a efetivação de uma nova subconcessão», tendo sido rejeitado em reunião plenária em 2013. O Projeto de Resolução 1577/XII, da autoria do Partido Comunista Português, recomendava ao Governo a resolução da subconcessão dos ENVC à Empresa West Sea e a elaboração de um plano de viabilização dos ENVC a partir da construção dos NPO para a Marinha Portuguesa. Foi igualmente rejeitado em reunião plenária em 2015.

Na ausência de respostas (satisfatórias), os ex-trabalhadores dos ENVC seguiram para Lisboa diversas vezes. Em 2017 foi entregue ao Ministério do Trabalho um documento reivindicativo a pedir regime de excepção para os indivíduos prestes a ficar sem subsídio de desemprego e que ainda não reuniam as condições para solicitar a reforma antecipada, ou seja, os 57 anos de idade. Já em 2018 reuniram-se para avançar com novas ações de luta. Foi solicitada nova reunião com o actual Ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social e com o Núcleo Distrital de Segurança Social de Viana do Castelo, uma vez que a situação de mais de 50 ex-trabalhadores e suas famílias – por não terem qualquer fonte de rendimento – era altamente preocupante (Porto Canal Online, 2018).

Deste modo, depois de quase 70 anos de actividade com “um conceito novo de trabalho na região vianense e (após) conjugar sinergias para manter e consolidar um projecto que foi a verdadeira alma de Viana” (Meira, 2018), os ENVC deixaram de existir.

No entanto, para as várias centenas de trabalhadores que laboravam diariamente neste local as mudanças não terminaram, pois foi necessário lidar com a situação de desemprego. Diversas foram as manifestações de apoio, desde agentes locais a entidades nacionais. A título de exemplo, a Comunidade Intermunicipal do Minho-Lima (2013), na sequência dos acontecimentos, manifestou a sua solidariedade com os trabalhadores dos ENVC, expressando igualmente a sua preocupação pelo impacto negativo desta decisão no agravamento da situação económica e social do Alto Minho, não apenas no que se refere à destruição de emprego direto, mas também no que diz respeito aos riscos e incerteza gerados aos mais de 4.000 postos de trabalho indiretos associados à actividade dos ENVC.

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Deste modo, conscientes de que o desemprego involuntário é, hoje, um fenómeno estrutural e desestruturante e que o número de desempregados tem aumentado significativamente, acreditamos, tal como referido por Almeida e colaboradores (2013), que não é possível aceitar a sua transversalidade nas sociedades contemporâneas sem exigir um apoio sistemático e integrado que permita oferecer aos desempregados as condições necessárias para o sucesso na reintegração no mercado de trabalho.

Naturalmente que a experiência de desemprego não é homogénea. Pelo contrário, trata-se de um evento de vida com consequências diversas – para o indivíduo, família e sociedade – pelo que se entende que os desempregados deveriam ter uma voz mais activa nas decisões públicas no domínio das políticas de apoio ao emprego e ao empreendedorismo. Esta posição é defendida por Almeida e colaboradores (2013) que sugerem também que estas decisões deveriam ser efectivamente contextualizadas num quadro multidisciplinar de intervenção social - desde o direito constitucional ao trabalho até às estratégias de promoção do crescimento económico conducentes à plena realização da cidadania.

Nesta linha, é fundamental salientar que, à altura da privatização dos ENVC e do despedimento dos seus trabalhadores, uma parte significativa destes se encontrava na meia- idade e partilhava uma única experiência profissional – não raras vezes de duração superior a 20 e 30 anos, pelo que a perda de emprego, nesta condição e contexto particulares, se reveste naturalmente de características próprias que importa analisar e discutir, particularmente do ponto de vista da Política Social.