Perícia é "o exame procedido por pessoa que tenha determinados conhecimentos técnicos, científicos, artísticos ou práticos" 208acerca de fatos, objetos, circunstâncias objetivas ou condições pessoais que sejam importantes à elucidação do crime e de sua autoria.
Discute-se na doutrina se a perícia é verdadeiramente um meio de prova. Na realidade o perito é um auxiliar da justiça (art. 275 do CPP). Na expressão célebre de Tornaghi, a perícia não prova e sim ilumina a prova. E m verdade a perícia é um exame, um estudo sobre a prova, seja uma arma, seja o cadáver, seja um documento escrito.209
Assim, quando o perito depõe em juízo não o faz como testemunha, mas presta esclarecimentos técnicos enquanto auxiliar da justiça.
Tanto o laudo pericial como as declarações dos peritos serão sempre elementos subsidiários para a valoração da prova pelo juiz. Se por um lado o CPP tratou da perícia no capítulo das provas, tratou do perito como auxiliar da justiça. Entendemos, então, que a perícia não é um meio de prova e sim um estudo especializado sobre uma prova.210
206 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 703
207 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 704
208 Tourinho Filho, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2006. vol. 3, p.
245.
209 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p.704
210 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 704
Daí é possível distinguir exame de corpo de delito e corpo de delito. O primeiro é o exame, o estudo que se faz sobre o segundo. O corpo de delito é realmente meio de prova, já que constitui "o conjunto de elementos sensíveis do fato criminoso" 211ou o conjunto de vestígios materiais deixados pelo crime. Para ilustrar, o cadáver é o corpo de delito, o exame cadavérico é o exame de corpo de delito. O cadáver é meio de prova, o exame é um subsídio para a valoração da prova.212
As perícias em geral devem ser feitas por perito oficial, portador de diploma de curso superior. Não havendo perito oficial, podem ser feitas por duas pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior, preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. Os peritos nomeados pelo juiz pelo juiz e pelas partes, ao teor do art. 176 do CPP, e, em sendo determinada a perícia na fase do inquérito, a autoridade policial deverá formulá-los.214
A prova pericial é consubstanciada em um laudo pericial, que nada mais é do que a conclusão do exame exposta de forma escrita, no qual consta a resposta aos quesitos.215
Muitos dos exames periciais realizados na fase do inquérito policial não são repetíveis, portanto, devem ser submetidos a contraditório diferido durante o processo. Não obstante, é possível a formulação de quesitos relativamente a estas provas, por parte da defesa, mesmo na fase do inquérito.
216
211 Almeida Jr., João Mendes de. O Processo Criminal Brasileiro. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1911. vol. 2, p. 7.
212 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 704
213 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 706
214 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 706
215 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p.706
216 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 706
Há que se destacar que o valor probatório da perícia não é vinculativo. O art. 182 do CPP dispõe que "o juiz não ficará adstrito ao laudo, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo, no todo ou em parte". Em face do princípio do livre convencimento, é evidente que o juiz tem liberdade de examinar o conjunto probatório e eventualmente rejeitar total ou parcialmente o resultado da perícia.217
O avanço tecnológico permite atualmente uma infinidade de perícias. Cumpre-nos, porém, destacar alguns que são mais frequentes no cotidiano forense:
6.10.1. Necropsia ou autópsia:
Muitos, inclusive o CPP, se referem ao exame de cadáver como autópsia. Alguns sustentam que na realidade a autópsia é o exame em si mesmo e que, portanto, o nome correto do exame cadavérico é a necropsia, que nada mais seria do que o exame interno e externo do cadáver. Ocorre que os alemães, responsáveis pela primeira grande tradução de toda a filosofia grega, inclusive dos escritos de Hipócrates, jamais disseram que autópsia significaria o exame de si mesmo. Pelo contrário, o significado real da expressão no grego primitivo era o de ver com os próprios olhos. Essa seria a tradução correta. Até hoje os alemães usam a expressão autópsia e não necropsia. Entendem eles que a expressão necropsia significaria ver o cadáver, mas como se trata de uma investigação e não de uma simples observação, a expressão autópsia seria muito mais adequada para o exame do cadáver.218
Através da autópsia, procura-se identificar a causa da morte, bem como aspectos como a trajetória do projétil, número e local dos ferimentos, orifícios de entrada e saída de instrumentos do crime etc. Este exame é relevante também para tentar identificar o tempo do crime, principalmente através do exame externo do cadáver relativamente a sua apresentação e sinais, como resfriamento, livores, rigidez cadavérica e manchas verdes abdominais.219
217 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 706
218 Richard Prayson. Autopsy: Learning from the Dead. Cleveland Clinic Guide, 20, s/d.
219 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 707
6.10.2. Exumação:
A exumação importa o desenterramento do cadáver, que é retirado da sepultura para a realização de exames, seja em razão de dúvida superveniente, seja pela deficiência do exame anterior, seja por inconformismo das partes. A exumação tem que ser determinada pela autoridade policial ou judicial, dependendo do momento (inquérito ou processo) em que o exame necessita ser feito, que fixará dia e hora para a sua realização, bem como para a lavratura do auto (art. 163 do CPP).220
6.10.3. Exame de Local:
Dispõe o art. 169 do CPP que o local onde houve a prática da infração penal deve ser preservado pela autoridade policial até a chegada da perícia. Os peritos, por sua vez, além de examinar o local, poderão instruir seus laudos com fotografias, esquemas e desenhos ilustrativos. 221
Caso tenha havido alteração do estado das coisas antes da chegada dos peritos, estes registrarão no laudo e indicarão no relatório as consequências das alterações sobre a dinâmica dos fatos. 222
6.10.4. Exames Laboratoriais e DNA:
As perícias de laboratórios referidas no art. 170 do CPP são aquelas realizadas por profissionais das áreas químicas, biomédicas e físicas, utilizando aparelhos, substâncias e métodos de experimentos científicos para se extrair conclusões que possam ser úteis para a instrução criminal. 223
São exemplos de exames laboratoriais o exame de constatação de substância entorpecente, de substância venenosa, exame de dosagem alcoólica e exame de DNA. 224
A única regra sobre os exames laboratoriais refere-se à exigência de se guardar amostra do material para eventual realização de nova perícia (art. 170 do CPP). Não obstante, é preciso destacar que no que se refere a
220 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 707
221 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 707
222 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 707
223 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 708
224 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 708
exames laboratoriais há grande polêmica quanto à contribuição do acusado em sua realização, já que não está obrigado a produzir prova contra si mesmo.225
6.10.5. Lesões Corporais Leves e Graves:
No crime de lesão corporal deve-se fazer o exame de corpo de delito para detectar os vestígios que consubstanciam a lesão à integridade física. Ocorre que nem sempre é possível no primeiro exame definir se a lesão é de natureza leve ou grave. Isto se deve ao fato de que uma das formas de lesão grave é a que gera incapacidade para ocupações habituais por mais de 30 (trinta) dias. Com efeito, é mais que intuitivo que o exame inicial poderá não constatar tal circunstância, exigindo assim a realização de exame complementar. O mesmo se dá com os casos de debilidade permanente de membro ou função quando o primeiro exame não é conclusivo.226
6.10.6. Exames Grafotécnicos:
O exame grafotécnico ou caligráfico tem por escopo verificar e comparar a letra inserta em escritos para elucidar se pertence ao investigado ou acusado. Também não se exige aqui a colaboração do acusado ou de quem quer que seja para o fornecimento do padrão gráfico que emana do seu punho, já que ninguém está obrigado a se autoincriminar. 227
Todavia, é possível suprir a falta de colaboração lançando mão de documentos públicos ou privados emanados do punho do examinado, sobre os quais não recaiam dúvida sobre a autoria do escrito lançado. Documentos de identidade, cartas, contratos, bilhetes, qualquer escrito produzido indubitavelmente pelo punho do investigado, podem servir como padrão de comparação. 228
6.10.7. Perícia sobre escalada, destruição ou rompimento de obstáculo:
O art. 171 do CPP prevê a realização de perícia nos crimes cometidos com destruição, rompimento de obstáculo ou ainda escalada. É o caso típico do furto qualificado do art. 155, § 4.º, I e II, do CP. Tendo havido
225 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p.708
226 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 709
227 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 709
228 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p.709
arrombamento, destruição de cadeados, há que se ter laudo pericial a este respeito, bem como, se a dinâmica foi mediante escalada.229
Novamente se repete aqui a celeuma sobre a possibilidade de a prova testemunhal suprir a necessidade de perícia. Reiteramos nosso entendimento de que, desaparecidos os vestígios, aplica-se o art. 167 do CPP, não sendo possível suprir a perícia só com a confissão.230
6.10.8. Laudo de Avaliação:
O art. 172 do CPP prescreve a avaliação de coisa destruída, deteriorada ou que constitua produto do crime. A medida é importante principalmente para os crimes do art. 155, § 2.º, e art. 171, § 1.º, do CP, ou seja, o furto de pequeno valor e o estelionato privilegiado. 231
A avaliação pode ser direta ou indireta, podendo o avaliador proceder ao exame direto da coisa ou lançar mão de pesquisas de mercado, revistas especializadas, dentre outras diligências.232
Destaca-se ainda a relevância da avaliação para futura reparação do dano, embora a avaliação não vá vincular o juízo cível, onde poderá ocorrer livremente o debate sobre o valor da reparação.233
6.10.9. Exames de Instrumento:
Este tipo de exame recai sobre os instrumentos (objetos) utilizados no crime, como facas, revólveres ou tesoura. Geralmente as indagações dizem respeito à eficácia dos objetos no cometimento de delitos. 234
Este exame é relevante para o delito de porte ilegal de arma, notadamente em razão da discussão jurisprudencial sobre arma sem munição e arma incapaz de produzir disparos. O STF já decidiu oportunamente, através da primeira turma, no sentido da atipicidade do porte de arma sem munição disponível ou ao alcance. Posteriormente, a segunda turma entendeu pela tipicidade, por ser crime de mera conduta. 235
229 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 709
230 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 710
231 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 710
232 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 710
233 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 710
234 NICOLITT, André, Manual de Processo Penal, 6ªEd.,RT,2016,São Paulo, p. 710
6.10.10. Perícia para confronto de voz:
O exame pericial para confronto de voz é outro tema debatido na jurisprudência. O STF já decidiu que o direito ao silêncio e a garantia da não autoincriminação permitem que o investigado se negue a fornecer o padrão de voz para comparação, verbis:
O privilégio contra a autoincriminação, garantia constitucional, permite ao paciente o exercício do direito de silêncio, não estando, por essa razão, obrigado a fornecer os padrões vocais necessários a subsidiar prova pericial que entende lhe ser desfavorável. 2. Ordem deferida, em parte, apenas para, confirmando a medida liminar, assegurar ao paciente o exercício do direito de silêncio, do qual deverá ser formalmente advertido e documentado pela autoridade designada para a realização da perícia (STF, HC 83.096).
O exame pode ser importante nos casos de escuta telefônica, nas quais o acusado nega ser o interlocutor da voz gravada. Há outras formas de aferir o fato através do livre convencimento, como a análise da titularidade da linha, a confirmação por prova testemunhal, além da identidade física do juiz, que poderá perceber durante o interrogatório aspectos como sotaque, gagueira, dentre outros sinais de voz.236