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- DA RESPONSABILIDADE CIVIL NO ÂMBITO DO DIREITO

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CAPÍTULO V - DA RESPONSABILIDADE CIVIL NO ÂMBITO DO DIREITO

patrimônio do devedor responsável por seus débitos, conforme a Lex Poetelia Papiria e a Lex Aquilia, esta última, a gênese da concepção moderna de culpa.

Conforme leciona a professora Maria Helena Diniz243, a Lex Aquilia:

[...] veio a cristalizar a idéia de reparação pecuniária do dano, impondo que o patrimônio do lesante suportasse os ônus da reparação, em razão do valor da res, esboçando-se a noção de culpa como fundamento da responsabilidade, de tal sorte que o agente se isentaria de qualquer responsabilidade se tivesse procedido sem culpa. Passou-se a atribuir o dano à conduta culposa do agente. A Lex Aquilia de damno estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual, criando uma forma pecuniária de indenização do prejuízo, com base no estabelecimento de seu valor.

Apesar de opiniões divergentes, a Lex Aquilia é apontada por parcela considerável da doutrina como o grande marco da responsabilidade civil, pois, a partir de seu advento passou-se a perquirir se o ato ilícito gerador do dano teve como base a culpa do agente244. Ressalte-se, no entanto, que o Direito Romano não criou um princípio geral de responsabilidade civil, haja vista que somente enumerava os casos em que se compelia o responsável pelo dano de ressarcir a vítima dos prejuízos suportados, além de não fazer distinção entre pena (responsabilidade penal) e reparação (responsabilidade civil).

Não obstante, inegável o relevo do pensamento romano para a evolução do Instituto, o qual foi aperfeiçoado na Idade Média, especialmente na França, com a elaboração de um princípio geral e a consagração do princípio aquiliano, pelo qual a culpa, ainda que levíssima, obrigaria a indenizar. Nesse sentido, observa Marcelo Benacchio245:

Desse modo, a insuficiência científica do sistema tradicional de responsabilidade civil fundado na enumeração de situações concretas gera a busca de um sistema geral à época das codificações e isso, acompanhado do ideário iluminista calcado nos princípios de Direito Natural, é solo fértil para fazer emergir o princípio da culpa como fundamento único da responsabilidade civil conforme formulou o jurista francês _____________________________

243 Ibidem. p.10.

244 Para um amplo esclarecimento a respeito desse ponto vide: PEREIRA, Caio Mário da Silva.

Responsabilidade Civil. 4ªed. Rio de Janeiro: Forense, 1993. p.03.

245 BENACCHIO, Marcelo. Pressupostos da responsabilidade civil objetiva extracontratual. São Paulo:

no prelo. p.28.

Domat no século XVII, cujas idéias, juntamente com as de Photier, inspiraram os redatores do Código Civil Francês de 1804, o Código de Napoleão, o qual foi o primeiro a instituir tal pensamento em seu art. 1.382 por meio de uma ampla cláusula geral que estabelecia “tout fait quelconque de l´homme qui cause à autri um dommage oblige celui, par La faute duquel est arrivé, à Le réparer!, ou seja, é a previsão da culpa como fundamento da responsabilidade civil extracontratual, o que, a contrário senso, vai estabelecer que não há responsabilidade sem culpa.

Cabe abrir um parêntesis para anotar que o Código Civil francês, cujos os arts. 1.382 e 1383 tiveram como grandes fontes de inspiração as lições de Domat e Pothier246, influenciou a legislação de vários países, inclusive a do Brasil, que no antigo Código Civil de 1916 acolheu a teoria da culpa (responsabilidade subjetiva), mantendo-a no Código Civil atualmente em vigor, ao lado da teoria da responsabilidade objetiva.

Com efeito, dispunha o artigo 159, do Código de 1916: Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano.

A norma em tela sequer cogitava da conduta dolosa ou do grau de culpa, limitando-se a impor o dever de reparar o dano no caso de culpa do agente.

No atual Código Civil, a teoria da culpa subjetiva pode ser extraída da conjugação dos artigos 927 caput e 186 do referido diploma legal. O artigo 927 estabelece que “aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo” e o artigo 186, por seu turno, dispõe que “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.

Tal diploma legal merece, no tocante ao tema, dois destaques: i) a inclusão da possibilidade de indenização por dano moral, já admitida pela jurisprudência em face do permissivo constitucional – art. 186 do CC; e ii) a ampliação da

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246 As lições de Domat e Pothier foram as grandes fontes de inspiração dos arts. 1.382 (“Tout fait quelcome de l’homme, qui cause à autrui un dommage, oblige celui par la faute duquel il est arrivé, à le réparer”) e 1.383 (Chacun est responsable du dommage qu’il a causé non seulement par son fait, mais encore par sa négligence ou par son imprudence) do Código Civil francês, calcados na idéia da culpa como base para a responsabilidade, conforme ensinava José Aguiar Dias. DIAS, José Aguiar de. Da responsabilidade civil. 5ªed. Rio de Janeiro: Forense, 1973, v. I, p. 34.

responsabilidade civil objetiva, mediante a adoção da teoria do risco – art. 927, parágrafo único do CC.

Retomando a evolução histórica da responsabilidade civil, verificou-se, no entanto, que a responsabilidade subjetiva, calcada na idéia da culpa, não se apresentava mais suficiente para atender às exigências da sociedade, em virtude do seu inegável desenvolvimento, em especial com o advento da revolução industrial.

Deveras, constatou-se, à época, no tocante às lesões decorrentes de acidentes do trabalho, a dificuldade de se comprovar a culpa no complexo organograma da linha de produção, agravados por aqueles outros oriundos da culpa do trabalhador, em virtude da pesada rotina de trabalho nas fábricas, gerando, ao final, uma injustiça provocada pela impossibilidade da reparação dos danos.

Daí o surgimento da teoria do risco, a qual parte do pressuposto de que aquele que tira os proveitos da atividade deve, por uma questão de justiça, arcar com os danos advindos do exercício dessa atividade, independentemente da verificação da culpa. Aliás, a consagração da teoria do risco-proveito, cujo mais notável precursor foi Josserand, se deu com o seu acolhimento pelo direito positivo.

Eis a lição deixada por Alvino Lima247:

A teoria do risco integral, assim denominada na sua primitiva forma, é tachada, pelos defensores da responsabilidade subjetiva, de brutal, levando a consequências iníquas. A esta primitiva construção da responsabilidade sem culpa, sucederam novas teorias, que os irmãos Mazeaud reduzem a duas correntes: a que baseia a responsabilidade extracontratual no ato anormal, defendida por Ripert, na sua obra sobre o fundamento da responsabilidade entre vizinhos, e a teoria do risco-proveito, da qual é Josserand o mais notável precursor. (...)

A teoria objetiva, que funda a responsabilidade extracontratual no risco criado pelas múltiplas atividades humanas, foi, sem dúvida, a que fixou as bases da nova concepção da responsabilidade sem culpa, passando do campo doutrinal para o direito positivo. O movimento iniciado por Saleilles, como vimos, encontrou na obra de Josserand o seu mais ardente e possante defensor, e a despeito das críticas que lhe foram dirigidas, e que adiante estudaremos, aquela teoria encontrou a sua consagração não só em dispositivos do direito comum, mas também na legislação especial.” P. 119.

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247 LIMA, Alvino. Culpa e Risco. 2ª ed. revista e atualizada pelo Prof. Ovídio Rocha Barros Sandoval.

São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 1998, p.119.

Com isso, não se perquire se a conduta foi dolosa ou culposa (esta última nas modalidades de imprudência, imperícia ou negligência), sendo suficiente o evento danoso e o nexo de causalidade para que se configure a responsabilidade civil. Iniciava-se, então, a teoria da responsabilidade civil objetiva.

No Brasil, a responsabilidade objetiva foi acolhida, inicialmente, pela legislação sobre as estradas de ferros – Decreto nº 2.681/1912. Posteriormente, outros instrumentos legislativos adotaram tal orientação, como por exemplo, o Código de Mineração – Decreto-lei nº 227/67; a legislação sobre acidentes no trabalho – Lei nº 6.367/1976; a legislação sobre o Meio Ambiente – Lei nº 6.938/81;

o Código Brasileiro de Aeronáutica - Lei n.º 7.565/1986; o Código de Defesa do Consumidor – Lei nº 8.078/1990 e o atual Código Civil, que a prevê expressamente no seu art. 927, parágrafo único, embora o Código Civil de 1916 também contemplasse casuisticamente algumas normas que acolhiam tal modalidade de responsabilidade.

Conforme nos ensina Sergio Cavalieri Filho248, no que diz respeito à responsabilidade objetiva, dentro da idéia central do risco, surgiram várias concepções, verdadeiras subespécies, as quais se destacam: risco proveito, risco profissional, risco excepcional, risco criado e risco integral. Diz o autor:

Pela teoria do risco proveito, responsável é aquele que tira proveito da atividade danosa, com base no princípio de que, onde está o ganho, ai reside o encargo – ubi emolumentum, ibi onus. [...]

A teoria do risco profissional sustenta que o dever de indenizar tem lugar sempre que o fato prejudicial é uma decorrência da atividade ou profissão do lesado. [...]

Para os adeptos da teoria do risco excepcional, a reparação é devida sempre que o dano é consequência de um risco excepcional, que escapa à atividade comum da vítima, ainda que estranho ao trabalho que normalmente exerça. [...]

A teoria do risco criado tem, entre nós, como seu mais ardoroso adepto, o insigne Caio Mário, que assim sintetiza:

“aquele que, em razão de sua atividade ou profissão, cria um perigo, está sujeito à reparação do dano que causar, salvo prova de haver adotado todas as medidas idôneas a evitá-lo”

(Responsabilidade civil, 3ª ed., Forense, 1992, p. 24). [...]

A teoria do risco integral é uma modalidade extremada da doutrina do risco destinada a justificar o dever de indenizar até _____________________________

248 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de Responsabilidade Civil. 4ªed. São Paulo: Malheiros Editores, 2003. p.147-9.

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