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Da responsabilidade objetiva/ subjetiva e direta/subsidiária

A responsabilidade civil dos notários e registradores está intimamente ligada à natureza jurídica da atividade, considerando que a corrente eleita para a natureza da atividade implica na responsabilização dos mesmos.

A responsabilidade objetiva não necessita da comprovação da culpa, satisfazendo-se com a presença de três elementos: conduta, nexo de causalidade e resultado danoso. De outro lado a responsabilidade subjetiva necessita da comprovação de dolo ou culpa.

Nas palavras de Velasques (2019, p. 01):

A doutrina vinha discutindo a responsabilidade de notários e registradores, com controvérsia nos entendimentos para considerar, ao contrário do posicionamento do Supremo Tribunal Federal, que a) poderiam ser acionados diretamente, como agentes privados, ocasião em que o particular lesado deveria demonstrar a sua culpa ou dolo e o Estado somente responderia subsidiariamente; b) tanto Estado quanto notários e registradores poderiam ser acionados diretamente, ficando a critério do particular escolher a quem dirigir a demanda reparatória; c) a ação seria dirigida apenas contra os notários e registradores, sendo estes os únicos responsáveis; d) apenas o Estado responderia diretamente e os notários e registradores somente deveriam responder se comprovada sua atuação dolosa ou culposa, na via de regresso.

Desse modo, alguns doutrinadores ainda divergem do posicionamento do STF, uma vez que a presente atividade foi delegada para pessoas privadas, exercerem atividade de interesse público. Nesse sentido podemos citar o posicionamento do Ministro Herman Benjamin, na decisão do Resp. 1163652, o qual entende que os tabeliães e registradores respondem de forma objetiva e diretamente e o Estado somente é responsável de forma subsidiária.

Este é o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça no Resp. 1163652:

PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. OMISSÃO. EXISTÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO REALIZADO EM VOTO VENCIDO. REGISTRO DE IMÓVEL. ERRO. DANO RECONHECIDO. ILEGITIMIDADE PASSIVA DO ESTADO. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA. AÇÃO PROPOSTA APENAS CONTRA O ENTE ESTATAL. IMPOSSIBILIDADE. 1. Na hipótese dos autos, a irresignação merece prosperar no que diz respeito à omissão. In casu, o voto vencido no acórdão objurgado fez menção expressa ao disposto no art. 22 da Lei 8.935/94, razão pela qual a matéria se encontra devidamente prequestionada. 2. Vencida a preliminar, no mérito verifica-se que a tese recursal é procedente. Com efeito, de acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, nos casos de danos resultantes de atividade estatal delegada pelo Poder Público, há responsabilidade objetiva do notário, nos termos do art. 22 da Lei 8.935/1994, e apenas subsidiária do ente estatal. Precedentes: AgRg no AREsp 474.524/PE, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 18/06/2014; AgRg no AgRg no AREsp 273.876/SP, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 24/5/2013; REsp 1.163.652/PE, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 1º/7/2010. 3. In casu, a ação foi proposta exclusivamente contra o Estado, sem participação do Cartório de Registro de Imóveis diretamente responsável pelo dano, o que não é possível em razão de a responsabilidade do ente estatal ser subsidiária e não solidária. 4. Embargos de Declaração acolhidos, com efeitos infringentes. 05/12/2017. Ministro HERMAN BENJAMIN. T2 - SEGUNDA TURMA. (Grifo nosso).

Do mesmo modo Velasques (2019 apud RIZZARDO, 2019, p. 357):

Seria injustificável os notários e registradores, que possuem receita própria e gerem as respetivas serventias, ficarem imunes de arcar com os prejuízos causados por seus atos. Devem ser responsabilizados solidariamente com o Estado, consoante o art. 37, § 6º, da Constituição Federal.

Assim, coerentemente o responsável deveria ser o notário ou o registrador, que na época dos fatos cometeu um ato ilícito, visto que os mesmos já possuem receita própria e demais benefícios.

A responsabilidade subjetiva pode ser identificada no art. 186 do Código Civil “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Portanto, para a caracterização da responsabilidade subjetiva necessária a análise da culpa no resultado danoso, isto é, se o agente quis ou não o resultado do dano.

Por outro lado, a responsabilidade civil do Estado está ligada ao fato de que no exercício de suas funções, pode cometer ato lícito ou ilícito contra terceiros, causando danos, cabendo assim, a responsabilização.

Segundo o autor Celso Antônio Bandeira de MELLO (2008, p. 977):

A responsabilidade civil do Estado está ligada a obrigação que lhe incumbe de reparar economicamente os danos lesivos a esfera juridicamente garantida de outrem e que lhes sejam imputáveis em decorrência de comportamentos unilaterais lícitos ou ilícitos, comissivos ou omissivos, materiais ou jurídicos.

Após, anos de evolução doutrinária e jurisprudencial, a responsabilidade do Estado foi constitucionalizada no art. 37, § 6,º da CF/88. Nesse viés, é o entendimento do STJ notícias (2017, p. 01):

Mudanças na administração pública ao longo dos anos introduziram a figura da concessionária ou permissionária de serviço público, pessoas jurídicas encarregadas de exercer atividades de competência do Estado. Além disso, a responsabilidade estatal se estende às entidades da administração indireta, como as empresas públicas, as sociedades de economia mista e as autarquias.

A responsabilidade subsidiária, como muitos doutrinadores entendem, é quando o Estado é o responsável subsidiário, cabendo à responsabilidade objetiva aos notários e registradores e, somente em não havendo a satisfação da indenização, responsabilizar o Estado.

O Estado, segundo Velasques (2019 apud MELO, 2019, p. 1.067), não tem vontade e nem ação, no sentido de manifestação psicológica e vida anímica próprias, o que se dá pelos seres vivos, no caso os seus agentes. Assim, o que estes fazem nestas condições é o que o Estado fez.

A responsabilidade subsidiária surge quando é a concessionária não tem condições de arcar com a reparação dos danos devidos, cabendo nesses casos ao Estado à reparação do valor remanescente.

Segundo Velasques (2019 apud CARVALHO FILHO, 2018, p. 613):

A responsabilidade é primária ou direta quando atribuída diretamente à pessoa física ou à pessoa jurídica a que pertence o autor do dano. Será subsidiária a responsabilidade quando sua configuração depender da circunstância de o responsável primário não ter condições de reparar o dano por ele causado.

O princípio da impessoalidade consagrado no art. 7º, caput, da CF, frisa que a administração deve responder pelos atos praticados por seus agentes, adotando-se assim, a teoria do órgão. A teoria da imputação ou teoria do órgão, parte da ideologia de que o Estado não tem ação própria, ou seja, não pode agir diretamente, sendo necessário o exercício dos seus agentes.

No âmbito da administração encontra-se algumas teorias, como a teoria do risco, a qual as empresas concessionárias de fornecimento de água, energia ou construção, respondem pelos danos de forma objetiva, do mesmo modo que o Estado responderia se estivesse prestando esses serviços.

Como bem destacado pelo Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva no julgamento do recurso especial nº 1.330.027:

[...] quanto à ré, concessionária de serviço público, é de se aplicar, em um primeiro momento, as regras da responsabilidade objetiva da pessoa prestadora de serviços públicos, independentemente da demonstração da ocorrência de culpa.

Isso porque a recorrida está inserta na “Teoria do Risco”, pela qual se reconhece a obrigação daquele que causar danos a outrem, em razão dos perigos inerentes a sua atividade ou profissão, de reparar o prejuízo.

Desse modo, o STJ tem entendido que se deve aplicar a teoria de risco administrativo do negócio, isto é, caso as empresas que prestam serviços ao Estado forem responsabilizadas, estás responderam de forma objetiva.

Na teoria da culpa como destaca Velasques (2019 apud PEREIRA, 1993, p. 130), o dever de reparação por parte do Estado exige seja apurada a culpa do agente. Somente em caso afirmativo será possível deduzir que a entidade estatal é responsável. Uma vez caracterizado o procedimento culposo do funcionário, do servidor, do agente, ficará definida a responsabilidade do Estado.

A teoria do risco integral segundo Velasques (2019 apud GASPARINI, 2008, p. 1.031), é a mais onerosa para o poder público, pois o obriga a responder em qualquer situação, sem possibilidade de alegar excludentes, como se o Estado fosse um segurador universal. Pela teoria do risco integral o Estado fica obrigado a indenizar todo e qualquer dano, desde que envolvido no respectivo evento. Não se indaga, portanto, a respeito da culpa da vítima na produção do evento danoso, nem se permite qualquer prova visando elidir essa responsabilidade. Basta, para caracterizar a obrigação de indenizar, o simples envolvimento do Estado no evento.

O Brasil adotou a teoria do risco administrativo, conforme já afirmado, nessa teoria tanto o Estado, quanto as empresas privadas prestadoras de serviços públicos, respondem de forma objetiva, isto é, independente da comprovação de culpa, desde que presente a conduta, nexo de causalidade e resultado danoso. Estando presentes tais requisitos, nasce para o Estado a obrigação de indenizar.

CONCLUSÃO

O pressente trabalho teve como objetivo principal à análise da atividade notarial e registral, abordando aspectos da natureza jurídica, da delegação da atividade, bem como a responsabilidade civil dos mesmos. Tendo como base informar às pessoas que utilizam desses serviços para uma compreensão mais aprofundada do assunto.

A atividade notarial e registral tem sua natureza jurídica fundada na delegação do Estado de um serviço público para um particular, ganhando maior destaque com a constituição federal de 1988.

Inicialmente abordou-se a forma da delegação dessa atividade, os seus princípios norteadores, alguns atos que estão sendo inovados com a implantação de tecnologias, como no caso dos divórcios virtuais, mediante o preenchimento dos requisitos estabelecidos em lei, bem como a extinção ou perda da delegação da atividade notarial e registral.

Posteriormente, passou-se a análise da responsabilidade dos notários e registradores, partindo de uma análise mais geral das várias espécies de responsabilidade que existem no

ordenamento jurídico brasileiro. Em seguida, aprofundou-se a respeito da responsabilidade civil.

Além disso, foi abordada a aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor na prestação dos serviços notariais e registrais, buscando o posicionamento dos doutrinadores na defesa da aplicação do CDC, bem como da não aplicação na atividade notarial e registral. Todavia, vimos que a corrente majoritária é da não aplicação do Código de Defesa do Consumidor na prestação de serviços notariais e registrais, pois não se tem a caracterização de fornecedor por parte desses profissionais, bem como não haveria a remuneração, visto que os emolumentos são considerados taxas e por isso tem natureza tributária.

A análise da responsabilidade civil dos notários e registradores teve como foco principal, a discussão acerca da aplicabilidade do art. 22 da Lei 8.935/94, bem como a suas alterações. Além disso, observou-se a interpretação do STF em relação à aplicabilidade da responsabilidade civil objetiva ou subjetiva dos notários e registradores, como visto, o Estado é o responsável direto, sendo os notários e registradores apenas responsáveis subsidiários. Desse modo, o STF entendeu que a responsabilidade do primeiro é objetiva, e dos notários e registradores subjetiva.

Dito isso, o STF entendeu que a responsabilidade civil dos notários e registradores deve ser subjetiva, isto é, o Estado responde de forma direta e objetiva, cabendo ação regressiva contra os agentes delegados, sob pena de incorrer em ato de improbidade administrativa.

Diante do atual posicionamento do STF acerca da responsabilidade civil desses profissionais, fica evidente a sobrecarga ao Estado, uma vez que a população já necessita do auxílio do Estado para educação, saúde, segurança e tantas outras funções. Onerar o Estado com a responsabilidade civil dos notários e registradores é inaceitável, visto que, via de regra os oficiais dessas serventias têm condições de suportar pelos erros cometidos durante o exercício de suas atividades.

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