3 RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL DO DEVEDOR E A PENHORA
3.1 DA RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL PRIMÁRIA DO DEVEDOR
A responsabilidade primária ocorre quando o primeiro patrimônio a ser exposto aos meios executórios é o do devedor, ou seja, aquele que consta do título executivo.
A responsabilidade patrimonial é uma categoria fundamental no estudo da tutela jurisdicional. Segundo Marcelo Abelha (2008, p. 67), Trata-se de um instituto intimamente ligado à própria evolução dessa função jurisdicional, porque diretamente relacionado à substituição da execução pessoal pela execução patrimonial.
Segundo Mauro Schiavi (2008, p. 107), a responsabilidade patrimonial é um vínculo de direito processual pelo qual os bens do devedor ficam sujeitos à execução e serem destinados à satisfação do crédito do exequente.
Convém analisar a responsabilidade patrimonial do devedor na execução, já que se exige verificar a vinculação dos bens do devedor no cumprimento das obrigações trabalhistas fixadas no título executivo, judicial ou extrajudicial.
Como já citado no presente trabalho, na legislação brasileira, a execução não é pessoal, e sim patrimonial, ou seja, atinge os bens do devedor (art. 591 do CPC). Os únicos casos em que a execução pode ser pessoal, ou seja, incide na pessoa do devedor, privando-o de liberdade, estão expressos na Constituição, no seu artigo 5º, inciso LXVII, que são os de inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e depositário infiel.
Assim, verificar-se-á em que consiste a responsabilidade do devedor e as suas nuances importantes para este estudo.
3.1.1 Responsabilidade Patrimonial Secundária do Devedor
Nos termos dos arts. 591 do CPC (BRASIL, 1973) e 883 da CLT (BRASIL, 1943), o devedor responde para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens, presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.
Porém, segundo Schiavi (2008, p. 108), o Código de Processo Civil atribui responsabilidade patrimonial a certas pessoas que, embora não constem do título executivo, poderão ter seus bens sujeitos à execução. Tal responsabilidade vem sendo denominada na doutrina como responsabilidade patrimonial secundária.
Como destaca Humberto Theodoro Júnior (2003, p. 222):
Bens de ninguém respondem por obrigação de terceiro, se o proprietário estiver inteiramente desvinculado do caso do ponto de vista jurídico. Há casos, porém, em que a conduta de terceiros, sem levá-los a assumir posição de devedores ou das partes na execução, torna-os sujeito aos efeitos desse processo. Isto é, seus bens particulares passam a responder pela execução, muito embora inexista assunção da dívida constante do título executivo. Quanto tal ocorre, são executados bens que não são do devedor, mas de terceiros, que não se obrigou, e, mesmo assim, responde pelo cumprimento das obrigações daquele. Trata-se como se vê, de obrigação puramente processual.
Nessa esteira, assevera Mauro Schiavi (2008, p. 108) que não há violação do contraditório ou da ampla defesa em executar bens de pessoas que não constem do título executivo, pois a responsabilidade que lhe foi atribuída se justifica em razão de manterem ou terem mantido relações jurídicas próximas com devedor de cunho patrimonial que podem comprometer a eficácia da execução processual, e daí a lei lhes atribuir tal responsabilidade, visando à garantia do crédito. Além disso, os responsáveis secundários podem resistir à execução, por meio dos meios processuais cabíveis, como os embargos de terceiro e os embargos à execução.
A Consolidação das Leis do Trabalho não disciplina a hipótese da execução na responsabilidade patrimonial secundária, desse modo resta aplicável à execução trabalhista o disposto no artigo 592 do CPC (BRASIL, 1973), que assim dispõe:
Art. 592 - Ficam sujeitos à execução os bens:
I - do sucessor a título singular, tratando-se de execução fundada em direito real ou obrigação reipersecutória (alterado pela L-011.382- 2006);
III - do devedor, quando em poder de terceiros;
IV - do cônjuge, nos casos em que os seus bens próprios, reservados ou de sua meação respondem pela dívida;
V - alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução.
3.1.2 Da Responsabilidade na Sucessão de Empresas (Empregadores)
Na visão de Amauri Mascaro Nascimento (2004, p. 680): “sucessão de empresas significa mudança na propriedade da empresa e efeitos sobre o contrato de trabalho que é protegido”
Na mesma esteira Maurício Godinho Delgado (2007, p. 408) enfatiza que: Sucessão de empregadores é figura regulada pelos arts. 10 e 448 da CLT. Consiste no instituto justrabalhista em virtude do qual se opera no contexto da transferência de titularidade de empresa ou estabelecimento, uma completa transmissão de crédito e assunção de dívidas trabalhistas entre alienante e adquirente envolvidos. Segundo a maioria dos doutrinadores a sucessão trabalhista, disciplinada nos artigos 10 e 448 da CLT (BRASIL, 1943), tem fundamento nos princípios da continuidade do contrato de trabalho, despersonalização do empregador e na inalterabilidade do contrato de trabalho. Por isso quem responde pelo crédito trabalhista é a empresa, e não quem esteja no seu comando.
Dispõe o art. 10 da CLT (BRASIL, 1943): “Qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa não afetará os direitos adquiridos por seus empregados”.
No mesmo sentido é o art. 448 da CLT (BRASIL, 1943): “A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalhos dos respectivos empregados”.
Como bem adverte Wagner D. Giglio (2005, p. 537), responsável pelo pagamento da condenação é, portanto, a empresa, ou seja, o conjunto de bens materiais (prédios, máquinas, produtos, instalações etc.) e imateriais (crédito, renome etc.) que compõe o empreendimento. São esses bens que, em última análise, serão arrecadados através da penhora, para satisfazer a condenação, pouco importando quais são as pessoas físicas detentoras ou proprietárias deles.
Logo, não interessa detectar quem detém a propriedade, e sim quais bens serão expropriados para satisfazer a condenação.
3.1.3 Da responsabilidade do Sócio
Tema relevante para o presente estudo é mensurar a responsabilidade pessoal do sócio de uma empresa, no caso de conflito trabalhista, especialmente tendo em vista a possibilidade de desconsideração da personalidade jurídica, na forma prevista em lei.
Conforme Mauro Schiavi (2008, p. 114), independentemente do sócio ter figurado no polo passivo da reclamação trabalhista, os seus bens poderão responder pela execução, pois a responsabilidade do sócio é patrimonial (econômica e de caráter processual).
Neste sentido dispõe o CPC (BRASIL, 1973) no seu artigo 592: “Ficam sujeitos à execução os bens: [...]. II - do sócio, nos termos da lei; [...]”.
A ementa seguinte retrata com precisão esta situação:
Execução sobre os bens do sócio – Possibilidade. A execução pode ser processada contra os sócios, uma vez que respondem com os bens particulares, mesmo que não tenham participado do processo na fase cognitiva. Na Justiça do Trabalho, basta que a empresa não possua bens para a penhora para que incida a teoria da desconsideração da personalidade jurídica da sociedade. O crédito trabalhista é privilegiado, tendo como base legal, de forma subsidiária, o art. 18 da Lei n. 8.884/94 e CTN, art. 135, caput e inciso III, c/c o art. 889 da CLT (TRT-3ªR. - 2ª T. - AP n. 433/2004.098.03.00-7- Rel. João Bosco P. Lara - DJMG 9.9.04 – p. 11) (BRASIL, 1973).
Segundo Schiavi (2008, p. 115), o primeiro diploma legal a disciplinar a possibilidade de desconsideração da personalidade jurídica a ser utilizado pela Justiça do Trabalho foi o art. 10 da Lei nº 3.708/19 (BRASIL, 1919), que assim dispõe:
Os sócios-gerentes ou que derem o nome à firma não respondem pessoalmente pelas obrigações contraídas em nome da sociedade, mas respondem para com esta e para com terceiros solidária e ilimitadamente pelo excesso de mandato e pelos atos praticados com violação do contrato ou da lei.
Posteriomente, veio a lume o Código Tributário Nacional, que disciplinou a questão no art. 135 do CTN (BRASIL, 1966), in verbis:
São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos:
II - os mandatários, prepostos e empregados;
III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.
Conforme Schiavi (2008, p. 115), atualmente a matéria está regulamentada pelo art. 28 da Lei nº 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor) e art. 50 do Código Civil, que encaparam a teoria da desconsideração da personalidade jurídica, também conhecida como disregard doctrine, disregard of legal entity, lifting the coporate veil, oriunda do direito anglo-saxão e introduzida ao direito brasileiro por Rubens Requião.
Dispõe o art. 28 da Lei nº 8.078/90 (BRASIL, 1990):
O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
Para Schiavi (2008, p. 115), o Código Civil de 2002 encampou a teoria da desconsideração da personalidade jurídica no art. 50, que assim dispõe:
Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica (BRASIL, 2002).
Por esta teoria, os bens do sócio podem ser atingidos quando:
a) a pessoa jurídica não apresentar bens para pagamento das dívidas; b) atos praticados pelo sócio com abuso de poder, desvio de finalidade,
confusão patrimonial, ou má-fé.
Atualmente, a moderna doutrina e a jurisprudência trabalhista encamparam a chamada teoria objetiva da desconsideração da personalidade jurídica que disciplina a possibilidade de execução dos bens do sócio, independentemente de os atos destes violarem ou não o contrato, ou haver abuso de poder. Basta a pessoa jurídica não possuir bens, para ter início a execução aos bens do sócio.