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2. A GESTÃO SOCIOAMBIENTAL E SUAS PERPECTIVAS

2.3. A GESTÃO SOCIOAMBIENTAL ESTRATÉGICA – GSE

2.3.1. Da Responsabilidade Social e Ambiental à Gestão

A responsabilidade social passou por um caminho evolutivo que Schommer e Rocha (2007) denominam das três ondas da gestão socialmente responsável no Brasil. O Quadro 4 mostra que ela surge na Filantropia com ações pontuais das empresas de caráter assistencialista e motivadas pela caridade; cria vínculos no Investimento Social Privado – ISP com causas ou projetos no repasse sistemático de recursos; e por fim, se efetiva na Responsabilidade Social Empresarial – RSE inserida nas dimensões dos negócios.

ASPECTOS FILANTROPIA ISP RSE

Tipo de ação

Ações de caráter assistencialista feita por meio de

doações de

recursos e apoio das empresas em ações pontuais.

Repasse de recursos para outras organizações sem fins lucrativos ou aplicação direta de recursos em projetos sociais próprios. Prática de gestão organizacional socialmente responsável com o envolvimento das partes interessadas.

Natureza da ação

Indireta, ações externas feitas por

outras entidades.

Indireta e Direta, ações externas realizadas pela

empresa e por outras entidades.

Direta, ações sociais internas e externas realizadas pela empresa.

Forma de

gestão Amadora

Maior profissionalismo na

gestão Gestão Estratégica

Principais Retornos

Tributário e institucional

Fortalecimento dos laços com as comunidades, ganhos de imagem e de mídia, também tributário e

institucional.

Deduções e/ou benefícios legais, fortalecimento dos laços

com as partes interessadas, ganhos expressivos de imagem e de mídia, aumento do faturamento e da participação no mercado.

Quadro 4: As três ondas da gestão socialmente responsável no Brasil

Fonte: Leal (2012) baseado em Schommer e Rocha (2007); e Fróes e Mello Neto (2004).

As ondas diferem entre si, conforme os aspectos apresentados, onde pode se observar que a filantropia está voltada para o assistencialismo e a RSE para a cidadania. Já o investimento social privado se dá pelo uso voluntário e planejado de recursos privados em projetos de interesse público (GIFE, 2013); dissente da responsabilidade social empresarial que faz uso de recursos privados para fins privados (ETHOS, 2013).

Neto (2004) conforme suas dimensões: ética, pragmática e político institucional. Estes três segmentos estão afeitos, respectivamente, na forma como a empresa se comporta, desenvolve as suas ações e se relaciona com as suas partes interessadas, tendo a melhoria contínua da gestão socialmente responsável vinculada à maior participação da empresa nestas esferas.

A trajetória da gestão ambiental no Brasil tem, desde século XVIII, o registro das primeiras normas que apareceram com o propósito de controlar a poluição e a degradação ambiental (THEODORO, CORDEIRO E BEKE, 2004).

Os principais marcos legais da política de meio ambiente no Brasil são da década de 80. No que se refere à gestão ambiental das empresas no Brasil, é na década de 90 que esta ganha um caráter mais competitivo, buscando a melhoria da imagem institucional, e tendo com o lançamento da ISO 14000 um propulsor para a implantação de um sistema de gestão ambiental (ABDALLA e OLIVEIRA, 2009).

A evolução da gestão ambiental como forma de gestão organizacional também passa por três ondas. As três ondas do chamado ambientalismo corporativo conforme Alpersted, Quintella e Souza (2010), suas visões quanto à questão ambiental e suas fases também por Albuquerque (2009) são denominadas de: 1ª onda: fases da inércia – a questão ambiental vista como geradora de custos e sem produzir benefícios perceptíveis à empresa; 2ª onda: fase reativa – a sociedade passa exigir respostas das empresas quanto à questão ambiental; e 3ª onda: fase proativa – visão mais sistêmica das questões ambientais.

Essas duas formas de gestão, a ambiental e a social, sofrem ao longo do tempo mudanças no tipo de ações que são desenvolvidas nas organizações. Evoluem de ações pontuais e amadoras para ações compromissadas e planejadas. As mudanças oriundas dessas duas formas de gestão e a integração delas contribuíram para o surgimento de uma nova gestão, que conforme LEAL (2012, p.5):

Com a mudança do foco das ações sociais e ambientais das organizações ao abranger o próprio negócio, o direcionamento que era maciçamente voltado para ações externas, amplia-se para ações internas também. Com esta inserção novas questões vêm à tona como a necessidade reestruturar o social e o ambiental na gestão

organizacional. Surge então gestão socioambiental que se dá na integração da gestão ambiental com a gestão social nas organizações.

O surgimento da gestão socioambiental, de acordo com Nascimento (2007, p.1), representou uma nova concepção do papel das organizações. Para o autor, “a gestão social e ambiental partiram de pontos distantes, mas realidade das organizações e os impactos por elas causados, foram os responsáveis por esta fusão, formando a gestão socioambiental.”

A gestão socioambiental, segundo Nascimento (2007, p.8), não significa que apenas as variáveis ambientais se uniram às sociais na gestão organizacional. Ela “ocorre pelo fato das questões ambientais possuírem interfaces com as questões sociais e vice-versa.”

De acordo com autor supracitado (2007) a fusão do social com o ambiental – socioambiental – passa a ser vista nas publicações dos balanços sociais e das normas sociais e ambientais, e se consolida com o surgimento do termo desenvolvimento sustentável.

Essa forma de gestão foi ganhando maior dimensão dentro das organizações e ao ser elencada com as estratégias empresariais, revelou maior compromisso das organizações com as questões socioambientais em seu negócio.

A implantação de programas de responsabilidade social nas organizações contribuiu para o fortalecimento das ações socioambientais internas, o relacionamento com as partes interessadas, e a ascensão ao patamar estratégico das dimensões socioambientais fato que colaborou para a materialização da gestão socioambiental estratégica.

Assim, a gestão socioambiental passa a ser estratégica quando ocorre um alinhamento desta com as estratégias de negócios das empresas. Isso implica em profundas mudanças nas estratégias organizacionais, na medida em que as questões socioambientais evoluem de ações pontuais desvinculadas dos negócios para diretrizes estratégicas alinhadas com todo o ciclo da cadeia produtiva da organização. Esse entendimento possibilita uma maior compreensão do que vem a ser a gestão socioambiental estratégica, também definida por LEAL (2012, p.7) como:

A gestão socioambiental estratégica – GSE é uma forma de gestão estratégica que em simbiose com as dimensões socioambientais atua nos processos organizacionais em todos os seus níveis com a participação dos atores envolvidos para o exercício de sua cidadania empresarial.

Para Ribeiro (2008), o tratamento das questões socioambientais, como parte da estratégia da organização, auxilia a mesma a adquirir uma atuação mais proativa. Segunda a autora:

O sucesso da implantação de uma estratégia depende da capacidade da empresa em operacionalizá-la. Por isso, a inclusão das variáveis socioambientais na gestão estratégica das empresas é uma forma de assegurar a inclusão do pensamento sustentável na gestão estratégica das organizações (RIBEIRO, 2008, p.30).

A imersão das questões socioambientais nas estratégias de negócios, seja qual for a força impulsionadora desta inserção, só vem ratificar a interdependência das três dimensões essenciais da sustentabilidade. Entretanto é imprescindível compreender os elos que estas dimensões possuem. Além da interdependência, o econômico, o social e o ambiental também devem ser vistos como indissociáveis.

A gestão socioambiental estratégica surge como uma quarta onda desse processo evolutivo do ambiental e do social na gestão organizacional. Trata-se de uma inovação, que conforme Barbieri, Gouveia de Vasconcelos, Andreassi e Carvalho de Vasconcelos (2010, p. 152),

Inovar seguindo as três dimensões da sustentabilidade ainda não é a regra, até porque a inclusão das dimensões sociais e ambientais requer novos instrumentos e modelos de gestão, que só recentemente começaram a ser desenvolvidos com mais intensidade. Essa evolução pode ser observada no Quadro 5. Os estágios são vinculados e as ações transitam em um movimento ascendente elevando o nível de maturidade com o avanço nas práticas de gestão. Por exemplo, o estágio 2, são ações que ora foram aprimoradas do estágio 1 e que, estas também poderão ascender, galgando um novo patamar, o estágio 3, com a quebra do paradigma.

Quadro 5: Estágios de maturidade da Gestão Socioambiental Estratégica

Fonte: Leal (2012) baseado em Puppim de Oliveira (2008); Meredith (1994); Barbieri

(2007); Carrol (1979); Schommer e Rocha (2007); Froes e Mello Neto (2004); e De Oliveira (2006).

A gestão socioambiental estratégica contempla alguns aspectos como as dimensões e as esferas de atuação adotadas, os princípios que norteiam a gestão e as tecnologias escolhidas, bem como os instrumentos e as estratégias socioambientais utilizadas.

As dimensões adotadas na gestão das organizações têm como pilar as dimensões essências da sustentabilidade, cuja escala evolutiva de inserção na gestão origina-se com a dimensão econômica, seguida da dimensão ambiental e por fim a dimensão social.

GESTÃO SOCIAMBIENTAL ESTRATÉGICA

CATEGORIAS ESTÁGIOS DE MATURIDADE ESTÁGIO 1- Apoio ESTÁGIO 2 – Engajamento ESTÁGIO 3 – Estratégico Dimensões Econômica e Ambiental. Econômica, Ambiental e social. Econômica, Socioambiental e Estratégica. Instrumentos de Gestão Comando e controle Comando/ controle e Auto- regulação Comando/ controle, Auto- regulação e Econômicos. Estratégias de Gestão Reativa e Conservação social Ofensiva e Adequação social Inovativa e Transformação social

Esferas de Atuação Legal Legal e Moral Legal, Moral e Ético.

Tecnologia Fim de tubo Reuso Redução na fonte

Princípios Correção Prevenção Precaução

Partes Interessadas Shareholders Stakeholders Multi- stakeholders

Tipo de Ação Filantrópica Investimento Social Privado Responsabilidade Social Empresarial Modelos de gestão Gestão Econômico- financeira Gestão Ambiental e RSC Gestão Socioambiental Estratégica

Conforme essas dimensões vão se consolidando na gestão, também vão se ampliando as esferas de atuação da organização, que parte da esfera legal, para moral e depois ética.

Os princípios adotados na gestão de acordo com Barbieri (2007) são os de correção, prevenção e precaução. Conforme os princípios adotados se dão as escolhas das tecnologias utilizadas na gestão. Assim, a empresa que tem como principio a correção tende a utilizar tecnologias fim de tubo; da prevenção adota tecnologias mais limpas, de minimização e reuso e; da precaução, o uso de tecnologias mais limpas.

As tecnologias de fim de tubo buscam atenuar os impactos da produção, gerados no processo, atuando, principalmente, no tratamento, controle e na disposição final, como formas de solução para as emissões, efluentes e resíduos. Na prevenção da poluição, utiliza-se: tecnologias de reuso, para os quais são definidos padrões de qualidade e de emissão; reciclagem, reutilização e reaproveitamento de resíduos e emissões, buscando-se a minimização e redução do volume; redução na fonte e da toxidade, substituindo matérias primas (BARBIERI, 2007).

Os instrumentos e estratégias serão enfocados a seguir levando em conta a imersão e integração das dimensões socioambientais na gestão organizacional. O foco se dará nas dimensões social e ambiental, considerando a dimensão econômica implícita à organização no que tange a preservação da sua sobrevivência e da sua função econômica, sendo que os aspectos desta dimensão que se relacionam com as outras serão aqui pontuados.