CAPÍTULO 4- Metodologia
4.1 Fontes e procedimentos de coleta de dados
4.1.3 Dados sociais e econômicos
A fim de gerar conhecimentos sobre os determinantes de escolhas de localização de IDE em nível subnacional, a amostra foi enriquecida com novos dados secundários. O uso de indicadores socioeconômicos possibilita comparar diferentes locais nos modelos estatísticos, capturando os efeitos da heterogeneidade presente em regiões subnacionais. Para cada um dos
países e regiões subnacionais onde estão localizadas as subsidiárias da amostra foram utilizados três indicadores: a População, o PIB per capita e a dimensão “conhecimento” que compõe o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH.
A população e o PIB per capita foram utilizados respectivamente como variáveis proxy para tamanho de mercado e demanda potencial, dois fatores de mercado frequentemente utilizados na literatura e selecionados neste estudo como variáveis explicativas de localização do IDE. O PIB per capita é o produto interno bruto dividido pela população. O PIB é a soma do valor bruto adicionado por todos os produtores residentes na economia, mais impostos sobre produtos e menos subsídios não incluídos no valor dos produtos. O PIB per capita utilizado na amostra de dados é baseado na paridade do poder de compra (PPC). O PIB em PPC é o produto interno bruto convertido em dólares internacionais usando as taxas de paridade do poder de compra (World Bank, 2019b).
O PIB per capita é um indicador que ajuda a medir o grau de desenvolvimento de um país ou região e pode ser visto como um impulsionador do IDE (Bénassy‐Quéré, Coupet, &
Mayer, 2007). Nos estudos empíricos sobre os determinantes dos fluxos de IDE, tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento, é bastante utilizado como medida ou proxy de tamanho ou demanda potencial de mercado (Chakrabarti, 2001; Petrović-Ranđelović, Janković-Milić, & Kostadinović, 2017).
Para a coleta de indicadores do PIB per capita das regiões subnacionais a falta de sistemas padronizados de dados para esse nível de informação desagregado, especialmente em economias emergentes, representou uma dificuldade operacional. Boa parte dos dados de PIB, população e PIB per capita foram coletados caso a caso a partir da busca em sites e exame de dados censitários e relatórios publicados por órgãos oficiais de cada País.
Para algumas localidades, os indicadores foram obtidos na base de dados estatísticos regionais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD, 2019), no relatório UK Economic Outlook, da Pricewaterhouse Coopers (Pricewaterhouse Coopers, 2009), no relatório Global Metro Monitor, da Brooking Institutions (Brookings Institute, 2014) e na base de dados estatísticos UNdata, da ONU (UNdata, 2018).
As estimativas de população subnacional referem-se ao número de habitantes das divisões administrativas de primeiro nível, ou seja, o primeiro abaixo do nível nacional. A delimitação da área e os nomes dessa entidade subnacional são diferentes nos países, sendo
denominados como estados (p. ex. no Brasil e no México), regiões (p. ex. na Tanzânia), como províncias (p. ex. na Argentina) e como departamentos (p. ex. na Colômbia). A estrutura da divisão administrativa de primeiro nível ou a classificação disponível a partir do censo de 2016 ou do ano mais próximo foi usada para estimar a população subnacional de cada país. Para alguns países, os limites subnacionais podem ter se alterado nos anos seguintes à publicação dos dados da população subnacional. Nesse contexto, as estimativas populacionais subnacionais podem não representar a estrutura atual para alguns dos países.
O segundo indicador utilizado foi a dimensão “conhecimento”, que compõe o IDH desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. O IDH é um indicador de desenvolvimento bastante consolidado na literatura e tem sido amplamente reconhecido como um indicador apropriado do progresso econômico e social das nações (Ranis, Stewart, & Ramirez, 2000; Sharma & Gani, 2004; Streeten, 1999) e uma medida da qualidade de vida (Globerman & Shapiro, 2003).
A abordagem do desenvolvimento humano parte do pressuposto de que para aferir o avanço na qualidade de vida de uma população é preciso ir além do viés puramente econômico e considerar outras características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida humana, expandindo a riqueza da vida humana, em vez de simplesmente a riqueza da economia (PNUD, 2018; UNDP, 2018).
Há evidências empíricas de que as decisões de localização de IDE podem ser influenciadas por variáveis de qualidade de vida (Amal, Seabra, & Sugai, 2007; Globerman &
Shapiro, 2003; Peterson, Malhotra, & Wagner, 1999). Um ambiente com maior disponibilidade de trabalhadores qualificados bem como o nível educacional podem atrair projetos de investimento ligados à inovação ou intensivos em tecnologia.
O estudo de Nonnenberg e Mendonça (2005), por exemplo, baseado em dados em painel para 33 países em desenvolvimento entre 1975 e 2000, apontou a qualificação da mão-de-obra como fator determinante do IDE. Na literatura recente, o capital humano tem despertado o interesse de pesquisadores como um fator importante e significativo para a atração de investimento estrangeiro em países em desenvolvimento (Agbola, 2014; Noorbakhsh et al., 2001).
O IDH é um índice composto criado pela combinação de diferentes medidas de desenvolvimento social e mostra o desenvolvimento humano de um país em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde.
Conforme o PNUD (UNDP, 2018) o IDH é uma medida resumida do sucesso médio nas principais dimensões do desenvolvimento humano: (1) uma vida longa e saudável, medida pela expectativa de vida ao nascer; (2) conhecimento, medido pela taxa de alfabetização de adultos (com dois terços de peso) e a taxa combinada de matrícula bruta primária, secundária e terciária (com um terço de peso); (3) e um padrão de vida decente, medido pelo PIB per capita (Purshasing Power Parity – PPP US$). O IDH é a média geométrica dos índices normalizados para cada uma das três dimensões. O desempenho em cada um dos indicadores é expresso como um valor entre zero e um, sendo zero o mais baixo e um o mais alto. O índice para cada uma das três áreas é então calculado como uma média simples dos índices dos indicadores.
Conforme descrito no capítulo 5, os testes realizados apontaram problemas de multicolinearidade do IDH. A estatística VIF, no entanto, apontou um valor de tolerância aceitável para a dimensão “conhecimento” que compõe o IDH e este foi selecionado para o estudo. O índice de conhecimento para os propósitos desta pesquisa é uma proxy para o capital humano em nível nacional e subnacional.
No nível subnacional, foi utilizado o indicador de conhecimento (taxa de alfabetização de adultos com 25 anos ou mais), um dos componentes do Índice de Desenvolvimento Humano Subnacional – Subnational Human Development Index (SHDI), uma versão do IDH oficial do PNUD no nível subnacional. Os dados são do ano de 2016 e foram obtidos na base de dados do Global Data Lab – GDL (Global Data Lab, 2018).
Conforme os autores, enquanto no nível nacional o índice coincide com o IDH oficial construído pelo PNUD, os valores subnacionais refletem – de uma forma globalmente comparável – a variação no desenvolvimento humano entre as regiões geográficas dentro dos países em todo o mundo. O SHDI é baseado em versões subnacionais dos três indicadores usados para construir o IDH oficial e está atualmente disponível para mais de 1600 regiões em 160 países, cobrindo todas as regiões do mundo. A utilização do SHDI permite estudar os níveis e tendências da desigualdade global para as distribuições do desenvolvimento humano subnacional e seus três subcomponentes, e observar se variações no SHDI podem ser atribuídas a diferenças que ocorrem entre países ou dentro delas (Smits & Permanyer, 2018).
Os indicadores de conhecimento obedecem aos critérios de subdivisões administrativas adotados pelo GDL. Assim, eles podem se referir a dados de uma cidade (p. ex. Belgrado, na Sérvia), uma província (p. ex. Gauteng, na África do Sul), uma região (p. ex. Distrito Federal do Sul, na Russia) ou um estado (p. ex. Pernambuco, no Brasil). Foram obtidos indicadores de
conhecimento para 146 regiões subnacionais onde se encontram estabelecidas as 982 subsidiárias estrangeiras.