Entre o final de novembro e início de dezembro de 2020, surgiu a oportunidade de uma oficina de dança de forma remota. O programa Transversalidades Poéticas, do Centro de Referência da Dança, da cidade de São Paulo, promove o contato e a troca de saberes das mais diferentes artes referentes ao corpo durante o contexto de isolamento social devido à pandemia. A Oficina Dança das Orixás, pertencente ao programa, apareceu no momento justo para nosso trabalho, em que a movimentação e expressão dos corpos dos performers passava por refinamento. Ministrado pela atriz, bailarina e artista circense, Letícia Doretto, a qual tinha como referência a Técnica Silvestre . As oficinas consistiram6 em pequenos aportes teóricos durante a prática de aquecimento, em que a gestualidade para preparar o corpo era acompanhada de imagens ou referências à poética das Orixás. A ação de “moldar o corpo” com as mãos, como se nossa pele fosse de barro, fazia alusão à materialidade primordial referente a Nanã, que concede o barro para Oxalá moldar a humanidade. Em seguida, se apresentou como base para o trabalho da oficina a compreensão do corpo humano como matéria formada pelos quatro elementos da natureza, em reflexo às maneiras de relação com o mundo externo. Inicia-se o ciclo pela terra onde pisamos, os pés e os joelhos se relacionam fortemente a este elemento, seguido pela água, na região dos quadris e baixo ventre, onde se encontram os órgãos progenitores. A região do osso esterno, juntamente com os braços, dialogam diretamente ao elemento ar, sempre em movimento cíclico de inspiração e expiração. Por fim, o fogo se manifesta no corpo como projeção logo acima da cabeça, evidenciando a qualidade de intensa
6metodologia de compreensão e ensino das práticas de danças de matriz africana, referente às entidades iorubas, desenvolvida e disseminada pela Professora Rosângela Silvestre, bailarina e professora na Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB).
energia e consumo, uma vez que o elemento se relaciona à vida enquanto o calor que emana dos corpos. A oficina aconteceu durante 4 encontros, permitindo que seus integrantes pudessem dançar os elementos combinados na corporeidade de cada Orixá, aliado à trajetória proposta pela Letícia ao ler os itans . As divindades7 apresentadas contemplaram basicamente todo o panteão que estávamos abordando. Pela ordem da oficina, foram elas: Ogum, Oxóssi, Oxum, Nanã, Obaluaiê, Oxumarê, Oyá e Xangô. Nessa dinâmica, as orixás também se organizam por elemento, evidenciando um possível caminho pedagógico escolhido pela Letícia em sua mediação. O formato da oficina passou a conter muitos conceitos já trabalhados, todavia, é interessante apontar o encontro dessas metodologias de forma intuitiva na construção das partituras a partir das narrativas. Através dos encontros e trocas proporcionados pela oficina, os caminhos trilhados pelo corpo se solidificam: torna-se espaço de travessia da narrativa e chave de compreensão do mundo material e imaterial
O corpo, esse veículo pelo qual participamos da vida, é aqui representado e santificado como veículo primário da participação mística em toda a organização da criação. (...) Ele revela os mistérios da vida e do Cosmo, representa a organização da sociedade, reforça a relação entre a vida humana e a terra e lembra à humanidade sua ligação constante com a divindade. (FORD, 1999. p. 258)
Resgatando os vídeos de propostas para o corpo, realizados no início do projeto, ou mesmo presente na linguagem corporal desenvolvida nas aulas da Sayo, pude perceber a qualidade do trabalho disparado, muitas vezes, a partir de uma imagem referencial, que auxilia a compreensão enquanto sensação do corpo todo.
Cito, por exemplo, um exercício muito comum ao ensaio: “Lua cheia, lua minguante”; na fase cheia, o corpo se fixa com uma base alargada e centrada no quadril e os braços “abraçam” o ar, dando a forma arredondada. Para a lua minguante, a base diminui consideravelmente, unindo os dois pés em uma das laterais, de forma a desenhar um “C” com todo o corpo. Outra imagem referencial
7: termo em iorubá para o conjunto de narrativas (mitos), canções, histórias referentes a cada orixá.
que desponta foi a “precipitação” ou “chuva”, em que os braços se elevam pelas laterais até se encontrarem alinhados com a cabeça para desmanchar novamente no eixo do corpo, iniciado com um movimento de mergulho das mãos pela articulação do punho. A forma com que os braços se movimentam alude ao ciclo de evaporação e condensação da água no fenômeno das chuvas. A partir dessa imagem, juntamente com movimentos propostos pelos performers, se estabelece uma partitura em conjunto, durante a performance da primeira canção, Festejo de sete cores.
O próprio trabalho musical desenvolvido pelo Caio, que privilegia a percepção sinestésica do fazer sonoro, utiliza por diversos momentos de imagens geradas através do corpo para a voz. Partindo de alguns conceitos do método Kodály .8 Dessa forma, partindo da canção "Aos que estão (Mãe Terra)", pudemos dedicar um tempo do trabalho para lhe dar corpo. Contudo, abdicamos do que o método estabelece enquanto gestualidade padronizada para o solfejo, uma vez que cada performer propõe uma sequência própria de movimentos para seu solfejo. Uma aplicação de Kodály ao que desenvolvíamos, como ferramenta pedagógica para a compreensão das diferentes alturas da melodia.
Adiante, um arranjo para quatro vozes dessa canção foi composto por Caio e por mim. O uso de quintas paralelas entre as vozes e o contraponto que se estabelece ao final, faz referencia à um "cantochão", forma de acompanhamento da música sacra e de motetos do período medieval. Os performers gravaram suas vozes a partir de guias em forma de áudios. As vozes foram compiladas e editadas no Reaper, programa de edição profissional de áudio que foi amplamente utilizado para edições mais finas de áudio. Esse arranjo antecede o que se torna a cena 5, Credo colorido, cujo texto foi escrito e gravado em ensaio pelos performers após a realização de uma dinâmica de escrita. A sugestão era justamente a elaboração de
8metodologia pedagógica desenvolvida tomando por base o trabalho do músico e pedagogo húngaro Zoltán Kodály; pode-se exercitar a emissão e percepção melódica, principalmente, através da
Manossolfa, ou solfejo mímico; a metodologia se baseia na representação melódica e intervalar das escalas através de gestualidades feitas com as mão, em diferentes posições e alturas em relação ao corpo.
uma massa de vozes que declamam uma oração em conjunto. O credo, na liturgia católica, se relaciona à profissão de fé, uma manifestação pública daquilo que é base de suas práticas e crenças espirituais. Para esse momento, uma vez definido o que ressoa enquanto material musical, investiu-se na compilação do material audiovisual desenvolvido por cada um. Depois de muito debater sobre questões sutis que acompanham o cotidiano em isolamento, durante a pandemia, essa reflexão dá lugar a proposta de condensar o material registrado em vídeo, referente às entidades, aliado à imagens do cotidiano de cada um.
Por fim, nesta abertura de processo, dia 18 de dezembro, realizamos a primeira dança das portas, a cena 12 de nosso roteiro, em resposta aos estímulos que a canção Senhora Gentil produziu. O formato que se apresenta, além de aludir à proposta trazida pela Nairim, cujo a cena se dá nesse entremeio da porta, está relacionado, também, ao desejo de se estabelecer um cortejo singelo para a finalização da celebração. Uma vez impedidos de festejar e cortejar pelas vias públicas, o uso dos caminhos dentro de casa acabam por gerar essa impressão de movimentação constante, que se finaliza com a passagem para o lado além da batente, fechando a porta. O aspecto sonoro que a Jade apresenta na canção possui um teor dançante, de muita leveza, em que o ritmo, quase uma marchinha de carnaval, remete à essa movimentação de um cortejo, procissão ou carro alegórico.
Se a cena anterior, muito atraente em sua estética misteriosa, acaba por trazer uma reflexão densa e uma majestosa imagem do mar revolto, a cena final tem um teor festivo e equilibrado, cuja oração se direciona, justamente, à Senhora dos caminhos, a quem rogamos no dia do fim.
O vazio e a plenitude, dos quais o som emerge e nos quais mergulha, são o próprio duplo, o espelho, de uma ordem cósmica regida pela dança da criação e da destruição. Na música, como no sexo, a gênese da vida e da morte deixa-se conhecer, por extrema magnanimidade dos deuses, como prazer. (WISNIK, 1989. p. 30)
Cabe dizer que, de certa forma, o trabalho desenvolvido remotamente, durante a pandemia, tornava-se material singular de nosso imaginário. Por vezes,
imersos em uma jornada extremamente repetitiva, onde a casa se torna espaço de trabalho, estudo e lazer, percebeu-se o espaço do ensaio como diferencial do cotidiano pandêmico. As provocações e exercícios feitos em espaço virtual atravessam os corpos de forma a manter as experiências por mais tempo na lembrança. A movimentação do corpo, com voz e gesto, transforma a percepção de um cotidiano desgastado pelos acontecimentos da pandemia e se estabelece como caminho para o encontro dos corpos distanciados. Deixo em anexo trechos dos relatos feitos por alunos dos integrantes do projeto que endossam este e outros fatores relatados. A magia de produzir uma nota em uníssono estava comprometida.
Todavia, ainda conseguimos extrair o dom do prazer ao nos manifestar artisticamente através deste projeto teatral.