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Em 2019, participei como coordenador do Grupo de Teatro da ECA (GTECA), grupo de teatro aberto, gerido por alunos das artes cênicas, no qual, procura-se desenvolver um processo criativo ao longo de determinado período. A frente desse grupo, desenvolvi ao longo do segundo semestre de 2019 uma produção cênica, que resultou em uma breve temporada. Durante esse processo, vi grandes potencialidades em alguns membros desse grupo. Ao final deste ano, na

ocasião de formar o elenco para desenvolver esse Projeto Teatral (PT), convidei os participantes do GTECA, com os quais tive maior identificação. Essas pessoas configuram a maior parte do grupo. O grupo também conta com membros do CAC, do Departamento de Música (CMU) e um membro sem vínculos com a USP.

Tivemos nosso primeiro encontro em fevereiro de 2020, antes do início das medidas de isolamento. Nessa reunião, apresentei minhas reflexões e anseios em relação ao PT. Após essa reunião, marcamos nosso primeiro ensaio. Na ocasião, apenas três performers puderam comparecer. Logo no início de nossos trabalhos, fomos, por conta da pandemia de covid-19, que na ocasião, começava a se instaurar em todo o mundo, obrigados a reinventar nosso modo de criação. De um momento a outro, tudo o que imaginava desenvolver cenicamente, corporalmente e musicalmente, estava impossibilitado. A primeira adversidade imposta por esse novo regime foi a diminuição do tempo de ensaio, uma vez que todos os participantes passavam horas em reuniões virtuais entre aulas, trabalho, ensaios etc.

Para o desenvolvimento desse PT, adotou-se o formato de organização de trabalho inspirado nos moldes de processo colaborativo, proposto pelo Prof. Dr.

Antônio Araújo. Dessa forma, nos organizamos em dois grupos: direção e performers. O grupo da direção, além de mim, enquanto diretor e preparador corporal, é constituído por Caio Jacoe como assistente de direção e preparador vocal, e Jade Faria, como compositora e dramaturgista. O grupo dos performers, a primeiro momento, é constituído por Alef Castro, Amanda Rodovalho, Ana Beatriz Pintar, Ananda Gusmão, Daniel Terra, Maviael Félix, Nairim Bernardo, Natália Blanco, Rodrigo Kantovitz e Wagner Rodolfo.

Como diz em aula o Prof. Dr. Tó Araújo, nosso “levantar poeira” (informação oral) consistiu na indicação de leitura de textos teóricos que auxiliaram na construção de nosso imaginário comum. Após nossas primeiras discussões em ensaio virtual, pediu-se uma primeira proposta cênica no formato audiovisual. Tal exercício é apelidado de “troca de pele”, em referência ao mito da Serpente do

Arco-íris. Cada performer trouxe sua visão, em formato de um vídeo curto, acerca da temática discutida. Esse primeiro exercício cênico foi fundamental para mapear os caminhos em que poderíamos seguir. O exercício, também, evidenciou preferências, facilidades e limitações dos performers na confecção deste material.

Segundo orientação de Pereira (Sayô), instaurou-se um momento do ensaio, apelidado de “devocional”, sobretudo nos primeiros meses em que realizamos muitas leituras e discussões. Esse momento inicial consistiu em uma manifestação artística de um ou mais integrantes do grupo. Começamos com breves apresentações musicais da parte dos membros da direção. Após certo período, passamos a indicar performers para contribuir com o momento “devocional”. Este exercício foi enriquecedor para o contato e a desenvoltura com o espaço virtual, além de proporcionar momentos de criação poética mesmo em ensaios de discussão teórica. No decorrer das semanas, a proposta para este exercício de devocional passou a ser realizado em duplas ou trios. Naturalmente, as performances ganharam complexidade. Algumas dessas propostas tornaram-se parte importante para o material de nossa liturgia. A cena 8 de nosso roteiro final teve sua gênese em uma devocional dos performers Daniel Terra e Ananda Gusmão, na qual cada um agia sob regras muito claras em seu jogo estabelecido.

Com o avanço do trabalho e a elaboração de um roteiro, a cena proposta foi ganhando amparo das imagens presentes nas narrativas que estudávamos.

Originalmente, tinha como principal eixo da celebração a figura da Serpente do Arco-Íris, partindo de duas referências: o mito arecuná e a narrativa de Oxumarê, cabendo ainda a imagem da mãe intercessora, Nanã. Ao primeiro momento, para o espetáculo que seria presencial, tínhamos o anseio de fazer presente no cortejo a serpente multicolorida. Em isolamento, contudo, representar uma serpente dessa forma tornou-se impossível. Isso tornou-se uma discussão da direção do projeto: como focar num trabalho coral em um momento de distanciamento?

A partir de questionamentos dos performers que sugeriram que cada um desenvolvesse sua visão acerca das divindades de nosso panteão, e, após deliberação no grupo da direção, delegou-se a cada um uma narrativa referente a uma entidade, que os acompanharia até o fim do projeto. Neste momento, nosso grupo se constituía com apenas nove performers. Através de um email, cada performer descobriu sua divindade, assim como teve acesso a materiais teóricos sobre. A narrativa da cena 8, mencionada anteriormente, é baseada no mito “Odé Desrespeita proibição ritual e Morre” (PRANDI, 2001. p. 114) e surge por meio de pesquisas de narrativas relacionadas ao período de isolamento social. Ademais, o4 mito faz menção direta à serpente do arco-íris, Oxumarê. Da devocional performada por Daniel Terra e Ananda Gusmão, tendo o mito como estrutura dramática, adiciona-se um terceiro performer representando Oxumarê.

Foi nesse momento que encontrei, também, no Capítulo “Oyá/Iansã”

(PRANDI, 2001. p. 310) um mito fundador de um rito fúnebre. Em resumo, o mito diz que Oyá recolhe os pertences e artefatos do caçador morto, que era seu pai, e os põe juntos ao túmulo. Ela então dá uma grande festa que dura por sete dias e sete noites com muita dança, música e fartura de comida. No último dia, ela deposita os pertences de seu pai em uma árvore na floresta, acreditando que só assim ele poderá descansar.

Ao todo, nosso panteão consolidou-se com 8 divindades, uma vez que mais um performer se desligou do grupo. As divindades trabalhadas, e seus respectivos performers responsáveis, são: Iansã, para Natália; Lituolone, para Rodrigo; Oxum, para Ananda; Oxóssi, para Daniel, Oxumarê, para Alef; Perséfone, para Ana Beatriz, Jaci, para Wagner e Nanã, para Nairim. A escolha do performer para cada divindade se deu a partir das cenas propostas no exercício “Troca de Pele”.

4vide anexo: Roteiro cena 8 - Não saia de Casa; p. 64.

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