DANO EXISTENCIAL E SEUS REFLEXOS NA VIDA DO TRABALHADOR
3 DANO EXISTENCIAL E SEUS REFLEXOS NA VIDA DO TRABALHADOR
Os reflexos do dano existencial irradiam-se em várias esferas, limitando o trabalhador na busca de seu desenvolvimento e consequente contribuição para toda a sociedade nos mais diversos aspectos. Nesse sentido, o Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Hugo Carlos Scheuermann, na ação TST-RR-727-76.2011.5.24.0002, explica que esse dano frustra o traba- lhador por não realizar o seu projeto de vida e prejudicar as relações sociais e familiares justa- mente por ter privado o seu direito de descanso.
Em consequência, é possível perceber o prejuízo do trabalhador quando lhe é exigida a realização de horas extras superiores ao determinado legalmente, bem como quando é exigido que continue a trabalhar mesmo durante seus períodos de descanso, ainda que longe da em- presa, em razão do acúmulo de atividades. Assim, como exposto anteriormente, quando esses períodos de descanso não são respeitados, mesmo quando o trabalhador tem tempo livre está esgotado de tal modo que não encontra forças para desfrutá-lo.
Recorrendo novamente a Boucinhas Filho e Alvarenga (2017), o dano existencial obsta a efetiva integração do trabalhador à sociedade, impedindo-o de se desenvolver enquanto ser humano, pois a efetiva utilização das suas potencialidades somente seria possível com a fruição de todas as esferas de sua vida: afetiva, cultural, esportiva, recreativa, social, profissional, entre outras. E é por meio do direito ao lazer que o trabalhador adquire o direito de se desconectar da pressão diária do trabalho, bem de recompor a sua energia.
Ao trabalhar por exaustivas horas, esse impedimento para o descanso interfere direta- mente no estado de ânimo do trabalhador e, consequentemente, afeta a sua vida particular e reduz suas chances de desenvolvimento no trabalho, o que reflete negativamente no seu desen- volvimento patrimonial, pois fica sem motivação para uma produção mais eficaz no trabalho e está mais suscetível a acidentes de trabalho.
Além de acidentes de trabalho, a exaustão será responsável pelo aparecimento de doen- ças do trabalho, que poderão colocar em risco a sua saúde física e mental. Quanto maior a agres- são à saúde do trabalhador no ambiente de trabalho, maior também será a agressão ao seu sistema imunológico, ficando este cada vez mais vulnerável também a doenças profissionais. O direito fundamental à saúde está diretamente relacionado à qualidade de vida dos trabalha- dores no ambiente de trabalho e visa promover a sua integridade durante o desenvolvimento da sua atividade profissional, de modo que o trabalho possa ser executado de forma saudável e
Dano existencial e seus reflexos na vida do trabalhador... equilibrada e que o trabalhador possa termina-lo em plenas condições para desenvolver outras atividades.
Nesse sentido, o dano à existência do trabalhador acarreta uma violação aos direitos da personalidade, como o direito à integridade física e à psíquica, o direito à integridade intelec- tual, bem como o direito à integração social. Corroborando o exposto, segundo Frota (2010), o direito ao projeto de vida somente é efetivamente exercido quando o indivíduo concentra parte de seu tempo à própria autorrealização, canalizando suas escolhas para a realização e o alcance das metas traçadas como ideais.
A jurisprudência, ainda que tímida, vem reconhecendo a existência desse dano, como de- monstra a decisão da Primeira Turma do TRT da 3ª Região, na Ação n. 02169201301403003 0002169-55.2013.5.03.0014, pois foi provado nos autos que o autor foi obrigado a trabalhar du- rante o período de férias, ao longo de todo o contrato de trabalho, o que comprometeu, sobrema- neira sua vida particular, impedindo-o de dedicar-se, também, a atividades da sua vida privada.
Entretanto, o que se percebe, também, são os vários pedidos para o reconhecimento des- se dano sem que haja a efetiva comprovação. Em recente decisão, a Quarta Turma do Tribunal Superior do Trabalho absolveu a WMS Supermercados do Brasil Ltda., pois entendeu que não foram encontrados elementos que caracterizavam o dano existencial. Segundo o Ministro João Oreste Dalazen, para a tipificação do referido dano é necessária a demonstração inequívoca do comprometimento do projeto de vida e da vida de relação, o que não foi comprovado no caso em questão, pois o contrato de trabalho havia vigorado por apenas nove meses, um curto período para que tivesse ocorrido um comprometimento de forma irreparável da realização do projeto de vida em prejuízo à vida de relação.
Para ilustrar, colhem-se do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região recentes deci- sões do campo do reconhecimento e da negativa da pretensão quanto ao dano existencial:
INDENIZAÇÃO POR DANO EXISTENCIAL. JORNADAS EXTENUANTES. A parte autora postula indenização por danos morais, aduzindo que, durante quase cinco anos de vín- culo com a ré, jamais gozou de férias, bem como laborava acima da carga horária legal e permanecia à disposição do empregador, podendo ser chamada a qualquer momento, fatos lhe afetavam a vida social e familiar, gerando dano de tal ordem. O réu contesta, alegando que não estão presentes os pressupostos para gerar o dever de indenizar. Ora, sob o gênero “danos extrapatrimoniais” decorrem, entre outros, como espécies distin- tas, o “dano moral” e o “dano existencial”. O primeiro é um sofrimento interno da pes- soa, um abalo à sua intimidade ou honra subjetiva. O segundo é uma afetação externa, vale dizer, o suposto ato ilícito é de tal sorte que impede a pessoa de viver em plenitude, ou seja, de usufruir da vida familiar ou social, impedindo o seu desenvolvimento pleno. No caso em apreço, vislumbro a presença de dano existencial, eis que da parte autora, durante toda a contratualidade, foi-lhe suprimido o direito ao gozo de férias, bem como laborou em diversos sábados, domingos e feriados, o que, certamente, implicou inter- ferência em sua esfera existencial e violação dos direitos fundamentais insculpidos nos arts. 6º e 7º da Constituição, como a limitação da jornada de trabalho, a saúde, o lazer. Logo, no caso em apreço, há típico dano existencial. Isso posto, condeno a ré a pagar para a parte autora R$ 3.000,00 de danos existenciais, devidamente corrigidos e acres- cidos de juros legais de 1% ao mês desde a data da publicação desta sentença. (Vara do Trabalho de Joaçaba-SC, RT 0000313-76.2014.5.12.0012, em 27.11.2014, Juiz Rodrigo Goldschmidt).
INDENIZAÇÃO POR DANO EXISTENCIAL. INDEFERIMENTO. A autora alega que em de- corrência da jornada realizada, conjugando-se ao fato de despender extenso tempo a
título de horas in itinere e tempo à disposição da ré, bem como por não ter recebido as verbas rescisórias corretamente, sofreu dano existencial, uma vez que interferiu no seu convívio social, rompendo o instituto de equilíbrio entre a sua vida particular e o trabalho realizado na ré. A ré nega as alegações da autora. Diz que esta nunca foi sub- metida à jornada exaustiva. Sustenta que nunca teve conduta ilícita que configurasse o dano alegado. Pede a improcedência do pedido. Prefacialmente explicita-se que o dano existencial é uma espécie de dano imaterial que atinge a vítima, seja de modo parcial ou total, a ponto de impossibilitar a pessoa de executar, prosseguir ou reconstruir projetos de vida [...] Nos autos, não obstante tenha se verificado que a autora permaneceu dia- riamente, em grande parte da contratualidade, por tempo considerável no trajeto entre sua residência e o trabalho, além do cumprimento da jornada de trabalho ordinária, cer- to é que esta gozava de descanso semanal remunerado, tinha os sábados, em sua maio- ria, compensados e não trabalhava, de forma geral, em feriados e domingos. Nesta ótica, não ficou evidenciado que a autora ficou obstada do convívio familiar ou em sociedade, ou mesmo que foi submetida a trabalho de forma exaustiva, a ponto de lhe impedir de executar projetos de vida, tanto no âmbito familiar ou social. Logo, descabe a pretensão de indenização por dano existencial. (2ª VARA DO TRABALHO DE CHAPECÓ/SC, RTOrd 0001838-49.2013.5.12.0038, em 27.03.2014, Juiza Deisi Senna Oliveira).
Verifica-se, portanto, que a mera alegação de dano existencial, sob o argumento de pror- rogação de jornada de trabalho ou frustração do projeto pessoal, não constitui fato suficiente para configurar o dano, assim, para que o juiz possa analisar a existência do dano apontado, é preciso trazer aos autos uma narrativa adequada do fato danoso e o nexo causal com o trabalho, além de que o próprio trabalhador precisará provar.