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2. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO

2.2 Pressupostos da responsabilidade civil

2.2.1 Dano

Para Cavalieri Filho, dano é:

lesão a um bem ou interesse juridicamente tutelado, qualquer que seja sua

natureza, quer se trate de um bem patrimonial, quer se trate de um bem integrante da personalidade da vítima, como a sua honra, imagem, liberdade, etc. Em suma, dano

é lesão de um bem jurídico, tanto patrimonial como moral, vindo daí a

O dano material ou patrimonial é o que atinge os bens integrantes do patrimônio da vítima (conjunto de relações jurídicas de uma pessoa apreciáveis economicamente). Abrange as coisas corpóreas, mas também as incorpóreas, como os direitos de crédito, direitos autorais não respeitados, etc. Envolve a noção de prejuízo, de diminuição do patrimônio, pode atingir também o patrimônio futuro, não apenas diminuindo (dano emergente, diminuição imediata do patrimônio) como impedindo seu crescimento (lucros cessantes, frustração da expectativa de lucro, como a paralisação da atividade lucrativa ou produtiva da vítima). O dano emergente é o que se perdeu, sendo que a indenização (o ressarcimento) deve ser suficiente para a

restitutio in integrum (CAVALIERI FILHO, 2014, p. 94).

Pelacani cita Grandiski, quando afirma que dano na construção “é toda consequência provocada por falhas construtivas”. Juridicamente falando, é considerado como qualquer lesão causada a um bem jurídico. Segue citando Agostinho Alvim: “aprecia-se o dano tendo em vista a diminuição sofrida no patrimônio. Logo, a matéria do dano prende-se à da indenização, de modo que só interessa o estudo do dano indenizável” (2010, p.44).

Segundo Yussef Cahali, o dano ressarcível pode ter diferentes origens, mas tem como característica o fato de ser injusto para o particular prejudicado, pois lesivo a seu direito subjetivo. Nas palavras do autor:

no plano da responsabilidade objetiva do direito brasileiro, o dano ressarcível tanto

resulta de um ato doloso ou culposo do agente público como, também, de ato que, embora não culposo ou revelador de falha na máquina administrativa ou do serviço, tenha-se caracterizado como injusto para o particular, como lesivo ao seu direito subjetivo (2007, p. 68).

Weida Zancaner Brunini, em sua obra Da responsabilidade extracontratual da

Administração pública, considera que as características dos danos ressarcíveis são

diferentes conforme sejam provenientes de atividades lícitas ou ilícitas (1981, p. 66).

Os danos provenientes de atividades ilícitas são sempre antijurídicos, assim devem: a) ser certos e não eventuais, podendo ser atuais ou futuros; b) atingir situação jurídica legítima, suscetível de configurar um direito, quando menos, um interesse legítimo.

No caso de danos resultantes de atividades lícitas, após o exame da legalidade da atividade, é necessário ainda, além os requisitos anteriores: c) que dano seja anormal; d) que o dano seja especial, isto é, relativo a uma pessoa ou a um grupo de pessoas (ZANCANER, 1981, p. 66-67).

José Joaquim Gomes Canotilho, em sua obra O problema da responsabilidade do

Estado por actos lícitos, defende que o dano deve ser especial:

Na responsabilidade dos entes públicos por danos emergentes de actos ilícitos não se condiciona o dever reparatório do Estado à verificação de um dano especial e grave. Nestes casos, mesmo que o número de lesados seja grande e os prejuízos de pequena gravidade, vigora sempre, o princípio do ressarcimento de todos os

danos. Mas bem compreende que nos casos de sacrifícios impostos

autoritativamente através de medidas legítimas, ou de danos derivados de actividades perigosas mas lícitas, a inadmissibilidade de idemnização de danos generalizados e de pequena gravidade seja a regra. Os pequenos sacrifícios, oneradores de alguns cidadãos, constituem simples encargos sociais, compensados por vantagens de outra ordem proporcionadas pela actuação da máquina estatal. Se o dano não exceder os encargos normais exigíveis como contrapartida dos benefícios emergentes da existência e funcionamento dos serviços públicos, não há lugar ao pagamento de idemnização, sob pena de insolúveis problemas financeiros, paralisadores da atividade estadual.

[...] Havendo um encargo generalizado, vedado está, em via de princípio, pretender demonstrar a imposição de um sacrifício desigual perante os outros

concidadãos.

[...] 2- Especial, afirma-se, é o contrário de geral e, por isso, dano especial é aquele

que atinge um indivíduo ou grupo de indivíduos (CANOTILHO, 1971, p. 271-

273) (grifo nosso)

Em relação à anormalidade do dano o autor afirma:

Ora, a anormalidade do dano, de acordo com o já exposto, não pode nem deve substituir a necessidade da especialidade do prejuízo. Caso contrário, mesmo os danos generalizados de excepcional gravidade mereceriam tutela reparatória já que, sendo anormais, eram, ipso facto, especiais.

A ideia da exigência destes dois requisitos de responsabilidade objectiva só pode fundar-se na necessidade de um duplo travão ou limite:

I) evitar a sobrecarga do tesouro público, limitando o reconhecimento de um dever idemnizatório do Estado ao caso de danos inequivocamente graves.

2) - procurar ressarcir os danos que, sendo graves, incidiram desigualmente

sobre certos cidadãos.

Introduzem-se, assim, dois momentos perfeitamente diferenciáveis: em primeiro lugar, saber se um cidadão ou grupo de cidadãos foi, através dum encargo público, colocado em situação desigual aos outros; em segundo lugar, constatar se o ónus especial tem gravidade suficiente para ser considerado sacrifício (CANOTILHO, 1971, p. 282-283) (grifo nosso)

Cahali afirma que o dano deve ser anormal, excepcional, individualizado, que ultrapassa, por sua natureza e expressividade, os incômodos e sacrifícios toleráveis ou exigíveis em razão do interesse comum da vida em sociedade (CAHALI, 2007, p. 69).

O autor cita Otávio de Barros quando afirma que qualifica-se o dano como injusto na medida em que “rompe o princípio da igualdade dos ônus e encargos sociais”. Tratando-se de dano particular, singularizado, a questão tem sido resolvida em termos de excepcionalidade e permanência63 (CAHALI, 2007, p. 69 – 71).

63 Em obras viárias, como viadutos, em certos casos inviabiliza a atividade de estabelecimento comercial (posto de abastecimento de combustível com acesso bloqueado), como no julgado TJSP, 4ª Câmara, de 18.04.1974, RT