- A divulgação de produtos em sítios eletrônicos e por outros meios digitais, mediante remuneração, ainda que indireta, configura prestação de serviços, a atrair a incidência dos dispositivos do Código de Defesa do Consumidor.
- É objetiva a responsabilidade do prestador/fornecedor de serviços pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos deles decorrentes.
- A inobservância, pelo consumidor, das orientações previstas no contrato de prestação de serviços de gestão de pagamentos, quanto à entrega de documentos para fins de verificação da legitimidade da transação, não é suficiente para eximir o prestador do serviço de interme-diação da responsabilidade pela segurança do serviço por ele oferecido.
- Comprovado o prejuízo patrimonial efetivamente supor-tado, a condenação da ré à restituição do valor do dano material é medida que se impõe.
- Meros dissabores, aborrecimentos e contrariedades, decorrentes de falha na prestação de serviços, sem maiores repercussões, não geram danos morais susceptí-veis de reparação.
Recursos conhecidos e não providos.
APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0701.15.017929-2/001 - Comarca de Uberaba - Apelantes: 1º) Daniel Fernandes Bento; 2º) Universo Online S.A. - Apelados: Daniel Fernandes Bento, Universo Online S.A. - Relator: DES.
VICENTE DE OLIVEIRA SILVA
de 20% sobre o valor da condenação. Assim, o limite estabelecido já foi alcançado, deixando-se de majorar os honorários.
Votaram de acordo com o Relator os DE- SEMBARGADORES ALBERTO HENRIQUE e ROGÉRIO MEDEIROS.
Súmula - NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO.
. . .
TJMG - Jurisprudência Cível Dessa forma, a ré empreende verdadeira
interme-diação nas operações de compra e venda realizadas em seu sítio eletrônico e também pelos diversos meios digi-tais de transmissão de informações, a cujo acesso a sua remuneração é condicionada.
Por ser assim, a pretensão autoral deve ser anali-sada à luz da Lei nº 8.078/90, pois caracterizadas as figuras do consumidor e do fornecedor, personagens abrangidos pelos arts. 2º e 3º da citada lei.
E como decorrência da responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços, na hipótese de demanda judicial pertinente à apuração de responsabi-lidade, existe uma natural imposição ao fornecedor para que ele possa afastar a obrigação de indenizar, as quais se encontram elencadas no § 3º do art. 14 do CDC, a dispor que:
Art. 14. [...]
§ 3º O fornecedor do serviço só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
No caso em apreço, restou incontroversa nos autos a relação jurídica entre as partes, consistente na utilização, pelo autor, primeiro apelante, da plataforma
“pagseguro uol”, da qual a ré é provedora, traduzida na prestação de serviço de gestão de pagamentos por meio de transmissão de informações digitais.
A empresa ré sustenta que procedeu ao bloqueio de valores da conta do autor preventivamente, por suspeita de fraude, acrescentando que tal providência está devi-damente prevista no contrato firmado entre as partes, conforme cláusula que menciona.
Ocorre que não há nos autos nenhuma prova de indício de fraude, não tendo a ré apresentado qualquer motivo plausível para justificar o bloqueio de valores na conta do autor.
E não basta a alegação da provedora de que existe cláusula contratual prevendo o bloqueio. É necessário que haja fundado receio de fraude, como bem assina-lado pelo Juiz da causa, mas não se desincumbiu a ré do ônus da prova previsto no art. 373, II, do CPC/15.
Em suma, é possível concluir que a ré, aqui segunda recorrente, não logrou êxito em cumprir as regras esta-belecidas no art. 14, § 3º, do Código de Defesa do Consumidor.
Em caso semelhante, o Superior Tribunal de Justiça já se pronunciou, então vejamos:
Direito do consumidor. Recurso especial. Sistema eletrônico de mediação de negócios. Mercado livre. Omissão inexis-tente. Fraude. Falha do serviço. Responsabilidade objetiva do prestador do serviço. 1. Tendo o acórdão recorrido analisado todas as questões necessárias ao deslinde da controvérsia não se configura violação ao art. 535, II, do CPC. 2. O prestador de serviços responde objetivamente pela falha de segurança do serviço de intermediação de negócios e pagamentos ofere-cido ao consumidor. 3. O descumprimento, pelo consumidor bloqueada em decorrência do descumprimento
contra-tual pelo autor, traduzido na ausência de documentos pessoais que lhe foram solicitados.
Transcreve cláusulas do ajuste pactuado para defender sua tese de que o ato de bloqueio foi praticado para garantir a segurança dos usuários dos serviços pres-tados pelo autor, aduzindo que todo o procedimento está previsto e permitido no contrato celebrado entre as partes.
Defende a ausência de nexo causal entre os supostos prejuízos apontados na petição inicial e a sua conduta e, por fim, postula o provimento do apelo, para que seja reformada a sentença e julgada improcedente a pretensão autoral.
Preparo: regular (f. 132/133).
Em contrarrazões apresentadas às f. 136/140, o autor, aqui recorrido, pede o desprovimento da segunda apelação.
Devidamente intimada, a empresa ré não ofereceu resposta ao primeiro recurso, conforme certidão de f. 141-v.
É o relatório.
Conheço dos recursos de apelação, visto que presentes os pressupostos condicionantes de admissibilidade.
Inexistindo preliminares ou prejudicial a exigirem solução, passo diretamente à análise e resolução conjunta do mérito de ambas as apelações.
Extrai-se dos autos que o autor ajuizou a presente ação de obrigação de fazer, cumulada com pedido de indenização por danos morais, ao fundamento de que teria sofrido prejuízos de ordem moral e material, em razão da suposta falha na prestação dos serviços ofere-cidos por gestão de pagamentos e pelo intermédio de transações comerciais, dos quais a ré é provedora.
O Juiz condutor do processo julgou parcialmente procedente a pretensão deduzida na exordial e condenou a empresa demandada à devolução do valor por ela retido em virtude da ausência de documentos solicitados ao autor como medida de segurança.
Por conseguinte, sobrevieram os presentes recursos de apelação, pretendendo o autor, primeiro apelante, o recebimento de indenização por danos morais, e a ré, segunda recorrente, a total improcedência dos pedidos formulados na petição inicial.
Destaco, inicialmente, que a empresa ré, ora segunda apelante, integra a cadeia de serviço ao consu-midor nos negócios firmados entre as pessoas que se cadastram em sua plataforma.
Isso porque, além de receber um percentual sobre cada venda efetivada, conforme previsto no item 52 do “Contrato de Prestação de Serviços de Gestão de Pagamentos e Outras Avenças” (f. 49/75), a empresa recorrente tem por objeto colocar “à disposição do contra-tante, através de meios digitais de transmissão de infor-mações, seu serviço de gestão de pagamentos” (f. 50).
TJMG - Jurisprudência Cível
desfavor da ré e determinou sua intimação para especi-ficar as provas que pretendia produzir (f. 104).
Contudo, em data bem posterior àquelas em que, supostamente, haveria ocorrido o desbloqueio e o saque da importância de R$3.428,63 (três mil quatrocentos e vinte e oito reais e sessenta e três centavos), vale dizer, em 28 de março de 2016, a empresa ré compareceu aos autos para informar que não possuía mais provas a produzir, requerendo o julgamento antecipado da lide (f. 109).
Portanto, nada há a prover quanto a este aspecto.
Finalmente, em relação à pretensão do autor de receber indenização por danos morais, entendo que o defeito nos serviços prestados pela empresa ré, consubs-tanciado no bloqueio de valores de forma indevida e injus-tificada, mas sem desdobramento nos direitos de perso-nalidade do ofendido, salvo melhor juízo, não é capaz de lhe causar danos de ordem moral.
Digo isso porque, em regra, o descumprimento contratual e a falha na prestação dos serviços, pura e simplesmente, sem maiores repercussões negativas em desfavor do lesado, não enseja reparação a título de danos morais.
Conquanto o bloqueio infundado tenha causado ao autor, primeiro recorrente, dissabores e transtornos, estes não chegaram a denegrir sua imagem, macular a sua honra ou a violar os seus direitos personalíssimos.
Somente deve ser deferida indenização por danos morais nas hipóteses de dor, sofrimento, tristeza, angústia, aflições, prejuízo à saúde e integridade psicológica de alguém, constrangimento, vergonha, humilhação, expo-sição lesiva no meio social, ou seja, danos à conside-ração da pessoa em si, ou em suas projeções sociais.
O autor apelante não fez prova de nenhuma situação excepcional que tenha sido lesiva à sua honra, reputação ou dignidade, ou que tenha atingido os seus valores mais íntimos, de modo a influenciar o seu comportamento psicológico e causar anormalidade em sua vida cotidiana.
É natural que o primeiro recorrente, em face dos fatos acontecidos, tenha ficado aborrecido, chateado.
Todavia, tais sentimentos não representam danos morais.
São perfeitamente suportáveis e decorrem da vida em sociedade.
Admitir indenização por dano moral em virtude de qualquer aborrecimento, chateação ou preocupação é tornar inviável a vida social e fomentar a indústria das indenizações por danos morais.
Em face do exposto, nego provimento a ambos os recursos de apelação e mantenho a sentença hostilizada por seus próprios e jurídicos fundamentos.
Considerando a natureza imperativa do art. 85,
§ 11, do Código de Processo Civil de 2015, impõe-se o redimensionamento do valor arbitrado a título de honorá-rios devidos aos advogados das partes.
(pessoa física vendedora do produto), de providência não constante do contrato de adesão, mas mencionada no site, no sentido de conferir a autenticidade de mensagem supos-tamente gerada pelo sistema eletrônico antes do envio do produto ao comprador, não é suficiente para eximir o pres-tador do serviço de intermediação da responsabilidade pela segurança do serviço por ele implementado, sob pena de transferência ilegal de um ônus próprio da atividade empre-sarial explorada. 4. A estipulação pelo fornecedor de cláusula exoneratória ou atenuante de sua responsabilidade é vedada pelo art. 25 do Código de Defesa do Consumidor. 5. Recurso provido (REsp 1.107.024/DF, Rel.ª Min. Maria Isabel Gallotti, j. em 1º/12/2011, DJe de 14/12/2011).
No mesmo sentido, veja-se a jurisprudência deste Tribunal de Justiça:
Apelação cível. Ação indenizatória. Danos materiais e morais.
Site de compras. Mercadolivre.com. Mercadopago.com.
Falha na prestação do serviço. Configurada. Responsabilidade civil objetiva. Prejuízo material. Dever de reparar. Dano moral.
Configurado. Reparação. Cabimento. Quantum indeniza-tório. Redução. Inviabilidade. Correção monetária e juros de mora. Substituição pela taxa Selic. Afastada. Honorários sucumbenciais. Apreciação equitativa do juiz. - Tratando-se de responsabilidade civil, a obrigação de indenizar pressupõe três requisitos: comprovação de culpa, do dano e nexo causal entre a conduta antijurídica e o dano. - A teor do art. 14 do CPC, o fornecedor de serviços responde, independen-temente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à pres-tação dos serviços. - Não se pode falar em culpa exclusiva da vítima que isente a parte ré de responsabilidade, se configu-rada a falha na prestação de seus serviços, consubstanciada na negligência quanto à segurança do sistema de venda e compra on-line. - Comprovado o prejuízo patrimonial efeti-vamente suportado, a condenação ao pagamento de indeni-zação por dano material é medida que se impõe. - Se a parte autora faz prova do dano moral que alegou ter sofrido, há de se dar por procedente o pedido de indenização nesse sentido.
- Os juros de mora incidentes sobre a condenação devem ser de 1% ao mês, conforme disposto no art. 406 do Código Civil combinado com o art. 161, § 1º, do Código Tributário Nacional, devendo ainda a condenação ser corrigida mone-tariamente pelo índice da tabela da Corregedoria-Geral de Justiça. - Deve ser mantido o valor dos honorários advoca-tícios quando fixados de modo adequado e justo, conside-rando a natureza, a importância da causa e o grau de zelo do advogado, conforme preceitua o art. 20, § 4º, do CPC (TJMG, Ap. Cível 1.0396.11.003083-2/001, Rel. Des.
Evandro Lopes da Costa Teixeira, 17ª Câmara Cível, j. em 29/1/2015, p. em 10/2/2015).
Por conseguinte, não pairam dúvidas em relação ao seu dever de indenizar o autor pelo prejuízo mate-rial sofrido.
No tocante à insurgência recursal da ré a respeito do desbloqueio da quantia arbitrada na sentença em agosto de 2015 e sacada em setembro do mesmo ano, tal afirmativa não passa de mera conjectura, porque, além de não ter sido sequer cogitada na fase instrutória, nenhuma prova foi produzida no pertinente.
Ainda nesse contexto, observo que o Juiz condutor do processo procedeu à inversão do ônus da prova em
TJMG - Jurisprudência Cível E, dando cumprimento ao novel dispositivo legal,
tendo em vista a sucumbência recíproca, entendo por bem fixar os honorários advocatícios em R$2.000,00 (dois mil reais), na forma do art. 86, caput, do novo CPC, a serem repartidos equitativamente entre as partes, assim como as despesas processuais, suspensa a exigibilidade dos créditos ao beneficiário da gratuidade judicial.
Custas recursais, pelos apelantes do respectivo apelo interposto, mantida a suspensão da cobrança em relação ao autor, primeiro recorrente.
É como voto.
Votaram de acordo com o Relator os DESEMBARGADORES MANOEL DOS REIS MORAIS e CLARET DE MORAES.
Súmula - NEGARAM PROVIMENTO AOS RECURSOS DE APELAÇÃO.
. . .