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- Para a concessão de salvo-conduto em habeas corpus preventivo, deve ser demonstrado o risco de ameaça ao direito de locomoção do impetrante, devendo haver fundado temor de que existe possibilidade de que tal direito seja violado.

- Mostra-se incabível a cominação de penalidades em caso de recusa pelo paciente no cumprimento do alvará em questão, tendo em vista que, aparentemente, não há recursos no fundo de reserva para cobrir o pagamento do alvará supracitado, não sendo plausível imputar ao gerente do Banco do Brasil S.A. o cumprimento forçado, sob pena de configuração de crime de desobediência.

HABEAS CORPUS CÍVEL Nº 1.0000.17.015648-3/000 - Comarca de Uberlândia - Paciente: Dener Silva Teixeira - Autoridade coatora: Juiz de Direito da 5ª Vara Cível da Comarca de Uberlândia - Interessada: BV Financeira S.A.

Crédito, Financiamento e Investimento, Cleber José Bor-ges - Relator: DES. MARCO AURELIO FERENZINI

Acórdão

Vistos etc., acorda, em Turma, a 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em CONCEDER A ORDEM.

Belo Horizonte, 18 de maio de 2017. - Marco Aurelio Ferenzini - Relator.

Notas taquigráficas

DES. MARCO AURELIO FERENZINI - Trata-se de habeas corpus com pedido liminar impetrado por Banco do Brasil S.A. em favor de Dener Silva Teixeira, funcio-nário do banco, contra alvará expedido pelo Magis-trado da 5ª Vara Cível da Comarca de Uberlândia-MG, por meio do qual determinou o levantamento de valores depositados no Banco do Brasil S.A., tendo em vista a sentença proferida nos autos da Ação Revisional do Contrato nº 0121026-39.2012.8.13.0702.

O impetrante alega que Dener Silva Teixeira é funcio-nário do Banco do Brasil S.A. e, nessa qualidade, recebeu o alvará judicial decorrente do Processo nº 0121026-39.2012.8.13.0702, no qual consta a ordem de paga-mento do valor de R$1.491,36 (mil quatrocentos e

noventa e um reais e trinta e seis centavos) à BV Finan-ceira S.A, Crédito, Financiamento e Investimento.

Diante disso, relata que o Banco do Brasil, por meio de ofício, informou ao Juiz da 5ª Vara Cível da Comarca de Uberlândia a impossibilidade do cumprimento do alvará devido à insuficiência de recursos no fundo de reserva, haja vista que o Estado de Minas Gerais, apesar de ter sido notificado para recompor tal fundo, perma-nece inerte até a presente data, o que é de conhecimento do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais.

Esclarece que o Juiz de primeira instância ignorou tal situação e proferiu decisão determinando o cumpri-mento do alvará em questão, podendo, ainda, ser requi-sitada força policial em caso de negativa de pagamento pela instituição financeira.

Salienta que, em caso de recusa, a entidade coatora decreta a possibilidade da tipificação de crime de deso-bediência. Diante disso, narra que está demonstrada a ameaça de coação ao direito do impetrante em face da imputação de suposta prática prevista no art. 330 do Código Penal, bem como da lavratura de termo circuns-tanciado de ocorrência.

Defende que também há possibilidade de condução coercitiva, uma vez que a recusa no pagamento do alvará ensejará a abertura de inquérito policial.

Fundamenta que, em 24/7/2015, entrou em vigor a Lei estadual nº 21.720, que dispõe acerca da trans-ferência de depósitos judiciais realizados em processos vinculados ao TJMG para conta do Poder Executivo, desti-nando-se tais valores ao custeio de Previdência Social, pagamento de precatórios e assistência judiciária, bem como amortização da dívida com a União.

Nesse sentido, sustenta que o montante a ser trans-ferido, referente aos processos em que o Estado não fosse parte, corresponderia ao percentual de 75% do valor total dos depósitos judiciais, no primeiro ano de vigência da lei, e 70% desse valor no período subsequente.

Menciona que a parcela dos depósitos judiciais não repassados ao Estado constituiria fundo de reserva mantido no banco destinado a garantir a restituição da parcela transferida ao Tesouro do Estado de Minas Gerais.

Expõe que, em caso de insuficiência de saldo no fundo de reserva para honrar a restituição ou paga-mento dos alvarás judiciais, caberia ao banco impetrante informar à autoridade que determinou a expedição do alvará e notificar o Estado para a recomposição do fundo em até 48 horas a partir do recebimento da comunicação do fato, o que foi devidamente feito no presente caso.

Ressalta que, escoado o prazo para recomposição, competia ao Tribunal de Justiça bloquear a quantia neces-sária à restituição ou ao pagamento de depósito judicial diretamente nas contas do Poder Executivo em institui-ções financeiras.

Assim, discorre que a insuficiência de recursos no fundo é atribuída exclusivamente ao Estado, sob pena de bloqueio de valores pelo Poder Judiciário.

TJMG - Jurisprudência Cível

Frisa que, em razão da edição da Lei Complementar nº 151/2015 e diante da incompatibilidade de seus preceitos com a Lei nº 21.720/2015, deixou de efetuar a transferência de depósitos judiciais em que o Estado não era parte, o que ensejou o ajuizamento da Ação nº 6106400.02.2015.8.13.0024, pela qual o Estado pleiteou a condenação do Banco do Brasil à transferência dos valores objeto da Lei estadual nº 21.720/2015 e do contrato realizado entre as partes.

Evidencia que em tal ação foi deferido o pedido liminar, determinando o bloqueio de R$2.875.000.000,00 relativos aos depósitos judiciais vinculados ao TJMG.

Entretanto, ressalva que, diante da decisão liminar proferida na ADI nº 5353/MG, a qual determinou a suspensão de todas as ações que versem sobre a cons-titucionalidade da Lei nº 21.720/2015, cessou todas as transferências ao Estado de Minas Gerais.

Acentua que foi realizada reunião entre o Banco do Brasil e o Estado de Minas Gerais, com a intermediação do Presidente do TJMG, em 17.01.2017, pela qual restou decidido que o Estado se comprometeu a realizar o depó-sito de R$5.717.744,80, com o fito de honrar o paga-mento dos alvarás emitidos e não pagos.

Entretanto, assevera que também foi ajuizada a Ação nº 5005557-75.2017.8.13.0024 pelo Estado de Minas Gerais com o intuito de compelir o Banco do Brasil a efetuar o pagamento de tais alvarás, mesmo não havendo saldo no fundo de reserva. Assim, explicita que o Juízo da 5ª Vara de Fazenda Pública Estadual e Autar-quias da Comarca de Belo Horizonte deferiu a tutela de urgência nesta ação, determinando o pagamento pelo Banco do Brasil de tais alvarás enquanto houver valores no fundo de reserva, ainda que inferiores ao percentual de 30%.

Lembra que foi proferida decisão pelo Ministro Celso de Melo, em 9/2/2017, na Reclamação nº 26.338, pela qual foi reconhecida liminarmente que a decisão supramencionada viola a eficácia vinculante da decisão emanada na ADI nº 5353/MG, a qual deter-minou a suspensão das ações até o julgamento final da reclamação.

Insiste que restam evidenciadas a ilegalidade e a abusividade na entidade coatora nos autos, ameaçando o funcionário do impetrante.

Diante disso, pugna pela concessão liminar da ordem de habeas corpus, ao final, a confirmação da liminar deferida com a expedição de salvo-conduto, para evitar a concretização de ameaça da condução até auto-ridade policial para lavratura do termo circunstanciado de ocorrência ou prisão em flagrante.

O pedido liminar foi deferido às f. 97/99-TJ.

Salvo-conduto expedido à f. 104-TJ.

Informações prestadas pela autoridade coatora às f. 108/109-TJ.

Instada a se manifestar, a Procuradoria de Justiça, às f. 110/111-v.-TJ, opinou pela concessão da ordem.

É o relatório.

Mérito.

Vale destacar, inicialmente, que, para a concessão de salvo-conduto em habeas corpus preventivo, deve ser demonstrado o risco de ameaça ao direito de loco-moção do impetrante, devendo haver fundado temor de que existe possibilidade de que tal direito seja violado.

Isso porque o simples receio de ter sua liberdade restrin-gida não caracteriza constrangimento ilegal que justifique a concessão de salvo-conduto preventivo.

Nesse sentido:

Recurso em habeas corpus. Direito processual penal. Decisão da Justiça Trabalhista. Menção genérica, em caso de descum-primento, ao crime de desobediência. Salvo-conduto. Inca-bimento. 1. A advertência genérica, pelo Juízo extrapenal, à incidência em crime de desobediência em caso de descum-primento da ordem judicial não configura constrangimento sanável na via do habeas corpus.

4. Recurso improvido (RHC 19.960/PR - Relator: Ministro Hamilton Carvalhido - Sexta Turma - j. em 17/12/2007 - DJe de 22/4/2008).

O ato impugnado atribuído à autoridade coatora tem por pano de fundo a Lei estadual nº 21.720, de 24/7/2015, que dispõe sobre a transferência dos depó-sitos judiciais, tributários e não tributários, em dinheiro, realizados em processos vinculados ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais, destinando-se os valores ao custeio da Previdência Social e à amortização da dívida com a União.

Os depósitos apropriados pelo Estado de Minas Gerais se encontravam sob a custódia do Banco do Brasil S.A. por força de contrato por este celebrado com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Conforme o art. 1º, § 3º, da legislação estadual, o montante total transferido corresponderia ao percen-tual de 75% (setenta e cinco por cento) do valor total dos depósitos judiciais, apurado na forma do art. 4º, durante o primeiro ano de vigência desta lei, e de 70% (setenta por cento) desse valor total, no período subsequente.

Segundo o art. 4º, a parcela não transferida dos depósitos judiciais seria mantida na instituição finan-ceira custodiante e constituiria fundo de reserva desti-nado a garantir a restituição ou os pagamentos referentes aos depósitos, conforme decisão proferida no respectivo processo judicial.

Ainda dispõe o malsinado texto legal, em seu art. 6º, que, caso o saldo do fundo de reserva a que se refere o

§ 4º do art. 1º não seja suficiente para honrar a resti-tuição ou o pagamento de depósitos judiciais, conforme a decisão judicial proferida no processo correspondente, o TJMG comunicará o fato ao Poder Executivo, que dispo-nibilizará, em até três dias úteis, por meio de depósito no fundo de reserva, a quantia necessária para honrar a restituição ou o pagamento do depósito judicial.

Havendo descumprimento do prazo ali previsto, o TJMG bloqueará a quantia necessária à restituição ou ao

TJMG - Jurisprudência Cível pagamento do depósito judicial diretamente nas contas

mantidas pelo Poder Executivo em instituições financeiras, inclusive mediante a utilização de sistema informatizado.

No caso dos autos, verifica-se que a autoridade apontada como coatora determinou e fez expedir o competente alvará em processo judicial.

À vista da ordem judicial e da sabida e ressabida inexistência de saldo no fundo de reserva, o banco depo-sitário, do qual o paciente é preposto, comunicou o fato à digna autoridade, inclusive dando-lhe ciência de que promoveu a notificação do Estado de Minas Gerais em 23/12/2016.

Depreende-se da f. 30-TJ que, ao tomar ciência da referida informação, a autoridade coatora assim se pronunciou:

Vistos etc.

Considerando que os motivos apresentados pelo Banco do Brasil no ofício de f. 470 são estranhos à presente demanda, determino seja cumprida a ordem de levantamento de f. 466, ficando, desde já, deferida a expedição de novo alvará, caso seja necessário. Em caso de reiteração da negativa de pagamento do alvará, fica, desde já, deferida a expedição de mandado, com reforço policial caso necessário, em que o Sr. Oficial de Justiça deverá intimar o gerente da agência bancária para, imediatamente, proceder ao pagamento do alvará já expedido nestes autos, sob pena de restar configu-rado crime de desobediência. Intime-se. Cumpra-se.

É também de conhecimento geral no meio jurídico a discussão sobre a legalidade e a constitucionalidade da Lei estadual nº 21.720/2015, já tendo sido ampla-mente debatida no Supremo Tribunal Federal, através da ADI nº 5353/MG, que versa sobre a (in)constitucionali-dade da Lei estadual nº 21.720/2015, na qual o saudoso Ministro Teori Zavascki determinou, em despacho liminar:

Portanto, tendo em vista o cenário de insegurança criado pela exigibilidade imediata da lei ora atacada, a contrarie-dade deste diploma, o regime estatuído na LC 151/15, o risco para o direito de propriedade dos depositantes que litigam no Tribunal de Justiça mineira e a predominância - até este momento afirmada pela jurisprudência do STF - da competência legislativa da União para prover sobre depósitos judiciais e suas consequências, determino, ad referendum do Plenário (art. 21, V, do RISTF), a suspensão do andamento de todos os processos em que se discuta a constitucionalidade da Lei estadual nº 21.720/15, do Estado de Minas Gerais, assim como os efeitos de decisões neles proferidas, até o julgamento desta ação direta.

Sobredita decisão vem prevalecendo, mesmo em face de outras tentativas do Estado de Minas Gerais de judicializar a questão, como se infere da Medida Cautelar na Reclamação nº 26.106 e na de nº 26.338, sendo que na última o eminente Ministro Celso de Mello deferiu o pedido de medida cautelar para suspender a decisão proferida nos autos do Processo nº 5005557-75.2017.8.13.0024, em curso perante a 5ª Vara da Fazenda Pública da Capital.

Além disso, é de se notar que a decisão proferida na ADI nº 5353/MG, e que prevalece vigente, não reconheceu, prima facie, a constitucionalidade ou inconstitucionalidade da Lei estadual nº 21.720/2015, apenas suspendeu o andamento de processos sobre o tema, e, posteriormente, a manifestação do saudoso Ministro Relator esclareceu que a suspensão de atos e efeitos se daria ex nunc.

Portanto, a norma vigente impõe um procedimento próprio, consistente na comunicação pelo TJMG da insu-ficiência de saldo do fundo de reserva ao Poder Executivo (art. 6º), o qual disponibilizará, em até três dias, por meio de depósito, a quantia necessária para honrar a resti-tuição ou o pagamento do depósito judicial.

Não cumprindo o Poder Executivo a requisição no aludido prazo, caberá ao Tribunal de Justiça, por inter-médio de seu Presidente, bloquear a quantia necessária à restituição ou ao pagamento do depósito judicial (art. 6º, parágrafo único).

Portanto, o ato da digna autoridade coatora que, desprezando a legislação estadual, determinou o cumpri-mento do alvará, sob pena da negativa configurar crime de desobediência, constitui clara ameaça de violência ou coação à liberdade do paciente, passível de ser repelida pelo remédio heroico previsto no art. 5º, LXVIII, da Cons-tituição Federal.

Assim sendo, deve a ordem ser concedida, para que seja determinada a expedição de salvo-conduto ao paciente Dener Silva Teixeira, para que não sofra as medidas coercitivas impostas pelo Juiz de Direito da 5ª Vara Cível de Uberlândia em caso de recusa no levanta-mento do Alvará Judicial nº 2300120397047.

Por fim, verifica-se que o Estado de Minas Gerais já foi notificado da insuficiência do saldo do fundo de reserva e que o Presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais tem conhecimento dessa situação conflituosa exis-tente na comunidade jurídica mineira, que está deixando intranquilos todos aqueles que são credores dos depó-sitos judiciais, sem que tenham sido tomadas as medidas legais cabíveis aludidas linhas atrás (v. ata da reunião de f. 31/32-TJ), determino sejam encaminhadas cópias deste voto ao Senhor Procurador-Geral da República e ao Supe-rior Tribunal de Justiça para a apuração de eventual delito (art. 319 do Código Penal), na forma do art. 40 do CPP.

Dispositivo.

Pelo exposto, concedo a ordem, para que seja determinada a expedição de salvo-conduto ao paciente Dener Silva Teixeira, para que não sofra as medidas coer-citivas impostas pelo Juiz de Direito da 5ª Vara Cível de Uberlândia em caso de recusa no levantamento do Alvará Judicial nº 2300120397047.

Votaram de acordo com o Relator os DESEMBAR-GADORES VALDEZ LEITE MACHADO e EVANGELINA CASTILHO DUARTE.

Súmula - CONCEDERAM A ORDEM.

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Apelação cível - Plano de saúde

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