Dentro do mesmo norteamento burguês de proteção a esse mesmo ser frágil e indefeso que é a mulher, o sacerdote é a nova figura masculina que se interpõe entre o noivo, o marido e o amante, disputando com eles o ofício de guia e tutor da mulher (DANTAS, 1999, p. 108).
A obra de Eça na qual o intérprete vai encontrar os motivos da vida religiosa que interferem na constituição da identidade feminina é basicamente O crime do padre Amaro. Ali ele vai descobrindo toda uma fantasmagoria religiosa que visa conter as “perigosas” expansões da feminilidade, de modo a torná-la dócil e obediente, prisioneira e cativa de um clero que o romancista português impiedosamente representa como lascivo e voluptuoso, corrupto e interesseiro.
A posição social dos padres lhes garante uma autoridade incontestável, como representantes de Deus na Terra. Encarnando um poder impalpável e espiritual, o sacerdote se reveste de uma autoridade mais absoluta e eficaz que a do marido sobre a esposa. Segundo Francisco Dantas,
Eça demonstra que o acolhimento indiscutível dessa autoridade do padre, somado à familiaridade com que a sociedade acata essa figura santificada, podem levar a mulher a manter com ele uma intimidade que é propiciada pelo tráfego suspeito e complexo de sentimentos tanto eróticos quanto místicos (DANTAS, 1999, p. 111)
Amélia, a personagem feminina mais relevante de O crime do padre Amaro, acaba por se envolver amorosamente com este sacerdote, tendo na missa o momento em que se sente mais arrebatada pelo pároco. Dantas interpreta a troca de olhares entre os amantes no momento da celebração como uma “cerimônia erótica” e o estado de embevecimento de Amélia como um “enlevo místico pelo homem que a batina esconde”. A mulher se compraz em lascivamente imaginar e transformar, em pleno ritual de celebração da missa, “as mãos que abençoam nas que a tocam com furor, a boca santificada pelo latim obscuro na que silaba
com fome o seu nome e arde no fogo de seus lábios” (DANTAS, 1999, p. 113). Amaro é o seu Deus adorado e carnalmente desejado.
As reflexões teóricas do intérprete Francisco Dantas procuram salientar também o peso da cultura ocidental cristã na constituição da identidade feminina, sobretudo a partir dos mitos da Virgem Maria e da sedutora Eva. Para ele, a mulher foi historicamente definida por uma visão dualista de forte tendência religiosa. A exegese bíblica, de orientação androcêntrica, ora associa o feminino à imagem adorada da Virgem, ora a aproxima do Pecado Original. Num caso, ela é exaltada pela santidade e pureza, noutro aviltada como diabólica ou demoníaca. Essa tendência religiosa, de tão propalada, secularizou-se na cultura ocidental e foi incorporada pela ideologia burguesa, de um modo que
Reduzindo a atividade feminina a duas funções básicas que o mito da Virgem Maria reúne, a virgindade e a maternidade, essas interpretações promoveram tanto a marginalização da mulher, eliminando-a de todo papel público seja na Igreja seja na sociedade, quanto as justificativas que legitimam tal procedimento (Ibid, p. 141).
Uma fantasmagoria religiosa assombra e assusta a conduta feminina com seu olhar inquisidor, com sua mão policialesca, muito impiedosa em suas ameaças de vingança divina, tão propensa a jogar quem “peca” ou “erra” no abrasador fogo do inferno. Foucault (1988) já demonstrou como uma vontade de saber animou a ação da Pastoral Católica no século XVII, com o objetivo de vasculhar os mais recônditos segredos da alma, os pensamentos, os desejos, as imaginações voluptuosas, tudo devendo entrar, detalhadamente, no jogo das confissões e da direção espiritual. Catonné (2001,p. 25) diria que
Foi principalmente a muito Santa Igreja, na qualidade de instituição, quem criou a fobia de desprezo do corpo e a obsessão persecutória da carne. Desde a sua origem, as práticas monásticas desenvolveram um tesouro de imaginação para inventar as sutis coações, entre as quais a continência sexual ocupa um lugar considerável.
Dentro da tendência da fantasmagoria religiosa presente na obra de Eça, Dantas atribui ao caráter proibitivo e policialesco da religião muitos dos problemas psíquicos das mulheres, cujas manifestações de sentimentos, emoções e necessidades humanas e vitais são associadas às artimanhas do Inimigo. Dessa forma, “Deus se torna uma camisa-de-força que impede o livre exercício de algumas atividades legitimamente humanas” (Ibid, p. 122). O intérprete se refere ao comportamento das religiosas assíduas da obra de Eça como mulheres
acometidas por algumas “perversões” devido ao papel coercitivo da Igreja como instituição repressora dos desejos e impulsos íntimos. Sua análise, embora não faça referência direta a Freud, se alimenta dessa perspectiva psicanalítica, a qual tem recebido críticas por definir alguns aspectos do comportamento humano como “perversões”, dando a esse termo uma conotação que se aproxima de anomalia, patologia ou doença.
Mas a própria prática do clero, em O crime do padre Amaro, contradiz a moral religiosa pregada para a continência sexual ou para a mortificação da carne. O sacerdote forceja por persuadir Amélia da aquiescência divina à relação dos dois, na medida em que ela, tendo se doado ao amor de um íntimo de Deus, o pároco, estaria perdoada. O padre faz o uso que quer de seu status privilegiado, enfatizando sua proximidade e intimidade com a autoridade suprema celestial, de modo a fazer sua amada entender que o próprio Deus estaria de acordo com o amor dos dois. E, da mesma forma que Luísa se orgulhava do status burguês de seu esposo, no qual ela se via refletida, Amélia também sente a glória de ser a amada de um homem cuja santidade e consideração social é toda sua. Além disso, entre os tantos casos de padre entregues aos prazeres da carne, Dantas demonstra como o castigo social a esse tipo de relacionamento é bem mais impiedoso com a mulher do que com o sacerdote. O pároco apenas é transferido de paróquia, ao passo que a mulher sofre a reprovação moral, o aviltamento de seu caráter e uma degradação de sua imagem, sendo objeto de debiques e deboches.
Na análise que faz da obra de Eça, Francisco Dantas procura demonstrar ainda as articulações que há entre o ideal burguês de vida materialista e a falsa moral religiosa. Segundo o intérprete, o romancista português denuncia a mancomunação da Igreja Católica com a burguesia, ambas unidas por uma “ética da hipocrisia” pautada na manutenção das aparências. Os valores burgueses são canalizados para o universo religioso, fato que está encarnado no comportamento de beatas adúlteras, de padres promíscuos, de esposas amantes do clero. Segundo sua interpretação, embora lascivas e promíscuas para os padrões da época, muitas personagens do escritor português gozam de uma respeitada reputação devido à prática devota e à ligação íntima com a Igreja. De forma que, a manutenção das aparências e a conveniência social lhes garantem uma aura de santidade e honradez.
Em suma, a mesma ética hipócrita que garante ao burguês, em função de seu dinheiro, o status intocado de homem ou mulher distintos, embora envolvidos em relações extraconjugais, dá ao padre e à beata uma respeitabilidade social superior, como seres cujas almas já têm salvo-conduto para o céu.