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Em Os desvalidos, a história nos é contada por um narrador onisciente, uma espécie de voz sábia e experiente que reconstitui imagens não apenas da vida social dos personagens, de suas trajetórias individuais em busca de um lugar ao sol e dos riscos que correm pelos ermos dos sertões sergipanos, mas que penetra também no íntimo de cada um, revelando seus sonhos, suas paixões e seus medos.

Através dessa voz onisciente, conhecemos a trajetória de vida do personagem Coriolano, um rapaz órfão de mãe, o qual, como seus dois irmãos, fugiu de casa, no Aribé, povoadinho castigado pela seca, por não suportar o regime severo do pai, João Coculo. Foi parar em Rio-das-Paridas, encontrando guarida na casa do tio-avô, que, viúvo e sem herdeiro, deixou em testamento sua botica de remédios e beberagens para Coriolano, com a condição de que este jamais pusesse em suas prateleiras a novidade dos remédios de bula e caixinha, vendidos agora em farmácias. O rapaz deu sua palavra ao tio-avô como uma jura de que

continuaria com a tradição de boticário, refratário a quaisquer mudanças ofertadas por representantes farmacêuticos. E até teve seus momentos de prosperidade e prestígio social. Porém, a botica fechou as portas e Coriolano empobreceu, preterido pelo empreendimento farmacêutico moderno.

Recuperado do primeiro tropeço, Coriolano investiu no “fabrico de bombom”, ajudado pela boa quantidade de árvores floridas das matas, em cujos troncos ocos era colhido o mel. Assim, o negócio já nasceu “de vento em popa“ (OSD, p. 29). Até que Robertão do Coronel Horísio, vendo a prosperidade do fabricante de bombons, resolveu reativar sua engenhoca de rapadura. Contando com as canas trazidas a carro-de-bois das várzeas de massapê do pai ricaço, Robertão desmantelou o negócio de Coriolano, que principiava a dar sinais de melhoria de vida. No entanto, “a engenhoca abocanhou o seu fabrico de bombom, e Coriolano outra vez foi bater com os burros n’água“ (OSD, p. 30).

Franzino e arredio ao cabo de enxada, Coriolano foi ao mestre Isaias seleiro se oferecer na condição de aprendiz, dada a necessidade de ter um ofício para aviar o de-comer. No início, observava cuidadosamente a arte do mestre a coser os arreios dos animais, mas a pressa para colocar sua tenda e garantir seu sustento atropelou o caminho paciente em busca da perfeição artesanal. Abriu uma tenda na vizinhança, em Forras, um remendo aqui, outro ali. Assim, contraiu a pecha de remendão e nunca conseguiu reconquistar a tão sonhada melhoria de posição social, uma vez que celas, mantas e cabeçadas novas, em diversas cores, chegavam de Jequié e “o pessoalzinho tabaréu se impressionou com a fachada chamativa das selas em feitio novo” (OSD, p. 34). No fim das contas, Coriolano estava condenado a viver como artesão ambulante, um remendão de couro, um desvalido.

Ainda teve tino para voltar à sua terra de origem, o Aribé, onde seu pai fora encontrado morto. Lá construiu uma estalagem onde vivia com seu compadre Zerramo, um baiano fugido de sua terra-natal por medo de ser assassinado pelos capangas do Coronel Agripino, cujo irmão ele matara em vingança à honra da irmã. Na estalagem, hospedavam-se os cavaleiros cansados que vinham de longa jornada, descansavam o corpo e seguiam viagem estradas a fora. A vida de Coriolano parecia ter-se estabilizado. Mas, desta feita, foi a violência sanguinária do cangaço que o expulsou de seu lugar, de volta ao Rio-das-Paridas, de onde nunca mais saiu, eterno remendão de solas de sapato, não obstante seus planos de partir...

Narrados os fracassos de Coriolano em busca de um lugar ao sol, mais um tropeço, este no campo dos relacionamentos amorosos, marca sua vida. Seu Tio Filipe, um cavalariano afamado em Rio-das-Paridas, apaixona-se por e se casa com Maria Melona, uma mulher cuja conduta era reprovada socialmente, por razões que serão exploradas mais adiante. Entretanto, estavam casados, relacionamento estável, e Tio Filipe prosperava social e economicamente devido à sua arte e destreza como amansador de cavalos. Até que, revoltados com a prosperidade deste, outros cavalarianos decidiram sabotar sua positiva imagem social.

Primeiro, tentaram seduzir sua mulher, Maria Melona, já que, para a sociedade, ela não representava o modelo ideal de esposa. Esbarraram-se numa senhora dona de casa, orgulhosa de ser uma esposa fiel, dedicada à sua casa e ao seu marido. Depois, atacaram diretamente a pessoa de Tio Filipe, que perdeu toda a sua freguesia devido ao comentário generalizado de que os cavalos por ele amansados não tardariam a choutar. Em crise financeira e existencial, o esposo, pressionado pela esposa, é obrigado a se lançar a outra atividade. É nessa ocasião que ele parte para a vida de caixeiro-viajante, deixando sua esposa em casa, objeto vulnerável às maquinações dos adversários. Depois de longos meses ausente, mal o Tio Filipe desce do animal em frente à sua casa, Coriolano, cuja cabeça fora feita pelos cavalarianos rivais de seu tio, adianta-se e pede um particular, dizendo que Maria Melona o teria traído.

O adultério forjado destruiu o casamento de Tio Filipe com Maria Melona. Ele partiu mundo a fora, como mascate pelas estradas onde os cangaceiros e a volante guerrilhavam, surrando os paisanos que encontravam. A volante surrava, espancava e matava aqueles que consideravam “coiteiros” dos cangaceiros, que, por sua vez, derramavam o sangue de quem os delatasse aos mata-cachorros.

Pelas estradas, entre estes e aqueles, Tio Filipe levava sua vidinha minguada, definhando-se ao passar dos anos, até quando reencontrou Maria Melona, na estalagem de Coriolano, no Aribé. Melona também havia deixado seu passado em Rio-das-Paridas, saíra à procura de sua sina, que foi encontrada no cangaço. Magérrima, tendo suas carnes comidas pelo sofrimento e encobertas de vestes masculinas, enganou a Lampião, que a aceitou em seu bando como homem, conhecido pelo nome de Zé Queixada. Mais tarde, embora quase virasse defunta, revelou sua identidade de mulher a Virgulino, que a batizou de Saitica.

Enfim, o bando de Lampião chega à estalagem do Aribé, onde se encontram Coriolano, Tio Filipe e Zerramo. Virgulino reconhece o primeiro de outra feita em que Coriolano fora retido e obrigado a remendar embornais e cartucheiras de seus cangaceiros, reclamando veementemente do serviço ruim de remendão de couro. Diz ainda já ter ouvido falar de um afamado cavalariano chamado Filipe, o qual agora, como caixeiro-viajante, está sendo intimado a ser intermediário para trazer munições, anéis etc. ao cangaço. Sem uma palavra, o medo se apodera de Felipe, que é tomado pela fúria de Lampião, arreliado com sua covardia. Coriolano também não tem coragem nem atina com um meio para tirar o tio dos apuros. Quem, apesar de todo o esforço, não se sujeita a ver os amigos em tamanha humilhação é o valente João de Coné, o Zerramo, mulatão agigantado que rebate os desaforos nas ventas de Virgulino e com este trava uma luta de facas. Mas o cangaceiro Azulão atira em suas costas e ele cai de peito aberto no punhal de Lampião.

Nessa atmosfera fúnebre, Saitica, a Maria Melona, arrisca-se puxando Tio Filipe para a garupa de seu cavalo e fogem, não dando tempo de Azulão alcançá-los com seu rifle mortífero. Enquanto isso, Coriolano destampava-se pela porta dos fundos, sumindo dentro da caatinga, aproveitando-se da desatenção dos cangaceiros, ocupados em tentar barrar a traição de Saitica. Em terras baianas, o casal foi pego pela volante, cujo batalhão estuprou Maria Melona e depois a esfaqueou, tudo isso às vistas de Tio Felipe, amarrado ao lado. Este foi levado a Salvador, onde, depois de torturas para delatar os cangaceiros, fora conduzido a Jeremoabo e abandonado como louco. Coriolano se escondeu em Rio-das-Paridas, amedrontado com o bando de Lampião e, mesmo depois da morte deste, nunca conseguiu ir mais a lugar algum, consumido por sua erisipela, velho e debilitado remendão de tamancos.

Também em Os desvalidos o poder político-econômico está concentrado nas mãos dos coronéis, homens que impõem sua autoridade pela força de suas milícias, pela extensão de suas terras e pela capacidade de coagir as condutas locais. Nessa classe de personagens está o tio-avô de Coriolano, ex-dono da botica; o Coronel Anterão da Água Boa, um manhoso que se fazia de santo pra chupar o sangue da pobreza; o Coronel Petronilo, que enganou Lampião e sumiu no mundo; e o Coronel Agripino, cujo irmão foi assassinado por João de Coné, que mudou de nome para Zerramo. Entretanto, esses coronéis encontram resistência à sua autoridade, seja através da classe comerciante nascente, seja pela oposição violenta do cangaço.

Como uma classe comercial oposta aos senhores tradicionais, uma espécie de burguesia nascente, podemos citar Robertão do Coronel Horísio, o dono da engenhoca da

rapadura; Janjão Devoto, proprietário do armazém-bodega que corrompia os fiscais para não pagar impostos; bem como os anônimos representantes farmacêuticos, responsáveis pela novidade do remédio de caixinha com bula.

Coriolano, Tio Filipe (o cavalariano), Maria Melona e o tropeiro Zerramo (compadre de coragem: homem de dar fama a um cemitério!) protagonizam a narrativa de Os desvalidos. São pessoas comuns que, em algum momento de suas vidas, parecem ter conquistado uma relativa estabilidade econômica e uma posição social de prestígio, mas que declinam para a vala dos desprovidos de distinção social, como o velho Chico Gabiru, Joaquim Perna-de-Vela, Manuel Silvério, Cordorá de sinha Constância, mestre Isaias seleiro, João Coculo, o barbeiro Cantílio, Zuza do Mirante etc.

Como classe de poder marginal podemos considerar as personagens que vivem no cangaço: Lampião, Maria Bonita, Zé Queixada ou Saitica (Maria Melona) e Azulão. A condição de desvalidos, ao final da narrativa, parece irmanar as personagens deste romance, de modo que esse quadro social sintetizado apenas sugere a ordem sócio-econômica predominante durante considerável tempo da vida dos personagens. Os desvalidos são uma obra que cria imagens dos quadros sociais do sertão nordestino, onde se desenvolveu uma atmosfera cultural caracterizada por Mello (2004, p. 104) como “uma cultura profundamente afinada com os procedimentos violentos, com as atitudes de desforço pessoal ou familiar direto e pelas próprias mãos, e com o arraigado culto à coragem, à valentia e ao gesto heróico”.