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Das dificuldades de planejar na excepcionalidade do contexto educativo

6.1 Primeira coleta

6.1.5 Das dificuldades de planejar na excepcionalidade do contexto educativo

Tendo analisado os documentos de planejamento e percebido suas lacunas em relação ao detalhamento didático proposto por Gauthier, Bissonnette e Richard (2014) na elaboração do planejamento, vamos apresentar, com base na entrevista, as dificuldades enfrentadas pela professora Clarice, segundo ela própria.

Ao iniciar a entrevista, a professora reconhece a importância do planejamento ao descatá-lo como algo que se “precisa para começar qualquer coisa”. Ao ser interrogada sobre o planejamento inicialmente feito, ela diz que fez “só um esquema”.

Porque eu estou fazendo basicamente o que dá. Por isso que eu fiz um... eu não me debrucei sobre um planejamento extenso esse ano, porque eu sabia que ia ser muito utópico e foi gastar o tempo ali para nada. Tipo planejar no escuro. Como que você planeja sem um calendário de x dias, de x aulas de quanto tempo você tem?

Esse escuro de que fala a professora perpassou todo o movimento escolar durante a pandemia, dada a situação para todos inusitada, dada a complexidade da excepcionalidade do contexto educativo. Em relação às dificuldades para planejar, esse escuro se traduziu na falta de definição de um calendário, com um número de dias e aulas estabelecidos.

O calendário indefinido, a organização oscilante das turmas e seus horários e a falta de tempo foram os principais elementos alegados pela professora para explicar o planejamento esquemático. A alegação de acúmulo de tarefas (produzir as sequências didáticas, participar de reuniões, preencher planilhas, tempo com os alunos na escola, correção das atividades, tempo com o ensino remoto e suas demandas), que ocasionou falta de tempo para fazer um bom planejamento, foi bastante destacada na fala da professora, conforme registros explícitos:

Fiz só um esqueleto, de tópicos que iam ser trabalhados. Mas eu não deixei redondo não, porque esse ano a gente teve que produzir também nosso próprio material.

Então essa produção de material fez com que meu planejamento ficasse um pouquinho mais rudimentar, digamos assim, ele ficou bem esquelético. Só tópicos que eu ia trabalhar. Não desenvolvi como... não defini exatamente quando, quantas aulas. Essas definições o regime remoto me impediu de fazer. Então foi só um esquema.

O nosso tempo de planejamento está sufocado com a pandemia. Não está sobrando tempo para a gente planejar com qualidade então. Porque o tempo de produção de material está consumindo muito. Aí tem o tempo de reunião, tem o tempo que a gente tem que estar aqui com eles. Então está tudo muito sufocante. Esse planejamento de qualidade da aula, o plano de aula, eu não estou conseguindo fazer como eu fazia antes.

Aqui ainda, por exemplo, não foi possível. Como falei os horários não permitem. [...]

Mal dá para, no horário, eu cumprir o que a escola quer que eu cumpra, que é entregar isso aqui resolvido, pronto e lançado lá.

A alegação de calendário e horários indefinidos como obstáculos a um bom planejamento foi a causa amplamente mencionada na entrevista, de forma explícita, conforme abaixo se transcreve:

Na prefeitura parece que o importante é a carga horária. Você tem que cumprir a carga horária. Então, essa apostila que eu produzi tal tem x carga horária. Então, eu ainda estou me adaptando com o planejamento da prefeitura. Mas meus planejamentos de modo geral eram assim: os tópicos, os conteúdos programáticos que a gente vai trabalhar, matéria e conteúdo. Dividia por bimestre ou por trimestre.

Eu tento pensar em um plano de execução, mas como nós retornamos presencial parcial em agosto e não foi... você viu que eu te mandei uns quatro horários. [...] Então, é muito complicado você fazer um plano de aula sem você saber em que turma você vai estar.

Calendário fluido e horário fluido são totalmente incompatíveis com o plano de aula.

Como é que você faz um plano de aula se você não sabe ao certo como que você vai executar? Quando? Em que quantidade de aulas?

Porque eu estou fazendo basicamente o que dá. Por isso que eu fiz um... eu não me debrucei sobre um planejamento extenso esse ano, porque eu sabia que ia ser muito utópico e foi gastar o tempo ali para nada. Tipo planejar no escuro. Como que você planeja sem um calendário de x dias, de x aulas de quanto tempo você tem?

Ao fazer a comparação entre o planejamento atual e o planejamento outrora elaborado, nota-se que a sua concepção de projeto está atrelada à compartimentação do ano letivo em bimestres ou trimestres. Ela entende como elementos importantes no planejamento: a indicação dos conteúdos, a avaliação, as atividades de aprendizagem, as atividades enriquecedoras e o dimensionamento do conteúdo no tempo disponível.

Geralmente eu separo pelos períodos de avaliação da escola. Na PBH, é trimestral, por exemplo. [...] Elenco os conteúdos, como eu vou avaliar aquele aluno pelos conteúdos, prova, trabalho... atividades, no roteiro em sala de aula, atividades do livro.

Separo, divido lá, faço uma previsão de pontos distribuídos por tipo de avaliação também e coloco lá os textos base que eu vou utilizar para trabalhar aqueles conteúdos, sejam textos literários, textos não literários, materiais como, de repente, um romance de um autor específico, um livro de contos... Elenco lá. E costumo colocar uma previsão de mais ou menos quantas aulas utilizar para cada conteúdo.

Isso num ano letivo mais ideal, quando se tem calendário.

Mesmo num plano ideal, como dito, ela não mencionou a delimitação dos objetivos de aprendizado, o planejamento das estratégias de ensino, de metodologias, a determinação dos conhecimentos prévios, o planejamento do ambiente educativo e o planejamento da gestão da classe. Sobre a prática de explicitar aos estudantes os objetivos de aprendizado, ao ser questionada sobre isso, inferimos de sua resposta que ela não faz. “Ainda não tive essa oportunidade de um início de ano que eu pudesse fazer e executar isso”.

Nos documentos de planejamento da professora Clarice, pesa um silêncio sobre o planejamento da gestão da classe. A gestão da classe se caracteriza pela “tomada de um conjunto de decisões relativas à seleção, à organização e ao sequenciamento de rotinas de atividades, de rotinas de intervenção, de rotinas de supervisão e de rotinas de execução” (ROY, 1991, apud GAUTHIER et al., 2013, p. 242). O planejamento da gestão da classe vai contemplar um conjunto de regras e disposições necessárias para criar e manter um ambiente educativo favorável aos aprendizados.

Os trechos abaixo, transcrições da entrevista, ratificam a inexistência do planejamento da gestão da classe quer por motivos da pandemia, quer por ser reputado uma função docente para a qual não há necessidade de planejamento, que acontece no cotidiano escolar de forma espontânea e intuitiva.

Mas não estou tendo tempo para planejar uma intervenção de qualidade. Têm sido intervenções emergenciais.

O que é que seria intervenção de qualidade? Por exemplo, trazer um texto para a gente trabalhar a questão de diferenças. Montar uma roda de conversa em que a gente pudesse... A gente não está podendo nem sair desse formato aqui, quadrado. Não está podendo nem levar os alunos num espaço aberto.

P – Você costumava ou costuma planejar essas estratégias? Por exemplo, estratégia para o menino prestar atenção, estratégia para a turma ficar mais silenciosa, [...].

R - Planejar não. [...] É muito intuitivo, do momento.

O fato de não haver um planejamento da gestão da classe, não significa que, na ação, a professora não a faça. A observação da sala de aula pôde revelar que há uma organização nas aulas da professora Clarice. Há um modo estabelecido de funcionamento da aula que pode ser fruto da cultura escolar, do trabalho coletivo da própria escola em questão e ainda das intervenções orais da professora que são constantes.