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Das dimensões do comando holístico de Wellington

CAPÍTULO II WELLINGTON E A GUERRA PENINSULAR (1807-1814)

2. Wellington e os governos: britânico, português e espanhol

2.2 Das dimensões do comando holístico de Wellington

315

Corrigan, 2001: xiv. 316

Uma referência ao facto de Wellington utilizar, pouco ou quase nada, o seu estado-maior para o apoiar nas decisões, Keegan, 2009: 176. No entanto quando se fala de equipas, referem-se aos seus principais colaboradores, os que ocupam as posições chave, e nestes Beresford foi um deles, como também foi Charles Stuart e Rowland Hill.

317

Beresford era um subordinado fiável, um organizador e instrutor brilhante, com a capacidade de atuar independente, Corrigan, 2001: xvi.

318

Newitt, 2009: 105. 319

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Outra das dimensões da atuação de Wellington estava relacionada com a relação com os órgãos de imprensa, ou como diríamos hoje, com os media. Na sua visão holística da condução da guerra esta era mais uma ferramenta, que sabemos poderosa. Mais adiante veremos como Wellington tentou manter a população britânica informada dos êxitos aliados. No entanto, uma utilização eficaz da imprensa britânica foi feita por Napoleão, que recolhia nesta muitas informações. De sua parte Wellington seguia com a toda a atenção também a imprensa francesa recolhendo também aí informações. Como nos recorda o historiador Andrew Roberts, “Wellington era um leitor ávido do Moniteur”, mas quanto à sua atitude, diretamente expondo-se ao público, “Wellington mantinha um distanciamento estudado”320, ou seja, lia e utilizava a imprensa mas sem

se envolver ou expor em demasia.

Numa primeira breve análise podemos concluir que a ação de Wellington se fez nas várias dimensões da condução da guerra, na diplomacia, porque contava com emissários e pessoas de confiança nas várias chancelarias, na política, porque a sua voz era ouvida nas decisões importantes da governação portuguesa e britânica, na imprensa, porque retirava notícias e utilizava os media para difundir as suas ações, na economia, porque acompanhando as grandes decisões do seu governo na abertura dos mercados com o Brasil, sabia das implicações diretas na economia portuguesa e britânica e, claro, na vertente puramente militar. Esta ação e visão estarão sempre presentes nos vários momentos da longa campanha da Guerra Peninsular (entre 1808 e 1814), até porque os efeitos da mesma também se estenderam às mesmas áreas, ou seja, através dos impactos económicos, financeiros, demográficos, sociais, políticos e ideológicos que esta produziu321.

Podemos entender as prioridades de Wellington através das suas ações e preocupações. Primeiro havia que assegurar uma boa ligação ao Governo britânico e, através da correspondência de Wellington esta questão esteve sempre e, permanentemente, presente. Analisando o exemplo do final da campanha de Talavera em Espanha (1809), quando Wellington assistiu ao afastamento do homem da sua confiança no governo de Londres, Castlereagh, e à possibilidade de este ser substituído por Canning, um anglo-irlandês, com quem Wellington tinha dificuldades de relacionamento322, sentimos como uma menor confiança recíproca entre ambos os lados afetava o comandante-chefe. Wellington temeu que passasse a haver desentendimentos na liderança político-militar na campanha peninsular. No entanto, o

320

Roberts, 2002: 121-122. 321

Alves-Caetano, 2013: 139-140; Monteiro, 2009: 169.

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novo ministro da guerra veio a ser Lord Liverpool e para a pasta dos negócios estrangeiros entrou o seu irmão, Marquês de Wellesley. Wellington continuou assim a contar com apoio nas mais altas esferas do poder político britânico. Salvaguardando as evidentes distâncias temporais, permitam-nos uma breve comparação com a futura situação que Spínola enfrentará com os dois principais responsáveis pela política portuguesa de 1968 a 1973. Como veremos, a inicial sintonia política com Salazar vai sofrer importantes modificações na relação posterior com Marcello Caetano e, esse fator, vai ser diferenciador na atuação de Spínola323. Também veremos que Petraeus terá de alterar a sua estratégia face à nova política que resulta da passagem da administração Bush para a de Obama. Wellington demonstrou esta permanente preocupação, de sintonia, entre a sua ação e o apoio / cobertura política do seu Governo em Londres.

Entre as preocupações de Wellington estão as várias desarticulações entre a política decidida pela Corte portuguesa no Brasil e em Portugal, em parte, fruto dessa mesma influência britânica. Tornava-se importante aumentar o grau de autonomia dos representantes do Governo nacional em Lisboa pois, como nos afirma o historiador Manuel Amaral, a desarticulação política era evidente, porque existia uma evidente “incapacidade da Coroa no Brasil em criar uma política coerente para os seus vários domínios e responder aos desafios provocados pela influência britânica tanto em Portugal como no próprio Brasil”. Wellington queria aumentar a sua influência, a Coroa portuguesa queria, naturalmente, manter algum controlo. A solução tinha de passar pela descentralização e, assim, o problema acabou por ser resolvido, permitindo ao Governo em Lisboa dirigir “independentemente, de facto e não de jure, os assuntos governamentais da Metrópole”324.

Wellington tentou então aumentar a sua influência junto da Regência portuguesa, mantendo, no entanto, uma boa cooperação com o governo português no Brasil e, simultaneamente, tentando garantir a confiança do seu próprio governo. Assim começou a escrever, a todos, numa perspetiva de ganhar confiança e credibilidade nos seus planos e projetos: “Creio que as gentes da Península começam a acreditar que tenho razão (…). Tudo o que vos peço é que, se é sobre mim que recai toda a responsabilidade, me deixeis exercer o meu próprio juízo: e peço a confiança do governo nas medidas que tenciono adotar”325.

323 Ver Capítulo III – Spínola e a Guiné-Bissau (1968-1973). 324

Manuel Amaral em Fuente, 2011: 9. 325

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Wellington, como comandante aliado, na condução da guerra, nas várias dimensões em que as suas responsabilidades se afirmaram, políticas, económicas, diplomáticas e militares, sem dúvida que dá uma grande prioridade à informação e “convencimento” do seu próprio governo. “É certo”, escreverá depois Wellington, “que só a minha opinião determinou o prosseguimento da guerra. Os meus despachos mostram que encorajei, obriguei, mesmo, o governo a nela perseverar”326. Como

veremos, nos restantes estudos de caso que apoiam a elaboração deste trabalho, também estas serão preocupações fundamentais nas atuações de Spínola e Petraeus.

O historiador Pedro de Avillez327 fez uma síntese do que expressámos nos parágrafos anteriores quando afirmou que, com a otimização do esforço militar britânico conseguido por Wellington, “devida à sua invulgar competência na organização político-militar e no seu bom desempenho tático no terreno”, simultaneamente “conjugado com a sua sensibilidade política junto das populações e com o sucesso do seu lobby político no Parlamento de Londres”, Wellington foi conseguindo “comprometer progressiva e confiantemente na Península Ibérica o Governo do Reino Unido e a maioria do seu exército” e relembra que tal “já não ocorria desde as Guerras da Sucessão de Espanha” (1703-1713), ou seja, quase um século antes.

Relativamente aos dois países peninsulares, a sua correspondência prova que existiam disposições diferentes. Wellington declarou que, no caso de se ver obrigado a evacuar completamente a Península Ibérica, tentaria salvar os soldados portugueses, mas que não colocaria “uma só tonelada dos seus navios à disposição dos espanhóis”328. A má opinião que tinha dos espanhóis foi encontrada em muitos dos

seus documentos, quando afirmou que não havia nada pior do que os oficias espanhóis e, numa carta a Castlereagh de 25 de agosto de 1809, afirmou que “são como crianças na arte da guerra” e não sabiam fazer nada como deve ser a não ser fugir329.

No ano seguinte à sua nomeação para tomar assento nas reuniões do Conselho de Regência, Wellington, que por motivos das sucessivas operações militares esteve na maior parte do tempo ausente de Lisboa, conseguiu, em coordenação com o Governo de Portugal, que um britânico assegurasse em permanência estas funções. A 24 de maio de 1810, o Príncipe Regente D. João tinha elaborado um decreto no Rio de

326 Chastenet, 1944: 146-147. 327 Avillez, 2008: 78-79. 328 Chastenet, 1944: 146-147. 329

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Janeiro que, entre outras normas, estipulava o aumento do número dos membros da Regência em Portugal. Entre eles passava a figurar o “patriarca eleito, o marquês Monteiro-mór, o conde do Redondo, o Dr. Ricardo Raymundo Nogueira, o principal Sousa e o enviado extraordinário e ministro plenipotenciário de sua majestade britânica em Lisboa, Carlos Stuart, com voto nos assuntos militares e de fazenda”330

. Note-se o poder de influência política, direta, nos assuntos militares, mas também na economia e nas finanças. Naturalmente esta decisão não foi do agrado geral em Portugal sendo por muitos considerado como um “caso da intromissão de mais uma entidade estrangeira no governo do país” que seria classificado de “afrontoso para o brio nacional e para o próprio príncipe regente”331. No entanto, veremos que, ao longo

da campanha peninsular, Wellington não deixaria de utilizar argumentos persuasivos, fundamentalmente o apoio em dinheiro e forças como, por exemplo, podemos verificar na sua correspondência: escreve ao embaixador britânico em Lisboa a 12 de agosto de 1811 para que este interfira, de forma discreta mas persuasiva, dando a entender que a Grã-Bretanha deixaria de apoiar financeiramente, no sistema de impostos português332.

Presente de forma influente esteve também o seu braço-direito, Beresford, que acumulou experiência em Portugal tanto do ponto de vista militar como político porque, desde o Natal de 1807, que ocupara cargos de responsabilidade político-militar na Madeira. A Madeira tinha sido declarada, por um breve período, anexada à Coroa britânica e Beresford instalado como governador lugar-tenente no palácio de S. Lourenço. No pouco tempo em que desempenhou funções governativas “lançou-se na reorganização das finanças, da defesa e das instituições da Madeira”, sendo que, em todo o caso, passados três meses, a soberania da Madeira tenha sido devolvida à Coroa portuguesa e Beresford tinha regressado. No entanto, logo após a derrota de Junot em Portugal o comandante britânico, na altura Dalrymple, nomeou-o “comissário para fiscalizar a implementação da Convenção de Sintra, depois do que foi feito

330

Chaby, 1863: 156; “Os britânicos perceberam que a nomeação de Wellington para a Regência, em julho de 1809, não fora suficiente para aumentarem a sua influência na tomada de decisões, uma vez que o comandante-chefe estava muitas vezes fora, com o exército. Os britânicos, por conseguinte, queriam uma ter uma representação permanente no governo para acautelar os interesses e as políticas britânicas” e assim “Sir Charles Stuart foi nomeado para a Regência”, Fuente, 2011: 79 e 83.

331

Chaby, 1863: 156. 332

Carta de Wellington ao Embaixador britânico em Lisboa, Charles Stuart, a 12 de agosto de 1811, Gurwood, 1851: 513.

120 comandante militar de Lisboa”333

. Quando Wellington não estava diretamente presente nas várias áreas da decisão política e da governação portuguesa, estavam os seus representantes e homens da sua inteira confiança, Stuart na Regência, Beresford no comando e governo.

Para Wellington era essencial garantir uma sintonia entre a campanha operacional e a política de quem a dirigia, a Grã-Bretanha. Simultaneamente, tentava assegurar uma estreita colaboração e, acrescentamos, presença, junto dos governos de Portugal (como vimos anteriormente) mas também em Espanha. Em Espanha encontrava muitas dificuldades enquanto a relação com Portugal melhorava crescentemente. Nesta coordenação, íntima, com a Regência portuguesa, contou ainda com o seu irmão mais novo, Henry, recentemente nomeado ministro da Inglaterra em Lisboa334. Mais tarde, porque o irmão mais velho assume a pasta dos negócios estrangeiros, será o seu irmão mais novo que assume a ligação da Grã-Bretanha com a Espanha.

A família Wellesley estava em praticamente todos os centros de decisão e assim também se garantiu a sintonia, a coordenação entre política e estratégia mas, sem comprometer a execução operacional. Utilizando o exemplo da construção das Linhas de Torres Vedras, sabemos que toda a obra foi feita no maior segredo. Nem o Ministro da Defesa da Grã-Bretanha tomou conhecimento, como se pensa, nem o seu Embaixador em Lisboa teve conhecimento das linhas335. Provavelmente saberiam de uns trabalhos a decorrer nesta área mas não tinham conhecimento da magnitude e última finalidade das obras. Ou seja, partilha e coordenação permanente mas, quando necessário e desde que não colidisse com a grande política decidida, salvaguardando a necessária autonomia operacional.

A influência de Wellington teve um impacto real nas decisões tomadas pelo Governo português. Por exemplo, durante uma sessão especial da Regência que tinha sido convocada em 21 de abril de 1810, “tendo em conta o medo permanente da Regência em ofender a Corte no Brasil”, o Conselho deliberou no sentido de pedir um adiamento da execução da ordem do Príncipe Regente e solicitou então um parecer a Wellington. Por seu lado, Wellington afirmou “que o Governo não poderia atuar convenientemente se os seus membros fossem mudados sem razão logo que aprendessem as suas funções”. Na perspetiva de manter ambos os lados do Atlântico informados e em diálogo, Wellington escreveu uma carta ao Príncipe Regente sobre este assunto, elogiando o trabalho do Conde de Redondo, de Mendonça e,

333 Newitt, 2009: 110-111. 334 Chastenet, 1944: 143. 335 Chartrand, 2002: 23.

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especialmente, de Miguel Pereira Forjaz, “cuja nomeação para o cargo de Secretário dos Negócios Estrangeiros tinha sido muito bem recebida, o que muito credibilizava o Príncipe Regente”. A ação de Wellington tinha surtido efeito e assim “perante esta carta e parecer de Wellington, o Príncipe João revogou a ordem de reintegração”336.

Numa carta enviada por Wellington ao Embaixador britânico em Portugal no princípio da 3ª invasão (a 4 de agosto de 1810) afirma que ambos têm de se preocupar muito em apoiar a estabilidade e credibilidade da Regência portuguesa, em especial através de D. Miguel P. Forjaz. Na mesma carta Wellington criticou a nomeação de Raimundo Nogueira para a Regência mas clarificou que a Grã-Bretanha não estava em Portugal para fazer alterações políticas porque a única coisa que as populações queriam era ver-se livres dos franceses337.

Como temos vindo a realçar, a figura de Dom Miguel Pereira Forjaz foi crucial para entender a articulação entre os governos (onde incluímos o britânico, o português mas também o espanhol). Forjaz conseguiu manter a autonomia política da decisão em Portugal em estreita coordenação com o seu aliado, a Grã-Bretanha e denotando uma relação de confiança, diríamos de carácter pessoal, com Wellington. Provavelmente Wellington não teria conseguido o que conseguiu em Portugal se não contasse com a colaboração fundamental, mais do que do antigo militar, de um político e estadista, Miguel Pereira Forjaz338.Como nos recorda o historiador norte-americano, Michael Howard, apesar de se costumar atribuir a Wellington os louros pela mobilização de Portugal, houve um oficial português, cuja contribuição para este esforço foi fundamental: “A Inglaterra tinha Castlereagh, a Áustria tinha Metternich, a Prússia tinha Von Stein, e Portugal tinha Dom Miguel Pereira Forjaz, Secretário de Guerra, da Marinha e Negócios Estrangeiros”339.

O estadista português foi importante no relacionamento entre os aliados e entre os dois polos de governação portuguesa, no Brasil e em Portugal, porque, apesar de alguma oposição no Brasil, em Portugal e em Inglaterra, Forjaz “foi dos portugueses que reconheceu claramente a necessidade de cooperar com os britânicos para assegurar a independência do reino”. Teve naturalmente que enfrentar muitos conflitos no Conselho da Regência para manter e defender a estratégia de Wellington e, simultaneamente, conseguir manter o Exército Português, tanto na perspetiva

336

Fuente, 2011: 76. 337

Carta de Wellington a Stuart a 4 de agosto de 1810, Gurwood, 1861: 375.

338 “Dom Miguel Pereira Forjaz; a man who was to become very important in promoting and sustaining the common cause”, Gray, 2011: 100.

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financeira como na logística, “mas os seus esforços asseguraram a sobrevivência de Portugal”340.

D. Miguel Pereira Forjaz, secretário do Governo português para a Guerra, Negócios Estrangeiros e Marinha, atuou aos diversos níveis da ação holística para a obtenção do sucesso das campanhas militares, num relacionamento operacional e político com o comandante aliado, Wellington, num relacionamento administrativo e funcional com o comandante do Exército Português, Beresford, e na coordenação da diplomacia e política com o Governo britânico, através de Sir Charles Stuart, “para maximizar os benefícios da ajuda britânica e mobilizar os escassos recursos de Portugal para o esforço de guerra”341.

Sem entrar em análises profundas sobre a temática, gostaríamos ainda assim de afirmar que este espírito de coordenação não tinha, como por vezes aparece descrito em alguma historiografia, um carácter de subordinação: “O objetivo de D. Miguel Pereira Forjaz era a manutenção da independência de Portugal e da sobrevivência da monarquia”. Comparando a atuação de Forjaz com a de outros políticos, outro historiador norte-americano, Fuente, afirma que, enquanto D. Domingos seguia uma política de subserviência aos interesses e exigências britânicos, “muitas vezes em detrimento de Portugal continental”, por seu lado, Miguel Pereira Forjaz e os seus apoiantes “acreditavam na necessidade de confiar na Grã-Bretanha e nas políticas militares britânicas”, estando por isso dispostos a cooperar com os britânicos mas defendendo, tanto quanto possível, “os interesses nacionais, colocando-se numa posição menos subalterna que a fação pró-britânica na Corte do Brasil”342.

Para entendermos a abrangência das decisões britânicas sobre Portugal importa recordar o aspeto do financiamento da força militar. A manutenção do Exército Português no período 1808/14 contou com subsídios britânicos resultantes do acordo entre as duas Coroas343. Em novembro de 1808 a Grã-Bretanha comprometeu-se a custear o salário e a manutenção – além das armas, fardamento e equipamento – de 10.000 homens do exército de 1ª linha, dobrado para 20.000 em 1809 (com a abertura dos portos brasileiros) e aumentado para 30.000 em 1810, aquando da construção das Linhas de Torres Vedras. No mesmo período são remetidas da Grã-Bretanha cerca de 160.000 espingardas, 2.300 carabinas, 7.000 pistolas, 15.000 espadas de cavalaria e 190.000 fardas. Portugal pagava os salários e os equipamentos a cerca de 25.000

340 Howard, 2008: 116. 341 Fuente, 2011: 14. 342 Fuente, 2011: 15 e 80. 343

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homens do exército de 1ª linha, além da marinha, das milícias, das ordenanças e das tropas ultramarinas num custo estimado em 45 milhões de cruzados344.

No entanto, todo este financiamento era controlado e vigiado de forma permanente na Grã-Bretanha e seguido atentamente por Wellington. Por exemplo, Wellington escreveu a Charles Stuart, em 13 de abril de 1811, avisando que não aceitava que o dinheiro do comissariado britânico fosse entregue ao Governo português sem o seu consentimento e, a 21 de abril, perguntou se algum magistrado português tinha sido punido pela sua negligência na forma como havia utilizado os dinheiros públicos345.

Para entendermos toda a ação holística de Wellington durante a Guerra Peninsular não podemos descurar a sua preocupação também na componente de “segurança interna”. Por exemplo, no início de 1810, Wellington atribuiu a Miguel P. Forjaz a tarefa de formular uma série de medidas de “políticas rigorosas destinadas a evitar tumultos e distúrbios na cidade”346 de Lisboa. Foi o próprio Wellington que propôs que fosse

criado na capital, no mesmo ano de 1810, um “sistema policial rígido, a fim de evitar qualquer perturbação que pudesse afetar gravemente o esforço de defesa”347. É

importante relembrar que as forças em levantamento desde a primeira invasão francesa não eram exclusivas para a defesa militar do Reino pois também era necessário assegurar a componente interna e de defesa civil. No fundo, eram “três frentes de batalha: na defesa do território; no policiamento e na proteção das populações atingidas pela guerra”348

. Naturalmente, esta preocupação com a segurança das populações estende-se a todo o território nacional, por exemplo, através do General Francisco da Paula Leite, governador de armas da Província do Alentejo e em quem tanto Wellington como Beresford tinham grande confiança349, que propõe medidas contra salteadores e promove patrulhas nas cidades de Elvas e Estremoz350.

Segurança e apoio das populações, uma equação sempre elaborada em conjunto, pois ao mesmo tempo que procurava a tranquilidade pública, Wellington procurava

344

Henriques, 2008: 130. 345

Carta de Wellington a Stuart, Gurwood, 1861:470-471. 346 Fuente, 2011: 91. 347 Fuente, 2011: 199. 348 Araújo, 2009: 279. 349 Chartrand, 2001a: 29.

350 “Um grande número de salteadores, formados em corpos têm perpetrado vários roubos, chegando a resistir armados quando se perseguem (…) dos efeitos roubados, os seus processos se acha incumbido de um Ministro que elegi”, carta do General Francisco de Paula Leite a Miguel P. Forjaz datada de 28 de setembro de 1808, PT AHM DIV 1-14-070-03_m0010.

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também o apoio popular. Em carta datada de 6 de setembro de 1810, a Miguel P. Forjaz, Wellington pede a sua colaboração para o ajudar a dar confiança às populações351. O apoio das populações era parte da estratégia e não apenas uma