CAPÍTULO II WELLINGTON E A GUERRA PENINSULAR (1807-1814)
4. Do lado francês e espanhol: comando, controlo e coordenação
4.1 Do lado francês: comando, controlo e coordenação
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Telo, 2005: 313-314. 417
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O problema de coordenação, comando e controlo nas forças francesas foi identificado desde o início da Guerra Peninsular. Em 1809 Wellington fez a sua avaliação sobre o exército de Napoleão em Espanha e concluiu que faltava a unidade de comando. A caracterização é interessante: “Jourdan de pouco prestígio goza, e os outros marechais nenhuma importância ligam à sua autoridade [de chefe de estado maior do exército de Napoleão em Espanha] ao mesmo tempo que se invejam uns aos outros”418. De acordo com esta caracterização, será natural que o comandante aliado
tente explorar, sempre que possível, esta aparente fraqueza do adversário. Para além da execução operacional, estava também a fraqueza na sustentabilidade da força, ou seja na intendência: “a cavalaria é excelente, a artilharia, relativamente pouco importante, é boa; à infantaria, em grande parte formada por jovens recrutas, falta-lhes adestramento. O ponto fraco é a intendência”419.
Wellington aponta o problema principal que foi, sem dúvida, a falta de coordenação. Em carta por si enviada, Wellington afirmou que os generais franceses não comunicavam entre si e que eram completamente ignorantes sobre o que ocorria fora das suas áreas de atuação. Limitavam-se a receber informações a partir de desertores, pela troca de prisioneiros ou na leitura de jornais ingleses ou portugueses. Para evitar estas fugas de informação, recomendava que todos os feridos e prisioneiros franceses fossem enviados para a Grã-Bretanha donde depois seguiriam para França420.
O problema de coordenação, comando e controlo não era exclusivo das forças militares francesas. Tratava-se de um problema político e militar, porque a coordenação falhava desde a mais alta autoridade francesa na Península Ibérica. De novo recorrendo a António Telo, constatamos que, embora a estratégia francesa tenha sido relativamente clara de início, rapidamente “degenera numa série de ações descoordenadas, sem objetivos claros e sem chefias aceites e atuantes em termos regionais”. Acrescentou este autor que a França não era capaz de dar uma resposta “à ação conjugada de uma guerra popular e de um reduzido, mas eficaz, exército de primeira linha”421. Este facto foi amplamente reconhecido pelos próprios franceses que
estiveram presentes na Guerra Peninsular: “José [irmão de Napoleão Bonaparte], embora instruído, era demasiado inativo e fraco para comandar bem (…) Rei, apenas
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Chastenet, 1944: 129. 419
Chastenet, 1944: 128-129. Trata-se de um argumento que vemos repetido em muitos autores dos quais destacam-se Esdaile, 2009b e Keegan, 2009.
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Carta de Wellington ao Almirante Berkeley escrita a 30 de junho de 1811, Gurwood, 1851: 500.
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no seu palácio, não exercia qualquer influência nas províncias; os generais governavam sempre de uma maneira absoluta e isolada do seu comando”422.
Deste defeito de unidade de poder nascia a falta de harmonia, “tão prejudicial aos governos e tão fatal à guerra”. Não havendo harmonia, não poderia haver, como definimos no primeiro capítulo, a coerência holística entre os vários patamares de autoridade. As descrições aos vários níveis dão uma imagem que se vai mantendo ao longo de toda a guerra na Península. Guingret, um dos franceses que escreveu as suas memórias da Guerra Peninsular, alertou para o facto de que os diferentes chefes militares, que se sucediam muito rapidamente nos comandos em Espanha, em virtude da permanente rotação das chefias decididas por Bonaparte, “estavam de acordo quanto a enganar a França no que dizia respeito à verdadeira situação política desta península”423. Como afirmaram muitos observadores franceses, o principal problema
estava no facto de Napoleão nunca ter verdadeiramente nomeado um comandante para exercer a autoridade coerente e integrada na Península, preferindo, ele mesmo, continuar a dirigir os seus comandantes a partir de Paris424.
A importância desta questão, da inexistência de uma autoridade coerente, e simultaneamente, da tentativa de Napoleão de executar essa tarefa desde França está bem identificada e mostra-nos que, se para os aliados, a existência de um comando holístico foi uma mais-valia e uma das razões para o sucesso na Guerra Peninsular, do outro lado, no francês, foi a falta deste comando holístico, abrangente, coordenado e coerente que explica em muito as razões do insucesso: “Está fora de dúvidas que, se o Imperador tivesse podido continuar a dirigir ele próprio as operações, a Península teria imediatamente sucumbido aos seus golpes (…) mas o que mais espanta é que este grande génio tenha acreditado na possibilidade de comandar, a partir de Paris, os movimentos dos diferentes exércitos que ocupavam, a quinhentas léguas dele, Espanha e Portugal, cheio de insurretos que prendiam os oficiais que levavam cartas e que obrigavam, desta forma, os chefes do Exército Francês a ficar sem notícias e sem ordens durante meses”425. Mendo Castro Henriques faz a síntese: “Napoleão,
procurando dirigir à distância os movimentos dos seus lugares-tenentes, enviava
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Guingret, 1815: 46. 423
Guingret, 1815: 30 e 46.
424 “Como a guerra que nós travávamos na Península era comandada a partir de Paris, resultavam de tal facto anomalias realmente incompreensíveis”, Marbot, 1847: 116.
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ordens desfasadas, bem merecendo a censura que Marmont lhe dirigia: «Il suppose vrai tout ce qu’il voudrait trouver existant»”426.
Mas Napoleão, embora por breves momentos (novembro de 1808 a janeiro de 1809), esteve efetivamente na Península Ibérica e lançou uma contraofensiva maciça que, em menos de três meses, conseguiu destruir ou aniquilar todos os cinco exércitos de campo espanhóis, obrigou os britânicos do General John Moore “a bater em ignominiosa retirada para o porto da Corunha” e reconquistou Madrid427. Durante esta
breve passagem por Espanha, Napoleão deixou marcas de um pensamento holístico nas questões da governação e condução da guerra porque, tal como fez em outras áreas da Europa, combinou a guerra com a administração.
Segundo o modelo por si concebido, o Imperador “dividiu os territórios ocupados em departamentos, chefiados por poderosos prefeitos que asseguravam as diretivas do poder central em íntima ligação com o mesmo”428. Assim podemos afirmar que, se
tivesse efetivamente sido Napoleão a comandar sempre as operações na Península, de facto o resultado poderia ter sido outro. Sem especulações ou invocando modelos de história contrafatual, apenas queremos argumentar que a visão de Napoleão era muito mais que a simples visão do militar, já que atuava de forma holística, coordenando a sua ação militar com determinações em todos os campos da governação, da educação, economia e da legislação. O problema identificado não seria então o modelo escolhido por Napoleão, mas antes a forma de o executar, porque, ao não delegar a autoridade e retendo ele essa autoridade centralizada em Paris (ou onde se encontrasse), inviabilizava a correta execução do modelo. Como escreve o historiador Andrew Roberts429, devia ser extremamente frustrante para os vários marechais franceses receberem “ordens impossíveis de cumprir”, fosse porque a situação militar se alterara desde que essas tinham sido escritas ou fosse porque o Imperador, não estando presente na Península Ibérica, não avaliara de forma correta a natureza do terreno em que os combates se desenrolavam. Acrescenta ainda que o planeamento executado a partir de Paris “era um absurdo” e, como sabemos, as operações francesas não dispuseram de um estado-maior centralizado em Espanha até 1812.
Também é interessante notar que do lado francês não se dava às forças policiais a mesma importância que se dava às forças armadas. No caso das Linhas de Torres
426 Henriques, 2002: 16. 427 Esdaile, 2009a: 118. 428 Ramos, 2010: 118. 429 Roberts, 2002: 147.
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Vedras ficou célebre a grande surpresa francesa sobre a sua existência, afinal, de notícias sobre as mesmas, que já tinham sido enviadas pelos canais (policiais) franceses: “O Intendente da polícia sabia [Lagarde] – porque o escreveu – que havia quase dois anos que os ingleses tratavam de fortificar a barreira que ia do Tejo ao mar. Napoleão, que frequentemente se limitou a desprezar os altos subordinados da polícia, olhava as informações destes com ceticismo, acusando-os de querer propagar boatos alarmistas”430. Wellington, por seu lado, dava enorme importância às polícias
colaborando ativamente na reposição da ordem pública, como descrevemos anteriormente. Este apoio estendia-se, inclusivamente, a “refugiados, mendigos e doentes” porque de ambos os lados dos combates “as vítimas eram aos milhares e imploraram a Wellesley proteção e auxílio”431. Daqui também podemos inferir outro
fator a ter em linha de conta: embora Napoleão tivesse uma visão abrangente sobre o comandamento político e militar, na execução da estratégia ignorava a verdadeira dimensão das forças de segunda linha, como as milícias, ordenanças, guerrilhas ou mesmo forças policiais.
Napoleão, além de abandonar as tentativas de coordenação dos seus marechais, em muitos aspetos parecia que ainda acreditava, em 1812, que as populações peninsulares estivessem dispostas a “desejos de paz”. Numa das suas propostas escreveu ao gabinete inglês a propor a evacuação militar da Península, “garantindo a independência e a integridade de Portugal, restituído à Casa de Bragança”. Ofereceu como contrapartida que, em Espanha, a dinastia Bonaparte ficaria autónoma com uma Constituição nacional e Cortes. “Era apenas um gesto «pour l’histoire» que Castlereagh rejeita liminarmente”432.
O esforço francês na Península Ibérica foi enorme e Napoleão tinha fortes motivos para tentar, até ao último momento, que esse esforço não fosse em vão. Recordamos que, em meados de 1808, a França tinha cerca de 170 mil soldados na Península Ibérica e que, ao longo de 1809, o número chegou aos 300 mil, para em 1811 alcançar os 350 mil. Depois, com a campanha da Rússia em 1812, saíram muitos dos efetivos da Península e em 1813 não eram os soldados mais que 90 mil433.