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2. PÓS-MODERNIDADE: É POSSÍVEL FALAR EM EMANCIPAÇÃO?

2.2 A FILOSOFIA NA PÓS-MODERNIDADE: EM BUSCA DA

2.3.2 Das máquinas aos sistemas: a impossibilidade de emancipação

Fritjof Capra, em O Ponto de Mutação (publicado originalmente em 1982) aponta que há uma mudança paradigmática no interior da ciência. A ciência moderna, argumenta Capra, se ancorou ao longo da história no método analítico cartesiano-newtoniano, ou seja, na crença de que o objeto (o todo) deveria ser dividido no menor número possível de partes, para que elas pudessem ser classificadas e sistematizadas na sua relação umas com as outras, para só então ser possível compreender o funcionamento do todo. É por esse motivo que ocorre uma separação entre as disciplinas cientificas – física, química, biologia, metafísica, matemática, psicologia, sociologia etc. – para que cada uma delas operasse segundo a sua própria lógica interna. Capra afirma que essa visão analítica de mundo tem sido abandonada gradualmente. Afirma o autor:

A nova visão da realidade [...] baseia-se na consciência do estado de interrelação essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Essa visão transcende as atuais fronteiras disciplinares e conceituais e será explorada no âmbito das novas instituições (CAPRA, 1995, p. 259).

A nova visão da realidade mencionada por Capra não concede primazia a esta ou aquela teoria; todos os modelos explicativos da realidade terão de ser compatíveis, superando as fronteiras interdisciplinares convencionais.

Capra afirma que a ciência biomédica, por exemplo, desenvolveu-se na esteira de Descartes e Newton, concentrando-se nas características mecânicas da matéria viva. Isso, porque, a ciência biomédica concebia o organismo vivo como uma máquina, ou seja, como um todo que mantido pelo funcionamento harmônico das partes. Capra (1995, p. 260) argumenta que embora essa abordagem seja importante, “só chegaremos a uma compreensão mais completa da vida mediante a elaboração de uma ‘biologia de sistemas’, uma biologia que veja organismo como um sistema vivo e não como uma máquina”.

A concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração. Os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, a abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização. Os exemplos de sistema são abundantes na natureza. Todo e qualquer organismo – desde a menor bactéria até os seres humanos, passando pela imensa variedade de plantas e animais – é uma totalidade integrada e, portanto, um sistema vivo (CAPRA, 1995, p. 260).

Na esteira dessa concepção sistêmica da vida, estão os trabalhos dos biólogos Chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela (1946-2001). Maturana e Varela (1998) afirmam que os seres vivos são apenas sistemas, mas, sobretudo, são sistemas autopoiéticos. Os autores argumentam que o organismo autopoiético, isto é, o sistema vivo autopoiético apresenta um fechamento que é de caráter puramente operacional. Esse fechamento faz com que o sistema possa se organizar ou, melhor dizendo, possa se auto-organizar a partir da produção contínua de seus componentes internos. Dessa forma, mesmo sujeito às perturbações oriundas do exterior, o sistema se auto-organiza tendo como referência exclusiva o seu núcleo operacional, em outras palavras: o sistema autopoiético se auto-organiza de maneira autorreferente, isto é, tendo como referência apenas a si mesmo.

Os sistemas autopoiéticos são processos ininterruptos de produção de componentes; o que implica necessariamente em dinâmica e transformação constante. Com efeito, percebemos que o organismo – uma vez concebido como sistema autopoiético – não pode ser analisado a partir da lógica cartesiano-

newtoniana. O sistema só existe enquanto dinâmica, dessa maneira, a separação das partes que mantém o processo em funcionamento representa a morte do próprio sistema.

A concepção sistêmica da realidade tem adquirido destaque desde as últimas décadas, principalmente em áreas como a cibernética, a biologia, a informática, a biomedicina etc. Nas ciências sociais podemos considerar como o maior difusor do pensamento sistêmico o sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1998). Luhmann se apropria da noção de autopoiésis proposta por Maturana e Varela e a transpõe para o âmbito da Sociologia, na sua obra Sistema Social, publicada pela primeira vez em 1984. O ponto de partida da obra de Luhmann (1998) é a constatação de que a disciplina sociológica se encontrava numa grave crise de caráter teórico, cuja saída não estava nos chamados autores “clássicos”. Para Luhmann, as teorias tradicionais que fundaram a sociologia esgotaram-se, ou seja, não conseguem mais dar conta de explicar a cada vez mais complexa realidade social contemporânea. Como a sociologia desenvolveu-se ao longo dos anos ancorada sobre esses clássicos, a disciplina sociológica chegou a um ponto de estagnação. A saída para essa crise, argumenta Luhmann, consistia no desenvolvimento de um modelo sociológico universal, o qual abordasse a totalidade social e não apenas segmentos. A teoria de Luhmann tem justamente esse caráter totalizador. Conforme nos mostram Neves e Samios (1997), a Teoria dos Sistemas Sociais pode ser compreendida como uma tentativa de formular uma teoria geral da sociedade.

Ao contrário dos modelos teóricos tradicionais, como os sistemas filosóficos hegeliano e marxiano, a teoria geral luhmianna não almeja ser o reflexo da sociedade. Luhmann tampouco deseja estabelecer uma verdade última ou encontrar uma essência do social. O que o autor faz é abordar qualquer vinculo social como um sistema, até que este alcance a sociedade como conjunto de todas as relações sociais possíveis. Dessa forma, Luhmann (1998, p. 39) argumenta que “a pretensão de universalidade não significa pretensão de exatidão nem validez única e, nesse sentido, absolutez (não contingencia) da própria abordagem.” O autor – de forma coerente com a sua proposta teórica – reconhece o caráter contingente da sua teoria. Consequentemente, a Teoria dos Sistemas Sociais não foi desenvolvida para ser uma teoria definitiva que explicaria a condição humana em todas as duas dimensões.

Luhmann (1998) aponta que toda análise teórico-sistêmica deve partir da diferenciação entre sistema e entorno. O entorno é a condição de possibilidade de quaisquer sistemas, de forma que estes se constituem e se conservam ao criar e manter a diferença com o entorno. O fechamento operacional é o que define os limites entre o sistema e o entorno, garantindo assim a identidade do sistema; ao conservar seus limites, o sistema se mantém como tal. Com efeito, toda transformação pela qual passa um sistema autopoiético é autorreferente, ou seja, feita exclusivamente com base em seus componentes internos.

Além dos organismos vivos, existem para Luhmann outros dois tipos de sistema autopoiético: os sistemas psíquicos (aquilo que tem sido comumente chamado na tradição sociológica de sujeito ou agente) e os sistemas sociais (o direito, a religião, as artes, a literatura, a ciência, a política etc.). Ao contrário do que têm pregado os modelos sociológicos tradicionais, Luhmann aponta que os indivíduos (os sistemas psíquicos) não estão dispostos no interior dos sistemas sociais; estes, por sua vez, se constituem em processos comunicativos autorreferentes, os quais, de certa maneira, reduzem a complexidade social. Na medida em que os sistemas psíquicos e os sistemas sociais são operacionalmente fechados, eles são entorno um do outro; assim sendo, a relação entre eles se dá por meio de irritações. Nessa perspectiva, nossa tese é a de que, desde o viés do pensamento luhmianno, não faz sentido falar em emancipação. Num primeiro momento, justamente porque os indivíduos não estão inseridos no interior dos sistemas sociais. Em segunda instância, e principalmente, pois é impossível que um sistema psíquico (ou qualquer outro sistema) consiga se libertar de todas as irritações infligidas pelo entorno. Livrar-se completamente das irritações pode ser compreendido como a “emancipação” radical do sistema, entretanto, essa possibilidade não existe. Como já afirmamos, não há entorno sem sistema e vice- versa; é impossível para um sistema ficar totalmente imune contra às irritações impostas pelo meio ao qual ele está acoplado.

Ao apresentarmos aqui algumas ideias sucintas a respeito da vasta obra de Luhmann, bem como da biologia de Maturana e Varela, nosso intuito foi mostrar como o pensamento sistêmico tem rompido de forma radical com a concepção de mundo cartesiano-newtoniana característica do Iluminismo. Se na perspectiva analítica cartesiana cada disciplina possui um objeto específico, em contra partida, o pensamento sistêmico tem aproximado as diferentes disciplinas da esfera do

conhecimento. A teoria sociológica luhmianna, por exemplo, articula a sociologia à biologia, à cibernética e até mesmo à matemática, para tentar melhor descrever o mundo. Na medida em que a complexidade do objeto aumenta, são necessários modelos explicativos também cada vez mais complexos. Além disso, a interdisciplinaridade se torna fundamental; o pensamento sistêmico tem demonstrado que as fronteiras entre as diferentes esferas do conhecimento estão cada vez mais tênues. Na verdade, não existem fronteiras interdisciplinares, mas antes liames transdisciplinares.

2.3.3 Do progresso social à sociedade de risco: um breve reexame das ideias