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1.2 A FILOSOFIA NA MODERNIDADE: EM BUSCA DA EMANCIPAÇÃO

1.3.1 O fundamento da ciência moderna: a articulação entre os

O surgimento da ciência na modernidade dá-se paralelamente ao surgimento da filosofia. René Descartes ao afirmar o primado da razão estava não só inaugurando a filosofia, mas também a própria ciência moderna. O método cartesiano é analítico por excelência. Descartes opera um corte e separa o corpo da mente e afirma que todo saber está dado a priori nas estruturas da cognição. Desse modo, a razão possui total autonomia em relação ao corpo no processo de produção do conhecimento. Por esse motivo, segundo a filosofia cartesiana, não há espaço para os sentidos na prática científica. A melhor forma de se resolver um problema, para Descartes, é através da análise: dividir-se-á o objeto no menor número possível de partes para que através delas o todo possa ser compreendido. A separação, a classificação, a enumeração e a sistematização – obtidas através de deduções racionais – garantem a cientificidade do conhecimento. Conhecimento esse que liberta o homem das falsas noções e das ilusões, tornando-o um indivíduo emancipado, que fundamenta sua vida em verdades e certezas sólidas.

Francis Bacon, mesmo ancorado em outra corrente epistemológica, isto é, o empirismo, também cria que o conhecimento possui o poder de emancipar o homem

das falsas noções. Bacon, assim como Descartes, também se ocupa em dar à ciência um rigoroso método de produção de conhecimento, mas, ao contrário do filósofo francês, o método baconiano ancorava-se exclusivamente no processo indutivo. Bacon era claro: para ele, o objetivo da ciência deveria ser melhorar a vida humana. Através da experimentação o homem se emanciparia do seu estado de submissão em relação à natureza passando a controlá-la, extraindo dela os elementos necessários para melhorar a vida em sociedade.

O dedutivismo e o indutivismo – processos oriundos da filosofia dos antigos gregos e retomados na modernidade por Descartes e Bacon respectivamente – fundamentam a ciência moderna. O indutivismo consiste, de forma geral, num processo de observação, a partir do qual se parte desde um caso particular, até uma lei generalizada relativa a um objeto/fenômeno. Conforme Chalmers (1997, p. 27) “Se um grande número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As observados possuíam sem exceção a propriedade B, então todos os As têm a propriedade B.” Por exemplo, se aquecermos vários tipos diferentes de metais, dos mais variados tamanhos e formas, sob as mais diversas temperaturas, em distintas situações de pressões, sendo que em todos os casos testados os metais aquecidos se expandiram, poderemos então criar a lei geral de que os metais se expandem quando aquecidos. Mas, como já mencionamos, a indução apresenta uma falha, que se encontra na passagem de um enunciado particular para uma lei universal. Em outras, podemos ficar trezentos e sessenta e cinco dias consecutivos observando o sol nascer todas as manhãs no leste, contudo, não há nada que nos garanta com absoluta certeza que algum dia ele não nascerá no oeste.

Em contra partida à indução, o raciocínio dedutivo se baseia na lógica, de maneira que se parte de premissas logicamente verdadeiras para uma conclusão também necessariamente verdadeira (CHALMERS, 1997, p. 29). Por exemplo: a) Todas as modelos são bonitas, b) Naomi Campbell é uma modelo, logo c) Naomi Campbell é bonita. Chalmers alega que a dedução por si só não estabelece verdades factuais; ela apenas nos garante que, se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o será; desse modo, “um argumento pode ser uma dedução perfeitamente lógica mesmo que envolva uma premissa que é de fato falsa” (CHALMERS, 1997, p. 30). Por exemplo: a) Todos os brasileiros são bêbados, b) João é brasileiro, logo, c) João é bêbado. Nesse modelo, do ponto de vista da lógica,

não há problema algum; temos premissas verdadeiras e uma conclusão que também o é. Contudo, é óbvio que nem todos brasileiros são bêbados, logo, as premissas a) e c) são falsas.

Uma possível solução para os problemas da dedução e da indução passa pela articulação dos dois métodos. Chalmers (1997, p. 54) argumenta que “proposições de observação são sempre feitas na linguagem de alguma teoria e serão tão precisas quanto a estrutura teórica ou conceitual que utilizam”. Se as proposições de observação são feitas em linguagem teórica, então na ciência a teoria vem antes e depois da observação. Para ir ao mundo observar ou fazer o experimento é necessário antes formular as proposições de observação, que são feitas através de conceitos e noções; após observar, o cientista, baseado nos dados que colheu, chega à conclusão, ou seja, à lei generalizada que também deve ser descrita em termos teóricos. A relação entre dedução e indução no processo de formação da ciência moderna pode ser exemplificada a partir da Figura 2:

Figura 1: Articulação entre a dedução e a indução

dedução indução dedução

proposições de observação observação/experimentação conclusão

É evidente que hoje em dia a ciência não se baseia exclusivamente nos métodos dedutivo e indutivo; há outros métodos, como o hermenêutico, o dialético materialista ou idealista, o fenomenológico etc., os quais têm se destacado, sobretudo nas áreas das ciências humanas. Contudo, no que diz respeito às hard sicences, o método indutivo ainda apresenta grande prestígio, uma vez que dá à ciência um caráter de objetividade. A coleta de dados empíricos que comprovam, ou, melhor dizendo, sustentam uma hipótese/teoria fez com que a ciência assumisse na sociedade moderna o papel de produtora de verdades e certezas. A palavra “científico” ainda hoje carrega a ideia de confiabilidade.

Anúncios frenquentemente asseguram que um produto específico foi cientificamente comprovado como sendo mais branqueador, mais potente,

mais sexualmente atraente ou de alguma maneira preferível aos produtos concorrentes (CHALMERS, 1997, p. 17).

A ciência foi adotada pelos modernos como uma poderosa ferramenta de emancipação. Se durante a Idade Média o homem havia vivido praticamente a mercê dos fenômenos naturais como doenças, períodos de estiagem, enchentes; se havia sofrido severamente com a escassez de alimentos e com a dificuldade para locomover-se a grandes distâncias, a ciência surgiu então com a promessa de melhorar a vida humana. E de fato o fez. Com o desenvolvimento tecnológico, impulsionado pelas descobertas científicas, o homem pôde, por exemplo: produzir vacinas e remédios em larga escala, contendo assim o surgimento e o avanço de epidemias; criar novas técnicas de produção e conservação de alimentos; produzir máquinas que auxiliassem na produção agrícola; criar novos meios de transporte ou aperfeiçoar os já existentes diminuindo o tempo gasto em longas viagens. Tal como propôs Bacon, o homem utilizou a ciência para controlar a natureza; subjugando-a, aos poucos foi dominando a linguagem natural e a traduziu através de leis universais.

O processo dedutivo e o processo indutivo são fundamentais no desenvolvimento e no discurso de emancipação da modernidade; eles apresentam- se não só como o grande pilar de sustentação da ciência moderna, mas também como o fundamento da emancipação e do progresso social. Através da indução e da dedução, os modernos acreditavam ser possível traduzir a linguagem da natureza e do mundo social através da universalização de leis; dominando tal linguagem, seria possível então prever possibilidades, preparar-se para acontecimentos, enfim, o futuro não seria mais um completo desconhecido. “Prever para prover” reza a máxima do positivismo, quando na verdade esse é um pensamento que nasce junto à própria modernidade.

1.3.2 Da emancipação ao desencantamento do mundo: o pessimismo de Max